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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Personagem nova

Foureaux, 15.08.22

Pensei num nome exótico. Escrevi as linhas que seguem. Ainda não sei o que vou fazer com esta personagem. Não tenho certeza se ela vai fazer parte da trama, se vai ter continuidade, se, de alguma forma, vai ter alguma relevância. Só gostei do nome que inventei. Bem esquisito e sonoro. Era exatamente o que eu queria. Mas o que será que vai se passar começa? Que papel vai desempenhar? Aceito sugestões...

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Zuleica Sueli chegou logo à delegacia. Trazia uma caixa colorida com as iniciais OP. Dentro da caixa havia 36 cartões postais. Dois cachos de cabelo, umas flores secas. Fitas desbotadas e uma caneca antiga, daquelas que precisavam de tinteiro. Sua irmã, a camareira do hotel, não sabia daquela caixa. Ficou intrigada quando Zuleica comentou sobre ela. O delegado fez algumas perguntas. Estava calmo e atento às respostas. Zuleica Sueli parecia um pouco incomodada. Não estava à vontade no meio de três homens. A irmão advertira. Cada um dos investigadores fazia seu trabalho. O delegado assim o providenciou. Insistiu que Zuleica Sueli ficasse tranquila. Fez mais algumas perguntas e dispensou a moça. Os rapazes continuavam seu trabalho e o delegado começou a mexer na caixa. As cartas estavam amarradas com um barbante grosseiro. Não desfez o pacote, ainda que sua curiosidade assim o quisesse. Chamou o escrivão e fez o relatório da entrevista com Zuleica Sueli. Guardou os papeis na pasta do inquérito e mandou guardar a caixa no depósito de evidências, no porão. O rapaz da limpeza observou tudo. Calado e tímido, como sempre foi, observava enquanto fazia seu trabalho. Lembrou-se do dia em que foi chamado pelo delegado para depor. Como trabalhava no hotel, apenas três dias na semana, conseguiu que o delegado o contratasse para a limpeza nos outros dias. Um dinheiro a mais não faria mal. O delegado o chamou e perguntou se ele conhecia Zuleica Sueli. Disse que a conhecia da casa da camareira, vizinha à sua. Ela vinha visitar a irmã de vez em quando. O delegado perguntou se ele sabia se Zuleica Sueli conhecia o morto. Não sabia. Não fazia ideia. Nunca a vira no hotel, nem em outro lugar. Apenas a vira na casa da camareira. Pediu licença para terminar seu serviço e saiu. O delegado fez um telefonema, pegou o casaco e saiu. A delegacia ficou calma e silenciosa. Zuleica Sueli, chegando em casa, telefonou para a irmã e contou o que se passou na delegacia. Disse que tinha olhado dentro da caixa e lido as cartas. A camareira não gostou e repreendeu a irmã. Que não devia ter feito aquilo. Que estava errado, mas ficou curiosa sobre o conteúdo das cartas. Conversaram durante muito tempo. Já era tarde quando Zuleica Sueli foi dormir. Os cabelos presos por uma touca de meia. O corpanzil branco esparramado na cama. O arfar de quem fuma muito. Na rua, o silêncio de sempre. Zuleica Sueli fez suas orações, cobriu-se só com o lençol, fazia muito calor. Custou a dormir. Uma sirene atravessou a noite como de hábito. Zuleica Sueli não acordou.

Terceiro capítulo

Foureaux, 19.07.22

Um projeto que parece começar a dar seus primeiros passos. Já há dois capítulos. Propus uma participação de quem os lessem. Somente duas pessoas se animaram a participar. desisti da ideia. Hoje, do nada, comecei a escrever o que, até agora, é o terceiro capítulo. Vamos ver até quando se vai...

