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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Terceiro capítulo

Foureaux, 19.07.22

Um projeto que parece começar a dar seus primeiros passos. Já há dois capítulos. Propus uma participação de quem os lessem. Somente duas pessoas se animaram a participar. desisti da ideia. Hoje, do nada, comecei a escrever o que, até agora, é o terceiro capítulo. Vamos ver até quando se vai...

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Não foi difícil. Na verdade, nunca era difícil. Era de conhecimento de todos ali, mesmo que não se falasse abertamente sobre o assunto. Não foi mesmo difícil. Bastou elaborar uma pequena carta convite. Duas conferências em cinco dias. O logo tipo da universidade era facilmente encontrado na web. A assinatura não precisaria ser reconhecida. Ninguém haveria de duvidar da procedência dela. Ademais, ninguém conhecida a que convidava. Uma professora destacada em seu meio: Arqueologia e História da arte. Contrato com uma universidade de renome e atuação em duas outras, como colaboradora. Autora de trabalhos premiados pela própria presidência da república. Uma mulher brilhante, ainda que simples, de uma honestidade de carmelita e uns olhos azuis simplesmente fascinantes. N1ao foi difícil. Elaborada a carta, bastava apor a assinatura, montar o arquivo em word mesmo e imprimir. Entregar para a secretária com o pedido para inclusão da pauta da próxima assembleia. feito isso, era aguardar – participando, a contragosto, mas participando – da assembleia, para ratificar a autorização de afastamento. Tudo seria resolvido em questão de dias. Não tinha como não dar certo. E deu. Seriam seis dias em terras estrangeiras para deleite dos olhos, do estômago e da memória afetiva. A conquista de novos amigos desde o primeiro olhar, o primeiro contato. Coisa mágica que não se explica. Não cabe explicação. Ou se dá ou não se dá. Por isso a carta. a viagem foi um sucesso. O jantar de aniversário da professora, divertido. Nada causou problema, para ninguém. Muito mais tarde, quando da organização do acerco de Otacílio, é que uma sombra de dúvida apareceu. Coisa pouca. Incômodo pequeno, mas o gerente do hotel ficou intrigado. Tantos anos de convivência. O contato quase diário, sempre à mesma hora, com os hábitos e manias de um morador que não se sabia ilustre. Somente depois do acontecido é que este reconhecimento teve lugar. Entretanto, a dúvida apareceu, exatamente quando era preciso ter muita paciência. O gerente não teve. Saiu aos gritos e o comando das operações ficou desconfiado. Por que tanta nervosia? O que é que incomodava tanto o gerente para ter uma reação assim? Ao conferir os papeis entregues por ele numa caixa grane, de papelão azul, manchada pelo tempo. Tudo se esclareceu. A carta forjada estava lá, um tanto amassada, mas compunha um dossier que, mais trade, serviria de matéria para especulações de outra natureza. O psicanalista contratado, naquela altura ainda não envolvido com aquele homem, fez algumas observações instigantes. Confessou tratar do assunto com seu supervisor e disser que, por duas ou três vezes desconfiou do vizinho da mulher que trabalhava no hotel. A dúvida se desfez. Não havia ligação alguma entre estas três personagens. O drama não sustentava aquele triângulo. De fato, eles jamais se encontraram. Na verdade, dois deles nem sabiam da existência um do outro. Otacílio era um elo invisível, como ficou provado mais tarde. Sua relação com a mulher do hotel era mais que superficial. De mais a mais, ele não se sentia à vontade na presença de mulheres como aquela. Havia algo nela que o incomodava. O olhar, talvez o jeito de mexer a cabeça enquanto falava, ou os movimentos das mãos quando ficava nervosa. Era perceptível. Nada escapa dele. Assim, mantiveram uma relação distante, ainda que cortês – o ambiente em que se encontravam assim o exigia – mas nada além do protocolarmente educado. Da mesma forma, Otacílio não se dava com muitos de seus colegas de trabalho., Sempre tinha que dar explicações a terceiros das atividades estranhas, das atitudes condenáveis, de tudo o que eles faziam e que ra sabidamente errado. A carta forjada poderia até ter sido usada como prova de uma evidência que a todo custo os colegas queriam imputar a Otacílio, mas não houve jeito. Tudo isso foi resultado de meses de investigação e pesquisa. O bolsista contratado para a organização do acervo começou por listar todas as obras que estavam no escritório. Como não era bibliotecário, não conseguiu fazer a classificação dos volumes, mas organizou-os em ordem alfabéti ca. Os sobrenomes dos autores foi o critério. Era mais fácil assim. Como o acervo não ia ser consultado por ninguém, até que as pendengas do inventário fossem totalmente resolvidas, o trabalho do bolsista era mais que suficiente. anos depois, quando começou a escrever suas memórias, o bolsista se recordou dos dias que passou trancando naquele minúsculo apartamento na Brigadeiro Luiz Antônio. Não batia sol direito. O apartamento era escuro, com uma divisão péssima, apesar do minúsculos dos cômodos. Dois quartos, uma pequena sala, o banheiro e a cozinha. Como não era usado como moradia, a cozinha não tinha quase nada. Uma cafeteira, a torradeira e algumas xícaras e pequenos pratos, alguns talheres. Coisas suficientes para um café, um lanche rápido. Os livros ocupavam quase toda a sala e um dos quartos. No outro, uma cama de casal de tamanho padrão dividia espaço com uma pequena cômoda de maneira. Peça antiga, de antiquário. Soube-se que herdada da bisavó. Os livros, quase todos, eram de autores portugueses. Havia muitas obras críticas sobre estes autores e uma série de pastas de papelão escuro com páginas soltas e anotações, manuscritas e datilografadas. Este material compunha a versão original do romance que teria sido escrito e apresentado como requisito parcial para a livre docência do escritor. Era seu desejo tornar-se livre docente. Uma forma de escapar das idiossincrasias rasas e maliciosas de colegas mal-intencionados. Com o título, c[cátedra era sua e ninguém mais iria dar palpite em suas atividades. O bolsista não fazia ideia do que aconteceu depois. Como não era da área – estava trabalhando pelo dinheiro e não pela matéria – não se interessou pelo assunto. Fazia oque mandavam fazer e pronto. No fim do mês o valor da bolsa era depositado. Seis meses. Foi um trabalho não muito complicado. Cansativo, talvez, mas nada complicado. Quando do inquérito, anos mais tarde, por conta do corpo encontrado no hotel, o bolsista chegou a se irritar com muitas perguntas a ele feitas. Não entendia o que se passava e não fazia ideia do que tinha acontecido. Depois de organizar o acervo no apartamento da Brigadeiro, jamais voltou àquele lugar. Nunca mais teve contato com a secretária que o contratara na faculdade. Muitos anos tinham se passado. Socorro era o nome dela. Mulher ativa, séria e muito rigorosa. Não admitia conversa fiada em seu setor. Os alunos tinham medo dela. Otacílio era praticamente um amigo. Isso não tinha a menor importância para o bolsista. De fato, queria ir embora. Tinha marcado encontro com o namorado numa padaria em Santa Cecília. Estava atrasado. Ia enfrentar enxames de trabalhadores no metrô. Uma chatice. Tentou responder a todas as perguntas, ainda que de maneira nervosa. Ao fim de quase duas horas e meia, foi dispensado. Estava atrasado. Correu para o metrô. Uma tempestade se anunciava. O ar estava pesado, nuvens carregadas, grossas. Um vento frio começou a soprar. Estava atrasado.