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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Rodolfo

Foureaux, 11.10.22

Outra personagem inventada. Antes da fraude eletrônica de que fui vítima, pensei nela. O nome tem seus motivos que vão ficar ocultos por questão de discrição. Como de outras vezes, não sei o que vai ser disso. Enquanto não decido, sigo inventando...

É assim uma espécie de torpor que toma a alma. Olhar para o horizonte é quase um sofrimento. Cada respiração parece dilacerar a pouca esperança que resta de se ter confiança na humanidade. Um roubo. Uma coisa a que qualquer um está sujeito e que pode acontecer a qualquer momento. Inusitado. A experiências não é boa. A sofisticação dos meliantes anda tão aprimorada que o contato com o banco passa a fazer parte da paranoia: quem garante que os próprios meliantes não conseguiram simular todos os ademanes discursivos de um funcionário do setor de fraudes de um banco grande para ludibriar, em segundo grau, com mais profundidade, e com maldade cirúrgica, o desavisado correntista. Desânimo. Desconfiança. Paranoia. Mistura de sentimentos que faz falhar o sistema imunológico do mais saudável dos seres. Uma coisa inexplicável. Com estes pensamentos, Rodolfo Rotto chegou à cidade. Imbuído de espírito criativo – sua ideia para um novo romance o deixava inquieto e animado nas semanas que antecederam à viagem – saiu à procura do hotel que Zuleica Sueli havia indicado. Só pensava em literatura, apesar do assalto. “A vida tão longe e a literatura tão perto.” De quem é mesmo essa frase? Ele chegava com a sensação reconfortante de cumprir uma promessa feita ao amigo Otacílio. Chegar àquela cidade sem expectativas, com um livro nas mãos e o chapéu de feltro – ainda era outono, mas fiapos de vento frio já começavam a se assanhar aqui e ali – caminhar absorto é dos exercícios mais saudáveis. Destino razoavelmente bom. Rodolfo, discípulo do Reis, mesmo sem o saber, uma espécie de flâneur que denegava a metafísica – ele sempre se sentia como aquela personagem de um poema longo que falava de alguém numa tabacaria –, entrou, tal como o sujeito na tabacaria imaginária. Tinha os olhos cansados, ardendo, da noite mal dormida no trem. Os ouvidos, no entanto, captavam tudo. Cidade alegre, colorida e vibrante, olhos bem abertos, ouvidos muito atentos. Entrou na cidade como se procurasse qualquer coisa sabendo que não a encontraria ali. O prazer está na busca, pensou. Isso, para ele, é entrar num lugar, como entrar em metáforas – somente um escritor é capaz disso, o leitor passa por elas e as analisa, as observa, não entra, de fato. Rodolfo chegou sem expectativas explicáveis.  Sem expectativas. No alto de uma colina, já na entrada da cidade, o Castelo, com a velha torre de menagem: os séculos cresceram ali, ganharam importância. Pode ser que os que ali habitaram, sobretudo os velhos, sabiam admirar a sua beleza. O castelo transformou-se na residência dos antepassados de Otacílio. Rodolfo descobriu isso durante uma pesquisa para localizar informações sobre um seu antepassado. Por ali pensadores conhecidos. A matriz faz lembrar, numa escala mais modesta, mas não menos nobre, a de Florença. Mais adiante, uma construção monumental, um palácio que se parece muito com a casa dos bicos, em Lisboa. Rodolfo, admirado, para, senta-se à sombra de uma árvore e abre um livro É a história de um poeta que se exila num país distante e retorna; torna-se mecenas e promove talentos literários do local. A história dele se parece com a de Rodolfo, mas isso não interessa a ele mesmo. Uma fase passada. Na atualidade, está mais preocupado em publicar seu novo romance e encontrar-se com pessoas que conviveram com Otacílio, matéria importante para sua ficção. Rodolfo sorri. Toca um ramo mais baixo da árvore e suspira. Sonha com a premiação de prestimoso certame literário. Rodolfo continua o seu caminho, como aliás todo mundo deve fazer depois de tentar tocar em ramo de árvore que se encontra muito longe de casa. Rodolfo visita o museu local, vislumbra pinturas de Tintoretto e Cosime Tura. A visita àquela cidade parecia prometer alegrias infindáveis a Rodolfo Rotto, o escritor. Quanto mais andava pelas ruas centrais da cidade, mais decidido estava no passo sem expectativas. Na tratoria que encontra seius ruelas abaixo da praça em que estava, Rodolfo se depara com um prato de flores de abóbora fritas e recheadas com muçarela. Uma garrafa de Carmenère na temperatura ideal. Rodolfo pensa na vida. Na verdadeira, grande e forte acepção da palavra. A vida que estava levando desde que conheceu Otacílio, ainda que à distância. Ainda na tratoria, a vida surgiu quando parecia andar tão longe. Um casal sentado na mesa ao lado parecia desconhecer a existência da humanidade. A tratoria é rústica e elegante, pintada de branco, com muitos vasos e um teto de madeira. Janelas altas e largas por onde entra a luz da vida e da literatura e tudo o que um leitor quiser. Bebericando o vinho, o jovem, elegantemente vestido, levanta-se para logo de seguida se ajoelhar perante a sua amada. Retira do bolso uma pequena caixa de veludo negro, abre-a e nela palpita um anel dourado e brilhante, cor do fogo. Ele chama-a pelo nome. Ela traz um vestido vermelho. Pede a moça em casamento. Rodolfo se enternece e, cínico, ensaia um sorriso disfarçado. Então, com o copo na mão, mas de boca ridiculamente semi-aberta, assistia a este episódio e lembrava-se de como a vida está tão perto da literatura que às vezes me esqueço do quão bonita pode ser a realidade. E a vida continuou. E a literatura também. Passou o resto da tarde a deambular pelas ruelas da cidade. Já não quis saber de museus, nem de História, nem de pintores e muito menos de poetas. A literatura estava a acontecer ali à frente, de braço dado com a vida, e tinha a forma de um anel brilhante. Pode ter sido efeito do vinho, ou do sol, ou do céu olímpico, que fazia lembrar “um granzoal azul de grão-de-bico”, ou do deambular, ou de outras águas como as do rio ali adiante. Pode ser que houvesse distância considerável entre vida e literatura. Quem sabe a resposta poderia vir a público e apresentá-la, se é que existe a possibilidade de dizer o que seja, de fato, o que significa. As viagens acabam sempre num regresso a outras paragens: mãos dadas, talvez. Quiçá outros lábios.