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Não foi difícil. Na verdade, nunca era difícil. Era de conhecimento de todos ali, mesmo que não se falasse abertamente sobre o assunto. Não foi mesmo difícil. Bastou elaborar uma pequena carta convite. Duas conferências em cinco dias. O logo tipo da universidade era facilmente encontrado na web. A assinatura não precisaria ser reconhecida. Ninguém haveria de duvidar da procedência dela. Ademais, ninguém conhecida a que convidava. Uma professora destacada em seu meio: Arqueologia e História da arte. Contrato com uma universidade de renome e atuação em duas outras, como colaboradora. Autora de trabalhos premiados pela própria presidência da república. Uma mulher brilhante, ainda que simples, de uma honestidade de carmelita e uns olhos azuis simplesmente fascinantes. N1ao foi difícil. Elaborada a carta, bastava apor a assinatura, montar o arquivo em word mesmo e imprimir. Entregar para a secretária com o pedido para inclusão da pauta da próxima assembleia. feito isso, era aguardar – participando, a contragosto, mas participando – da assembleia, para ratificar a autorização de afastamento. Tudo seria resolvido em questão de dias. Não tinha como não dar certo. E deu. Seriam seis dias em terras estrangeiras para deleite dos olhos, do estômago e da memória afetiva. A conquista de novos amigos desde o primeiro olhar, o primeiro contato. Coisa mágica que não se explica. Não cabe explicação. Ou se dá ou não se dá. Por isso a carta. a viagem foi um sucesso. O jantar de aniversário da professora, divertido. Nada causou problema, para ninguém. Muito mais tarde, quando da organização do acerco de Otacílio, é que uma sombra de dúvida apareceu. Coisa pouca. Incômodo pequeno, mas o gerente do hotel ficou intrigado. Tantos anos de convivência. O contato quase diário, sempre à mesma hora, com os hábitos e manias de um morador que não se sabia ilustre. Somente depois do acontecido é que este reconhecimento teve lugar. Entretanto, a dúvida apareceu, exatamente quando era preciso ter muita paciência. O gerente não teve. Saiu aos gritos e o comando das operações ficou desconfiado. Por que tanta nervosia? O que é que incomodava tanto o gerente para ter uma reação assim? Ao conferir os papeis entregues por ele numa caixa grane, de papelão azul, manchada pelo tempo. Tudo se esclareceu. A carta forjada estava lá, um tanto amassada, mas compunha um dossier que, mais trade, serviria de matéria para especulações de outra natureza. O psicanalista contratado, naquela altura ainda não envolvido com aquele homem, fez algumas observações instigantes. Confessou tratar do assunto com seu supervisor e disser que, por duas ou três vezes desconfiou do vizinho da mulher que trabalhava no hotel. A dúvida se desfez. Não havia ligação alguma entre estas três personagens. O drama não sustentava aquele triângulo. De fato, eles jamais se encontraram. Na verdade, dois deles nem sabiam da existência um do outro. Otacílio era um elo invisível, como ficou provado mais tarde. Sua relação com a mulher do hotel era mais que superficial. De mais a mais, ele não se sentia à vontade na presença de mulheres como aquela. Havia algo nela que o incomodava. O olhar, talvez o jeito de mexer a cabeça enquanto falava, ou os movimentos das mãos quando ficava nervosa. Era perceptível. Nada escapa dele. Assim, mantiveram uma relação distante, ainda que cortês – o ambiente em que se encontravam assim o exigia – mas nada além do protocolarmente educado. Da mesma forma, Otacílio não se dava com muitos de seus colegas de trabalho., Sempre tinha que dar explicações a terceiros das atividades estranhas, das atitudes condenáveis, de tudo o que eles faziam e que ra sabidamente errado. A carta forjada poderia até ter sido usada como prova de uma evidência que a todo custo os colegas queriam imputar a Otacílio, mas não houve jeito. Tudo isso foi resultado de meses de investigação e pesquisa. O bolsista contratado para a organização do acervo começou por listar todas as obras que estavam no escritório. Como não era bibliotecário, não conseguiu fazer a classificação dos volumes, mas organizou-os em ordem alfabéti ca. Os sobrenomes dos autores foi o critério. Era mais fácil assim. Como o acervo não ia ser consultado por ninguém, até que as pendengas do inventário fossem totalmente resolvidas, o trabalho do bolsista era mais que suficiente. anos depois, quando começou a escrever suas memórias, o bolsista se recordou dos dias que passou trancando naquele minúsculo apartamento na Brigadeiro Luiz Antônio. Não batia sol direito. O apartamento era escuro, com uma divisão péssima, apesar do minúsculos dos cômodos. Dois quartos, uma pequena sala, o banheiro e a cozinha. Como não era usado como moradia, a cozinha não tinha quase nada. Uma cafeteira, a torradeira e algumas xícaras e pequenos pratos, alguns talheres. Coisas suficientes para um café, um lanche rápido. Os livros ocupavam quase toda a sala e um dos quartos. No outro, uma cama de casal de tamanho padrão dividia espaço com uma pequena cômoda de maneira. Peça antiga, de antiquário. Soube-se que herdada da bisavó. Os livros, quase todos, eram de autores portugueses. Havia muitas obras críticas sobre estes autores e uma série de pastas de papelão escuro com páginas soltas e anotações, manuscritas e datilografadas. Este material compunha a versão original do romance que teria sido escrito e apresentado como requisito parcial para a livre docência do escritor. Era seu desejo tornar-se livre docente. Uma forma de escapar das idiossincrasias rasas e maliciosas de colegas mal-intencionados. Com o título, c[cátedra era sua e ninguém mais iria dar palpite em suas atividades. O bolsista não fazia ideia do que aconteceu depois. Como não era da área – estava trabalhando pelo dinheiro e não pela matéria – não se interessou pelo assunto. Fazia oque mandavam fazer e pronto. No fim do mês o valor da bolsa era depositado. Seis meses. Foi um trabalho não muito complicado. Cansativo, talvez, mas nada complicado. Quando do inquérito, anos mais tarde, por conta do corpo encontrado no hotel, o bolsista chegou a se irritar com muitas perguntas a ele feitas. Não entendia o que se passava e não fazia ideia do que tinha acontecido. Depois de organizar o acervo no apartamento da Brigadeiro, jamais voltou àquele lugar. Nunca mais teve contato com a secretária que o contratara na faculdade. Muitos anos tinham se passado. Socorro era o nome dela. Mulher ativa, séria e muito rigorosa. Não admitia conversa fiada em seu setor. Os alunos tinham medo dela. Otacílio era praticamente um amigo. Isso não tinha a menor importância para o bolsista. De fato, queria ir embora. Tinha marcado encontro com o namorado numa padaria em Santa Cecília. Estava atrasado. Ia enfrentar enxames de trabalhadores no metrô. Uma chatice. Tentou responder a todas as perguntas, ainda que de maneira nervosa. Ao fim de quase duas horas e meia, foi dispensado. Estava atrasado. Correu para o metrô. Uma tempestade se anunciava. O ar estava pesado, nuvens carregadas, grossas. Um vento frio começou a soprar. Estava atrasado.

