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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

A propósito de cravos

Foureaux, 26.04.22

Li o poema que segue por indicação de um amigo muito querido. Conhecia a autora de nome. Fiquei impressionado. No tsunami de preguiça e falta de vontade em que me encontro, pensei em compartilhar os versos, magníficos desta portuguesa de uns tantos costados. Fica, também, como homenagem à data de hoje, importantíssima para o povo português. Salve 25 e abril!

 

Meditação do Duque de Gândia sobre a morte de Isabel de Portugal

 

Nunca mais 

A tua face será pura, limpa e viva 

Nem o teu andar como onda fugitiva 

Se poderá nos passos do tempo tecer. 

E nunca mais darei ao tempo a minha vida. 

 

Nunca mais servirei Senhor que possa morrer. 

A luz da tarde mostra-me os destroços 

Do teu ser. Em breve a podridão 

Beberá os teus olhos e os teus ossos 

Tomando a tua mão na sua mão. 

 

Nunca mais amarei quem não possa viver 

Sempre. 

Porque eu amei como se fossem eternos 

A glória, a luz e o brilho do teu ser, 

Amei-te em verdade e transparência 

E nem sequer me resta a tua ausência, 

És um rosto de nojo e negação 

E eu fecho os olhos para não te ver. 

Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.

 

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Primeira versão II

Foureaux, 30.03.22

Há poucos momentos olhei para o céu, de um dos lados da varanda de minha casa e vi nuvens, grandes, densas, volumosas. Levantei-me. Liguei o computador e deixei que as palavras viessem ao meu pensamento, escorrerem pelos dedos sobre o teclado, efeito da visão que me tocou. Não sei dizer como, nem porquê. Apenas, tocou. Daí escrevi isso:

 

De repente,

do lado esquerdo,

formas densas e brancas destacam-se

diante do fundo azul pálido em confronto

com o laranja avermelhado do lado direito,

como todos os dias,

o fim.

Formas oblíquas e volumosas

a desvelar saudades de mim

em perdidas quimeras aglomeradas

e soltas, 

envoltas em inconsútil véu

ao léu

mesmo com a pobreza das rimas.

Saudades.

 

O que fazer com esse tipo de palavra

que inutilmente se utilizam ara nada

um vazio sonoro que retumba, 

oco?

O que fazer com a ideia

volátil fumaça a esgarçar-se leve

como floco de neve

gris?

O que fazer?

 

Se, ao menos, pudesse, ou, antes, soubesse

dizer o que aqui dentro vai corroendo

silenciosa e temerariamente

o que não é possível dizer

porque dividendo

das experiências que já não há?

O invisível é, agora, a marca:

não mais corpos musculosos,

não mais curvas harmoniosas

não mais gíria atenta,

não mais chavões instigantes,

não mais estilo tribal,

não mais lugar destacado,

não mais... nada.

Invisível é o que o tempo produz.

 

Na multidão,

de olhar esgazeado por não entender

a própria invisibilidade, 

o poeta pensa, com saudade de si mesmo,

pensa

e depois escreve, não o que pensa,

mas o que restou da experiência não falada

não escrita, dividendo inesperado,

ainda que anunciado.

 

Se o desejo não arrefece,

seu espaço míngua, involuntariamente.

Míngua, como a lua sazonal,

repetitiva como a constatação do mesmo,

sensual,

que instiga a febre fria

em tremores paralisados pelo tônus desgastado

da pele que um dia, num frêmito,

atraiu não apenas olhares cheiro se esvai, ou melhor,

é trocado.

O gosto se apura, ainda que difícil.

O gesto paralisa o pensamento

e o olhar do poeta circunvaga alhures

por horizontes alheios à procura,

de quê,

nem mesmo ele sabe, mas procura.

Depois escreve.

Primeira versão

Foureaux, 24.03.22

Segue a primeira versão de um poema (comentários e palpites continuam a ser esperados).