Uma carta

Foureaux, 05.10.22

Uma carta. Ainda não sei o que vou fazer com ela. Quem escreve é Otacílio Piffio, o escritor identificado por esse pseudônimo. Não sei se darei a ele um nome. Por enquanto mantenho o nome da personagem do romance que ele escreve igual ao pseudônimo que usou para escrevê-lo. Acredito que pode dar um certo ar de suspense. Não pretendo que o romance seja policial. Não quero mistério pelo mistério. Isso, a garotada das oficinas de escrita criativa é capaz de fazer. O “mercado” gosta e consome. Isso é vulgar. Está se tornando cada vez mais vulgar. Gosto de ler, mas não gosto de cultivar o gênero. Sou chato, sim e daí? Por isso não sei o que fazer com essa carta. Não sei se revelarei o nome verdadeiro do autor do romance. E tenho que pensar no que já escrevei, no corpo encontrado no quarto de hotel, na relação entre a camareira e o rapaz da limpeza. Tem o detetive. A Zuleica e agora esse destinatário da carta de Otacílio Piffio. Tanta coisa! A preguiça só faz aumentar. Por enquanto, fico com a carta como aqui está!

 

“Recebi sua carta ontem. Uma coisa e outra e, pronto, não respondi ontem mesmo. respondo hoje. Sei que você, às vezes, prefere as mensagens de texto, ou mesmo, as de áudio. Confesso que é muito mais prático. Não há dúvida. Mas e o charme de escrever pensando no destinatário. Marcar o papel lembrando de passagens comuns. Imaginar a reação de quem vai receber e ler a carta. Tenho a ilusão de que sempre vai ser uma surpresa. Conheço você muito bem. Faz quase quarenta anos que nos conhecemos e ainda tenho a mesma ilusão. Sei que você sente o mesmo, ou algo muito parecido. Por aqui tudo tranquilo. Aas chatices do concurso continuam. Recebi notícia de que o romance foi classificado para a terceira etapa. O problema é o júri final., aquele que lê apenas Sempre me entusiasmei com a vida dos santos. Quando fui beneditino cheguei a ler algumas obras a respeito. Dentre eles, há um que sempre me chamou a atenção, por conta de sua relação visceral com a ordem beneditina, que sempre me fascinou. O nome dele é Bernardo de Claraval. Em francês, seu nome fica bem mais chique: Bernard de Clairvaux. Mas não se trata de “chiquezas” aqui… Bernardo foi um abade francês canonizado em 1174 e em 1830 Pio VIII o proclamaou Doutor da Igreja. Foi o principal responsável por reformar a Ordem de Cister – daí minha fascinação com ele e com a ordem dos beneditinos. Este santo participou do Concílio de Troyes, que delineou a regra monástica que guiaria os cavaleiros templários e que rapidamente tornou-se o ideal de nobreza utilizado no mundo cristão. Foi eficiente na reconciliação da Igreja durante o chamado “cisma papal de 1130”. Foi Bernardo quem ajudou a organizar o Segundo Concílio de Latrão – em 1141, Inocêncio convocou o Concílio de Sens para tratar da denúncia de Bernardo contra Pedro Abelardo. Com bastante experiência em curar cismas na Igreja, Bernardo foi em seguida recrutado para ajudar no combate às heresias que grassavam no sul da França. No Oriente Médio, depois da derrota cristã no cerco de Edessa, o papa encarregou Bernardo de pregar a Segunda Cruzada, cujo fracasso seria depois considerado parcialmente culpa sua. Morreu aos 63 anos, depois de passar quarenta anos enclausurado. Foi o primeiro cisterciense no calendário de santos, tendo sido canonizado por Alexandre III em 18 de janeiro de 1174. Ao que parece, São Bernardo foi um homem de muitas iniciativas e poucos sucessos. Parece ter sido um homem enérgico que acabou, vamos dizer assim, metendo os pés pelas mãos, ainda que tenha se tornado santo. mas isso é outra história. Por enquanto, basta guardar estas informações. Mudando de assunto, uma ave que me fascina é a coruja. Simbolicamente, esta ave representa a reflexão, o conhecimento racional e intuitivo. Na mitologia grega, Athena, a deusa da sabedoria, tinha a coruja como símbolo. A associação desta ave a Athena, faz com que a gente veja a deusa como um ícone de profecia e sabedoria. Além disso, os gregos acreditavam que por ser um pássaro noturno, era um símbolo de busca pelo conhecimento, já que esse era o horário considerado propício para o pensamento filosófico. Mas o que é que pode haver de comum entre estas duas considerações? Respondo logo: a releitura de um romance que sempre me impressionou: São Bernardo. De novo, quando fui beneditino, um colega e ordem me perguntou o que é que eu pensava de Graciliano Ramos. Respondi que era um escritor chato, seco e sem graça. O colega riu muito. Conversamos um tanto sobre Literatura Brasileira e ele arrematou a conversa dizendo que eu lesse CaetésAngústia e Memórias do cárcere. Exatamente nesta ordem. Fi-lo. Depois de fazê-lo, voltamos a conversar e minha opinião mudou radicalmente. Hoje, pela quarta ou quinta vez, releio São Bernardo. Um romance impressionante. Primeiro porque pensei em associar a figura da personagem principal, Paulo Honório, à do santo mesmo. Leio alegoricamente esta associação, sobretudo, no que o santo tem de enérgico, cheio de inciativa e desastrado ao final das contas. Segundo, porque há no romance o pio da coruja que aparece, se não me engano, três dezes. Duas delas chegam a assustar o protagonista do romance. Isso não pode ser gratuito.

Mudando de saco pra mala, não quero a mirada da mediocridade a obscurecer os momentos de lucidez que, porventura, venham a me inundar a alma. Não mais ter que aguentar as caras tortas de quem acredita que um poema vale menos, bem menos, que tudo que alguém pode dizer sobre ele. Mesmo quem jamais “leu” o poema como seria de esperar. A dispensa do poema não é garantia de melhor abordagem teórica ou crítica ou analítica. Os detalhes de um poema contam. A discussão começa por conta da dúvida sobre o “excessivo” uso de vírgulas ou de pronomes relativos na composição de seu poema. Foi “decretado”, antes de tudo começar, que a biografia do poeta é dispensável, por foça de sua influência sobre o entendimento da “mensagem” do poema. Comecei a rir. Daí, um salto para a circunscrição do poeta e de seu poema na “série histórica” da literatura nacional à qual pertence, sem esquecer, é claro, o problema dos gêneros, subgêneros tipos textuais e quejandos que a poética – a de Dilthey ou a de Hegel, bem entendido –, exigem como conditio sine qua non. Eles não sabiam o significado da expressão, assim como desconheciam o bom uso da mesóclise. Patético.

