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As delícias do ócio criativo

25.09.25

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Pensando no que escrever depois de (mais um!) lapso de tempo, deu-me um estalo e abri o arquivo com as obras completas de Augusto dos anhos, poeta de que gosto imenso. Passei os olhos pelo índice e deparei-me com um título instigante. O poema que a este título corresponde acabou por ser minha postagem de hoje. Sem mais!

Tomara que gostem...

POEMA NEGRO

A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.

Intimamente sei que não me iludo.

Para onde vou (o mundo inteiro o nota)

Nos meus olhares fúnebres, carrego

A indiferença estúpida de um cego

E o ar indolente de um chinês idiota!

 

A passagem dos séculos me assombra.

Para onde irá correndo minha sombra

Nesse cavalo de eletricidade?!

Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:

— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?

E parece-me um sonho a realidade.

 

Em vão com o grito do meu peito impreco!

Dos brados meus ouvindo apenas o eco,

Eu torço os braços numa angústia douda

E muita vez, à meia-noite, rio

Sinistramente, vendo o verme frio

Que há de comer a minha carne toda!

 

É a Morte — esta carnívora assanhada —

Serpente má de língua envenenada

Que tudo que acha no caminho, come...

— Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,

Sai para assassinar o mundo inteiro,

E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

 

Nesta sombria análise das cousas,

Corro. Arranco os cadáveres das lousas

E as suas partes podres examino...

Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,

Na podridão daquele embrulho hediondo

Reconheço assombrado o meu Destino!

 

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.

Então meu desvario se renova...

Como que, abrindo todos os jazigos,

A Morte, em trajes pretos e amarelos,

Levanta contra mim grandes cutelos

E as baionetas dos dragões antigos!

 

E quando vi que aquilo vinha vindo

Eu fui caindo como um sol caindo

De declínio em declínio; e de declínio

Em declínio, com a gula de uma fera,

Quis ver o que era, e quando vi o que era,

Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

 

Chegou a tua vez, oh! Natureza!

Eu desafio agora essa grandeza,

Perante a qual meus olhos se extasiam...

Eu desafio, desta cova escura,

No histerismo danado da tortura

Todos os monstros que os teus peitos criam!

 

Tu não és minha mãe, velha nefasta!

Com o teu chicote frio de madrasta

Tu me açoitaste vinte e duas vezes...

Por tua causa apodreci nas cruzes,

Em que pregas os filhos que produzes

Durante os desgraçados nove meses!

 

Semeadora terrível de defuntos,

Contra a agressão dos teus contrastes juntos

A besta, que em mim dorme, acorda em berros:

Acorda, e após gritar a última injúria,

Chocalha os dentes com medonha fúria

Como se fosso o atrito de dois ferros!

 

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.

Tu mataste o meu tempo de criança

E de segunda-feira até domingo,

Amarrado no horror de tua rede,

Deste-me fogo quanto eu tinha sede...

Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

 

Súbito outra visão negra me espanta!

Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.

A trava invade o obscuro orbe terrestre

No Vaticano, em grupos prosternados,

Com as longas fardas rubras, os soldados

Guardam o corpo do Divino Mestre.

 

Como as estalactites da caverna,

Cai no silêncio da Cidade Eterna

A água da chuva em largos fios grossos...

De Jesus Cristo resta unicamente

Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente

Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

 

Não há ninguém na estrada da Ripetta.

Dentro da Igreja de S. Pedro, quieta,

As luzes funerais arquejam fracas...

O vento entoa cânticos de morte.

Roma estremece! Além, num rumor forte

Recomeça o barulha das matracas.

 

A desagregação da minha Ideia

Aumenta. Como as chagas da morfeia,

O medo, o desalento e o desconforto

Paralisam-me os círculos motores.

Na Eternidade, os ventos gemedores

Estão dizendo que Jesus é morto!

 

Não! Jesus não morreu! Vive na serra

Da Borborema, no ar de minha terra,

Na molécula e no átomo... Resume

A espiritualidade da matéria

E ele é que embala o corpo da miséria

E faz da cloaca uma urna de perfume.

 

Na agonia de tantos pesadelos

Uma dor bruta puxa-me os cabelos.

Desperto. É tão vazia a minha vida!

No pensamento desconexo e falho

Trago as cartas confusas de um baralho

E pedaço de cera derretida!

 

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.

