Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Rascunho

Foureaux, 28.09.22

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que antes de mais nada ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pessoas perguntam coisas a respeito. Perguntas soltas, às vezes desarticuladas. Ele sabe que todos querem saber o que ele também quer, e não sabe. Ainda. Acredita que com o resultado do que faz seja possível encontrar uma resposta. Ou não. Será que importa mesmo encontrar a resposta? Ele se pergunta, sempre, mas continua. Então... ele caminha. Senta-se e começa os eu trabalho. Aproveita as tonalidades que a luz do sol ou sua ausência oferece, à sua vista, à sua sensibilidade. Se alguém perguntar como é que sabe que está na hora e fazer o que gosta de fazer, ele, sem dúvida, responderá que é incapaz de dizer. Só sabe que percebe que a hora é aquela. Pronto. Ele começa a fazer. O senhor José começa a fazer. Não sabe ainda como vai continuar o que começou, mas vai fazer. Sentado, olhando para o nada, lembra-se do sonho. As mesmas putas. A cidade escura, úmida, em ruínas. As mesmas putas. O ônibus cheio de gente que passa rente à parede das casas. As mesmas putas. As ruas largar que dão em avenidas largas que são conhecidas, mas levam para a rua das putas, as mesmas putas. O ar fétido, umidade excessiva, fumaça, casas em ruínas, sujeira. As mesmas putas. O senhor José não sabia como se livrar das putas. Um incômodo com o qual, dizia sempre, estava cansado de lidar. Não sabia mais o que fazer. Aproveitar os flashes que tinha dos sonhos que sempre se repetiam. Pode ser uma ideia interessante. Não via maneira de se livrar das putas. Foi quando teve a ideia de começar o que começou a fazer. Não falou nada com Zuleica Sueli, mas tinha certeza de que, a certa altura, teria que contar pra ela. Muito curiosa. Boa pessoa, mas muito curiosa. Gostava de se pintar e o Senhor José não se incomodava. Tinha pena, na verdade. Sabia que Zuleica não era mais tão jovem e pensava que o exagero da pintura na cara só fazia tornar mais patética a situação de sua amiga. O senhor José era uma boa pessoa, um bom amigo e, de fato, não poderia ter a mais pálida ideia do que viria a acontecer depois que contasse para Zuleica o que iria fazer. Mas estava decidido. Pronto. Era hora de dormir!