O romance foi selecionado entre outros 3725. Destes, 2400 não passaram pela primeira triagem. Trezentos professores universitários de diversas partes do país leram 8 romances cada. Depois, o júri preliminar selecionou três. O júri final, composto por três membros por sua vez, leu apenas três romances selecionados pelo outro. Uma judiaria. Muita coisa boa deve ter passado batido. Parece um massacre. Imagina. Não sei se sinto orgulho disso. Não sei dizer. Fico imaginando a trabalheira e a quantidade de interesses e picuinhas que interferiram em todo o processo. De qualquer maneira, gostando ou não, pode-se dizer que é uma vitória.

Tédio. Isso é o que eu sinto agora. Tédio. Você não responde mais com a mesma frequência. Eu também ando atrasando as minhas cartas. Você prefere os meios mais modernos. Eu quero tudo o que eu não tenho. Quero ser lido. Quero ser valorizado. Quero ter meus livros vendidos sem ter que me preocupar se a editora está ou não depositando os direitos autorais. Tudo impossível. Esta cidade está impossível. Ainda assim eu escrevo, mesmo sem saber para quê, por quê, para quem. Escrevo e continuo sentindo o mesmo tédio. Vamos ver se você não demora tanto a responder desta vez!” 

Rascunho

Foureaux, 28.09.22

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que antes de mais nada ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pessoas perguntam coisas a respeito. Perguntas soltas, às vezes desarticuladas. Ele sabe que todos querem saber o que ele também quer, e não sabe. Ainda. Acredita que com o resultado do que faz seja possível encontrar uma resposta. Ou não. Será que importa mesmo encontrar a resposta? Ele se pergunta, sempre, mas continua. Então... ele caminha. Senta-se e começa os eu trabalho. Aproveita as tonalidades que a luz do sol ou sua ausência oferece, à sua vista, à sua sensibilidade. Se alguém perguntar como é que sabe que está na hora e fazer o que gosta de fazer, ele, sem dúvida, responderá que é incapaz de dizer. Só sabe que percebe que a hora é aquela. Pronto. Ele começa a fazer. O senhor José começa a fazer. Não sabe ainda como vai continuar o que começou, mas vai fazer. Sentado, olhando para o nada, lembra-se do sonho. As mesmas putas. A cidade escura, úmida, em ruínas. As mesmas putas. O ônibus cheio de gente que passa rente à parede das casas. As mesmas putas. As ruas largar que dão em avenidas largas que são conhecidas, mas levam para a rua das putas, as mesmas putas. O ar fétido, umidade excessiva, fumaça, casas em ruínas, sujeira. As mesmas putas. O senhor José não sabia como se livrar das putas. Um incômodo com o qual, dizia sempre, estava cansado de lidar. Não sabia mais o que fazer. Aproveitar os flashes que tinha dos sonhos que sempre se repetiam. Pode ser uma ideia interessante. Não via maneira de se livrar das putas. Foi quando teve a ideia de começar o que começou a fazer. Não falou nada com Zuleica Sueli, mas tinha certeza de que, a certa altura, teria que contar pra ela. Muito curiosa. Boa pessoa, mas muito curiosa. Gostava de se pintar e o Senhor José não se incomodava. Tinha pena, na verdade. Sabia que Zuleica não era mais tão jovem e pensava que o exagero da pintura na cara só fazia tornar mais patética a situação de sua amiga. O senhor José era uma boa pessoa, um bom amigo e, de fato, não poderia ter a mais pálida ideia do que viria a acontecer depois que contasse para Zuleica o que iria fazer. Mas estava decidido. Pronto. Era hora de dormir!

Trecho

Foureaux, 26.09.22

No romance que tenho tentado escrever, a duras penas, Otacílio Piffio é o pseudônimo de um autor que escreve um romance intitulado O útimo d desejo de Otacílio Piffio. Ainda não sei que continuidade vou dar aos três trechos que já escrevi. Vasculhando os arquivos do computador, encontrei o texto que trago hoje e que resolvi inserir no romance. Vai ser parte de uma digressão que o protagonista do romance "escrito", no romance que eu escrevo (Otacílio Piffio), vai fazer diante de uma situação, digamos inusitada. Segue o trecho:

"Não quero a mirada da mediocridade a obscurecer os momentos de lucidez que, porventura, venham a me inundar a alma. Não mais ter que aguentar as caras tortas de quem acredita que um poema vale menos, bem menos, que tudo que alguém pode dizer sobre ele. Mesmo quem jamais “leu” o poema como seria de esperar. A dispensa do poema não é garantia de melhor abordagem teórica ou crítica ou analítica. Os detalhes de um poema contam. A discussão começa por conta da dúvida sobre o “excessivo” uso de vírgulas ou de pronomes relativos na composição de seu poema. Foi “decretado”, antes de tudo começar, que a biografia do poeta é dispensável, por foça de sua influência sobre o entendimento da “mensagem” do poema. Comecei a rir. Daí, um salto para a circunscrição do poeta e de seu poema na “série histórica” da literatura nacional à qual pertence, sem esquecer, é claro, o problema dos gêneros, subgêneros tipos textuais e quejandos que a poética – a de Dilthey ou a de Hegel, bem entendido –, exigem como conditio sine qua non. Eles não sabiam o significado da expressão, assim como desconheciam o bom uso da mesóclise. Patético."