 

Sem sentido

 

Uma tarde que passa

como as demais que também passam

repetindo a mesma ritmada canção muda,

a que embala quimeras e decepções

num paul inquieto de ilusões e temores

de gente que vive a trabalhar sem tino, rumores

daquilo que podia ter sido.

 

Não é, decerto,

o melhor dos sonhos a envolver o dia

de quem acorda sem saber o primeiro passo

já tendo dado os seguintes na inversão

que nada altera, nem ilustra, nem seduz.

Um passo, e só isso

a reverberar na música surda das letras que pululam

entre vírgulas e ideias estapafúrdias 

(ainda que não seja poético falar assim).

 

Ah, o barulho do mar que não encobre

o pio da coruja que

ao contrário da outra, a do sertão, não assusta

quase diviniza a maré que ressoa,

brisa sudeste a anunciar bom tempo

e a melancolia de rever os dias,

revisitar os mortos,

sonhar o impossível.

 

Não há mais panteras presas

e olhares temerosos

guardando a raiva felina que, recalcada,

rescende a vingança, sem ter havido crime.

A natureza não há mais.

Não há mais modo de escuta, olhar complacente

só o alarido das verdades individuais

gritos num labirinto com identificação de saída,

mas a cegueira não deixa ver...

nem o voo mais alto que poderia,

se alentado, sobreviver 

ao rasteiro caos

que se instaura e insiste e fere

interfere incólume sem se abater.

 

Rima impossível.

Quero a rima impossível

escrita num poema cego e surdo

com letras mortas,

a apagar qualquer sentido

dando ordem a tudo

e, ainda assim, não satisfaz o querer,

do poema.

Intervalo

Foureaux, 09.03.22

Um intervalo. Mais um. Faz uns tantos dias que não escrevo, nem mesmo para repercutir algum texto alheio. Nada. Antes de viajar, li um livro do Augusto Abelaira, escritor português (ainda vou comentar algo sobre ele aqui): A cidade das flores, seu primeiro romance (1959). Se não me engano é este mesmo o nome dele. A indicação é de um amigo querido, o Artur, marido da não menos querida Alexandra, pais de Esther. Todos vivendo numa soberba residência no Paço da Quinta de Justes, em Braga, onde fabricam espumantes e vinhos verdes. Um paraíso terreal. Pois é. O Artur me indicou e vou escrever sobre o livro, em homenagem ao amigo dileto. Não devo fazer isso? Houve um tempo em que eu ficaria na dúvida sobre a pertinência de tal motivação. Tempos passados. Não os posso esquecer, porque se passaram com a minha participação, ou me envolvendo eles, em suas artimanhas, todas elas comandadas por seu mentor e controlador, pai: Cronos, implacável. Pois é. Ninguém escapa. Assim se fazemos intervalos. Os dias passados no litoral repetiram a mesma sensação de que a mudança é acertada. Olhar para o mar, todos os dias, durante horas infindáveis, é mesmo uma prática que só renova energias, sensações, esperanças. Incansável. Não há nada mais “sedutor” num certo sentido. Claro está que há uma pontinha de melancolia. Em tudo ela se mete. Afinal, altos e baixos são os movimentos irrecorríveis da existência. Sua exacerbação, por consequência, é que leva tudo para as vielas escuras, úmidas e miasmáticas da patologia. Isso não! Nesta temporada de quase quinze dias pensei em escrever mais um poema. Já tinha escrito dois, quando o pensamento me assalto. Ocorreu a “inspiração” por conta de uma folha amarela que estava na praia. Vi-a quando fiz uma de minhas caminhadas matinais. Lá, por imitadas que são, ainda, minhas estadas, é a “atividade física”, sentença irrecorrível das autoridades médicas em nome da famigerada “saúde”... Bem. Os versos que me vieram, de estalo, eram mais ou menos assim: “Uma flor amarela / jaz sob o tempo de vasto azul / vista / ainda que cego o olhar / pelo reflexo da estrela diurna”. Mais ou menos porque acrescentei uma que outra palavra que, no momento da “inspiração” não me vieram à mente. De certeza que não! Logo em seguida, pensei em escrever uma história que começava pela leitura deste poema por um professor. Os alunos, atentos, escutavam a voz melódica do mestre, ao declamar os versos, sem dizer-lhes a autoria. Gostava de contar o milagre, mas não o santo! Depois da leitura, perguntaria aos alunos: onde está a flor? Um deles responderia que na praia. O professor, maliciosa, perguntaria como é que você sabe que é na praia. Ora, professor, responderia o aluno, o último verso, tem uma expressão – “estrela diurna” que, seguramente é o sol. (O advérbio é por minha conta, como responsável pela voz narrativa). Seguindo seu raciocínio, o estudante diria que este elemento, quando considerado o substantivo imediatamente anterior, “reflexo” sustenta a hipótese. Além do mais, o verbo jazer, no segundo verso, leva o leitor a pensar na superfície da praia, por onde anda o poeta observador, dado que a expressão seguinte “vasto azul” bem poderia ser o céu, na praia em dia ensolarado. Este detalhe final, ganha consistência ao se observar que a flor é observada de cima para baixo, pois o “reflexo” faz “cego” o poeta que observa. A turma estava muda. O professor também. Houve quem pensasse que o estudante era petulante, ou método, ou teria descoberto de antemão o poema a ser lido em aula e, ajudado pelas “ferramentas de pesquisa” hoje em dia disponíveis, teria se preparado com a análise de outrem. Tudo é possível. Sem ter como especular sobre esta possibilidade, o professor, estupefato e feliz, elogiaria a análise do estudante, confirmando-a. A história não acabaria aí, mas a minha caminhada terminou, os dias se passaram e somente agora é que escrevo alguma coisa sobre o poema iniciado... e inconcluso, por enquanto. Isso para, ora veja, justificar um intervalo!

