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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Chatice

Foureaux, 01.02.22

Não há medida certa. A intuição parece ser o melhor critério. O insondável mundo do desejo não se revela inteiro, de uma vez. Aos pedaços, deixando rastros aqui e ali, incomodando mais adiante, a gente vai se dando conta de que ele está ali, atento. Edaz, não se contenta. quanto mais se satisfaz, mais quer, mais busca, mais atormenta. Em que pese a rima que não anima, o desejo pode sempre vencer, pois é de seu feitio assim ser. E, no entanto, não se explica. Não se sente obrigado. Nessa toada, continuo a perguntar: Para quê? Escrever? Quem vai ler? Mas não há tranquilo proceder quando de escrever se trata. A cada dia, a dúvida se renova, mesmo com os amigos elogios. Esses não contam, mas são os que sustentam a persistência. Dois ou três dizem alguma coisa. De resto, a poeira assenta e patina o papel que enruga, amarelece, esfarinha. O tempo. Não acredito que alguém possa “ensinar” a escrever. Não no. sentido em que estou pensando. Que sentido é esse? Cabe a quem me ler tentar descobrir. Não é disso que se trata? Um jogo de gato e rato, fingindo novidade, em cada mútua, sem fim. Sá de Miranda não teve aulas numa oficina de escrita criativa. Antero de Quental não se aconselhou com algum erudito que vendia aulas de leitura. Eles começaram a escrever e pronto. Hoje estão aí, à disposição. E os especuladores que se auto intitulam teóricos, ou pior, críticos, insistem em afirmar em seus sofismas são a mais pura expressão de uma verdade absolutamente inalcançável. Quem escreveu sabe. E pensar que alguém pode se arvorar na hipótese de afirmar o que quis ou não dizer Aristóteles em suas notas de aula. Eram notas de aula mesmo? Alguém as assistiu para atestar o “fato”. E o outro que nunca escreveu, mas só falou? Será mesmo? Teria sido mesmo assim? Enfim... Há coisas que jamais serão elucidadas. Jamais. Não adianta me dizerem que a tradição isso, que a cultura aquilo, ninguém jamais vai ser capaz de afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que fulano quis dizer isso ou aquilo. Se a gente não conhece (bem) quem escreveu, conversou com o(a) autor(a), conviveu e discutiu, a possibilidade dessa afirmação inexiste. Sou chato, seu sei. Ainda assim...