Graciliano Ramos

Foureaux, 01.09.22

Faz tempo, em três palavras destruí quase uma década de literatura. Isso me disse um amigo, à altura. A “destruição” se referia a Graciliano Ramos e sue romance Vidas secas. Naquele momento, não tinha a menor ideia da bobagem que acabava de dizer. O amigo que me disse o que disse, indicou-me três outros livros do autor: Caetés, Angústia e Memórias do cárcere; a serem lidos nesta mesmíssima ordem, se não me falha a memória. Foi o que fiz. E não me arrependi nem um pouco. Agora, aposentado, retomo a leitura de livros que já li e reli, sobre os quais dei aulas e escrevi artigos. Um prazer inolvidável. Assim foi que retomei Infância, que acabei de reler. Que passeio. Numa direção contrária à de Memórias póstumas de Brás Cubas, o livro de Graciliano Ramos faz uma espécie de inventário da infância do autor. Assim dizem e consideram os comentaristas e críticos da obra. Fico como a Maria vai com as outras. A leitura agora é de puro deleite, sem as obrigações de me prender a protocolos e objetivos “concreto” a serem ministrados e depois avaliados pelo corpo discente que tanto, de mim, já ouviu. Uma amiga, comentando sobre leituras e leituras, dize que se trata de um livro cruel. Pode ser. Ainda não tinha pensado este exto de Graciliano sob esta perspectiva. A julgar pelo requinte dos detalhes da voz narrativa e pela agudeza de visão de mundo, sob a lente de uma criança que chega à adolescência (o último capítulo, se não me equivoco, sugere esta passagem, de maneira magistral, obviamente!), a assertiva faz sentido e, até prova em contrário, procede, se sustenta. Fato é que as pessoas e situações encetadas pelo relato. Curioso é perceber que este, dos livros que reli de Graciliano até agora, é o único em que a “urgência” de escrever não aparece. Por outro lado, aparece a leitura de nomes consagrados da Literatura universal, numa espécie de apanágio para o processo de amadurecimento da voz narrativa que se toma como aprendiz constante. Neste sentido, a descoberta de desejos outros, que não o de aprender, abrilhantam o já referido último capítulo de maneira contundente. A linguagem beira a ironia e o escárnio – coisa em nada rara na obra de Graciliano Ramos – fazendo com que a crueldade apontada por minha amiga ganhe consistência relevância, até. A edição que reli é a da Martins Editora. esta edição constitui-se de volumes encadernados em capa dura, com estudos introdutórios assinados por notáveis da crítica literária nacional. Gente que desapareceu do “mercado”, graças à tecnologização dos processos de leitura e, por outro lado, da ideologização das “metodologias” e das “pedagogias” que, em sua “didática” perversas, acabaram por tornar a atividades destes que assinam tais estudos uma coisa “ultrapassada”, atada, para usar o jargão dessa parcela da população. Uma pena. Perdem aqueles que não sabem reconhecer o devido valor das coisas e o lugar que elas ocupam numa linha evolutiva da própria existência humana. OS capítulos de Infância me fazem lembrar de Vidas secas. Neste, cada “retrato” vai se juntando a outro, por uma espécie de fio condutor invisível, tênue, quase etéreo. As personagens vão se sucedendo em situações que acabam por construir um “enredo” que não se quer absoluto e determinante no fluxo de considerações do narrador e de suas personagens. Aqui, em Infância, estas personagens se perdem nas memórias de uma criança que vai avançando no tempo e na experiência de viver. Esta perda, em ada e por nada é pejorativa. Ao contrário, ela faz com que a voz narrativa se percebe um ser em construções e sabe reconhecer valores e lições em sua devida dimensão. Neste sentido, o capítulo em que tece seus comentários (anotados de memória, quero crer) sobre sua experiência com a justiça – eu diria que com a autoridade também – num episódio envolvendo seu pai é de um lirismo (cruel, nas palavras da amiga) cortante. Para usar termo corrente nas rodinhas da moda de hoje: cirúrgico. Ai que preguiça. O vigor de sua indiferença sobre a experiência com o religioso – o episódio que narra a descoberta da vocação religiosa e suas consequências chega a ser hilário – é de uma ironia quase incômoda, não fosse a pena do autor a torná-la legível. Outras passagens da infância num aterra ingrata soam no mesmo diapasão. As descrições – de pessoas, situações, coisas, acontecimentos, espaços e ideias – não foge ao figurino do autor. Um misto de descrença e sarcasmo com a constatação, implícita da inutilidade de tentar fazer o outro compreender o que para quem escreve parecer tão claro. O dilema que, a meu ver, ronda a escrita de Graciliano Ramos não deixa demarcar sua presença aqui. Pode ser que o texto recebe o epíteto de bildungsroman: romance de formação, expressão que identifica o tipo de romance em que o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, intelectual, social ou político de uma personagem é relatado (às vezes ficcionalizadamente) de forma pormenorizada. Geralmente, o “enredo” (as aspas se devem à fluidez do conceito no que diz respeito a Infância) se estende desde a infância da personagem até sua vida adulta. No caso específico deste romance de Graciliano Ramos, vai apenas até o início da adolescência, salvo engano de minha parte. De um jeito ou de outro, é livro de leitura imprescindível para quem diz gostar de Literatura. Fica o convite.

Livros

Foureaux, 18.08.22

Que livro duro.

Que livro triste.

Que livro soberbo!