Eu, somente eu, com a minha dor enorme

Os olhos ensanguento na vigília!

E observo, enquanto o horror me corta a fala

O aspecto sepulcral da austera sala

E a impassibilidade da mobília.

 

Meu coração, como um cristal, se quebre;

O termômetro negue minha febre,

Torne-se gelo o sangue que me abrase,

E eu me converta na cegonha triste

Que das ruínas duma cassa assiste

Ao desmoronamento de outra casa!

 

Ao terminar este sentido poema

Onde vazei a minha dor suprema

Tenho os olhos em lágrimas imersos...

Rola-me na cabeça o cérebro oco.

Por ventura, meu Deus, estarei louco?!

Daqui por diante não farei mais versos.

augusto.webp

27.07.25

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Será muita pretensão de minha parte publicar um poema meu junto a um poema de Mario Benedetti? A dúvida persiste. No entanto, hoje, quando li o do poeta uruguaio, resolvi juntar o que escrevi ontem, durante a manhã, de estalo. Vou ficar na dúvida, mesmo que haja quem diga que não.

Que dure lo que tenga que durar.

Que dure meses, días o años,

que dure uma vida entera,

que dure la eternidade,

que dure um segundo

que dure um sussurro

pero que sea contigo

(Mário Benedetti)

............................................................................................. 

os anéis já não repousos em meus dedos engelhados

será a marca deixada pelo tempo

ainda que os olhos

atentos

não percebam a mudança

o fluxo constante de passagem que evolui

e cessa entre um piscar de olhos

e a lágrima que seca

(Foureaux)

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21.07.25

Morreu uma filha de um homem. Ambos são conhecidos.  Morte não se celebra, nem se critica, muito menos se politiza. Deixando de lado polêmicas e ignorâncias, resolvi fazer uma postagem com este poema do homem que perdeu a filha. Ao ler o título saberão o nome de ambos. Apesar de não mais gostar, como antes, do homem e muito menos da filha (os motivos não são de interesse público porque opinião é coisa de foro íntimo, por princípio), reconheço o talento do homem e de sua poesia. Fica a homenagem, com a chuva de sentidos ensopando a mente de quem for capaz de “ler”. Uživati!

 

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar, ressuscitar no chão
Nossa semeadura

Quem poderá fazer aquele amor morrer?
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito, imenso monolito
Nossa arquitetura

Quem poderá fazer aquele amor morrer?
Nossa caminhadura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão

Quem poderá fazer aquele amor morrer?
Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão

Oh, oh
Drão
Drão
Drão

  

03.04.25

Dualidade.jfif

Acabo de ler, numa postagem de um blogue português em que estou inscrito, a seguinte “chamada”: Como começar a ler Murakami. Por alguns segundos fiquei na dúvida: caio na gargalhada ou irrito-me. Escolha nada difícil... Por um lado, pode parecer petulância, por outro, estupidez. Entre os dois, meu coração balança. Como é que se chegou a pensar na possibilidade (esdrúxula) de se arvorar na empáfia de saber como iniciar a leitura de um livro. Pra fim de conversa (que mal começou!) eu mesmo respondo: abrindo o livro e lendo! Punto i basta. Esse desvio de rota me traz a dois poemas que aí seguem:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte

************************************************************************************

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

O primeiro é do Ferreira Gullar, o segundo, de Leandro Gomes de Barros. Ambos, a meu ver tocam num mesmo ponto: a existência, o saber-se “ser”: questionamento sobre a própria humanidade, ainda que em diapasões harmonicamente diferenciados. Dá o que pensar e, de certa forma, os dois poemas ilustram a “chamada” anunciada no início desta minha postagem. Ambos são lindos. Agora é ler e se deleitar... O poeta maranhense comentou, em entrevista dada, que num dia qualquer, caminhando pela rua, foi parado por algumas pessoas que perguntaram se ele era quem ele era. Na entrevista, o poeta se disse perplexo a se questionar sobre quem ele era exatamente. Disse que atravessava um momento difícil, complicado e estressante, no dia em que foi abordado. Isso o fez pensar se ele era o poeta desejado por quem o abordou ou se ele era ele mesmo, um indivíduo cartorial como outro qualquer... Na dualidade da existência de um só sujeito, a voz poética conclama o leitor para a mesma reflexão. Ou estarei enganado? Já no caso do paraibano, também numa entrevista, ele é perguntado sobre se acredita em Deus. Respondendo afirmativamente que sim, cita o poema que aqui trago. Bela maneira de professar a fé e de apresentar uma questão profunda, abissal, cuja resposta leva toda uma vida para ser elaborada e não é encontrada. Espero que quem chegar a ler esta postagem chegue também a gostar dela.