 

Um poema

Foureaux, 09.02.22

Não gosto de poesia de ocasião. Aliás, não gosto de Literatura de ocasião. Mas é isso, não gosto. Quem quiser que o faça. Entretanto, fiz esse poema... de ocasião.

Alerta

 

Enquanto isso...

flores morrem, solitárias

num jardim abandonado:

o jardineiro não pode sair de casa

e contaminar o ar.

 

Enquanto isso...

a capelinha é invadia:

o ritual não ascende a alma, dizem

rebaixa o espírito.

 

Enquanto isso...

dar adeus poder engano:

quem vê pensa que é outra coisa

e adeus!

 

Enquanto isso...

O verso desaparece da linha

a página continua em branco

a procurar o par de olhos que ao vai acompanhar

até onde?

 

Enquanto isso... 

Viagem

Foureaux, 27.11.21

images.jpegPois é... Faz hoje 30 dias sem escrever aqui. Trinta dias que fiz um exame. Recolha de “material prostático” para biópsia. O urologista quis investigar mais profundamente a dita cuja, depois de uma alta no índice de PSA. Mesmo que eu desconfiasse, com quase toda segurança intuitiva, que não se passava de erro de digitação. O laboratório era o mesmo. O intervalo foi de duas semanas. Os resultados: 3,90, primeiro e 0,39, depois. Muita coincidência, pois não? Não teve jeito. O resultado sairia somente depois da minha viagem. É sobre ela que desejo falar.