Faz mais ou menos 45 anos, na Rua Ricardo Tim, em Campinas, conversava com o Rogério, cearense do Crato, noviço do segundo ano. Depois do almoço, era praxe um papinho na “sala de jogos”, ouvindo música – com ele, apenas a erudita. No dia desta conversa, o concerto número 4 para piano e orquestra de Beethoven.  Foi a primeira vez. Deslumbramento. Foi o primeiro ame falar de Literatura, de um modo que me fascinou. Perguntou o que eu achava de Graciliano Ramos. EU disse que era um escritor seco, chato e sem graça. Tinha lido dele apenas Vidas secas, no ginásio, por obrigação, para fazer as famigeradas – hoje extintas – provas de leitura. Não gostei. Ele riu muito. Disse que com três palavras destruí décadas de literatura. Continuamos a conversa e no final ele aconselhou-me a ler Caetés, Memórias do Cárcere e Angústia. Não me lembro se, necessariamente, nessa ordem. Depois de ler os romances indicados – no noviciado, a biblioteca tinha bons e vários títulos em seu acervo – voltamos a conversar. Discutimos muito, falamos de outros autores até que ele viajou ara uma “missão”. Depois disso, ele foi para o Rio de Janeiro, fazer a Filosofia, quando foi expulso da Companhia de Jesus porque lia muito e ficava no quarto estudando, em lugar de jogar conversa fora com outros noviços. Hoje é doutor em Teologia e Filosofia, leciona Filosofia na FASBAM, em Curitiba. Devo a ele, e depois Jose Carlos Barcellos– oportunamente, supervisor de meu primeiro estágio pós-doutoral, que em paz descanse! – a minha iniciação nos estudos de Literatura. Pois então. Reli o tal Vidas Secas. As três primeiras expressões desta postagem, bem diferentes daquela que apresentei ao Rogério, revelam o que sinto hoje, depois da releitura. A densidade do romance é mais que inquestionável. A saga de Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e Baleia é alguma coisa de, simultaneamente, delicado e aterrador. Delicado, porque o autor vai às entranhas de seres que vivem por pirraça, dadas as inumanas condições de sobrevivência a que se vêm expostos. Curioso notar que, na série inicial dos romances de Graciliano Ramos, este é o primeiro a não tocar no tópico do escrever. Este é um ponto que poderia sugerir caminhos para construção de um problema de análise a ser equacionado numa dissertação ou possivelmente resolvido – no mínimo, analisado – numa tese. A dureza da existência de Fabiano não deixa espaço para esse tipo de elucubração. No entanto, seu final, ao sonhar com Sinhá Vitória com as consequências positivas de uma sonhada chuva que, aparentemente, se anuncia, é de um lirismo que beira a esquizofrenia. O contraste com a realidade é abissal. O impossível se manifesta como tábua de salvação para um homem que, a certa altura do romance, pensou em matar seu próprio filho, por conta do trabalho que dava carregá-lo durante a caminhada sertão afora, ou adentro... A travessia, aqui, não tem nada de, digamos, messiânica, como em Guimarães Rosa – pelo menos, penso nesta possibilidade de leitura, ainda que eu não seja um “especialista”. Afinal o que é mesmo um especialista? Ou seria, “especialiste” para subscrever a boçalidade ignorante que grassa a seara pública de quem se diz “antenado” ... Voltando ao que interessa... As idas e vindas morais e éticas de Fabiano deparam-se com obstáculos quase intransponíveis, como quando de seu entrevero com o soldado amarelo. Num “segundo round”, a luta parece concluir-se, para não dizer que a vingança incruenta encontra sua realização. O que interessa, no fundo, é perceber como a dureza da caatinga e da seca não destroem o senso de humanidade e a percepção do que é certo e do que é errado, no universo crestado em que sobrevive o protagonista do romance. Ou deveria dizer um dos protagonistas? A dúvida procede, dado que cada capítulo é dedicado a cada um dos personagens – até a cadela Baleia e o horizonte coberto de aves (agourentas?) – como no capítulo “O mundo coberto de penas” – entram nesta galeria. Assim sendo, cada uma das personagens poderia ser considerada protagonista. O desejo de uma cama de couro, que sustenta a esperança de Sinhá Vitória ou a peleja do menino mais velho com a cabra podem ser lidos como índice do que mencionei acima como esquizofrenia. Nada, no comportamento das personagens pode ser interpretado literalmente, ainda que seja inegável a grandeza e contundência da narrativa. As “condições” de sobrevivência não permitem. Indo por esse caminho, a construção de Fabiano, em certa medida, repete – e esta repetição aqui reveste-se de caráter psicanalítico, portanto, em nada, pejorativa – os passos de outras personagens “centrais”, como nos romances publicado antes de Vidas secas. No projeto de releitura que tenho posto em marcha – o ócio criativo permite esses deleites, hoje absolutamente desconhecidos do pétit monde acadêmico –, só posso fazer esta retrospecção. Pretendo chegar ao fim de todos os romances, tentando observar se esta linha de raciocínio se sustenta. A vontade, no fundo, é a de escrever um ensaio, longo e alentado, procurando delinear linhas de força na/da narrativa de Graciliano. No entanto, preguiça prima dileta do ócio me faz lembrar da quase inutilidade de fazê-lo: que editora se disporia a publicar tal ensaio? Depois de publicado, quem, de fato lê-lo-ia (Adoro mesóclise!)? Há outras dúvidas. As respostas, subliminarmente, eu já sei. Mas fico por aqui, pensando nas perguntas. Vida secas, de fato, é uma peça cuja dramaticidade sobeja requinte e sinceridade. Por isso, duro, o livro, e triste. Na mesma medida vai seu caráter irrecorrivelmente estupendo. não repito o que já se sabe da concisão e personalidade da linguagem de Graciliano Ramos. Deixo de lado as elucubrações consideradas “sociológicas” – daquelas que ficam borboleteando entre questões “políticas” e de “gênero”, veleidades de quem “goza” coma redução de universos ficcionais a estreitos perímetros de equivocada leitura –, por pura preguiça de ter que apontar, nelas, descaminhos, falácias e muita, mas muita falta de leitura. Assim, termino. Calo-me e recolho-me à minha insignificância.

Personagem nova

Foureaux, 15.08.22

Pensei num nome exótico. Escrevi as linhas que seguem. Ainda não sei o que vou fazer com esta personagem. Não tenho certeza se ela vai fazer parte da trama, se vai ter continuidade, se, de alguma forma, vai ter alguma relevância. Só gostei do nome que inventei. Bem esquisito e sonoro. Era exatamente o que eu queria. Mas o que será que vai se passar começa? Que papel vai desempenhar? Aceito sugestões...

