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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Poesia

Foureaux, 30.09.22

Vi ontem, por acaso, um vídeo com uma senhora declamando um poema. Era a própria poeta, Ana Luísa Amaral, portuguesa. Encantou-me a maneira como disse o próprio poema. Encantou-me o poema. A Literatura, uma vez mais, atenuando, em minh’alma as agruras do tédio, esse que não me abandona, jamais. Tomara que gostem!

SONETO CIENTÍFICO A FINGIR

 

Dar o mote ao amor. Glosar o tema

tantas vezes que assuste o pensamento.

Se for antigo, seja. Mas é belo

e como a arte: nem útil nem moral.

 

Que me interessa que seja por soneto

em vez de verso ou linha devastada?

O soneto é antigo? Pois que seja:

também o mundo é e ainda existe.

 

Só não vejo vantagens pela rima.

Dir-me-ão que é limite: deixa ser.

Se me dobro demais por ser mulher

(esta rimou, mas foi só por acaso)

 

Se me dobro demais, dizia eu,

não consigo falar-me como devo,

ou seja, na mentira que é o verso,

ou seja, na mentira do que mostro.

 

E se é soneto coxo, não faz mal.

E se não tem tercetos, paciência:

dar o mote ao amor, glosar o tema,

e depois desviar. Isso é ciência!

 

Ana Luísa Amaral, E muitos os caminhos, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1995, p. 35

(Folha de Poesia: Soneto científico a fingir (Ana Luísa Amaral, 1956-2022)

Quase um mês...

Foureaux, 12.07.22

O intervalo desta vez foi mais longo. Não sei dizer se proposital ou apenas circunstancial. Arriscaria o palpite de que foi um pouco de cada. Uma mistura. Quem me conhece há está acostumado. Isto posto, segue mais uma série de mal traçadas linhas obre um autor que aprendi a gostar, que conheci pessoalmente e que me agrada muito.

Três são as fases da vida. Três, os momentos do dia. Três, os pedidos que Aladim fez ao gênio da lâmpada maravilhosa. No conto infantil, as maravilhas realizadas pelo “gênio’ encantam e divertem, mas não eixam de, nas entrelinhas, instigar raciocínios outros que podem ser interpretados como nem tão infantis assim. De um jeito ou e outro a ideia de se encontrar um gênio e poder fazer três pedidos continua alimentando a imaginação e as fantasias humanas. Assim é com Octávio, um funcionário público daqueles bem típicos. O nome apresentado leva o “c” porque é criação portuguesa. O autor quis, desse modo, reafirmar sua autonomia com a utilização de letras e outras guirlandas vocabulares que lhe garantem o fluxo e o refluxo de ideias. “Acordos”, “reformas” e quejandos não são capazes de conter o ímpeto criador de quem escreve, como é bem o caso aqui. Octávio C. é o nome “completo” da personagem de um livro encantador, não como o conto de Aladim, mas de uma maneira muto sua, já minha conhecida, assim como de muito mais gente mundo afora. Octávio C. é funcionário público, como disse. Trabalha na Conservatória. É como um cartório de notas e ofícios do lado de cá do grande lago. Octávio C. se relaciona bem com seus colegas de trabalho. Um deles trata das mortes, a outra dos divórcios, um outro dos nascimentos. Ali, na Conservatória, cada um tem seu papel bem desenhado e definido. Faz parte da boa conduta funcional, neste ambiente, cumprimento de suas funções, o reconhecimento das relações entre os diversos registros e, acima de tudo, o respeito à hierarquia funcional. O serviço público parece não mudar muito de um continente para o outro. Otávio C. está apaixonado por uma de suas colegas de trabalho, mas não consegue verbalizar seu sentimento nem tomar uma atitude que o leve a consumar o afeto que alimenta a sua paixão. Depois de se lembrar de uma história contada pelo avô, por conta de situações e circunstâncias que não convém desvelar aqui – o assim chamado spoiler estragaria o prazer de possíveis leitores do romance (porque se trata de um romance) – Octávio C. manuseia, ainda uma vez, uma lamparina dourada que seu avô – que só conversava com ele em inglês, quando conviveram na infância do próprio Octávio. A ilusão dos três pedidos se desfaz, mas em sonhos, o gênio da lâmpada aparece e interage com Octávio C. Obviamente, ele faz seus três pedidos: um mundo sem armas, um mundo sem dinheiro, um mundo sem medo. O gênio, como no conto, da irreversibilidade dos pedidos, no que tange a seus efeitos. Octávio bate o pé. O gênio tenta induzir Octávio C. a pedir alguma coisa que definisse o “estado da arte” de seu sentimento em relação à companheira de trabalho. Nada. Os três pedidos continuam sendo os mesmos e o gênio os concede. As consequências, apresentadas numa narrativa divertida e pitoresca, são as mais inusitadas. Para surpresa de todos, inclusive do próprio Octávio. De novo, abro mão de mais alguns spoilers... O que vale a pena é acompanhar a trilha que Octávio C. apresenta ao leitor, pelas mãos de um narrador que observa e, insidiosamente, se intromete colorindo sua narrativa com humor igualmente colorido e, ainda uma vez pitoresco, as diversas formas que a personagem central vai encontrando de discutir (consigo mesmo e com o gênio a lâmpada) sobre os já referidos efeitos e as inesperadas consequências de seus três pedidos. No fundo, de maneira sutil, mas contundente, o desejo – sob a égide de Freud e Lacan – pontifica o desenrolar desta narrativa que volta a um universo já visitado e soberbamente explorado pelo mesmo autor.  O romance se chama Os três desejos de Octávio C. Seu autor é o já por mim comentado Pedro Eiras, que é professor na Universidade do Porto. Esteve recentemente em São Paulo, participando da Bienal do Livro que, neste ano, homenageou a “terrinha”, lá do outro lado do grande lado: Portugal. Numa entrevista (https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8913.pdf), Pedro Eiras diz: “Olha, para te dizer a verdade, nunca pensei nessas duas palavras – utopia, distopia – ao escrever Os Três Desejos de Octávio..., enfim, os teus Desejos. Digamos que não precisei desses nomes, na altura; mas não quer dizer que não sejam uma boa descrição do que acontece nessas páginas. O vocabulário teórico pode vir mais tarde – quando me transformo em leitor, de mim mesmo, entenda-se. A teoria é ao retardador.”. O trecho pode parecer confuso. Continuará assim se você que me ler não tiver a curiosidade de ir até a fonte, citada entre parênteses) não sem antes, ou depois, ir até o livro mesmo e lê-lo, com prazer, como eu o fiz. Fica o convite.

Indicação

Foureaux, 22.03.22

Numa sequência de um episódio em uma das temporadas da série britânica Outlander, a personagem de Caitriona Balfe faz uma experiência com miolo de pão, na tentativa de descobrir um remédio que seja antibiótico. Ela viaja no tempo, tem conhecimento avançado em relação aos demais que vivem com ela no passado e está preocupada com algumas mortes que poderiam ter sido evitadas com antibióticos. No tempo para o qual ela foi transmutada, é impossível fabricar penicilina e similares, obviamente. Ela busca, então, na sabedoria popular – de fato por um acidente doméstico –, uma solução para o seu problema. No tal episódio, ela vai até a cozinha de sua casa e percebe que o pão está mofado. Há todo um diálogo que não vou reproduzir aqui, por pura preguiça de procurar o episódio a que me refiro. Em síntese, por causa do mofo no pão, ela resolve fazer uma cultura de fungos para produzir o medicamente de que precisa. Bolor, mofo, miasma, hircismo, sito, abolorecimento. Tantas palavras... A primeira é a que me interessa. Bolor. Este é o título do romance que quero comentar, para chegar a outro, A cidade das flores. Ambos foram escritos por Augusto Abelaira e, ainda uma vez, com estes comentários, presto homenagem a um amigo caro, o Artur.