Graciliano Ramos

Foureaux, 01.09.22

Faz tempo, em três palavras destruí quase uma década de literatura. Isso me disse um amigo, à altura. A “destruição” se referia a Graciliano Ramos e sue romance Vidas secas. Naquele momento, não tinha a menor ideia da bobagem que acabava de dizer. O amigo que me disse o que disse, indicou-me três outros livros do autor: Caetés, Angústia e Memórias do cárcere; a serem lidos nesta mesmíssima ordem, se não me falha a memória. Foi o que fiz. E não me arrependi nem um pouco. Agora, aposentado, retomo a leitura de livros que já li e reli, sobre os quais dei aulas e escrevi artigos. Um prazer inolvidável. Assim foi que retomei Infância, que acabei de reler. Que passeio. Numa direção contrária à de Memórias póstumas de Brás Cubas, o livro de Graciliano Ramos faz uma espécie de inventário da infância do autor. Assim dizem e consideram os comentaristas e críticos da obra. Fico como a Maria vai com as outras. A leitura agora é de puro deleite, sem as obrigações de me prender a protocolos e objetivos “concreto” a serem ministrados e depois avaliados pelo corpo discente que tanto, de mim, já ouviu. Uma amiga, comentando sobre leituras e leituras, dize que se trata de um livro cruel. Pode ser. Ainda não tinha pensado este exto de Graciliano sob esta perspectiva. A julgar pelo requinte dos detalhes da voz narrativa e pela agudeza de visão de mundo, sob a lente de uma criança que chega à adolescência (o último capítulo, se não me equivoco, sugere esta passagem, de maneira magistral, obviamente!), a assertiva faz sentido e, até prova em contrário, procede, se sustenta. Fato é que as pessoas e situações encetadas pelo relato. Curioso é perceber que este, dos livros que reli de Graciliano até agora, é o único em que a “urgência” de escrever não aparece. Por outro lado, aparece a leitura de nomes consagrados da Literatura universal, numa espécie de apanágio para o processo de amadurecimento da voz narrativa que se toma como aprendiz constante. Neste sentido, a descoberta de desejos outros, que não o de aprender, abrilhantam o já referido último capítulo de maneira contundente. A linguagem beira a ironia e o escárnio – coisa em nada rara na obra de Graciliano Ramos – fazendo com que a crueldade apontada por minha amiga ganhe consistência relevância, até. A edição que reli é a da Martins Editora. esta edição constitui-se de volumes encadernados em capa dura, com estudos introdutórios assinados por notáveis da crítica literária nacional. Gente que desapareceu do “mercado”, graças à tecnologização dos processos de leitura e, por outro lado, da ideologização das “metodologias” e das “pedagogias” que, em sua “didática” perversas, acabaram por tornar a atividades destes que assinam tais estudos uma coisa “ultrapassada”, atada, para usar o jargão dessa parcela da população. Uma pena. Perdem aqueles que não sabem reconhecer o devido valor das coisas e o lugar que elas ocupam numa linha evolutiva da própria existência humana. OS capítulos de Infância me fazem lembrar de Vidas secas. Neste, cada “retrato” vai se juntando a outro, por uma espécie de fio condutor invisível, tênue, quase etéreo. As personagens vão se sucedendo em situações que acabam por construir um “enredo” que não se quer absoluto e determinante no fluxo de considerações do narrador e de suas personagens. Aqui, em Infância, estas personagens se perdem nas memórias de uma criança que vai avançando no tempo e na experiência de viver. Esta perda, em ada e por nada é pejorativa. Ao contrário, ela faz com que a voz narrativa se percebe um ser em construções e sabe reconhecer valores e lições em sua devida dimensão. Neste sentido, o capítulo em que tece seus comentários (anotados de memória, quero crer) sobre sua experiência com a justiça – eu diria que com a autoridade também – num episódio envolvendo seu pai é de um lirismo (cruel, nas palavras da amiga) cortante. Para usar termo corrente nas rodinhas da moda de hoje: cirúrgico. Ai que preguiça. O vigor de sua indiferença sobre a experiência com o religioso – o episódio que narra a descoberta da vocação religiosa e suas consequências chega a ser hilário – é de uma ironia quase incômoda, não fosse a pena do autor a torná-la legível. Outras passagens da infância num aterra ingrata soam no mesmo diapasão. As descrições – de pessoas, situações, coisas, acontecimentos, espaços e ideias – não foge ao figurino do autor. Um misto de descrença e sarcasmo com a constatação, implícita da inutilidade de tentar fazer o outro compreender o que para quem escreve parecer tão claro. O dilema que, a meu ver, ronda a escrita de Graciliano Ramos não deixa demarcar sua presença aqui. Pode ser que o texto recebe o epíteto de bildungsroman: romance de formação, expressão que identifica o tipo de romance em que o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, intelectual, social ou político de uma personagem é relatado (às vezes ficcionalizadamente) de forma pormenorizada. Geralmente, o “enredo” (as aspas se devem à fluidez do conceito no que diz respeito a Infância) se estende desde a infância da personagem até sua vida adulta. No caso específico deste romance de Graciliano Ramos, vai apenas até o início da adolescência, salvo engano de minha parte. De um jeito ou de outro, é livro de leitura imprescindível para quem diz gostar de Literatura. Fica o convite.

Tédio

Foureaux, 30.08.22

Já faz tempo, eu sabia

que o tédio habita aqui ao lado,

duas casas depois da minha,

descendo a rua.

Não é muito longe,

seu cheiro enche quartos e sala

e banheiro e cozinha

amainando o espírito de quem chega,

nublando sonhos que se perdem no tempo.

Deixando cada coisa em seu lugar

devidamente envolta na pátina da mesmice.

O tédio é amistoso, não interfere

nem cobra nada.

Pasmado consigo mesmo, observa

e, às vezes, sorri, meio de lado

como a conjecturar as asneiras que vê acontecer

aqui e na vizinhança

que nem sonha ser observada com acuidade

como o lince.

Olhar a beirada puída da toalha de mesa

ou a ranhura no pé do sofá,

a sustentar o peso da banalidade que se assenta

e não se movo, nem com a brisa

da tarde outonal que escurece

o espírito.

Nada disso interessa ao tédio.

Companheiro mudo e solidário,

ele passa despercebido de quem apenas visita,

de passagem, como a procurar a novidade

impossível.

O tédio não é mau,

não fere, nem insiste,

persiste em seu canto

quedo e lasso, a espreguiçar-se

no meio de uma sonolência que não cerra pálpebras,

não abre bocas, não causa arrepios,

apenas espreguiça.

Tédio e samba canção se completam.

Ao lado do tango, insiste.

Num adágio, comove.