Faz temo que não fazia uma viagem tão profundamente reveladora, instigante, emocionante e instrutiva. Todo isso a um só tempo, com assessoria luxuosíssima de dois amigos queridos: José Filipe Menéndez e Alexandra Pereira de Castro. Os nomes completos dos dois é bem mais extenso. A genealogia os leva a píncaros da nobreza lusitana Aqui vão apresentados pela versão mais “social” ou “resumida”. O afeto é o mesmo. A gratidão tem a mesma medida. A admiração é igualmente profunda. Uma viagem que me revelou lugares antes desconhecidos: Figueira da Foz, Montemor-o velho, Peniche, Braga, Tibães, Penela, Nazaré, Mafra, Cunímbriga, Aveiro. A casa da rua de Palhais, na Ericeira e o Paço da Quinta de Juste, em Braga foram meus endereços de referência no curso desse périplo histórico, cultural e gastronômico. Houve momentos de “transporte” cronológico: ambientes que me fizeram retornar ao século 19, ou antes, mesmo sem nunca lá ter estado, por suposto. A revelação da História por meio de detalhes, escombros, fotografias e pinturas. O enlevo espiritual de ambientes antigos conservados: palavras e telhados que guardam histórias e segredos. A beleza de altares forrados de ouro e estruturados em chinoiserie em madeira. Um luxo. Um delírio para os olhos e a alma. Os livros que li. Os vinhos que degustei. Os pratos que experimentei e as revisitações, os reencontros, as repetições. Tudo embrulhado para presente pelo afeto partilhado, a amizade confirmada a alegria que se faz de pequenos gestos e palavras mínimas. Na volta, depois de ver um filme emocionante (Adeus Christopher Robin, 2018, Simon Curtis) chorei. Um pouco pelo efeito do filme (embebido em três cálices de Vale dos Cavalos, um tinto do Douro, especial, de respeito) e mais por conta da saudade que senti de mamãe, escrevi umas linhas. Que pretendo se convertam num ou dois poemas. Só o tempo dirá!

 

Vejo o oceano

a meus pés, ainda que em suspenso

entre nuvens pequenas, picadas

pingos de mágica

a bordar o tempo franzido pelo vento

água muita

como a imaginação que voa

saudosa

da brisa do rio em sua foz

porta do infinito

mar

Se o mar, lá embaixo, falasse

o que diria de si

e do mundo que o rodeia,

calmo e atento,

pronto para o avanço?

Ah... o que diria do tempo

da saudade e do sonho

num vai e vem que domina 

a quase tudo que rodeia

porque, de fato, domina 

e assim

deve dizer nada

como a lágrima que escorre,

também silente,

da saudade

que no mar se completa e contempla.

images-2.jpeg

 

Tentativa e erro

Foureaux, 27.10.21

Há momentos em que eu penso que estou perdendo o juízo. Não sou tão presunçoso para considerar que o que eu escrevo é melhor do que outros escrevem. No entanto, há coisas que leio, coisas “premiadas” que... por favor... Nem deixando toda a presunção de lado, sou capaz de reconhecer alguma “qualidade” no que leio. Mas não dou tratos a esta bola. Deixo passar e continuo “cometendo” meus poemas. Como os que seguem abaixo. Há quem critique o fato de compartilhar poemas inéditos. A roubalheira é grande. Não me importo. Sigo tentando. Quem sabe um dia...

Um.jpeg

Credo

Juntei duas palavras bonitas,

daquelas de que gosto muito.

Juntei-as numa frase sonora.

E acreditei ter escrito um poema.

 

À direita, o rapaz de barba e óculos não gostou,

disse que não tinha substância.

A senhora vetusta e grisalha,

do alto de sua erudição,

concluiu que o poema era o resultado,

apenas o resultado de um moedor de palavras.

A mocinha, loura e espevitada,

riu, e não disse nada,

mas escreveu à colega comentando

que o poema era fraquinho.

O senhor de óculos de tartaruga

franziu o sobrolho,

sério, vaticinou: em futuro.

 

Confuso, recolhi-me,

e nunca minha insignificância foi tão aconchegante.

Fechei o caderno e fui dormir.

Quem sabe um dia,

escolho outras duas palavras e as junto

numa frase sonora,

acreditando que ainda posso escrever um poema.

Dois.png

Reverso

Por duas vezes, apenas duas vezes.

Este foi o número de ocorrências

fatídicas, ambas

e sorrateiras

como as duas mulheres de fala mansa.

 

Alcoviteiras de livros, juntaram-se

e num conluio perverso

acertaram as pontas de um novelo

e o cara de pug venceu:

uma delas deu sua benção,

a outra aquiesceu.