A cidade das flores é de 1959, primeiro romance de Augusto Abelaira. Bolor é de 1968. Começo por ele. Ambos, em alguma medida, expressam a verve experimentalista do autor. Com isso não que o dizer que ele pertença a uma “geração” de escritores     que tenha se notabilizado, na série histórica portuguesa, como experimentalista. Longe disso. O que desejo reafirmar é que a escrita de Abelaira, nestes dois romances é reveladora de uma criatividade que se se desenvolve na experimentação de registro ficcional não usual em seu tempo. Talvez, por alguma influência estrangeira – o espaço deste meu texto é estreito e não pretendo defender uma tese, apenas registrar minhas impressões – o texto de Abelaira, nestes dois livros destaque-se por esta peculiaridade. No primeiro de sua extensa obra, as três personagens – Humberto, Maria dos Remédios e Aleixo – estão envoltos numa trama afetiva que os faz preconizar uma espécie de triângulo amoroso. A ideia não é minha. Li já não me lembro onde, mas é fato. O diálogo que se desenvolve, numa complexa rede de reviravoltas, intersecções, torneios discursivos e revezes, é denso e marcado pelas impressões trocadas, sobretudo, acerca da relação que entre si mantêm as três personagens. Há quem dê muita importância ao fato de Humberto escrever com cor de tinta azul; Maria dos Remédios Varela Rodrigues, com tinta preta e Aleixo, com tinta roxa. É bom lembrar que num romance, como este de Abelaira, a presença de uma voz narrativa fragmentada não é mero acaso. Há, por certo, uma espécie de objetivo escritural a ser alcançado a partir do uso de tal estratégia. desta forma, a diferenciação de cor da tinta com que escrevem as personagens, em igual media, não é mero detalhe, decoração ou falta de assunto. No entanto, também isso não é meu ponto de fuga aqui. De fato, o que mais desejo registrar é a deliciosa trama que se urde ao longo das anotações de um diário fictício (e ficcional) escrito pelas três personagens do romance. Isso me fez pensar na associação do título do livro com seu similar, na biologia. Por mais que uma casa seja limpa e nova, está sujeita à ação do mofo, que pode aparecer naquele cantinho do ambiente que é mais úmido e escuro, e que pouco se dá atenção. Assim se pode ler a relação estabelecida entre as três personagens do romance. A proliferação do mofo, dizem a sabedoria popular e a ciência, pode causar doenças. No romance, esta particularidade da matéria biológica pode ter seu correlato na troca de impressões que o diário partilhado pelas personagens do rmance de Balaira revela. É como se algo estivesse a envolver Aleixo, Humberto e Maria dos Remédios. Algo que é deles conhecido, mas não nitidamente percebido pelo leitor. Ou, por outrolado, alguma coisa eu o leitor identifica e vai percebendo, ainda que por rastros, índices, ilações, e não se revela aberta, completa e definitivamente. A associação com a ideia do unheimliche freudiano não passa batida por aqui.

Aolado deste romance, aqui, A cidade das flores pode, em certa medida, ser lido como uma espécie de contraponto. Não no sentido dissociativo, mas no de estímulo a um diálogo intertextual que, se não foi proposital, passou muito perto disso. Tal possibilidade conta com o respaldo do tempo que se atravessa entre a publicação de Bolor e de A cidade das flores. Neste, as personagens também se envolvem numa trama de impressões, ilações, comentários e, até desabafos. No entanto, a ausência de um cenário definido, no primeiro, a funcionar como “espaço narrativo” faz do segundo uma espécie de rota a ser seguida em território italiano. Como foi a primeira vez que li este romance, chamou-me a atenção este dado. O romance se passa na Itália. Ou estarei equivocado? O risco existe. Depois de tantas leituras e dando azo ao sedutor ócio criativo, em bem posso ter fantasiado tal circunstâncias. Valho-me do direito a fantasiar. A trama de A cidade das flores se passa na Itália. Isso poderia levar um leitor menos avisado a concluir que o romance foge do caráter nacionalizante que, mesmo nas entrelinhas, por debaixo do pano, está a solicitar sua dose de obediência. Por isso, faço minhas as palavras da Almerinda que, em seu blog (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/a-cidade-das-flores-augusto-abelaira-50249) comenta o mesmo romance: “Em 1961, no posfácio à segunda edição de A Cidade das Flores, Augusto Abelaira faz uma reflexão e uma série de perguntas que considerei muito relevantes. Começa assim: “A nova edição de um livro significa que esse livro não morreu”. E mais à frente: “Um livro que se reedita é um livro que se esgotou. Portanto: Quem o esgotou? Quem o leu? E por quê?” (…) “Porque leio eu um romance?” (…) “Independentemente de me ajudar a passar o tempo, a leitura dum romance multiplica em várias direcções a minha pobre vida quotidiana, permitindo-me sonhar.” (…) “Essas histórias… ajudam-me a sair de mim próprio e a descobrir o mundo.” (…) “Os romances preocupam-se com homens vulgares, mais próximos de mim, homens que vivem no meu modesto universo.” (…) “Acontece, porém, que, muitas vezes, buscamos num romance as nossas próprias vidas, as vidas confusas dos nossos irmãos, as nossas preocupações.” (…) “… creio que “A Cidade das Flores” documenta qualquer coisa, a reacção de certos homens a uma praga social – o fascismo; a reacção de certos homens a uma situação social adversa.” (…) “ Homens que não crêem no futuro, ou, melhor: homens que, acreditando no futuro, não têm coragem de viver no presente esse futuro.” (…) “… tenho esperança de que, dentro de cinquenta anos, A cidade das flores já não seja lida. Significará isso que os problemas deste romance já passaram à história e que os homens deram mais um passo no caminho da justiça social.” (…) “Desejaria que A cidade das flores fosse entendida como um livro de quem acredita no progresso, na justiça, na paz, na possibilidade real de os homens serem todos iguais.” (…) “E no entanto, nós, cidadãos deste ano da graça de 1961, sabemos que a História, apesar de tudo, não deu razão ao pessimismo de Fazio. Sabemos que o Hitler não dominou por mil anos. Sabemos que nenhum Hitler dominará por mil anos. A cidade das flores decorre na Itália de Mussolini. Os intervenientes são jovens que vivem em Florença, mais ou menos envolvidos na resistência ao fascismo em ascensão. Augusto Abelaira da geração de escritores da oposição a Salazar a escrever no período negro da censura, transpõe neste romance para o meio cultural, social e literário português dos anos 50 uma realidade paralela, usando personagens doutro país e doutro regime ditatorial com preocupações semelhantes e com ânsias de liberdade. Logo no início do romance, Fazio observa um casal de ingleses que tiram fotografias junto à estátua de David. Enquanto se sente escravo, prisioneiro, ele inveja aqueles turistas que para ele representam a liberdade. Fazio, Soldati, Domenico, Rosabianca, Renatta, Vianello e no outro extremo Briganti adepto das ideias de Mussolini. Nas suas conversas, nos seus encontros, os grandes temas que os preocupam. O que é resistir? O que é colaborar? Até onde se consegue resistir? O que é ser incorruptível? O que é ser honesto? Pode-se ser feliz, quando há alguém que está a sofrer, que está a ser torturado, que está preso? As ideias justas triunfarão? Quanto tempo dura o amor? O que é ser livre? É possível ser-se livre? (...) Senti este romance como intemporal, moderno e actual. No entanto, ao contrário do desejo de Abelaira, de que 50 anos depois daquela 2ª edição do romance ele já não fosse lido, a verdade é que os problemas de que fala o romance não “passaram à história”. A história e o percurso da humanidade estão longe de alcançar a justiça social e os perigos que marcaram o século XX continuam activos e sempre à espera que a democracia baixe as suas bandeiras. Resistir é um imperativo.”Esse trecho diz muito do que eu gostaria de ter dito. O romance de Abelaira, ao “deslocar” o espaço narrativo de Portugal para a Itália não faz mais que dar oportunidade à sua própria ficção de desempenhar seu papel precípuo: ficcionalizar a realidade. Os comentários do Artur, ao recomendar a leitura deste romance, ecoam agora que termino este texto. Uma vez mais, obrigado, amigo!

 

 

 

 

 

Três - parte 3

Foureaux, 26.01.22

Pois é. Dizer que o gajo continua a escrever sob a égide de Paul Auster é exagero. O rapaz evoluiu, no sentido de aprimorar a própria, marca escritural. Estou falando de João Tordo. Em sue último romance, Felicidade, ele se apresenta mais maduro, mais seguro. Um tanto constante em certos procedimentos ficcionais. Mantém a verve. Consegue envolver o leitor de maneira sutil. Há sempre um segredo, um detalhe que escapa. Rastros de experiências outras a indicar caminhos possíveis para o deslinde de situações aparentemente insolúveis. A história se desenrola a partir de um acontecimento ocorrido na adolescência do protagonista. Arrastam-se as consequências por uns 20 ou 30 anos, em minuciosa análise de detalhes que vão compondo um quebra-cabeça a desenhar o “mapa da mina”. Já adianto, sem querer fazer o famigerado spoiler: não se trata de romance policial. Matriz de criação do jovem escritor, o romance policial tem cedido espaço, ao longo de sua obra, para o “tratamento” de questões, eu diria, mais existenciais, com um pouco mais de interesse. Difícil para quem vem se acostumando a ler a mesma coisa com capas diferentes – como sói acontecer com certa parcela do chamado público leitor. este sai perdendo, obviamente. Não sei o que vem por aí. Decerto que outros romances virão sem dúvida. No entanto, fica sempre o suspense para a repetição de uma trilogia. Por isso incluí o nome de João Tordo nestas postagens que partem das elucubrações que fiz sobre o número três. A trilogia a que me refiro inclui O luto de Elias Gro, 2015; O paraíso segundo Lars D., 2015 e O deslumbre de Cecília Fluss, 2017. Aqui, as personagens transitam pelos romances num enredado universo de descobertas, decepções e recorrências. Um bordado delicado e muito arguto que prende a atenção do leitor, se se tornar óbvio ou enfadonho. As recorrências das personagens não são levianas. Ao contrário, adensam a narrativa fazendo com que a ideia de trilogia não pareça assim tão vulgar, óbvia, empobrecida. AO contrário, quando faz uso deste recurso dá-lhe personalidade. Há quem diga que “João Tordo indaga sobre a memória e a decadência do corpo no romance que conclui a trilogia que mudou o rumo da literatura que o escritor produz. No fim, com O Deslumbre de Cecilia Fluss, atam-se todas as pontas soltas. As possíveis.” Assim, “João Tordo fecha a trilogia iniciada em 2015 com O Luto de Elias Gro, partindo de uma fórmula hipotética onde a prova da sua veracidade é secundária face àquilo que a exploração dessa possibilidade lhe permite enquanto escritor: “Memória + Tempo — Decadência = Verdade”. Estas duas considerações não são minhas por óbvio. Quem quiser conferir, basta buscar em https://www.publico.pt/2017/06/25/culturaipsilon/critica/resta-a-loucura-o-que-e-1776162. Vale a pena ler para dizer se tal argumento procede ou não. Mais não digo.