Outro capítulo

Foureaux, 24.05.22

Otacílio Piffio é o nome do livro que tenho tentado escrever. Já tenho dois capítulos que considero “armados”, um outro que há de se colocar em algum do livro “a ser”. Tentei experimentar, com este livro, uma brincadeira que, parece, não deu certo. Publiquei os dois capítulos, um de cada vez. Propus a quem os lesse que tentassem escrever alguma coisa como uma espécie de interferência na história que os ditos capítulos suscitassem na imaginação de quem os lia. Apenas duas pessoas responderam ativamente à proposta. Disso poderia concluir que tenho apenas dois leitores. O que não corresponde à verdade. Sei disso, por conta de alguns comentários e das “sinalizações” que o “sistema” me envia quando alguém “arte” o que escrevi e publiquei no blogue. Sim, com “e” no final. Escrevo em Língua Portuguesa e me dou o direito de aportuguesar o termo originário da língua do tipo Sam de que gosto muito pouco. É isso. Ainda sem saber para que e por que escrevo - mesmo que especulações, inclusive minhas, mão faltem - escrevi mais esse projeto de capítulo, como acima mencionado. A ver onde é que isso vai dar...

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que, inicialmente, ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pessoas perguntam coisas a respeito. Perguntas soltas, às vezes desarticuladas. Ele sabe que todos querem saber o que ele também quer, e não sabe. Ainda. Acredita que com o resultado do que faz seja possível encontrar uma resposta. Ou não. Será que importa mesmo encontrar a resposta? Ele se pergunta, sempre, mas continua. Então... ele caminha. Senta-se e começa os eu trabalho. Aproveita as tonalidades que a luz do sol ou sua ausência oferece, à sua vista, à sua sensibilidade. Se alguém perguntar como é que sabe que está na hora e fazer o que gosta de fazer, ele, sem dúvida, responderá que é incapaz de dizer. Só sabe que percebe que a hora é aquela. Pronto. Ele começa a fazer. Na escrita que desenvolver, se lembra de muita coisa que aconteceu ali, onde morou e onde, por força das circunstâncias, veio a estabelecer o que costumam chamar por aí de império. Ele não acreditava nisso. Seu amigo mais chegado, Otacílio, costumava dizer que um império não é mais que um monte de papéis que vão envelhecendo e que, como acúmulo de pó, acabam por se transformar em castelos. Ruínas, na verdade, seria mais preciso., mas o homem não acreditava em seu amigo. O homem apenas sabia que houve um tempo em que se prendia em escolas destinadas ao ensino da Filosofia. Todos que não eram como ele, os tais “aristocratas” discutiam e aprendiam com seus mestres. Era engraçado pensar na existência de uma Academia, como a de Platão; ou o Liceu, como o de Aristóteles e os Jardins de Epicuro que podem ser consideradas antecipações históricas das futuras instituições de educação superior, as universidades. Isto era apenas História. Sim, História, com “h” maiúsculo... É que o homem era muito chato. Assim não fosse, não teria sobrevivido a tudo o que se passou. Até o momento em que o testamento foi descoberto, o tormento foi grande. Com a leitura do documento de Otacílio, ninguém mais teve coragem de duvidar do que quer que seja. Tudo estava muito claro. Isso era o mais importante para o homem. Em suas andanças pela Praça 13 de maio, sempre se lembrava dos dias ensolarados em Itaara, a beira do lago Sangu. Nome estranho. Como caeté. Mata frondosa. Para além de identificar uma tribo indígena em território brasileiro, mais precisamente entre a ilha de Itamaracá, em Pernambuco até as margens do rio São Francisco, caeté também identifica. uma das duas seções da mata amazônica, a mata verdadeira das planícies, só inundada nas grandes enchentes. Dizem que pode se escrever/falar caaetê – que, até prova em contrário, é a forma “original” da palavra. Otacílio acreditava que a origem está no tupi kaá eté. O homem não sabia o significado disso na língua indígena. Um fato notório é que foi essa tribo, a dos caetés, que devorou o famoso bispo Sardinha. No século XVI, Mem de Sá determinou que fossem todos escravizados. Triste fim... E o nome dele não era Policarpo. Mata densa, mata virgem. Tudo no mesmo nome. E o homem se deliciava com essas curiosidades de sua própria língua. Gostava de conversar sobre isso com Otacílio. Os outros não se importavam. Agora, sozinho, mais que sozinho, falava consigo mesmo. Para não enlouquecer, escrevia. Dialogava com seus escritos, como se Otacílio estivesse ali. O homem era velho. Inteligente e velho, o homem. Continuava acreditando em tudo que viu e ouviu.