À frente de um poema, ainda mais calado, sofisma

a descobrir dobras inusitadas

num mesmo e igual exercício de prolongar-se

numa praia deserta

chamada existência.

De vez em quando,

o tédio se encontra com o álcool.

Nenhuma surpresa.

O que pode sem poder

podendo passa

como o eflúvio etílico que enleva e,

ainda assim, derruba,

as quimeras que evolam.

O ar pesado do desânimo esvai-se

e some, como nuvem

desmanchada numa chuva de imprecisões

anotadas a crayon, na superfície enrugada

de papel crepom

para delírio do artista que despreza

a si mesmo e ao desenho

que retrata aquele que podia ser seu companheiro,

o tédio.

Praia de enseada com vento leve de Outono

a espraiar-se num horizonte louro avermelhado

do fim de mais um dia de ócio.

São Martinho do Porto, a beira mar:

sem sonhos rocambolescos,

conquistas inauditas,

projetos senhoriais.

Apenas o mar a sussurrar, de leve,

entre a montanha e o concreto no horizonte

da cidade que, igualmente, observa

sem jactar-se da similaridade

de si com ele

no verso mudo que busca expressão

mais pura e densa,

delírio do poeta,

vingança do tédio.

 

Borboletas dormem

casulo de Outono

Tédio.

 

 

Livros

Foureaux, 18.08.22

Que livro duro.

Que livro triste.

Que livro soberbo!

Faz mais ou menos 45 anos, na Rua Ricardo Tim, em Campinas, conversava com o Rogério, cearense do Crato, noviço do segundo ano. Depois do almoço, era praxe um papinho na “sala de jogos”, ouvindo música – com ele, apenas a erudita. No dia desta conversa, o concerto número 4 para piano e orquestra de Beethoven.  Foi a primeira vez. Deslumbramento. Foi o primeiro ame falar de Literatura, de um modo que me fascinou. Perguntou o que eu achava de Graciliano Ramos. EU disse que era um escritor seco, chato e sem graça. Tinha lido dele apenas Vidas secas, no ginásio, por obrigação, para fazer as famigeradas – hoje extintas – provas de leitura. Não gostei. Ele riu muito. Disse que com três palavras destruí décadas de literatura. Continuamos a conversa e no final ele aconselhou-me a ler Caetés, Memórias do Cárcere e Angústia. Não me lembro se, necessariamente, nessa ordem. Depois de ler os romances indicados – no noviciado, a biblioteca tinha bons e vários títulos em seu acervo – voltamos a conversar. Discutimos muito, falamos de outros autores até que ele viajou ara uma “missão”. Depois disso, ele foi para o Rio de Janeiro, fazer a Filosofia, quando foi expulso da Companhia de Jesus porque lia muito e ficava no quarto estudando, em lugar de jogar conversa fora com outros noviços. Hoje é doutor em Teologia e Filosofia, leciona Filosofia na FASBAM, em Curitiba. Devo a ele, e depois Jose Carlos Barcellos– oportunamente, supervisor de meu primeiro estágio pós-doutoral, que em paz descanse! – a minha iniciação nos estudos de Literatura. Pois então. Reli o tal Vidas Secas. As três primeiras expressões desta postagem, bem diferentes daquela que apresentei ao Rogério, revelam o que sinto hoje, depois da releitura. A densidade do romance é mais que inquestionável. A saga de Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e Baleia é alguma coisa de, simultaneamente, delicado e aterrador. Delicado, porque o autor vai às entranhas de seres que vivem por pirraça, dadas as inumanas condições de sobrevivência a que se vêm expostos. Curioso notar que, na série inicial dos romances de Graciliano Ramos, este é o primeiro a não tocar no tópico do escrever. Este é um ponto que poderia sugerir caminhos para construção de um problema de análise a ser equacionado numa dissertação ou possivelmente resolvido – no mínimo, analisado – numa tese. A dureza da existência de Fabiano não deixa espaço para esse tipo de elucubração. No entanto, seu final, ao sonhar com Sinhá Vitória com as consequências positivas de uma sonhada chuva que, aparentemente, se anuncia, é de um lirismo que beira a esquizofrenia. O contraste com a realidade é abissal. O impossível se manifesta como tábua de salvação para um homem que, a certa altura do romance, pensou em matar seu próprio filho, por conta do trabalho que dava carregá-lo durante a caminhada sertão afora, ou adentro... A travessia, aqui, não tem nada de, digamos, messiânica, como em Guimarães Rosa – pelo menos, penso nesta possibilidade de leitura, ainda que eu não seja um “especialista”. Afinal o que é mesmo um especialista? Ou seria, “especialiste” para subscrever a boçalidade ignorante que grassa a seara pública de quem se diz “antenado” ... Voltando ao que interessa... As idas e vindas morais e éticas de Fabiano deparam-se com obstáculos quase intransponíveis, como quando de seu entrevero com o soldado amarelo. Num “segundo round”, a luta parece concluir-se, para não dizer que a vingança incruenta encontra sua realização. O que interessa, no fundo, é perceber como a dureza da caatinga e da seca não destroem o senso de humanidade e a percepção do que é certo e do que é errado, no universo crestado em que sobrevive o protagonista do romance. Ou deveria dizer um dos protagonistas? A dúvida procede, dado que cada capítulo é dedicado a cada um dos personagens – até a cadela Baleia e o horizonte coberto de aves (agourentas?) – como no capítulo “O mundo coberto de penas” – entram nesta galeria. Assim sendo, cada uma das personagens poderia ser considerada protagonista. O desejo de uma cama de couro, que sustenta a esperança de Sinhá Vitória ou a peleja do menino mais velho com a cabra podem ser lidos como índice do que mencionei acima como esquizofrenia. Nada, no comportamento das personagens pode ser interpretado literalmente, ainda que seja inegável a grandeza e contundência da narrativa. As “condições” de sobrevivência não permitem. Indo por esse caminho, a construção de Fabiano, em certa medida, repete – e esta repetição aqui reveste-se de caráter psicanalítico, portanto, em nada, pejorativa – os passos de outras personagens “centrais”, como nos romances publicado antes de Vidas secas. No projeto de releitura que tenho posto em marcha – o ócio criativo permite esses deleites, hoje absolutamente desconhecidos do pétit monde acadêmico –, só posso fazer esta retrospecção. Pretendo chegar ao fim de todos os romances, tentando observar se esta linha de raciocínio se sustenta. A vontade, no fundo, é a de escrever um ensaio, longo e alentado, procurando delinear linhas de força na/da narrativa de Graciliano. No entanto, preguiça prima dileta do ócio me faz lembrar da quase inutilidade de fazê-lo: que editora se disporia a publicar tal ensaio? Depois de publicado, quem, de fato lê-lo-ia (Adoro mesóclise!)? Há outras dúvidas. As respostas, subliminarmente, eu já sei. Mas fico por aqui, pensando nas perguntas. Vida secas, de fato, é uma peça cuja dramaticidade sobeja requinte e sinceridade. Por isso, duro, o livro, e triste. Na mesma medida vai seu caráter irrecorrivelmente estupendo. não repito o que já se sabe da concisão e personalidade da linguagem de Graciliano Ramos. Deixo de lado as elucubrações consideradas “sociológicas” – daquelas que ficam borboleteando entre questões “políticas” e de “gênero”, veleidades de quem “goza” coma redução de universos ficcionais a estreitos perímetros de equivocada leitura –, por pura preguiça de ter que apontar, nelas, descaminhos, falácias e muita, mas muita falta de leitura. Assim, termino. Calo-me e recolho-me à minha insignificância.