Depois, a outra não se conteve

e, fria, melíflua e sagaz

soltou no ar a dúvida:

com isso não se brinca.

O dedo de Midas que, ao revés,

tudo derrete e reduz a pó, sem dó.

Fiel à sua conduta, criou o desequilíbrio necessário

para outrem, se locupletando, afirmar-se.

 

Dois passos.

Dois dias.

A população, por inteiro a esperar pela conclusão.

Indiferença e tédio.

 

Mais tempo se passa e as duas, ainda alcoviteiras

de livros, agora, empoeirados.

O reencontro para mais um tirocínio.

Da incômoda resolução do passado,

a ideia de definição do futuro

alheio.

 

Incompetência, ignorância, despreparo,

imaturidade.

Os epítetos, tal petardos,

podiam derrubar muros altos.

Mas não, apenas muretas caíram

no vazio da denúncia irresponsável que levou ao sucesso alheio.

Com alheia era sua vontade.

Nada como sonhado,

um dia depois de outro e bum!

Tudo acabado.

as donas caladas. Os dois mequetrefes mudos.

O mundo girando entre letras garrafais do sucesso.

E nenhum poema escrito.

Três.jpeg

 

Abraço

Foureaux, 02.10.21

O texto do cardeal fala por si. Contundente. Belo.

Breve introdução à arte do abraço

O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio

Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho. O abraço tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade de entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e motivos, cedendo, nem que seja por instantes, na defesa do espaço individual. Há uma tipologia vastíssima de abraços, e cada uma delas ensina alguma coisa sobre aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e embalo, afeto ou paixão. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.

No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração. “Em teu abraço eu abraço o que existe,/ a areia, o tempo, a árvore da chuva./ E tudo vive para que eu viva” — garantem os versos de Neruda.

Calcula-se que um ser humano precise de 1500 abraços por ano para sobreviver. Dá uns quatro abraços por dia. Mas os números podem subir, pois encontram-se instruídos nessa humaníssima ciência chamada abraçoterapia a defender 12. Está também calculado – para quem ache graça à semântica dos números – que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de três segundos. Mas há abraços mais demorados. O dos chamados “amantes de Valdaro”, por exemplo, tem pelo menos 6000 anos. Trata-se de dois esqueletos que remontam ao Neolítico, descobertos, há não muito tempo, numa necrópole perto de Mântua. Crê-se que pertenceram a uma mulher e um homem, entre os 18 e os 20 anos. Representam algo de único no mundo, quer pela antiguidade, quer pela posição em que foram encontrados: os corpos vizinhos e cruzados, o braço dele em torno do pescoço dela, numa espécie de abandono que talvez tenha sido o de um amor. Não há sinais de violência e, por isso, exclui-se a hipótese de terem sido mortos. O mais provável é que tenham perecido a uma doença, de fome ou de frio. Há 6000 anos, porém, o seu abraço permanece inalterado.

Um dos momentos mais extraordinários da arte contemporânea portuguesa é a sequência fotográfica, de Helena Almeida, intitulada “O Abraço”. São sete imagens de grandes dimensões (180 x 100 cm) em que a fotógrafa e o marido se abraçam. Apenas isso. Estão ambos sentados num banco que só dá para uma pessoa e apertam-se, agarram-se, suplicam-se, buscando no outro amarra, como se navegassem numa jangada destinada a um naufrágio irremediável. Por vezes o abraço deles parece uma luta, por vezes um reencontro para sempre. Os corpos dão-se a ver numa fragilidade que dói, num equilíbrio mais do que precário, instáveis e tensos como não se julgaria. Mas são, em todo o tempo, o radical abrigo um do outro, a passagem mais do que a fronteira, o interminável espanto de reconhecer no corpo do outro o nosso, no nosso o do outro.

[José Tolentino Mendonça | A Revista Expresso | Edição 2256 | 22/01/16]