Da surpresa causada pela aparência hard do autor e sua linguagem delicada e diáfana, ficou a certeza de que seria um dos escolhidos para estas postagens. Falo de José Luis Peixoto. Em seu livro Almoço de domingo. Uma vez mais, sua região natural as terras portuguesas acima do Tejo, comparece em todo o seu esplendor de melancolia, um certo ceticismo e muita delicadeza nutrida pelas memórias, marcas da passagem do tempo e percepção da própria pequenez. Poder-se-ia dizer que estas são três linhas de abordagem da escrita de José Luis Peixoto. Cabe a cada leitor decidir. Fico com elas. Bastam para meu horizonte de expectativas de leitor curioso. Gosto do que este autor escreve. Ao contrário do primeiro, aqui, este não se preocupou (ainda) em apresentar a seu público uma trilogia, pensada e realizada como tal. Pelo menos, até onde acompanhei esta procissão... Alhures, encontrei um artigo que faz uma apresentação, a meu ver bastante consistente, do romance. A ver: o “autor de Galveias, que já anteriormente transportara José Saramago para dentro de um romance, Autobiografia, publicado em julho de 2019. Almoço de domingo, ‘sobe um degrau’, porque a personagem retratada ‘ainda está aí’, disse o escritor em entrevista à Lusa. Trata-se da história de um ‘homem de 90 anos, que olha para o seu passado e faz um balanço de vida a partir de episódios significativos da sua história pessoal, que em muitos aspetos tocam a do próprio país (...) contou o escritor. (...) Contudo, a pessoa é subentendida na leitura do texto, pelo percurso que segue, pelo império que cria, pela geografia e pela família em que se insere, a partir das quais tudo parte (...). José Luís Peixoto explica porquê: “do ponto de vista do texto, é um romance e como romance é um exemplo, a personagem é uma personagem, não é um texto histórico não é um texto biográfico”. O romance, de acordo com o escritor, tem como protagonista um sujeito cartorial. Não sabia desse detalhe quando da leitura do romance. Ao saber, fiquei estupefato, mas feliz: não li o romance como uma espécie de ficcionalização de certa biografia. Nada contra. O que me incomoda é “amarrar”
a leitura de qualquer um com esta cordinha tão frágil, porque óbvia. O texto do romance transcende esta tentativa de redução. A linguagem faz jus às premiações recebidas pelo autor. O romance é um convite à reflexão, como soe acontecer, sem deixar de ser mais um exemplo da preciosa e sofisticada poesia de José Luís Peixoto. Poesia esta que se deslinda pela prosa na mancha tipográfica: um universo “poético” anos luz de distância da famigerada prosa poética.  do autor é o que me interessa. A maneira como manipula lembranças, segredos, detalhes e descobertas num ambiente familiar é outro “toque de Midas” de sua ficção. Para conferir basta buscar em: https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2021-03-09-jose-luis-peixoto-transpos-memorias-de-rui-nabeiro-para-o-papel-e-criou-um-romance/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=jose-luis-peixoto-transpos-memorias-de-rui-nabeiro-para-o-papel-e-criou-um-romance

O terceiro e último passo é falar de um homem extraordinário. Suas atitudes são muito reveladoras da personalíssima prosa que desenvolve. Durante a entrevista que com ele fiz, ainda em 2014, que confirma a hipótese, foi recheada de comentários sutil e incisivos, temperados com uma finíssima ironia e uma mais ainda sofisticada presença de espírito. Um artista! Ao contrário de João Tordo, que construiu “de caso pensado” uma trilogia e de José Luís Peixoto que, até prova em contrário, ainda não se deu a este trabalho, Mario Claudio fez o mesmo que João Tordo e, de brinde, ganhou de seus críticos mais atentos, com acuidade de leitura mais que aguçada, a possibilidade de ver outros títulos de sua vasta produção reunidos em trilogias, “pensadas” pelo olhar destes leitores. Uma espécie de meio do caminho entre o “João” e o “José” que aqui comparecem. Pois. O ponto de fuga aqui é o romance Embora eu seja um velho errante. A sagacidade sofisticada do autor o levou a começar seu romance com uma cena inusitada. Um homem idoso cuida das cutículas enquanto começa a passear por suas memórias. Demais! As três partes do romance se encaixam como peças de uma engrenagem que, simultaneamente, inventa um mundo fantasioso e apropriado para as elucubrações do narrador e instaura a possibilidade de ser, a narrativa, um relato autobiográfico sem preocupação cartorial de sustentar todas as hipóteses de modo documental. Uma maravilha. O procedimento não é original, no conjunto de obra de Mario Claudio. Isso não interfere em nada na procedência do altíssimo grau de narratividade do autor. Marca personalíssima de sua ficção é o preenchimento de lacunas biográficas do sujeito cartorial ficcionalizado – quando é o caso – por elucubrações outras, de natureza genuinamente ficcional. Uma espécie de jogo de esconde-esconde divertidíssimo e sofisticado, muito sofisticado. No caso deste romance, acredito, esta proposta chega a um nível mais que superior e profundo. Neste caso, não recorro a opiniões alheias. Fico com as minhas impressões, ciente de minhas limitações, mas sou um leitor contumaz, digo o que penso sobre o que li. Sobretudo agora, no início da plenitude do ócio criativo em que vivo. Vale muito a leitura!

Três - parte 2

Foureaux, 24.01.22

Os três escritores ainda figuram em minha lista particular de preferências. Conheci pessoalmente os três. Com um deles, ainda mantenho certo contato, ainda que muito esporádico, depois que o visitei em sua residência. Os outros dois, conhecidos em país estrangeiro – meu e deles – são apenas autores de predileção. Não tenho contato. Li muitas obras dos três. Gostaria de ter lido tudo que os três escreveram, mas, como todo mundo sabe, livros portugueses custam uma fortuna nos estados unidos de bruzundanga. Além disso, estou naquela fase de não mais acumular volumes em estantes que só retroalimentam a cadeia alimentar dos fungos, ácaros e insetos, sob a pele diáfana da poeira que o tempo deixa como rastro. Ele passa. Os livros ficam. José Luis Peixoto foi o primeiro que conheci, em Zagreb, como João Tordo, na mesma cidade. Graças às atividades propostas pela Leitora de Português do Instituto Camões, a Sofia Soares, conheci-os. Escutei deles uma conferência. Conversei com eles. Foi muito bom. As três vidas (Quidnovi), lançado em Setembro de 2008 – meses depois de minha chegada a Zagreb – ganhou o Prémio José Saramago no ano seguinte. Gostei muito. Depois dele, foi a vez de ouvir José Luis Peixoto declamar um seu poema, lindo, que faz parte de um dos livros mais impressionantes que já tinha lido até então: Morreste-me, sua primeira obra publicada. Sua figura era completamente antagônica se considerada em comparação com sua escrita, mas isso é chatice minha. Dele, a primeira leitura foi: Nenhum olhar, seu segundo livro de ficção. Eu não sabia, mas minhas visitas à “terrinha”, anos depois, só confirmaram a impressão tocante do Ribatejo que li e depois conheci. Uma fulgurante e melancólica beleza. Anos depois, já em 2014, por conta do pós-doutoramento em Coimbra, vim a conhecer o terceiro, Mario Claudio. Fiz-lhe uma visita e uma entrevista – muito esclarecedora para a pesquisa que então desenvolvia – em sua residência, perto da parada chamada Francos, nos arredores do Porto. Dele, considerando o conjunto de obra, li muito pouco. Mas impressionou-me sobretudo o último: Embora eu fosse um velho errante. Livro impressionante por conta de uma espécie de síntese (se é que isso é possível) que o autor faz de seu próprio modus operandi. O livro é um exercício de criatividade insuperável. Acompanhando o raciocínio da postagem anterior, a primeira de uma série de três, esta aqui enfoca apenas a apresentação mais que genérica, superficial, dos autores que me interessam para a postagem final. Lá, se a preguiça assim o permitir, pretendo discorrer m pouco sobre a leitura que fiz das três últimas obras publicadas por José Luis Peixoto. João Tordo e Mario Claudio. Os três, na verdade, têm um ponto em comum: são portugueses. Quanto à obra de cada um, ah... há controvérsias. E é bom que haja mesmo. A unanimidade, como já dizia Nelson Rodrigues, é mesmo burra. Seus estilos são muito peculiares e abissalmente diferentes. O modo de encarar a Literatura, a mim me parece – como leitor – é outra abissal distância que se impões entre os três. Isso só reafirma a “qualidade” (n`á gosto desta palavra!) dos três: incontestável. Não especulei sobre as plausíveis “influências” em cada caso – isso seria pertinente se eu ainda lecionasse. Como desfruto do ócio criativo permanente, já não me faz falta satisfazer tal especulação. No entanto, a leitura de seus livros me leva a crer que, como todo o resto da população de escritores do planeta, também os três têm lá suas preferências de leitura e, por via de consequência suas influências sintomatizadas. A personalidade também é outro vetor a diferenciar os três, mas isso já não consegue ultrapassar a larga margem da obviedade. Como só conheci mais proximamente o mais velho dos três, Mario Claudio, não posso dizer nada acerca da pessoa dos outros dois. É assim mesmo. Quisera ter todos os livros dos três. Quisera poder ler todos os livros dos três. Quisera ter ânimo para escrever um ensaio sobre cada um deles e publicá-los, individualmente como livros. Melhor ainda, nessa série de “quisera”... seria ser lido. Mas aí já é pedir demais ao destino. Aguardem a terceira e última etapa.

