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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Coisa

Foureaux, 07.06.22

O texto que segue não é de minha autoria, como se vê logo abaixo do título). Já o conhecia. Não me lembro se já o coloquei aqui. Pode ser que sim. Minha abissal preguiça me impediu de procurar nos alfarrábios deste blogue (creio que já há mais de dez anos o seu aparecimento). Deixa pra lá. O que importa é que o danado do texto é divertido, ainda que discutível. Vá lá. Minha chatice anda modorrenta. deve ser o frio...

 

Coisas do Português

(Francicarlos Diniz, jornalista e escritor, pós-graduado em Comunicação pela USP)

 

A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia.

Gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: Ô, seu “coisinha”, você já “coisou” aquela coisa que eu mandei você “coisar”? Em Olinda, o bloco carnavalesco “Segura a Coisa” tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: Segura a “coisa” com muito cuidado / Que eu chego já.”

Já em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem – menos o trem, que lá é chamado de “coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trens que lá vem a “coisa”!

E, no Rio de Janeiro? Olha que “coisa” mais linda, mais cheia de graça... A garota de Ipanema era coisa de fechar o trânsito! Mas se ela voltar, se ela voltar, que “coisa” linda, que “coisa” louca. Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a cachaça. Nunca vi coisa assim! Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira um monte de coisas...

Mas a “coisa” tem história mesmo é na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, a coisa estava na letra das duas vencedoras: “Disparada”, de Geraldo Vandré: Prepare seu coração pras “coisas” que eu vou contar...; e A Banda, de Chico Buarque: pra ver a banda passar, cantando “coisas” de amor... Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta. E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “coisa” linda, “coisa” que eu adoro! Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade afinal, são tantas “coisinhas” miúdas. E esse papo já tá qualquer “coisa”. Já qualquer “coisa” doida dentro mexe... Essa coisa doida é um trecho da música “Qualquer Coisa”, de Caetano, que também canta: alguma “coisa” está fora da ordem! e o famoso hino a São Paulo: “alguma coisa acontece no meu coração”!

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, afinal, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal e coisa, e coisa e tal. Um cara cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. Já um cara cheio das coisas, vive dando risada. Gente fina é outra coisa! Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma. A coisa pública não funciona no Brasil. Político, quando está na oposição, é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando elege seu candidato de confiança, o eleitor pensa: Agora a “coisa” vai... Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Se as pessoas foram feitas para serem amadas, e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, felicidade e outras “cositas” mais.

Mas, deixemos de “coisa”, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou “coisa” parecida... Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento:

“AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS “COISAS”.

Entendeu o espírito da coisa?