Acaso

Foureaux, 20.04.22

Acabei de ver um filme interessantíssimo. Seu nome? Berlim, eu te amo (2021, dirigido por Dianna Agron, Massy Tadjedin e Stephanie Martin). No Amazon Prime. A classificação é romance/drama. Não sei se cabe. Também não sei até que ponto essas classificações são, realmente, eficazes. Tenho sérias dúvidas. Tudo muito subjetivo. O que mais me assustou no filme foi ver Mickey Rourke. Levei uns quinze minutos para reconhecê-lo. Quase um monstro. Quem se lembra dele em Nove semanas e meia de amor ou em Coração satânico, não vai acreditar. Vai até se assustar. No entanto, isso é apenas um detalhe, absolutamente dispensável. Ele protagoniza um dos episódios do filme que trata do reencontro (às escuras?) de pai e filha, separados há anos por conta do afastamento dele. Sem saber que é sua filha, o homem leva a moca, sedutora e sexy, para o quarto de hotel em que se hospeda. A moça se oferece a ele, mas imediatamente se arrepende. Vai embora e deixa mensagem no espelho do banheiro: “I forgive you, dad”. Isso. O corriqueiro, o banal, o inesperado, o comum, o repetitivo, o entediante, o revelador, o triste, o trágico, o suspeito, o rancoroso. Todos são sentimentos, experiências, sensações percepções de real que alimentam a narrativa plurifacetada deste filme, muitíssimo interessante. Interessantíssimo. No fundo, como anuncia o título a protagonista é a cidade de Berlim que, ao fim e ao cabo, não “aparece” tanto assim. Alguns relances. Uns tantos recantos em nada e por nada turísticos. O que importa é o que acontece na cidade. de novo, nada de extraordinário. A narrativa do filme é composta por episódios que se cruzam circunstancialmente e apenas assim. As personagens de cada um dos episódios não se relacionam a não ser com seus pares contextualizados no mesmo episódio. A fórmula pode ser batida, mas o resultado é leve, sedutor, comovente. Helen Mirren comparece logo no primeiro episódio. Faz a mão de uma menina que vem de Londres para construir sua “própria” vida e trabalha com menores refugiados. Vejam o filme para ver o que acontece. Há a mocinha que encontra seu grande amor por acaso. A outra que vai tocar violão na praça em que está um anjo (estátua viva). A prostituta que protege um assassino árabe. O suicida que se apaixona pela pessoa mais improvável. O tocante episódio do adolescente, no dia de seu aniversário. Ele pede um beijo enquanto espera o pai que não aparece. O beijo é dado por travesti saído de uma noitada de fim de semana inteiro, depois de brigar com seu namorado. Tudo muito casual, blasé, mas intenso, vertical, incisivo. quase cirúrgico. Não conheço boa parte do elenco. No fundo, o que “acontece” não interessa. “Como” acontece é, me parece, a chave mestra para abrir esta caixa de Pandora do bem. Do bem porque se refere, sempre, à existência humana e suas nuances. A humanidade em suas multifaces coloridas ou nem tanto. As circunstâncias independentes de uma cidade que evoca tanta coisa e não consegue abarcar tudo o que nela se passa. Não é um conto de fadas. Também não é uma cínica declaração de amor a um grande centro metropolitano tão rico, tão controverso, tão complexo. No entanto, a sinceridade com que o roteiro aponta para o fluir dos acontecimentos conta com a competência dos diretores e do desempenho muito consistente dos atores. Todos eles.  Jamais ouvi falar dos diretores. Bem... não sou cinéfilo. Só sei que vi o título na ementa do Amazon prime. Pensei num filme similar de Woody Allen e de outro que vi há muitos anos com Gena Rowlands, já não me lembro o título do filme. Segui o impulso. Vi o filme. Gostei. Vale a pena!

Trechos de um diário

Foureaux, 09.04.22

"Conheci o João Tordo numa tarde de palestra, para unos estrangeiros. Rapaz magrinho, tímido. Gaguejava um pouco, creio que de nervoso. Risonho falava com fluidez, apesar da citada gagueira, que, de fato não o era. Uma tarde agradável com algumas alunas fascinadas por ele. Foi divertido. Já o José Luis Peixoto conheci num auditório, depois de uma conferência. Mais gente. Alunos estrangeiros também, mas havia mais gente. Ele leu trechos de um livro contundente: Morreste-me. Anos depois viria eu a comprar o volume e recordar a emoção funda e sentida naquela tarde estrangeira, como os alunos. O Gonçalo Tavares passou dois dias ali. Os alunos estrangeiros também afluíram com interesse, tanto ä palestra no primeiro dia, quanto à oficina que ministrou no dia seguinte. Rapaz mais retraído, mas sociável. Com olhar atento, de lince, captava nuances no ar, detalhes não lhe escapavam. Um jeitinho de judeu de comédia shakespeariana. Agora, tomando Jack Daniel Honey, lembro-me destas três visitas. Três escritores. Três obra de que sou leitor, na medida do possível, assíduo. E três pessoas que conheci sem ter partilhado momentos, digamos, mais intimamente sociais ou socialmente íntimos: um jantar, uma bebida num botequim, um café, um almoço. Nada. Só as três palestras e uma oficina. Três períodos de dias que ficaram perdidos na memória do tempo.

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Li, em algum lugar dessa imensa rede chamada internete – escrevo com “e” no final porque escrevo em Português. Reuso-me a utilizar o termo ianque. Preguiça. Ojeriza mesmo. – que uma certa professora universitária está oferecendo um curso sobre “Zooliteratura”. No local em que li a informação, há uma foto com alguns dos títulos utilizados pela professora em seu curso oferecido numa plataforma chamada “Corredeira”. Nome sugestivo. Tentei localizar a tal plataforma. Em vão. Dei uma olhada nos títulos que estão na foto publicada por outrem. Inexplicavelmente, não encontrei A revolução dos bichos. Não sei explicar também. Como não se trata do conjunto total da bibliografia – diz o comentário sobre a foto – pode ser que esteja, o livro do Orwell, listado na bibliografia. Talvez obrigatória, do tal curso. Talvez não. Como conheço um pouco a professora, quase arrisco um palpite. O “decoro acadêmico” não me permite externar, aqui, o que realmente penso e o que me veio à cabeça quando li a informação. Membro de uma academia de letras de certo renome – ainda que bastante regional – a professora deve se encontrar num patamar de tal altura intelectual que não vai se importar com estas minhas palavras, de reles professor titular – como ela (ai, um cacófato!) – aposentado – isso não posso dizer a seu respeito. De qualquer modo, veio-me à memória, como no caso dos escritores portugueses, uma cena, passada durante um “concurso público de provas e títulos” em que um dos candidatos não conseguindo terminar de tomar notas bibliográficas durante o prazo estabelecido pela banca, continuou a fazê-lo, com o apanágio da presidente da tal banca. Coincidência das coincidências, a tal presidente da banca tinha sido orientadora desse candidato – atenção não sou adepto desta excrescência estúpida e falaz que atende pelo nome de linguagem neutra, por inexistente, de fato! No mesmo prélio, em outro momento, mais patético, o mesmo candidato dava sua aula no concurso – a famigerada prova didática (parece que aboliram isso e inventaram uma tal de arguição de projeto de pesquisa... vai vendo!) – quando, de repente, começou a saltar na frente da banca, como se fosse um contador de histórias numa feira literária infantil. A mise en scene era para ilustrar a imagem da janela no romance A história do cerco de Lisboa, objeto do ponto da tal prova didática. Bom. Deixa isso pra lá. Isso não interessa a ninguém além de mim mesmo. Mas, convenhamos, o que é que vem essa porra dessa tal de “zooliteratura”? Cheira a cachorrada. Ai! Tenho que me desculpar com quem me ler. Se é que há alguém que me lê."