Presente de Natal

Foureaux, 25.12.21

Li o livro. Na verdade, reli o livro. A lembrança insistente – prazerosamente insistente – da pergunta do Artur, com sua voz mansa e profunda me levou à releitura. Que prazer. Nada a mudar naquele momento de susto, com a pergunta direta sobre o autor. Assim, na lata. Num início de noite de outono, com uma vista linda a espraiar-se pelas vidraças da quinta, no alto de uma colina. O Paço da Quinta de Juste. Ah, Braga... Pois é. A capa vermelha do livro. Nada mais. O nome no meio da capa vermelha. O famigerado formato 14x21 não fez diminuir a sobriedade da capa. Nome em branco sobre espaço vago em vermelho. Sugestivo. Não. Não se trata de uma blague com o livro daquele fiador Chinês. Nem mesmo pode haver qualquer associação com a simbologia “ideológica” da cor. Bem. Neste aspecto, devo admitir, há que ajude a sustentar a tese de que este livro pode, sim, ser lido nesta perspectiva. Não é o meu caso. Definitivamente, não! Não vou gastar o meu tempo, e o de quem me lê (Se é que alguém me lê de verdade... para além de três ou quatro pessoas que, sei, o fazem.) com esse tipo de tergiversação. Quero mesmo é celebrar o prazer e a grat9dão experimentadas nesta releitura, instigada por um encontro revelador, num rincão distante: mais um a manifestar em mim a certeza de vidas passadas. Artur, Alexandra e Esther vão entender. A capa do livro é vermelha. Na contracapa, um trecho. Desse trecho, uma passagem: “Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objetos inertes, dominados, todos revelador às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros...”. Lúgubre? Fantasmagórico?  Alucinante. Não e sim. Depende de quem lê. Vejo aí um prenúncio do que está no miolo do livro. Um professor, o “senhor Engenheiro” chega a Évora. Seu pai acaba de morrer, durante uma reunião de família, à mesa, de repente. Fulminado. A cena, e o fato, são como uma grande sombra a encobrir passagens inteiras do romance. Sim, é um romance. E os bons. O professor é, ao mesmo tempo, protagonista e narrador. As poucas mais personagens são como fantasmas a perambular o espírito de um homem que se posta diante de seu destino, encarando suas vicissitudes e pensando. Sim, ele pensa, e muito. E este pensamento é o que faz a narrativa fluir num misto de poesia e reflexão filosófica. É poesia em prosa, em certos trechos. Os episódios são unidos pela reflexão do protagonista narrador. De fato, “acontece” pouca coisa, proporcionalmente. Mas o que acontece é de fundamental importância para seguir os passos do narrador protagonista em sua senda ficcional. Évora é o cenário preferencial. É aí que se passa a maior parte da trama: o Giraldo, o templo romano de Évora, (equivocadamente conhecido como templo de Diana, dizem), o Colégio Espírito Santo, a Sé. Deu uma saudade danada... Este romance português encontra eco em Lúcio Cardoso, por exemplo. Sobretudo no que diz respeito à sua atenção delicada aos tormentos do espírito e às dúvidas existenciais que acometem o sujeito moderno. É um romance que pode ser alocado, ao lado de outros, como os de Agustina Bessa-Luis, na lista daquelas obras que sustentam o brotar do novo romance português. Ao contrário do que a crítica mais tradicional e convencionada costuma submeter ao nome de José Cardoso Pires, sem tirar-lhe a galhardia e a posição que ocupa no quadro historiográfico do romance português. Outro romance do mesmo autor, Manhã submersa, é voz que ecoa, Em Informação ao crucificado, de Carlos Heitor Cony e Em nome do desejo, João Silvério Trevisan. O clima é o mesmo. A temática, similar. A qualidade poética da narrativa se aproxima, a partir do efeito deste eco. Neste particular, José Luis Peixoto é outro escritor português que, sublimando e alteando a pena de Vergílio Ferreira desenvolve uma narrativa que, de fato, é poesia em prosa. Isto poderia, inclusive, ensejar a consideração de um novo subgênero narrativo, muito distante da prosa poética e do romance intimista, tal o quilate e a preciosidade “poéticas” que a linguagem romanesca de ambos conota. Sim. Estou falando de Aparição, de Vergílio Ferreira. Em comentário a pequeno vídeo, localizado em https://ensina.rtp.pt/artigo/aparicao-de-vergilio-ferreira/, lê-se o seguinte: “Com Aparição, Vergílio Ferreira pretendeu tornar o homem visível a si mesmo. Para o autor, o que se vê melhor é aquilo que não se vê, porque “o que está mais perto dos olhos, são os olhos e aos olhos ninguém os vê”. O romance de Vergílio Ferreira, publicado em 1959, começa com um prenúncio de tragédia: Alberto Soares, o personagem do romance, chega a Évora como novo professor do liceu.  Um homem de luto, sombrio e descrente ainda a refazer-se da morte do pai, acaba de entrar numa cidade católica, branca e luminosa, deixando adivinhar que a sua relação com a cidade não será fácil. Pelo caminho, vai retratar a sociedade fechada e com várias classes sociais de uma pequena cidade provinciana em plena ditadura fascista. Mas, fundamentalmente, vai colocar em causa a relação do homem consigo mesmo. (...) O homem estava completamente só, sem céu, nem inferno, nem eternidade após a morte, mas em busca de sentido para a vida assim mesmo. Vergílio Ferreira torna-se intérprete dessa interrogação existencial, subjectiva sobre a realidade (...). O autor nasceu na aldeia de Melo, junto à Serra da Estrela em 1916. Os pais emigraram para os Estados Unidos quando tinha apenas quatro anos. A sua educação foi dividida entre umas tias maternas e o seminário do Fundão que abandonou aos 16 anos. Formou-se em Coimbra em filologia clássica. O personagem da Aparição, Alberto Soares, (...) faz uma “radiografia” da relação do Homem com a sociedade, com Deus e consigo mesmo.” Agradeço, ainda uma vez, o impulso do Artur, amigo caro, a quem devo esta releitura. Espero que quem chegar a ler o romance também dele goste!