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Zuleica Sueli chegou logo à delegacia. Trazia uma caixa colorida com as iniciais OP. Dentro da caixa havia 36 cartões postais. Dois cachos de cabelo, umas flores secas. Fitas desbotadas e uma caneca antiga, daquelas que precisavam de tinteiro. Sua irmã, a camareira do hotel, não sabia daquela caixa. Ficou intrigada quando Zuleica comentou sobre ela. O delegado fez algumas perguntas. Estava calmo e atento às respostas. Zuleica Sueli parecia um pouco incomodada. Não estava à vontade no meio de três homens. A irmão advertira. Cada um dos investigadores fazia seu trabalho. O delegado assim o providenciou. Insistiu que Zuleica Sueli ficasse tranquila. Fez mais algumas perguntas e dispensou a moça. Os rapazes continuavam seu trabalho e o delegado começou a mexer na caixa. As cartas estavam amarradas com um barbante grosseiro. Não desfez o pacote, ainda que sua curiosidade assim o quisesse. Chamou o escrivão e fez o relatório da entrevista com Zuleica Sueli. Guardou os papeis na pasta do inquérito e mandou guardar a caixa no depósito de evidências, no porão. O rapaz da limpeza observou tudo. Calado e tímido, como sempre foi, observava enquanto fazia seu trabalho. Lembrou-se do dia em que foi chamado pelo delegado para depor. Como trabalhava no hotel, apenas três dias na semana, conseguiu que o delegado o contratasse para a limpeza nos outros dias. Um dinheiro a mais não faria mal. O delegado o chamou e perguntou se ele conhecia Zuleica Sueli. Disse que a conhecia da casa da camareira, vizinha à sua. Ela vinha visitar a irmã de vez em quando. O delegado perguntou se ele sabia se Zuleica Sueli conhecia o morto. Não sabia. Não fazia ideia. Nunca a vira no hotel, nem em outro lugar. Apenas a vira na casa da camareira. Pediu licença para terminar seu serviço e saiu. O delegado fez um telefonema, pegou o casaco e saiu. A delegacia ficou calma e silenciosa. Zuleica Sueli, chegando em casa, telefonou para a irmã e contou o que se passou na delegacia. Disse que tinha olhado dentro da caixa e lido as cartas. A camareira não gostou e repreendeu a irmã. Que não devia ter feito aquilo. Que estava errado, mas ficou curiosa sobre o conteúdo das cartas. Conversaram durante muito tempo. Já era tarde quando Zuleica Sueli foi dormir. Os cabelos presos por uma touca de meia. O corpanzil branco esparramado na cama. O arfar de quem fuma muito. Na rua, o silêncio de sempre. Zuleica Sueli fez suas orações, cobriu-se só com o lençol, fazia muito calor. Custou a dormir. Uma sirene atravessou a noite como de hábito. Zuleica Sueli não acordou.

Terceiro capítulo

Foureaux, 19.07.22

Um projeto que parece começar a dar seus primeiros passos. Já há dois capítulos. Propus uma participação de quem os lessem. Somente duas pessoas se animaram a participar. desisti da ideia. Hoje, do nada, comecei a escrever o que, até agora, é o terceiro capítulo. Vamos ver até quando se vai...

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Não foi difícil. Na verdade, nunca era difícil. Era de conhecimento de todos ali, mesmo que não se falasse abertamente sobre o assunto. Não foi mesmo difícil. Bastou elaborar uma pequena carta convite. Duas conferências em cinco dias. O logo tipo da universidade era facilmente encontrado na web. A assinatura não precisaria ser reconhecida. Ninguém haveria de duvidar da procedência dela. Ademais, ninguém conhecida a que convidava. Uma professora destacada em seu meio: Arqueologia e História da arte. Contrato com uma universidade de renome e atuação em duas outras, como colaboradora. Autora de trabalhos premiados pela própria presidência da república. Uma mulher brilhante, ainda que simples, de uma honestidade de carmelita e uns olhos azuis simplesmente fascinantes. N1ao foi difícil. Elaborada a carta, bastava apor a assinatura, montar o arquivo em word mesmo e imprimir. Entregar para a secretária com o pedido para inclusão da pauta da próxima assembleia. feito isso, era aguardar – participando, a contragosto, mas participando – da assembleia, para ratificar a autorização de afastamento. Tudo seria resolvido em questão de dias. Não tinha como não dar certo. E deu. Seriam seis dias em terras estrangeiras para deleite dos olhos, do estômago e da memória afetiva. A conquista de novos amigos desde o primeiro olhar, o primeiro contato. Coisa mágica que não se explica. Não cabe explicação. Ou se dá ou não se dá. Por isso a carta. a viagem foi um sucesso. O jantar de aniversário da professora, divertido. Nada causou problema, para ninguém. Muito mais tarde, quando da organização do acerco de Otacílio, é que uma sombra de dúvida apareceu. Coisa pouca. Incômodo pequeno, mas o gerente do hotel ficou intrigado. Tantos anos de convivência. O contato quase diário, sempre à mesma hora, com os hábitos e manias de um morador que não se sabia ilustre. Somente depois do acontecido é que este reconhecimento teve lugar. Entretanto, a dúvida apareceu, exatamente quando era preciso ter muita paciência. O gerente não teve. Saiu aos gritos e o comando das operações ficou desconfiado. Por que tanta nervosia? O que é que incomodava tanto o gerente para ter uma reação assim? Ao conferir os papeis entregues por ele numa caixa grane, de papelão azul, manchada pelo tempo. Tudo se esclareceu. A carta forjada estava lá, um tanto amassada, mas compunha um dossier que, mais trade, serviria de matéria para especulações de outra natureza. O psicanalista contratado, naquela altura ainda não envolvido com aquele homem, fez algumas observações instigantes. Confessou tratar do assunto com seu supervisor e disser que, por duas ou três vezes desconfiou do vizinho da mulher que trabalhava no hotel. A dúvida se desfez. Não havia ligação alguma entre estas três personagens. O drama não sustentava aquele triângulo. De fato, eles jamais se encontraram. Na verdade, dois deles nem sabiam da existência um do outro. Otacílio era um elo invisível, como ficou provado mais tarde. Sua relação com a mulher do hotel era mais que superficial. De mais a mais, ele não se sentia à vontade na presença de mulheres como aquela. Havia algo nela que o incomodava. O olhar, talvez o jeito de mexer a cabeça enquanto falava, ou os movimentos das mãos quando ficava nervosa. Era perceptível. Nada escapa dele. Assim, mantiveram uma relação distante, ainda que cortês – o ambiente em que se encontravam assim o exigia – mas nada além do protocolarmente educado. Da mesma forma, Otacílio não se dava com muitos de seus colegas de trabalho., Sempre tinha que dar explicações a terceiros das atividades estranhas, das atitudes condenáveis, de tudo o que eles faziam e que ra sabidamente errado. A carta forjada poderia até ter sido usada como prova de uma evidência que a todo custo os colegas queriam imputar a Otacílio, mas não houve jeito. Tudo isso foi resultado de meses de investigação e pesquisa. O bolsista contratado para a organização do acervo começou por listar todas as obras que estavam no escritório. Como não era bibliotecário, não conseguiu fazer a classificação dos volumes, mas organizou-os em ordem alfabéti ca. Os sobrenomes dos autores foi o critério. Era mais fácil assim. Como o acervo não ia ser consultado por ninguém, até que as pendengas do inventário fossem totalmente resolvidas, o trabalho do bolsista era mais que suficiente. anos depois, quando começou a escrever suas memórias, o bolsista se recordou dos dias que passou trancando naquele minúsculo apartamento na Brigadeiro Luiz Antônio. Não batia sol direito. O apartamento era escuro, com uma divisão péssima, apesar do minúsculos dos cômodos. Dois quartos, uma pequena sala, o banheiro e a cozinha. Como não era usado como moradia, a cozinha não tinha quase nada. Uma cafeteira, a torradeira e algumas xícaras e pequenos pratos, alguns talheres. Coisas suficientes para um café, um lanche rápido. Os livros ocupavam quase toda a sala e um dos quartos. No outro, uma cama de casal de tamanho padrão dividia espaço com uma pequena cômoda de maneira. Peça antiga, de antiquário. Soube-se que herdada da bisavó. Os livros, quase todos, eram de autores portugueses. Havia muitas obras críticas sobre estes autores e uma série de pastas de papelão escuro com páginas soltas e anotações, manuscritas e datilografadas. Este material compunha a versão original do romance que teria sido escrito e apresentado como requisito parcial para a livre docência do escritor. Era seu desejo tornar-se livre docente. Uma forma de escapar das idiossincrasias rasas e maliciosas de colegas mal-intencionados. Com o título, c[cátedra era sua e ninguém mais iria dar palpite em suas atividades. O bolsista não fazia ideia do que aconteceu depois. Como não era da área – estava trabalhando pelo dinheiro e não pela matéria – não se interessou pelo assunto. Fazia oque mandavam fazer e pronto. No fim do mês o valor da bolsa era depositado. Seis meses. Foi um trabalho não muito complicado. Cansativo, talvez, mas nada complicado. Quando do inquérito, anos mais tarde, por conta do corpo encontrado no hotel, o bolsista chegou a se irritar com muitas perguntas a ele feitas. Não entendia o que se passava e não fazia ideia do que tinha acontecido. Depois de organizar o acervo no apartamento da Brigadeiro, jamais voltou àquele lugar. Nunca mais teve contato com a secretária que o contratara na faculdade. Muitos anos tinham se passado. Socorro era o nome dela. Mulher ativa, séria e muito rigorosa. Não admitia conversa fiada em seu setor. Os alunos tinham medo dela. Otacílio era praticamente um amigo. Isso não tinha a menor importância para o bolsista. De fato, queria ir embora. Tinha marcado encontro com o namorado numa padaria em Santa Cecília. Estava atrasado. Ia enfrentar enxames de trabalhadores no metrô. Uma chatice. Tentou responder a todas as perguntas, ainda que de maneira nervosa. Ao fim de quase duas horas e meia, foi dispensado. Estava atrasado. Correu para o metrô. Uma tempestade se anunciava. O ar estava pesado, nuvens carregadas, grossas. Um vento frio começou a soprar. Estava atrasado.