Outro capítulo

Foureaux, 26.03.22

Pensei no que já tinha escrito antes. Talvez a ideia de um novo romance esteja mesmo começando a se transformar num embrião. Escrevi o que segue abaixo. Do que escrevi primeiro, recebi dois comentários com, digamos, provocações. Tive a ilusão de que receberia mais. Não importa. Segue agora um segundo passo. Quem sabe...

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Em seu depoimento, o funcionário respondeu calmamente a todas as perguntas. Ele não entendia muito bem por que estava ali, porque tinha de responder. O delegado dizia poucas palavras, além das perguntas. A certa altura, uma moça entrou e entregou um envelope amarelo ao delegado. Olhou para o funcionário e franziu o cenho. O funcionário não notou. Continuou cabisbaixo, pensando no tempo que estava perdendo em seu dia de folga. Era para estar no Jardim Zoológico, com seu vizinho, o jardineiro do hotel. Era o que estava combinado desde a semana anterior. Já passava das onze e o interrogatório não acabava. O funcionário estava com fome. Depois de abrir o envelope, o delegado virou-se para o funcionário com ar de espanto. “Você conhece Marizabel Veiga?”. Sim, foi a resposta. “Desde quando?”. O funcionário disse que não se lembrava quando a tinha conhecido. Lembrava-se dela por conta de um passeio ao Horto Florestal, com o jardineiro do hotel, seu vizinho, que a apresentou. Disse que teve a impressão de que o amigo estava namorando a moça. Depois disso, encontraram-se, por acaso, na praça ao lado hotel. “Você manteve contato com ela”? Não. “Nunca mais a viu, depois do encontro da praça?” Não. “Você sabia que ela é irmã de um escritor português, o Tiago Veiga?”. Não. “Na verdade, meia irmã. O pai dela teve um filho do primeiro casamento, o tal Tiago. Parece que nunca conviveram. Marizabel Veiga, logo depois de nascida, veio para o Brasil com a mãe, que se separou do marido. Trabalho numa casa de modas, no centro do Rio de Janeiro. Depois, num restaurante, como garçonete.” No dossiê, que estava no envelope amarelo, havia uma foto desta mulher com a filha, Marizabel. Não havia mais nenhuma informação. “Você sabe onde vive Marizabel Veiga?”. Não. Uma e meia da tarde. O estômago do funcionário roncava. Ele estava envergonhado pois o ronco era alto. Estava irritado por ter perdido o passeio com o amigo, o jardineiro do hotel. O delegado saiu da sala. Não demorou muito. Ao voltar pediu ao funcionário que lesse o seu depoimento e, se estivesse de acordo, o assinasse. Já cansado, um tanto mais irritado, o funcionário chegou em casa. Ligou para seu amigo, o jardineiro. Conversaram por alguns minutos. Combinaram o passeio para a próxima folga, dali a quinze dias. Trocaram impressões sobre o dia. O funcionário fez um lanche e dormiu um pouco, no sofá de sua sala. Acordou com o telefone tocando. Atendeu. Mudo. Desligou e foi ao banheiro. O telefone tocou de novo. Atendeu e, mais uma vez, mudo. Voltou ao banheiro, lavou a cara, penteou os cabelos. Trocou de camisa e saiu. Ao chegar ao portão de sua casa, ainda escutou o telefone tocando mais uma vez. Foi ao cinema. Na saída, passou numa loja de eletrodomésticos e comprou uma secretária eletrônica. Se o telefone tocasse e ficasse mudo, ia identificar o número que chamava pela bina. Isso poderia esclarecer os telefonemas. Fez muito calor durante o dia. Anoiteceu e havia nuvens pesadas no céu. Voltando para casa, o funcionário foi apanhado pela chuva. Não se importou. Continuou caminhando calmamente. Não estava longe de casa. Ao atravessar a última rua antes de chegar em casa, ele viu um carro conhecido cruzando a rua do outro lado. Era o marido da camareira. Estava sozinho. Dirigia devagar. O funcionário acenou. Não foi visto. Estranhou o acontecido, mas se lembrou dos irritantes telefonemas mudos. Ficou satisfeito por ter comprado a secretária eletrônica. Tinha a certeza de identificar quem chamava e não falava nada. A chuva parou, de repente. O céu ficou estrelado, de repente. O funcionário chegou em casa. 