O mistério da conferência denegada

Foureaux, 05.12.21

Entre setembro e outubro do corrente, recebi convite para fazer uma conferência durante m congresso na Paraíba. O promotor do evento é um grupo de pesquisas vinculado à UFPB, chamado GELIPSI – Grupo de pesquisa Gênero, Literatura e Psicanálise. Vaidoso que sou, fiquei honrado e aceitei, agradecido. Troquei algumas mensagens com um mestrando Matheus Pereira acerca de detalhes. Às vésperas de minha viagem que fiz a Portugal, mandei mensagem para o rapaz, avisando que estaria em solo estrangeiro no período de realização do confesso e que, tão logo quanto possível iria precisar de uma data para minha intervenção. Isso era necessário para eu me organizar. Minha viagem foi de lazer, mas o compromisso estava formado – pelo menos, de minha parte. Não obtive resposta, nas duas ou três tentativas. Em chegando a Lisboa, tentei mais uma vez o contato. Nada. Nenhuma resposta. No final de semana anterior ao evento, tentei ainda uma vez, avisando, desta feita que estaria em Braga e que a data e o horário precisos eram necessários para evitar contratempos. Silêncio sepulcral. Tentei, em vão, localizar alguma informação sobre a programação do dito evento na internete. Nada. No dia 14 de novembro – o evento teria início efetivo no dia seguinte – tentei ainda uma vez e, por sorte, à noite, no mesmo dia, encontrei a programação do evento. Para minha surpresa, meu nome não constava em nenhuma das atividades descritas ali. Estranhíssimo. Não sei dizer o que se passou. Meu sentimento foi um misto de tristeza, raiva, surpresa, estupefação, descrença e desdém. Indefinível. Ontem, numa última tentativa, escrevi para o tal Matheus Pereira, não para pedir explicações, mas para explanar sobre o misto de reações descrito acima. Creio que jamais receberei resposta. De qualquer jeito, não quero deixar o texto da conferência escondido num arquivo qualquer do meu laptop. Trago-o aqui. Pode ser longo. Não me importa. Foi o que escrevi. É o que desejo partilhar. Tomara que quem o ler venha a gostar. Punto i basta!

Dos inefáveis prazeres do incômodo

Escreve Jentsch: ‘Ao contar uma história, um dos recursos mais bem-sucedidos para criar facilmente efeitos de estranheza é deixar o leitor na incerteza de que uma determinada figura na história é um ser humano ou um autômato, e fazê-lo de tal modo que a sua atenção não se concentre diretamente nessa incerteza, de maneira que não possa ser levado a penetrar no assunto e esclarecê-lo imediatamente. Isto, como afirmamos, dissiparia rapidamente o peculiar efeito emocional da coisa (...).’

Sigmund Freud, “O estranho”

Acredito que o que vou dizer reflete e ecoa a ideia central da epígrafe. Isto porque a ideia de estranheza, de algo inexplicavelmente familiar, mas quase absolutamente inusitado é a que me move a dizer o que vou dizer, da maneira que o digo. Dado que recebi o convite para falar hoje do Matheus Pereira, mestrando em Literatura, pelo Programa de Pós-Graduação em Letras, da UFPB, sob a orientação do Prof. Dr. Hermano Rodrigues, Coordenador do Grupo de Pesquisa Literatura, Gênero e Psicanálise – LIGEPSI, resolvi fazer uma homenagem a eles, em forma de agradecimento particular, elegendo esta mesma perspectiva para a minha apresentação. Não vou fazer análise de nenhuma das obras de José Saramago, nem mesmo, ensaiar um tratado sobre as relações possíveis entre Literatura e Psicanálise. De fato, pretendo apenas alinhavar observações que, ao longo de minha carreira profissional, e ainda hoje, ainda me assaltam e instigam, quando da leitura dos livros de José Saramago. Dado que estou aposentado desde 2018, vivendo atualmente, com intenso e absoluto prazer, o ócio criativo, creio que terei muito prazer em fazer o que pretendo. Claro está que, o agradecimento é mais que sincero, pois encheu-me de vaidade e admiração. Vamos lá então.

Antes de entrar no assunto que me traz aqui hoje, gostaria de contextualizar, ilustrativamente, o que vou dizer, trazendo uma postagem que fiz no dia 18 de novembro de 2019, em meu blogue (Psicanálise – Blogue do Foureaux: a minha expressão verbal (wordpress.com), a propósito do filme Joker. Pode parecer estranho, mas creio que vou conseguir demonstrar o teorema que imaginei para esta fala. Vamos lá. O que dizer de Joker? A atuação de Joaquin Phoenix é inquestionavelmente impecável. Tenho de reconhecê-lo, apesar de dele não gostar. Impecável. O phisique du role é impressionante. Seus movimentos corporais, numa verossimilhança incontestável – no que diz respeito à personagem, seu modus operandi, a trilha sonora e ao roteiro da história – tudo faz jus ao elogio deste, aqui, pobre ignorante em cinefilia… Gostei do filme. Só não vejo muito sentido no alarido que se formou aqui e ali depois de seu lançamento. Dizem que comparações são inevitáveis. Porém, tudo o que li sobre este tópico não me agradou. Isso porque penso que Joker, por si mesmo, é incomparável com outras versões da mesma história. In-com-pa-rá-vel. Vejamos se sou capaz de explicar isso, ainda que indiretamente. Repito: gostei do filme, mas não me agradei do que li sobre ele. Isso porque não vejo pontos em comum com as demais apropriações desse arcano cultural do ocidente capitalista envolvendo uma sociedade, digamos, “líquida”. O significado do termo que dá título ao filme, em jogos de cartas, desaparece na narrativa desta versão cinematográfica dirigida por Todd Phillips. O imaginário por ele criado, em nada e por nada, é similar ao que se percebe nas demais versões. Já, já digo o porquê. O Coringa, neste filme, não é debochado, amoral, cínico ou venal. Sua “personalidade” desviante – esta é uma palavra-chave para “entender” o filme na perspectiva em que o entendo depois de vê-lo – não se assenta em marginalidade histriônica, canhestra, moralista, criminosa, como nas demais versões do ícone. De fato, penso que esta versão é “definitiva”, para dar sentido igualmente definitivo a outro ícone, o Batman. O Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Philips é uma criatura anterior ao Batman. Portanto, não é seu antagonista. Não é apresentado em narrativas – como a similar das demais versões de si mesmo – como inimigo da sociedade, por extensão de sentido de seu “defensor”, o homem-morcego. Não. A cena matrix do ícone Batman, o assassinato dos pais de Bruce Wayne – até prova em contrário, a célula mater do drama vivido pelo menino que se transforma no homem morcego, num movimento de retaliação, recuperação, retorno do recalcado e, porque não, messianismo –, acontece em decorrência do efeito causado pelo ato do Coringa num programa de televisão. Previsível? Sim, claro, por que não? No entanto, nem por isso desprezível. Ao contrário. O absurdo e inesperado ato é o estopim da reação popular que, aparentemente, não é compreendida pelo próprio olho do furacão, o Coringa. Ele quase não se dá conta de que o que está acontecendo à sua volta, quando acorda do desmaio causado pelo abalroamento do carro em que se encontrava. De fato, penso, baseado nesta observação, que esta versão é definitiva.  Depois deste filme, qualquer versão de origem da personagem ícone, lenda urbana e quejandos, cai por terra. A inversão cronológica dos fatos corrobora a outra faceta igualmente definitiva desta versão. O psicótico Coringa, de Fênix não é simples reação. É criação. Há uma inversão aqui. E isso é tudo. O drama psiquiátrico vivido pelo Coringa não pode ser reduzido ao acúmulo de reações contrárias ao bom funcionamento comportamental da sociedade. Neste sentido, ele não é um opositor de Batman, não representa o mal, não é um criminoso contumaz, é um psicótico, acredito, com alguma distância da chancela de psicopata. Mas não sou médico, sou apenas um sujeito que viu um filme e dele gostou. O “romance”, por detrás do filme, é de “formação”. Nada mais contundente que a cena em que ele mata sua mãe.  Édipo invertido. Ali, numa clivagem incontornável, o Coringa nasce para si mesmo. A sequência seguinte à janela da enfermaria parece corroborar isso. A personagem de Robert de Niro convence como estereótipo do indiferente sarcasmo ou da sarcástica indiferença que marca boa parte das subjetividades pós-modernas que se jugam superiores e, por que não, politicamente corretas. Como tinha lido alguma coisa sobre o filme, não me surpreenderam as cenas da morte do colega de trabalho, brutal, e do apresentador do talk show, assustadora. O discurso do Coringa durante o programa de TV beira a pieguice e o moralismo típico da cultura ianque. É desnecessário alongar comentários. Por fim, a sequência inicial do filme causou em mim o mesmo impacto e a mesma reação de quando vi O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg. Ainda não consigo verbalizá-los, mas são os mesmos, têm a mesma intensidade: concretos, densos, irrecorríveis. Joker é mesmo um filme muito bom!

Bem. Meu desejo de começar com esta postagem se deve ao fato de que, ao fazer uma rápida pesquisa para elaboração desta conferência, notei que há uma incidência muito grande de estudos, análises, resenhas e críticas sobre os livros de José Saramago circunscritos a uma perspectiva psicanalítica de abordagem. A Capes registra 9.469 entradas em seu catálogo de Teses e Dissertações, a partir do binômio Saramago e Psicanálise. Isso talvez respalde a minha ideia de que o cansaço da crítica acerca da obra de José Saramago se faz evidente, como vou comentar mais adiante. Simultaneamente, o mesmo dado revela que a articulação com a Psicanálise tem forte impacto na construção desta mesma crítica. Na mesma consulta, o mesmo catálogo registra 113.216 entradas, quando o binômio é Saramago e História; 33.900 entradas para o binômio Saramago e Filosofia, 26.174 para Saramago e Sociologia e 12.775 para o binômio Saramago e Antropologia, para ficar com apenas alguns indicadores do campo largo das Humanidades. A consulta foi feita no dia 23 de setembro do corrente. Faço aqui esta referência a título de curiosidade, dado que resolvi desenvolver minha apresentação a partir do primeiro binômio, pelos motivos expostos logo de início.