Quase um mês...

Foureaux, 12.07.22

O intervalo desta vez foi mais longo. Não sei dizer se proposital ou apenas circunstancial. Arriscaria o palpite de que foi um pouco de cada. Uma mistura. Quem me conhece há está acostumado. Isto posto, segue mais uma série de mal traçadas linhas obre um autor que aprendi a gostar, que conheci pessoalmente e que me agrada muito.

Três são as fases da vida. Três, os momentos do dia. Três, os pedidos que Aladim fez ao gênio da lâmpada maravilhosa. No conto infantil, as maravilhas realizadas pelo “gênio’ encantam e divertem, mas não eixam de, nas entrelinhas, instigar raciocínios outros que podem ser interpretados como nem tão infantis assim. De um jeito ou e outro a ideia de se encontrar um gênio e poder fazer três pedidos continua alimentando a imaginação e as fantasias humanas. Assim é com Octávio, um funcionário público daqueles bem típicos. O nome apresentado leva o “c” porque é criação portuguesa. O autor quis, desse modo, reafirmar sua autonomia com a utilização de letras e outras guirlandas vocabulares que lhe garantem o fluxo e o refluxo de ideias. “Acordos”, “reformas” e quejandos não são capazes de conter o ímpeto criador de quem escreve, como é bem o caso aqui. Octávio C. é o nome “completo” da personagem de um livro encantador, não como o conto de Aladim, mas de uma maneira muto sua, já minha conhecida, assim como de muito mais gente mundo afora. Octávio C. é funcionário público, como disse. Trabalha na Conservatória. É como um cartório de notas e ofícios do lado de cá do grande lago. Octávio C. se relaciona bem com seus colegas de trabalho. Um deles trata das mortes, a outra dos divórcios, um outro dos nascimentos. Ali, na Conservatória, cada um tem seu papel bem desenhado e definido. Faz parte da boa conduta funcional, neste ambiente, cumprimento de suas funções, o reconhecimento das relações entre os diversos registros e, acima de tudo, o respeito à hierarquia funcional. O serviço público parece não mudar muito de um continente para o outro. Otávio C. está apaixonado por uma de suas colegas de trabalho, mas não consegue verbalizar seu sentimento nem tomar uma atitude que o leve a consumar o afeto que alimenta a sua paixão. Depois de se lembrar de uma história contada pelo avô, por conta de situações e circunstâncias que não convém desvelar aqui – o assim chamado spoiler estragaria o prazer de possíveis leitores do romance (porque se trata de um romance) – Octávio C. manuseia, ainda uma vez, uma lamparina dourada que seu avô – que só conversava com ele em inglês, quando conviveram na infância do próprio Octávio. A ilusão dos três pedidos se desfaz, mas em sonhos, o gênio da lâmpada aparece e interage com Octávio C. Obviamente, ele faz seus três pedidos: um mundo sem armas, um mundo sem dinheiro, um mundo sem medo. O gênio, como no conto, da irreversibilidade dos pedidos, no que tange a seus efeitos. Octávio bate o pé. O gênio tenta induzir Octávio C. a pedir alguma coisa que definisse o “estado da arte” de seu sentimento em relação à companheira de trabalho. Nada. Os três pedidos continuam sendo os mesmos e o gênio os concede. As consequências, apresentadas numa narrativa divertida e pitoresca, são as mais inusitadas. Para surpresa de todos, inclusive do próprio Octávio. De novo, abro mão de mais alguns spoilers... O que vale a pena é acompanhar a trilha que Octávio C. apresenta ao leitor, pelas mãos de um narrador que observa e, insidiosamente, se intromete colorindo sua narrativa com humor igualmente colorido e, ainda uma vez pitoresco, as diversas formas que a personagem central vai encontrando de discutir (consigo mesmo e com o gênio a lâmpada) sobre os já referidos efeitos e as inesperadas consequências de seus três pedidos. No fundo, de maneira sutil, mas contundente, o desejo – sob a égide de Freud e Lacan – pontifica o desenrolar desta narrativa que volta a um universo já visitado e soberbamente explorado pelo mesmo autor.  O romance se chama Os três desejos de Octávio C. Seu autor é o já por mim comentado Pedro Eiras, que é professor na Universidade do Porto. Esteve recentemente em São Paulo, participando da Bienal do Livro que, neste ano, homenageou a “terrinha”, lá do outro lado do grande lado: Portugal. Numa entrevista (https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8913.pdf), Pedro Eiras diz: “Olha, para te dizer a verdade, nunca pensei nessas duas palavras – utopia, distopia – ao escrever Os Três Desejos de Octávio..., enfim, os teus Desejos. Digamos que não precisei desses nomes, na altura; mas não quer dizer que não sejam uma boa descrição do que acontece nessas páginas. O vocabulário teórico pode vir mais tarde – quando me transformo em leitor, de mim mesmo, entenda-se. A teoria é ao retardador.”. O trecho pode parecer confuso. Continuará assim se você que me ler não tiver a curiosidade de ir até a fonte, citada entre parênteses) não sem antes, ou depois, ir até o livro mesmo e lê-lo, com prazer, como eu o fiz. Fica o convite.