Começo

Foureaux, 10.02.22

O texto que segue, eu o escrevi de uma sentada agora no finalzinho do dia Fiquei pensando num romance. Aparentemente, policial, mas eu não o quero assim. Fui escrevendo sem pensar muito, deixando fluir as ideias que me vinham. Parei com dois parágrafos e resolvi colocá-lo aqui como uma proposta, um convite, quase um desafio. Todo mundo sabe que o romance, como gênero narrativo, teve nos jornais, uma de suas primeiras manifestações materiais no mundo moderno. O famigerado "folhetim" fez muito sucesso. Algumas vezes, ao longo da História, mais de uma pessoa participou da confecção destes folhetins, simultaneamente. A proposta, o convite, o desafio: cada leitor deste trecho escreve dois parágrafos dando continuidade aos que eu escrevi. Ao fim de um tempo, teremos material, quem sabe, para consolidar o tal romance a inúmeras mãos. Tenho certeza quase absoluta de que  convite, o desafio, a proposta vai morrer na casca. Ainda assim, eu tento. Quem quiser que se habilite. Segue o texto:

 

O nome do romance é A última vontade de Otacílio Piffio. Otacílio Piffio era também o pseudônimo do autor. Na reunião do júri com o editor e o mecenas do concurso, a opinião foi unânime. Era o vencedor. O romance foi selecionado entre outros 3725. Destes, 2400 passaram por uma triagem. Trezentos professores universitários de diversas partes do país leram 80 romances cada e selecionaram dois. Os 600 selecionados passaram pelo crivo de um júri de 10 personalidades literárias nacionais que, por sua vez, selecionaram três cada um. Da mesma forma, o júri oficial leu os trinta selecionados e escolheram o melhor. A última vontade de Otacílio Piffio. Na reunião de registro do vencedor, foi revelado o nome do autor da obra. Para surpresa de todos os jurados era um professor universitário de 67 anos de idade. Consternação. Susto. Sarcasmo. Estas foram as reações de cada um dos jurados. O editor e o Mecenas não conheciam o autor. Os outros três, sim. Era óbvio, o incômodo. O resultado era irrecorrível, conforme o edital. Havia um jornalista convidado para funcionar como fiel da balança. Ele não conhecia ninguém naquela sala. Por dentro, divertia-se com a situação. Percebeu o constrangimento. Não entendeu muito bem o porquê dele imediatamente. No entanto, na medida em que os sussurros eram trocados e os olhares enviesados se cruzavam naquela sala, densamente eletrificada pelo mal-estar causado pelo resultado revelado, o jornalista ria-se por dentro e entendeu tudo. Não havia segundo colocado. O prêmio ia, definitivamente para o tal professor malquisto. O mecenas, sem perceber muito bem o que passava, perguntou se havia algum problema. Silêncio absoluto. O editor, ciente da situação, tentou descontrair o ambiente. Contou uma piada. Ninguém riu. Não havia o que fazer. Não havia segundo colocado. Não havia a menor possibilidade de se ter outro resultado. O presidente do júri ainda tentou, sem sucesso, argumentar que poderiam fazer uma segunda rodada de avaliação. O argumento foi o de que, apesar da unanimidade pelo resultado, havia outra questão: alguns pontos do romance não foram assim tão merecedores de premiação. Os outros dois jurados hesitaram. O editor deu a martelada final. O campeão era o professor. O romance A última vontade de Otacílio Piffio. Seiscentas e sessenta e seis páginas de texto. Um calhamaço. Dez capítulos de sessenta e seis páginas cada, mais uma “coda” de seis páginas. Um cartapácio. Números cabalísticos, pensou o jornalista.

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A camareira, pressurosa, abriu a porta. O aviso de “Não me perturbe” estava na porta. Mesmo assim ela abriu. Havia dois dias que o aviso estava ali. Ela consultou as colegas dos outros turnos e todas afirmaram não ver a porta sem o aviso. Então, decidiu entrar. O quarto estava escuro. Cortinas cerradas. Cheiro de comida guardada, de vinho azedo, de vela queimada. Pediu licença. Disse “bom dia”. Nada. Nenhuma resposta. Entrou. A cama estava desfeita. Papeis sobre a mesa cheia de tocos de cigarro, meio copo de vinho e restos de farelo de pão. Os talheres meticulosamente colocados sobre o prato, comme il faut. Foi catando as migalhas de pão. Jogou os tocos de cigarro no lixo. Dirigiu-se ao banheiro. Cirurgicamente limpo. Trocou as toalhas. Recompôs a cesta de gadgets de higiene. Lavou o banheiro. Fechou a porta e voltou ao quarto. Ao contornar a cama, deu um grito. O corpo de um homem, nu, estendido no chão. Sua expressão era tranquila. Não havia sinal de violência. Ela pegou o telefone e chamou a gerência. Em pouco menos de uma hora, um investigador policial chegou. Entrou no apartamento em que estavam a camareira, o gerente e mais um funcionário. Ninguém tinha tocado no corpo. A equipe de perícia chegou em seguida. O investigador fez algumas perguntas, pediu que os três comparecessem à delegacia no dia seguinte para tomar seus depoimentos. Um fotógrafo registrou tudo. Uma senhora, muito calmamente, recolheu tudo o que encontrou sobre a mesa, no chão. Tirou as roupas do morto do armário e colococou em sua mala. Perguntou se a camareira encontrou alguma coisa no banheiro. Nada. Saiu com tudo num carrinho de mão. O silêncio era constrangedor. A camareira choramingava um pouco. O gerente, nervoso, não queria escândalo. O outro funcionário olhava tudo com cara de quem não entendia nada do que se passava. Em pouco mais de duas horas, o quarto estava limpo, pronto para receber outro hóspede. A polícia já tinha ido embora quando o telefone da gerência tocou. A recepcionista passou a ligação para o escritório central, onde estava o gerente. Este, ao atender, levantou a sobrancelha esquerda. Disse meia dúzia de monossílabos. Pegou um envelope guardado no cofre e saiu. A camareira viu quando ele atravessou a rua. Ela esperava pelo marido que a ia buscar todos os dias. Chovia forte. O dia acabava numa melancolia úmida, mofada, enfadonha. A camareira deu um suspiro e acendeu um cigarro. Escureceu. Mais quinze minutos e o marido da camareira chegou. O gerente voltava para o hotel: estava na hora de concluir seu expediente. Tinha que passar informações e o “caixa” para o seu substituto no turno da noite. O funcionário que acompanhou a chegada da polícia já tinha ido embora. Morava bem ao lado do hotel. Depois de jantar, ele ligou o rádio e sentou-se diante da janela que dava para o jardim no fundo de sua pequena casa. Pegou um livro para ler. Tomou um gole de chá. Ligou o rádio. O locutor anunciava que A última vontade de Otacílio Piffio era o romance ganhador do prêmio daquele ano na cidade. O funcionário engasgou-se com o chá. Franziu a testa. Desligou o rádio. Fechou a janela e foi dormir.