Saramago é um autor que anda a merecer um descanso por parte de seus “críticos” e daqueles que insistem em se chamar de teorizadores, fazendo uso do texto ficcional como se este fosse mera massa de pastel a ser esticada e recheada por sabe Deus o quê. Já anda repetitivo demais o carroção de análise das obras do escritor português, por isso, o descanso. No entanto, recentemente, mais exatamente em 26 de fevereiro de 2016, na casa da escrita, em Lisboa” Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, proferiu conferência cujo título é “À mesa com a ficção de José Saramago: casa onde não há pão todos ralham (quase) sempre com razão”. A conferência, em seu todo, mostra como – ainda que, como eu disse, já muito repetitiva – a crítica da obra de Saramago pode criar momentos luminosos de curiosidade inusitada, como é um caso. Tomo a liberdade de citar uma passagem inicial da conferência, para ilustrar:

“Sistematicamente convocada pelos autores, ou pelos narradores em sua substituição, a alimentação contribui, portanto, para criar o efeito de real de que nos fala Roland Barthes, aumentando o grau de credibilidade do texto. Afinal, se não comêssemos não sobreviveríamos.

É assim, por exemplo, que em História do cerco de Lisboa sabemos do café com leite e das torradas com manteiga comidas ao pequeno-almoço por Raimundo Silva (p. 55) – um gosto matinal partilhado com Ricardo Reis (O amRR, p. 285) –, da “omeleta de três ovos com chouriço”, do “prato de sopa”, da “laranja”, do “copo de vinho” e do “café para rematar” o almoço (p. 38), refeição que também pode ser constituída por batatas cozidas, “para compor o prato de conserva de atum” (p. 113), ou por “carapaus fritos e arroz de tomate, com salada.

Numa outra dimensão, que aqui nos interessa particularmente, a verdade é que a temática da comida pode cumprir bem mais do que propósitos decorativos de verossimilhança, relativos ao que é ser-se humano e adequados às posses económicas da(s) personagem(ns), como ilustram as citações acima transcritas. A referência à alimentação no tecido narrativo pode servir intenções ideológicas precisas, manifestamente atinentes à denúncia das diferenças sociais.” (p. 73)

Neste pequeno trecho, a autora revela uma perspectiva não tão usual para abordar o texto de José Saramago. Já tinha visto algo parecido com Grande serão: veredas, mas este foi um fracasso tão retumbante que não merece mais que referência. O caso da professora portuguesa é diferente. Partindo da consideração da comida, operador de leitura inusitado, ela vai deslindar um panorama social que emerge das relações estabelecidas entre as personagens como “teatro do mundo”, expressão cara a quem gosta de ler José Saramago. Esta inflexão foge do esquema de articulação da obra do escritor português com a História de seu país, um dos pilares do cansaço a que me refiro.

Na esteira do que me proponho dizer hoje, recorro ao meu artigo, “O evangelho segundo Jesus Cristo: notas acerca de um certo parricídio”, originalmente publicado na revista Letras e Artes, da Universidade Federal de Santa Maria, se não me engano em 1993, em que proponho uma inflexão psicanalítica para a leitura do romance que dá nome ao artigo. Trata-se de uma tentativa de pensar uma categoria psicanalítica, a do parricídio, que remete, discursivamente, à do mito de Édipo, na sua conotação clínica – aquela que aponta para a necessidade de constituição de um lugar para o sujeito na conjuntura cultural lusitana de todos os tempos.

Em O evangelho de Jesus Cristo, o protagonista duvida da própria divindade. As aparições de Deus estão sempre envoltas em fumaça e em obscuridades, o que não aparece nos textos da tradição bíblica. (...) Jesus Cristo fica sempre reclamando de seu pai a contraparte de um projeto que o envolve, mas que não o considera para negociações necessárias à conclusão do mesmo. (...) O parricídio se oculta na repetição do mistério cristão: a encarnação de Cristo. Estou pensando nos remorsos do carpinteiro José e nos sonhos de Jesus, que salpicam a narrativa de Saramago. Em ambos, a morte do pai aparece simbolicamente representada como a exigir a solução de um enigma. O sucesso da empreitada é de uma impossibilidade insofismável. Freud afirma que o homem – que o mesmo Freud qualifica de “moral” – é aquele capaz de reagir à tentação, tão logo a sente sem seu coração, sem submeter-se a ela. Trata-se, então, de um homem que peca e depois, sem remorso, exige padrões elevados morais, expondo-se à censura de tornar as coisas fáceis demais para si mesmo. É o sujeito que repete essas ações, sempre alternando entre o pecado e a culpa. Jesus Cristo, pelo menos o que está presente no texto de Saramago, pode ser lido como esse “homem moral”, na economia ficcional do texto. Seu pecado pode ter sido o sonho de realmente ser filho de Deus. A tentação era grande, tanto que ele tenta, desesperadamente, reagir, mas vai-se conformando com o destino que lhe é imposto. O nome de Deus, nome-do-pai, é evocado diversas vezes e o remorso aloja-se como desejo recalcado na figura ambígua e manca de José, o carpinteiro, o marido da mãe de Jesus. Marido sim, porque seu nome não fica inscrito na personalidade de Jesus. A figura do pai, então, tem que aparecer morta, para que o ciclo se feche e a alternância, como referido acima, se desfaça de uma vez por todas. Talvez a obediência seja o signo dessa conclusão: obediência que é ironizada nas últimas palavras do Jesus de Saramago, fazendo blague com as célebres “palavras” relatadas nos Evangelhos, como ao final do romance:

“Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua vez ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois foi morrendo no meio de um sonho (…). (SARAMAGO, 1991, p. 444)”

No universo ficcional do evangelho escrito por Saramago, o parricídio é mais que necessário, ele é, mesmo, essencial. Sem ele, a moralidade do homem Jesus esfacelar-se-ia. Jesus quer ser como os homens de sua época, mas esbarra no desejo interdito da perfeição divina. Divindade inexplicada e inexplicável que se inscreve no remorso de José. Ele sabia que Herodes ordenara a morte dos primogênitos com menos de um ano. Sabia e não avisou a ninguém. Sabia e fugiu com a família. Não cedeu à tentação. Não é um homem moral. Do contrário, as coisas teriam sido fáceis demais. A salvação dos primogênitos teria confirmado a divindade de seu próprio filho? Ele não suportou a dúvida. Preferiu acreditar que sim para não aceitar a facilidade da outra opção. Excludentes, esses dois encaminhamentos possíveis não dariam conta de determinar a verdade dos fatos: aquela verdade que José procurou até morrer. Atormentado pelo remorso, ele matou a imagem divina da paternidade que gerara Cristo. Repulsa e desejo: elos de uma corrente que ensandece José. Ele não simboliza a sua refeição totêmica e emblematiza a denegação da imagem do homem moral de que Freud falava. O trecho de meu artigo desenha bem o perímetro da injunção psicanalítica a que me proponho lá e aqui. O tema do parricídio, indireto, na leitura que faço da ficção de Saramago ilustra uma vertente ainda pouco explorada, creio eu. Pelo menos, da maneira que eu acredito deva ser desenvolvida.

Como já é sabido, o conjunto de obras de José Saramago pode ser abordado em ciclos, como quer Ana Paula Arnaut, em artigo publicado na revista Ipotesi (IPOTESI, Juiz de Fora, v. 15, n. 1, p. 25 -37, jan./jun. 2011):

“Cumpre relembrar, a propósito, e de acordo com uma breve mas necessária contextualização, que o primeiro ciclo de produção literária saramaguiana decorre entre Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e Ensaio Sobre a Cegueira (1995), exclusive. Neste período verificamos uma enorme apetência pelo tratamento de temas históricos, directa ou indirectamente relacionados com a História e com a Cultura portuguesas, seja de um passado mais remoto seja de um tempo mais recente. Por isso julgamos conveniente usar a designação de ciclo dos romances da “portugalidade intensa”, adotando uma sugestão de Christopher Rollason (ROLLASON, 2006, p. 113; ARNAUT, 2008, p. 42). O segundo ciclo, por conseguinte, abarca os romances publicados entre Ensaio Sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, exclusive. A delimitação feita no âmbito desta fase dos romances de teor universal ou universalizante diz respeito quer à utilização de estratégias que evidenciam o culto de temas de cariz mais geral, quer a uma reconhecida ressimplificação da linguagem e da estrutura da narrativa (SARA MAGO, apud REIS, 1998, p. 43; ARNAUT, 2008, p. 40-43).