Suassuna.jfif

Gullar.jfif



 

21.03.25

 
No dia 27 de março próximo passado (adoro essa expressão), defendi minha tese de doutoramento em Letras – Literatura Comparada, no Programa Pós-Graduação em Letras - Estudos Literários, da UFMG. Trinta anos se passaram. Três das professoras que compuseram o júri, que eu saiba, já faleceram: Eneida Maria de Souza, Vera Lúcia Andrade (des)orientadora e Maria Luíza Ramos. As três da mesma universidade que me outorgou o título. As duas outras arguidoras eram de outras universidades: Lúcia Helena Vilela (não tenho certeza de ser este mesmo seu nome), da UFF e Margarida de Aguiar Patriota, da UnB. Esta tinha sido minha orientadora de Mestrado, mas não pode presidir o júri da defesa, então (1988), por conta de um acidente doméstico que acometeu seu, então, marido. Fiz questão de sua presença no júri do doutoramento. Para minha alegria e gratificação, estas duas professoras fizeram uma arguição em regra, com debate primoroso, provocações e questionamento que tomaram duas das seis horas e meia de duração de todo o processo. Quanto às outras duas arguidoras, reservo-me o direito de não dizer nada. A história desse doutoramento é um tanto dolorosa, mas gratificante, na medida em que isso seja possível. Assim endo, hoje, coroa-se um ciclo que levou trinta ano: a publicação de um extenso ensaio escrito a partir do texto da tese. Não levei trinta ano para escrevê-lo, mas na conclusão destes mesmo trinta anos alegro-me com a publicação do livro. Parece que a editora (CRV) de Curitiba, disponibiliza o e-book para venda na Amazon. Não é mais o texto da tese, por óbvio. Trata-se de um extenso ensaio que se debruça sobre quatorze romances lidos para consolidação do corpus da tese: A menina mortaFronteira e Dois romances de Nico Horta, de Cornélio Penna; A crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardo; Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres A paixão segundo GH, de Clarice Lispector; As parceirasA asa esquerda do anjoReunião de famíliaO quarto fechado e Exílio, de Lya Luft. A ideia é estabelecer o parâmetro mínimo necessário para a consolidação de um conceito: o de romance intimista, no âmbito de um intervalo da série histórica da Literatura Brasileira, notadamente aquela produzida pelos quatro autores selecionados, que publicaram os respectivos romances entre a década de 30 e a década de 80 do século passado. Gosto muito deste trabalho. Gostei de revisitar a tese e transformá-la num ensaio. Este gênero de escrita, o ensaio, é fonte de prazeres que a escrita de uma tese impede e condena. No âmbito da síndrome de Macunaíma que não tem cura em mim, quis apenas destacar o fato que me dá uita alegria. Tomara que alguém se digne a ler o livro...

13.02.25

 

Passarinho.jfif

Há um poeta que me causa espécie. Não sei dizer o porquê. Sim esta palavra é acentuada pois tem valor de um substantivo. Basta consultar a gramática normativa da Língua Portuguesa (qualquer que seja o autor) que, entre mortos e feridos, esta verdade científica vai prevalecer. É, de fato, no campo dos estudos linguísticos, uma verdade científica. Por mais que uns e outros queiram desautorizar esta veracidade. Pois bem. O poeta é Mario Quintana. Conheci-o rapidamente em Santa Maria, nos idos de 90 do século passado. Não cheguei a ser apresentado a ele – havia muitos papagaios de pirata em volta, alvoroçados. Um professor do mesmo departamento em que eu trabalhava era amigo dele e dizia ser pessoa muito afável. Depois, um ex-jogador de futebol – pasmem! – o Falcão, acolheu o poeta, então desalojado. Houve até um rumoroso boato dizendo que Mario quintana foi achado no meio da rua, junto com suas malas, pelo jogador e, então, acolhido. Bem... línguas de matildes sempre existiram e dificilmente serão extirpadas da face do planeta. O que me interessa aqui, no entanto é que, no ímpeto de uma ideia que me ocorreu para um livro de poesias, lembrei-me de um “poeminho” do autor gaúcho. Seu título? “Poeminho do contra”:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Para o meu livro, me veio à mente uma paródia:

Seja à mesa ou no balcão

acompanhado ou sozinho

eles tomam chimarrão

eu cafezinho!