Retalhos

Foureaux, 07.02.22

“Um bando de gente suja, suada, malvestida e fedorenta. Um amontoado de gente assim num lugar que mais parecia uma gruta. Eu tinha que passar no meio desse grupo, barulhento. Ofereciam-me carona, cigarro, bebida. Eu sentia nojo e tentava me desvencilhar. Tinha que chegar ao noviciado. O quarto era amplo, claro, limpo. Portas grandes, janelas enormes. Dava de frente para um prédio de apartamentos. A secretária ofereceu-me ingressos para um vernissage à noite. Não o aceitei. Disse que tinha outro compromisso. Voltei para o quarto e procurei por minha mala. Um rapaz muito atencioso veio me atender, enquanto passava pano no chão. Não encontrava minha mala e, ao mesmo tempo, estava no meio da gente suja, vestida e malcheirosa de antes. A secretária sorria. Eu tentava fechar as janelas do quarto. As cortinas (persianas verticais) não funcionava. Não escondiam as miríades de pessoas assentadas na. mureta da rua à espera do ônibus, bem à frente da minha janela. E a secretária sorria. O rapaz passava o pano e não me ajudava. Eu saía andando a procurar a porta do quarto e não encontrava. Passava por lugares que tinha certeza de ter conhecido, mas não os reconhecia. Andada e a gente malcheirosa e malvestida à minha volta. O quarto do noviciado brilhante de tão grande e limpo. a secretária sorrindo. Os lugares conhecidos que eu não reconhecia. Tudo junto, simultâneo. Confuso e claro ao mesmo tempo. São sempre assim os sonhos.

De que adianta anotar o que se lembra dos sonhos? Houve uma vez, um psicanalista disse que isso ajuda na terapia. Tentei, algumas vezes. Cheguei a aproveitar trechos de anotações em romances que escrevi. Na terapia, nunca utilizarei. Não posso dizer se o psicanalista estava certo. Acredito que sim. Não vou procurar um jeito de explicar isso ou de tentar comprovar a hipótese. Penso que não adianta. O tempo passou. O momento passou. O elã passou. E já não faz sentido procurar o sentido, ou não. da afirmação do psicanalista. E assim com todo o resto. Atualmente o que mais me chama a atenção é o fato de eu já vislumbrar uma curva final no caminho. Não a vejo, por suposto. Pressinto-a. Não sei calcular a distância até ela, o tempo que falta, por impossível. Mas sei que está logo ali. Já abro mão de coisas que antes pareciam-me imprescindíveis. A vaidade já não é mais tão edaz. Fica mais fácil admitir que não vale mais a pena que tentar encontrar energia e substância para provar o contrário. Provar para quem? Para mim? Bobagem! Já não tenho necessidade deste tipo de comprovação, de resposta, de explicação. O que tinha de ser foi. E pronto.” (Autor desconhecido)

Suspense

Foureaux, 03.02.22

“No sumário, não havia sequer uma indicação de que tal assunto poderia vir a ser tratado no texto do livro. Igual ausência era notada no índice remissivo. De acordo com os “entendidos” estes dois índices eram necessários para a validação do livro na lista de publicações daquele ano. Em vão. Incontáveis horas de leitura, riscando trechos inteiros, anotando palavras-chave pelas margens da mancha tipográfica. Discussões intermináveis com o supervisor. Interpretações, as mais inesperadas, com os estudantes. Nada. Em vão. O livro não valia nada, mas estava escrito. O que fazer? O burburinho foi grande. Havia rumores de que uma rusga antiga entre o editor e o autor teria sido o motivo da encrenca. Outros diziam que outra pessoa havia escrito o livro que foi roubado para ser lançado. Nada ficou muito bem esclarecido. O que sucedeu foi que a cópia do arquivo com o índice remissivo foi perdida. A apuração não chegou a nome algum, mas ao fim, o arquivo foi encontrado. Em seguida, nova querela. O prazo havia vencido. O detalhe técnico foi apontado pelo editor como obstáculo intransponível. Picuinha, foi o que disseram. Conversa daqui, telefona dali, mais burburinho, e o lançamento aconteceu como previsto originalmente. Três meses e meio depois da data inicial, mas lá estava ele, o livro. Dois cartazes circularam pelos corredores do prédio principal. Duas entradas na programação da rádio. Uma entrevista no canal de televisão que servia de laboratório também foi agendada. Tudo acontecendo normalmente. A pré-venda foi um sucesso. Parece que a venda seguiria pelo mesmo caminho. Era esperar pra ver. No dia do lançamento o salão principal da livraria estava decorado com sobriedade. Espaços livres para circulação, duas colunas com os livros e, ao centro, a mesa para o autor, com algumas cadeiras à volta. Haveria uma sessão de leitura de trechos do tal livro. Convidados chegando. Garçons circulando. Música tocando. A hora passava e o autor não chegava. Não chegou. Dez minutos depois do horário marcado para a sessão de leitura, o editor toma o microfone e anuncia o atraso. Foi interrompido pelo estardalhaço causado pela chegada de um rapaz. Com ar insolente, atravessou o salão sem prestar atenção a nada, nem a ninguém. Interrompeu o editor, tomou-lhe o microfone e anunciou a leitura de trechos. Silêncio nervoso, tenso, carregado. Ao fim da leitura. Alguém interrompe o silêncio e pergunta quem era ele. O rapaz levantou-se e se apresentou como o verdadeiro autor do livro. Contou a história de como conheceu o suposto autor, se aproximou dele, trabalhou para ele como secretário. Com o passar do tempo, tornou-se amigo, quase confidente. O velho começou a discutir os planos do livro que então era lançado. Deu as linhas gerais para o secretário e pediu que ele escrevesse. Foi o que fez. Ao fim do trabalho, o velho decidiu colocar o próprio nome e não comparecer ao lançamento, mandando seu secretário, como aconteceu. Incrédulo, o editor questionou. Muitos, na plateia o acompanharam. O rapaz insolente abriu então um envelope e leu o que nele estava escrito. A assinatura era do velho. Imediatamente, entregou a carta para o editor que confirmou a assinatura e a história contada pelo rapaz. Boquiaberto, viu o insolente sair da livraria, sob o olhar estupefato de todos. Nunca mais foi visto. O velho morreu duas horas depois de saber do sucesso do lançamento, como anunciado posteriormente pela nota da editora. O livro foi um sucesso.” (Autor desconhecido)