Na reescrita da História Portuguesa ou na escrita, por vezes prospectiva, da História da Humanidade (as duas, afinal, sempre e inevitavelmente interligadas), o narrador tem permanentemente por objectivo a exposição clara de preocupações de teor humanista e humanitário, ora denunciando as violações aos mais elementares direitos do Homem, ora alertando para os perigos resultantes da globalização, de complicados jogos políticos e/ou religiosos, ou de sistemas repressivos que transformam o Homem em criatura aviltante.

No caso dos romances que compõem, por enquanto, o terceiro ciclo de produção ficcional, e que, por motivos que adiante explicaremos, propomos designar como “romances fábula”, julgamos que a linha diferencial relativamente aos anteriores se instaura, por um lado, a partir de novas ressimplificações.

Estas não passam apenas, e mais uma vez, pela linguagem ou pelo que vemos como uma maior obediência à sintaxe e à pontuação tradicionais, ou, para o mesmo efeito, pela (re)ressimplificação da estrutura da narrativa, agora mais de acordo com as regras da narratividade. Por outras palavras, mais obediente ao princípio de uma apresentação cronologicamente sequencial, logo com menos “direcções irradiantes que se vão dividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista” (SARAMAGO, 1997, p. 135). A diferença substancial que lemos em As Intermitências da Morte, A Viagem do Elefante e Caim é relativa, sim, por outro lado, ao tom marcadamente cómico e à cor, agora mais suave, a que o narrador/autor recorre para construir a acção, os temas que a percorrem e as personagens que lhe dão vida.”

A autora continua com suas considerações para desenvolver o tópico a que se restringe no artigo do qual retiro o trecho citado acima. Não vou seguir por seu caminho. Quis fazer a referência3 apenas para apontar que a obra de José Saramago, na perspectiva em que a abordo aqui, pode se prestar a organizações discursivas mais ou menos explícitas, o que, de certa forma, facilita o trabalho de recorte crítico/teórico como que aqui menciono.

Estou escrevendo um livro de ficção. Não sei se posso chamar de romance. Nele há duas personagens que são psicanalistas. Um é supervisor do outro. A certa altura, numa das sessões de supervisão, o psicanalista comenta sobre um de seus pacientes e fala de ciúme. Faz referência ao romance de Saramago, Caim. Em seu comentário, o psicanalista (que não tem nome) diz que o que motivou Caim a matar Abel foi o ciúme por ser, o irmão mais novo, o preferido. O supervisor pega o fio da meada e emenda que no fundo, no fundo, antes do ciúme, está o desejo de ser como o outro. Sendo mais velho, Caim, enciumado por ter no irmão, inconscientemente, um rival, começa a alimentar o desejo de ser como ele, de tomar seu lugar. Uma espécie de repeteco do Édipo. Com a verve irônica do autor, acredito que esta abordagem, se sustenta. No frigir dos ovos, o que me faz comentar isso, é o fato de eu acreditar que a leitura de um romance – seja qual for a abordagem, escolhida pelo leitor, ou imposta (em muitos casos é assim!) – sempre produz vislumbres inesperados, epifanias, constatações inexplicáveis, mas plausíveis. Assim é com os mecanismos da psique humana, se ficarmos com Freud. Na senda por ele aberta, Lacan reforça o axioma com o auxílio da articulação que propõe com a linguagem.

Em Caim, romance de 2009, a Psicanálise pode ser suscitada como arcabouço teórico de abordagem. A história bíblica do fratricídio, neste caso, ultrapassa os estreitos limites da tragédia ou do dramalhão ficcional para suscitar a abordagem de um sentimento muito comum: o ciúme. Ainda nesta perspectiva, os limites seriam estreitos. om o apoio da Psicanálise, acredito que se pode ampliar esse horizonte de expectativas. Na relação fraterna entre Caim e Abel, por conta do desenvolvimento da narrativa bíblica, encontramos farto material para a consideração do tópico da identidade, como quer a proposta de Freud. Não vou desenvolver uma análise deste romance, no entanto, não me custa pontuar que a relação entre Caim e Abel. A pena de Saramago pinta, com as tintas da ironia refinada, quase galhofa, um drama vivido por qualquer sujeito: o de encontrar seu lugar na sociedade, na cultura, na tríade familiar, como quis Freud. Insatisfeito, ele mata o irmão para tomar seu lugar. Este movimento é inconsciente, por óbvio. Por isso mesmo, a Psicanálise atua de maneira fecunda ao dar suporte às assertivas paródicas de José Saramago. Não acredito que haja piada, humor, anedota no contexto desta obra. No entanto, a inversão irônica do discurso, marca registrada do autor, deixa ampla margem de especulação – no sentido mais positivo e rentável do termo – acerca do que proponho como instrumento de abordagem do texto do romance. De mais a mais, sempre é bom lembrar que o que se diz a partir da leitura de um romance é, antes de mais nada, fruto dessa mesma leitura. Arrisco-me a afirmar que não passa disso, por força da impossibilidade se fixar uma suposta verdade que estaria guardada a sete chaves pelo poder autoral de quem escreveu a história. Esta pode ser uma boa discussão derivada da que aqui esboço. Não vou me estender pois não estou a analisar o romancista. Mas não resisti à tentação de externar essas ideias.

Em O homem duplicado, de 2002, José Saramago apresenta uma história tão inusitada, quanto fascinante. O acaso parece ser a chave para o mergulho no universo ficcional criado pelo autor. O romance tem um enredo tão engenhoso quanto perverso, como costumam ser as histórias de Saramago. Descreve a estranha situação de um homem de vida absolutamente pacata – um professor de história do ensino médio, sem maiores veleidades intelectuais – que, ao assistir a um vídeo medíocre, descobre ali o seu duplo, um ser exatamente igual a ele, nos mínimos detalhes e cicatrizes, mas que ganha a vida como ator secundário em filmes baratos. O protagonista queda perplexo por conta de sua descoberta. Diante da surpresa parte para uma pesquisa que pode, muito bem, ser associada ao processo clínico da Psicanálise, com todos os seus desvãos e chavões. A história corre para um final desavisadamente inesperado, depois que o protagonista, na pena do autor, se vê diante de um de espelho. Sua obsessão se aproxima de uma espécie de vingança que beira a paranoia. Neste romance de Saramago, como soe acontecer, toda primeira conclusão é precipitada. Nas entrelinhas, permeando a estrutura, o espalhafato do roteiro esconde um universo de nuances psicológicas. O mais importante nisso tudo é o processo que, penso, pode ser ilustrado com o seguinte trecho:

“Significa, sim, que muito bem poderá uma pessoa, homem ou mulher, estar a despedaçar-se no seu interior por efeito da solidão, do desamparo, da timidez, daquilo que os dicionários descrevem como um estado afectivo desencadeado nas relações sociais e com manifestações volitivas, posturais e neurovegetativas, e não obstante, às vezes até por causa de uma simples palavra, por um dá-cá-aquela-palha, por um gesto bem intencionado mas em excesso protector, como aquele que há pouco escapou ao professor de Matemática, eis que o pacífico, o dócil, o submisso de repente desaparecem da cena e em seu lugar, desconcertante e incompreensível para os que da alma humana já supunham saber tudo, surge o ímpeto cego e arrasador da ira dos mansos. O mais normal é que dure pouco, mas dá medo quando se manifesta. Por isso, para muita gente, a prece mais fervorosa, na hora de ir para a cama, não é o consabido pai-nosso ou a sempiterna ave-maria, mas sim esta, Livrai-nos, Senhor, de todo o mal, e em particular da ira dos mansos (SARAMAGO, 2008, p. 44).”

De um jeito ou de outro, creio estar claro que a articulação psicanalítica da leitura dos romances de Saramago, para além de plausível, é instigante e contundente, ainda que se possa subscrevê-la ao que eu chamei de cansaço da crítica à obra do escritor português. Ainda assim, vale mais um exemplo. Neste caso, o romance é Todos os nomes. Trata-se de outra possibilidade de percorrer as veredas conceituais da Psicanálise, desta vez de maneira mais explicita, acredito. Após sua decisão por perquirir o passado da mulher desconhecida, o protagonista passa a deambular pela cidade, a procura dos locais por onde possa descobrir algo sobre o passado de sua presa. Aqui está um fio de meada para a abordagem psicanalítica: o sair de casa. Sendo a casa espaço da identidade fixa, mais centrada e localizada, a saída deste espaço configura, por um lado, a busca de satisfação de um desejo, impossível de ser encontrado no espaço confinado. Por outro lado, essa mesma saída remete para a ideia de volta, como no caso do filho pródigo. Não há como negar a plausibilidade da ilação com a ideia de retorno do recalcado. A coincidência entre os nomes do autor e do protagonista também é outro sintoma desta mesma possível ilação, se não me equivoco. Duas passagens podem, a meu ver, ilustrar o que estou a dizer:

“É nesta casa que vive o Sr. José. Não foi de propósito, não o escolheram a ele para ser o depositário residual de um tempo passado, se calhou assim foi só por causa da localização da vivenda, encontrava-se ela num recanto que não prejudicaria o novo alinhamento, logo não se tratou de castigo ou de prémio, que não os merecia o Sr. José, nem a um nem a outro, permitiu-se que continuasse a viver na casa, nada mais.”