Outro capítulo

Foureaux, 24.05.22

Otacílio Piffio é o nome do livro que tenho tentado escrever. Já tenho dois capítulos que considero “armados”, um outro que há de se colocar em algum do livro “a ser”. Tentei experimentar, com este livro, uma brincadeira que, parece, não deu certo. Publiquei os dois capítulos, um de cada vez. Propus a quem os lesse que tentassem escrever alguma coisa como uma espécie de interferência na história que os ditos capítulos suscitassem na imaginação de quem os lia. Apenas duas pessoas responderam ativamente à proposta. Disso poderia concluir que tenho apenas dois leitores. O que não corresponde à verdade. Sei disso, por conta de alguns comentários e das “sinalizações” que o “sistema” me envia quando alguém “arte” o que escrevi e publiquei no blogue. Sim, com “e” no final. Escrevo em Língua Portuguesa e me dou o direito de aportuguesar o termo originário da língua do tipo Sam de que gosto muito pouco. É isso. Ainda sem saber para que e por que escrevo - mesmo que especulações, inclusive minhas, mão faltem - escrevi mais esse projeto de capítulo, como acima mencionado. A ver onde é que isso vai dar...

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que, inicialmente, ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pessoas perguntam coisas a respeito. Perguntas soltas, às vezes desarticuladas. Ele sabe que todos querem saber o que ele também quer, e não sabe. Ainda. Acredita que com o resultado do que faz seja possível encontrar uma resposta. Ou não. Será que importa mesmo encontrar a resposta? Ele se pergunta, sempre, mas continua. Então... ele caminha. Senta-se e começa os eu trabalho. Aproveita as tonalidades que a luz do sol ou sua ausência oferece, à sua vista, à sua sensibilidade. Se alguém perguntar como é que sabe que está na hora e fazer o que gosta de fazer, ele, sem dúvida, responderá que é incapaz de dizer. Só sabe que percebe que a hora é aquela. Pronto. Ele começa a fazer. Na escrita que desenvolver, se lembra de muita coisa que aconteceu ali, onde morou e onde, por força das circunstâncias, veio a estabelecer o que costumam chamar por aí de império. Ele não acreditava nisso. Seu amigo mais chegado, Otacílio, costumava dizer que um império não é mais que um monte de papéis que vão envelhecendo e que, como acúmulo de pó, acabam por se transformar em castelos. Ruínas, na verdade, seria mais preciso., mas o homem não acreditava em seu amigo. O homem apenas sabia que houve um tempo em que se prendia em escolas destinadas ao ensino da Filosofia. Todos que não eram como ele, os tais “aristocratas” discutiam e aprendiam com seus mestres. Era engraçado pensar na existência de uma Academia, como a de Platão; ou o Liceu, como o de Aristóteles e os Jardins de Epicuro que podem ser consideradas antecipações históricas das futuras instituições de educação superior, as universidades. Isto era apenas História. Sim, História, com “h” maiúsculo... É que o homem era muito chato. Assim não fosse, não teria sobrevivido a tudo o que se passou. Até o momento em que o testamento foi descoberto, o tormento foi grande. Com a leitura do documento de Otacílio, ninguém mais teve coragem de duvidar do que quer que seja. Tudo estava muito claro. Isso era o mais importante para o homem. Em suas andanças pela Praça 13 de maio, sempre se lembrava dos dias ensolarados em Itaara, a beira do lago Sangu. Nome estranho. Como caeté. Mata frondosa. Para além de identificar uma tribo indígena em território brasileiro, mais precisamente entre a ilha de Itamaracá, em Pernambuco até as margens do rio São Francisco, caeté também identifica. uma das duas seções da mata amazônica, a mata verdadeira das planícies, só inundada nas grandes enchentes. Dizem que pode se escrever/falar caaetê – que, até prova em contrário, é a forma “original” da palavra. Otacílio acreditava que a origem está no tupi kaá eté. O homem não sabia o significado disso na língua indígena. Um fato notório é que foi essa tribo, a dos caetés, que devorou o famoso bispo Sardinha. No século XVI, Mem de Sá determinou que fossem todos escravizados. Triste fim... E o nome dele não era Policarpo. Mata densa, mata virgem. Tudo no mesmo nome. E o homem se deliciava com essas curiosidades de sua própria língua. Gostava de conversar sobre isso com Otacílio. Os outros não se importavam. Agora, sozinho, mais que sozinho, falava consigo mesmo. Para não enlouquecer, escrevia. Dialogava com seus escritos, como se Otacílio estivesse ali. O homem era velho. Inteligente e velho, o homem. Continuava acreditando em tudo que viu e ouviu.