Três - parte 2

Foureaux, 24.01.22

Os três escritores ainda figuram em minha lista particular de preferências. Conheci pessoalmente os três. Com um deles, ainda mantenho certo contato, ainda que muito esporádico, depois que o visitei em sua residência. Os outros dois, conhecidos em país estrangeiro – meu e deles – são apenas autores de predileção. Não tenho contato. Li muitas obras dos três. Gostaria de ter lido tudo que os três escreveram, mas, como todo mundo sabe, livros portugueses custam uma fortuna nos estados unidos de bruzundanga. Além disso, estou naquela fase de não mais acumular volumes em estantes que só retroalimentam a cadeia alimentar dos fungos, ácaros e insetos, sob a pele diáfana da poeira que o tempo deixa como rastro. Ele passa. Os livros ficam. José Luis Peixoto foi o primeiro que conheci, em Zagreb, como João Tordo, na mesma cidade. Graças às atividades propostas pela Leitora de Português do Instituto Camões, a Sofia Soares, conheci-os. Escutei deles uma conferência. Conversei com eles. Foi muito bom. As três vidas (Quidnovi), lançado em Setembro de 2008 – meses depois de minha chegada a Zagreb – ganhou o Prémio José Saramago no ano seguinte. Gostei muito. Depois dele, foi a vez de ouvir José Luis Peixoto declamar um seu poema, lindo, que faz parte de um dos livros mais impressionantes que já tinha lido até então: Morreste-me, sua primeira obra publicada. Sua figura era completamente antagônica se considerada em comparação com sua escrita, mas isso é chatice minha. Dele, a primeira leitura foi: Nenhum olhar, seu segundo livro de ficção. Eu não sabia, mas minhas visitas à “terrinha”, anos depois, só confirmaram a impressão tocante do Ribatejo que li e depois conheci. Uma fulgurante e melancólica beleza. Anos depois, já em 2014, por conta do pós-doutoramento em Coimbra, vim a conhecer o terceiro, Mario Claudio. Fiz-lhe uma visita e uma entrevista – muito esclarecedora para a pesquisa que então desenvolvia – em sua residência, perto da parada chamada Francos, nos arredores do Porto. Dele, considerando o conjunto de obra, li muito pouco. Mas impressionou-me sobretudo o último: Embora eu fosse um velho errante. Livro impressionante por conta de uma espécie de síntese (se é que isso é possível) que o autor faz de seu próprio modus operandi. O livro é um exercício de criatividade insuperável. Acompanhando o raciocínio da postagem anterior, a primeira de uma série de três, esta aqui enfoca apenas a apresentação mais que genérica, superficial, dos autores que me interessam para a postagem final. Lá, se a preguiça assim o permitir, pretendo discorrer m pouco sobre a leitura que fiz das três últimas obras publicadas por José Luis Peixoto. João Tordo e Mario Claudio. Os três, na verdade, têm um ponto em comum: são portugueses. Quanto à obra de cada um, ah... há controvérsias. E é bom que haja mesmo. A unanimidade, como já dizia Nelson Rodrigues, é mesmo burra. Seus estilos são muito peculiares e abissalmente diferentes. O modo de encarar a Literatura, a mim me parece – como leitor – é outra abissal distância que se impões entre os três. Isso só reafirma a “qualidade” (n`á gosto desta palavra!) dos três: incontestável. Não especulei sobre as plausíveis “influências” em cada caso – isso seria pertinente se eu ainda lecionasse. Como desfruto do ócio criativo permanente, já não me faz falta satisfazer tal especulação. No entanto, a leitura de seus livros me leva a crer que, como todo o resto da população de escritores do planeta, também os três têm lá suas preferências de leitura e, por via de consequência suas influências sintomatizadas. A personalidade também é outro vetor a diferenciar os três, mas isso já não consegue ultrapassar a larga margem da obviedade. Como só conheci mais proximamente o mais velho dos três, Mario Claudio, não posso dizer nada acerca da pessoa dos outros dois. É assim mesmo. Quisera ter todos os livros dos três. Quisera poder ler todos os livros dos três. Quisera ter ânimo para escrever um ensaio sobre cada um deles e publicá-los, individualmente como livros. Melhor ainda, nessa série de “quisera”... seria ser lido. Mas aí já é pedir demais ao destino. Aguardem a terceira e última etapa.