E mais adiante:

“Abriu o armário dos impressos, tirou um de cada modelo e voltou para casa, deixando aberta a porta de comunicação. Depois sentou-se e, com a mão ainda trémula, começou a copiar para os impressos em branco os dados identificadores do bispo, o nome completo, sem lhe faltar um apelido ou uma partícula, a data e o lugar de nascimento, os nomes dos os nomes dos pais, os nomes dos padrinhos, o nome do pároco que o baptizou, o nome do funcionário da Conservatória Geral que o registou, todos os nomes.”

É fato, quase incontestável, que a história da humanidade é perpassada pela história do sujeito que, por sua vez, acaba por constituir uma identidade, digamos, multifacetada, ou talvez, volátil, ainda que enraizada na linguagem. Um jogo de idas e voltas que se realiza entre as configurações identitárias que vão tomando lugar ao longo do tempo. É como uma sequência não cíclica, em que uma estrutura de identidade aberta é promovida pela desarticulação das identidades estáveis anteriores a si. Em outras palavras, a tal identidade passada é (re)escrita no presente. Se isso não ilustra a ideia de retorno do recalcado, como aventado acima, não sei mais nada. Contudo, a escritura, como no caso do romance de José Saramago, abre a possibilidade de criação de novas identidades e a produção de novos sujeitos. Como se costuma pensar, trata-se de recompor uma estrutura em torno de pontos nodais particulares de articulação. Aqui, com a articulação entre Literatura e Psicanálise, a associação dos sintomas que a escrita ficcional revela, como na clínica, através de uma narrativa.

No caso de Todos os nomes, o relevo do espaço reside na sua capacidade de guardar o rasto do que passou, que pode ser alterado mediante, por exemplo, o desaparecimento, voluntário ou não, de papéis. A Conservatória e a casa são, pois, lugares de construção de inúmeros passados, variáveis identidades, cruzando ficcionalmente mortos e vivos; permitindo que se negue a morte “burocrática”, como acontecerá quando o Sr. José, o protagonista, que destrói a certidão de óbito da mulher desconhecida: “Era preciso, sim, rasgar ou queimar o original, onde fora averbada uma data de morte” (278). O tal jogo de substituições, mesmo que por vias diversas, se realiza. O processo continua.

Abordamos o texto com a intenção de construir, com seus elementos narrativos, um discurso de base psicanalítica. Este é um movimento acertado, ainda acredito. No entanto, certos pré-conceitos, figuras operacionais da pré-compreensão do texto, apreendida de uma primeira leitura, têm que escutar a própria vez do texto. Persiste a obrigação de ouvir dele a resposta positiva às indagações que a leitura sugere. O caráter primário destas observações não deixa de apontar para a necessidade de contínuas tentativas na manutenção desse dialogo interpretativo. Determinado o horizonte de interpretação, é possível, então, começar a trabalhar os elementos significantes para a elaboração do discurso pretendido. Está aí uma brevíssima síntese do trabalho realizado quando se aborda psicanaliticamente um texto ficcional. Com ele, é impossível não perceber, ainda, na prática, a verdadeira significação assumida pelo texto a partir do olhar do leitor sobre a coisa lida. Isto quer dizer que é plausível elaborar outro discurso a partir dos mesmos elementos, sem deixar de mencioná-los e até utilizá-los em outra perspectiva, em outro horizonte. Isso quer dizer que não se chega a um ponto conclusivo nas possibilidades de interpretação do texto ficcional, na perspectiva aqui estabelecida. A tentativa de interpretação busca e consegue operacionalizar conceitos apreendidos do estudo teórico-conceitual da Psicanálise e seus problemas, tudo isso adstrito ao campo dos estudos literários. Há de se dar o devido desconto pois, para o nível a que se propõe, não seria justo pedir, a cada leitura, um trabalho exaustivo, que esgotasse todas as possibilidades.

Contrariando uma de minhas chatices acadêmicas, concluo com uma citação. Ela é tirada do livro A palavra e os dias, de Edward Lopes. Esta é uma coisa que procurei não fazer durante os 32 anos de magistério. Como diz o adagiário: não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Pois bem. A citação é a seguinte:

“Trazer alguma coisa de volta, para o desesquecimento: quando começa canhestramente a marinhar pelos primeiros degraus da sua escada de Jacó particular, todo pobre de Deus que escreve aprende, aos poucos, às suas próprias custas, o que isso quer dizer. E não pela razão – porque não foi esse truão do conhecimento quem lhe ensinou isso, foi, ao contrário, um carma luciferino, o mesmo que lhe soprou nas ventas, a um tempo, o fogo estigmatizador de seu ofício de escrevinhar e o abrasador alento com que o pobre diabo que rabisca sobe, às vezes, e às vezes – ah! demasiadas vezes! – baixa pelos degraus dessa escada; não, o escritor que vale a pena não é nunca adestrado pelo bobo da corte da razão, mas pelas Fúrias que o penetram em suas insônias, no mínimo a Nêmesis que cada sujeito que escreve incorpora à força em seu couro, como um cavalo de Umbanda possuído por um orixá incontrastável, a que sele empresta sua temerosa voz e sua desajeitada expressão, mas expressão verdadeira, como quer que seja, em quanto finge no furor do seu transe. O que há de notável, então, que, joguete das obscuras forças que o dominam, o escritor oscile e mude ao sabor das mudanças que as palavras e os dias imprimem a tudo que alternadamente criam e devoram, como Cronos a seus filhos? Ao fim e ao cabo, a mudança é movimento, o movimento é a expressão física, espácio-temporal, de um querer, e o querer é vida. Ser é estar sendo transformado, ser é vir a ser – tudo o que vive se metamorfoseia e se converte em algo diferente de si mesmo. (LOPES, Edward. A palavra e os dias. São Paulo: Edusp; Campinas: Ed.Unicamp, p.22-23.)”

Muito obrigado.

Abraço

Foureaux, 02.10.21

O texto do cardeal fala por si. Contundente. Belo.

Breve introdução à arte do abraço

O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio

Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho. O abraço tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade de entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e motivos, cedendo, nem que seja por instantes, na defesa do espaço individual. Há uma tipologia vastíssima de abraços, e cada uma delas ensina alguma coisa sobre aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e embalo, afeto ou paixão. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.

No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração. “Em teu abraço eu abraço o que existe,/ a areia, o tempo, a árvore da chuva./ E tudo vive para que eu viva” — garantem os versos de Neruda.

Calcula-se que um ser humano precise de 1500 abraços por ano para sobreviver. Dá uns quatro abraços por dia. Mas os números podem subir, pois encontram-se instruídos nessa humaníssima ciência chamada abraçoterapia a defender 12. Está também calculado – para quem ache graça à semântica dos números – que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de três segundos. Mas há abraços mais demorados. O dos chamados “amantes de Valdaro”, por exemplo, tem pelo menos 6000 anos. Trata-se de dois esqueletos que remontam ao Neolítico, descobertos, há não muito tempo, numa necrópole perto de Mântua. Crê-se que pertenceram a uma mulher e um homem, entre os 18 e os 20 anos. Representam algo de único no mundo, quer pela antiguidade, quer pela posição em que foram encontrados: os corpos vizinhos e cruzados, o braço dele em torno do pescoço dela, numa espécie de abandono que talvez tenha sido o de um amor. Não há sinais de violência e, por isso, exclui-se a hipótese de terem sido mortos. O mais provável é que tenham perecido a uma doença, de fome ou de frio. Há 6000 anos, porém, o seu abraço permanece inalterado.

Um dos momentos mais extraordinários da arte contemporânea portuguesa é a sequência fotográfica, de Helena Almeida, intitulada “O Abraço”. São sete imagens de grandes dimensões (180 x 100 cm) em que a fotógrafa e o marido se abraçam. Apenas isso. Estão ambos sentados num banco que só dá para uma pessoa e apertam-se, agarram-se, suplicam-se, buscando no outro amarra, como se navegassem numa jangada destinada a um naufrágio irremediável. Por vezes o abraço deles parece uma luta, por vezes um reencontro para sempre. Os corpos dão-se a ver numa fragilidade que dói, num equilíbrio mais do que precário, instáveis e tensos como não se julgaria. Mas são, em todo o tempo, o radical abrigo um do outro, a passagem mais do que a fronteira, o interminável espanto de reconhecer no corpo do outro o nosso, no nosso o do outro.

[José Tolentino Mendonça | A Revista Expresso | Edição 2256 | 22/01/16]