Por óbvio, não realizei plenamente a paródia, pois que o sentido do poema “original” não permanece nos versos parodiados, como parece ser o princípio que rege este procedimento poético. No entanto, gostei da brincadeira e já adianto um dos textos que vai compor o futuro livro. O título deste, guardo em “segredo de estado” ... as interpretações são muitas. Há até alguém que afirme que o poeta fazia um protesto de cunho político-partidário... Ainda que imaginação (ainda) não paga imposto e (ainda) não é crime.

Saudades de algumas coisas vivenciadas no período santamariense de minha carreira docente.

Quintana.jfif

 

09.10.24

poesia.jfif

A postagem hoje é resultado do famigerado “seleciona-copia-cola”. Muito prático, na maioria das vezes. Dois poemas. O primeiro não conhecia. Soube dele ao ver um filme de Bille August, O pacto (Pagten, no original), de 2021. Nele, um escritor declama este poema em dinamarquês. Procurei o tio google e ele me mandou a tradução do Manuel Bandeira. O segundo poema, já conhecido (e adorado!), é a mais castiça expressão do que sinto (pretensiosamente) sobre mim mesmo. Não tenho os quilates da poeta, mas sinto-me da mesma forma que ela diz se sentir em seu poema. Os tempos. obscuros e rasos, que nos compete viver têm efeito deletério sobre pequenos prazeres, revividos quando da leitura de poemas como estes dois...

 Anelo

Johann Wolfgang von Goethe

(Tradução de Manuel Bandeira)

 Só aos sábios o reveles,

Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite - em que te geraram,
Em que geraste - sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

Morre e transmuda-te: enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

 ************************************************************************

 Motivo

 

Cecília Meireles


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

 



 

29.07.24

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A última postagem que fiz aqui foi no dia 7 de junho passado. Já lá se vão 52 dias. A mudança para o litoral ainda se faz presente nos detalhes da instalação de coisas numa casa já muito conhecida e pouco habitada, porque temporária até o dia 11 de junho, dia em que aqui cheguei de mudança. Eu poderia ter dito que a mudança foi para Marataízes, no Espírito. Por que não o fiz? Porque, de certa forma, penso que ficaria mais “bonito”, dizer “litoral”, em lugar de dar nome ais boias: citar toponimicamente o meu destino. Pois é. Manias... Estou aqui há quase dois meses, com um intervalo lusitano pelo meio, a repetir uma viagem que faço anualmente e que desejo substituir... bem... não vem ao caso agora. Nesta tentativa de retomada de um ritmo que, já sei, não vai se manter, duas coisas me movem, como motivação para escrever: um poema encontrado ao acaso, enquanto zapeava na tela do celular pela manhã, mais cedo. A outra coisa é a vontade de escrever umas duas ou três páginas sobre as poesias de um amigo (ainda) virtual) o Rolando Paciente, da Argentina. Vamos ver se consigo. O poema encontrado casualmente é um soneto. Peculiar, eu diria, pois não apresenta as características tradicionais consagradas para esta forma poética. É o que segue:

SONETO DE JÓ

Este grito, que é rio amargo, choro

que não é meu apenas, mas de todos

que o filtro das insônias decantou,

ouve-o, Senhor, que é grito de infelizes.

 

Perdi-me e Te procuro pela névoa,

no céu em fogo, no calado mar.

A Teus pés volto. Faça-se o que queres.

Tanto me deste que por mais que tires

 

sempre me resta do que Tu me deste.

Deus necessita do perdão dos homens

e é esse perdão que venho Te trazer.

 

Com o coração rasgado, mas ao alto,

Senhor, te entrego os filhos que levaste

pelo amor dos meus filhos que ficaram.

 

(Odylo Costa Filho, Cantiga incompleta, 1971.)

Quanto ao outro texto, talvez amanhã eu o coloque aqui, talvez depois de amanhã... “quizáz, quisáz, quisáz” (na voz de nato King Cole)

06.06.24


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No “clima”, lembrei-me deste poema.

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

 

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Libertinagem (1930)

 

 

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