Outro capítulo

Foureaux, 24.05.22

Otacílio Piffio é o nome do livro que tenho tentado escrever. Já tenho dois capítulos que considero “armados”, um outro que há de se colocar em algum do livro “a ser”. Tentei experimentar, com este livro, uma brincadeira que, parece, não deu certo. Publiquei os dois capítulos, um de cada vez. Propus a quem os lesse que tentassem escrever alguma coisa como uma espécie de interferência na história que os ditos capítulos suscitassem na imaginação de quem os lia. Apenas duas pessoas responderam ativamente à proposta. Disso poderia concluir que tenho apenas dois leitores. O que não corresponde à verdade. Sei disso, por conta de alguns comentários e das “sinalizações” que o “sistema” me envia quando alguém “arte” o que escrevi e publiquei no blogue. Sim, com “e” no final. Escrevo em Língua Portuguesa e me dou o direito de aportuguesar o termo originário da língua do tipo Sam de que gosto muito pouco. É isso. Ainda sem saber para que e por que escrevo - mesmo que especulações, inclusive minhas, mão faltem - escrevi mais esse projeto de capítulo, como acima mencionado. A ver onde é que isso vai dar...

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que, inicialmente, ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pessoas perguntam coisas a respeito. Perguntas soltas, às vezes desarticuladas. Ele sabe que todos querem saber o que ele também quer, e não sabe. Ainda. Acredita que com o resultado do que faz seja possível encontrar uma resposta. Ou não. Será que importa mesmo encontrar a resposta? Ele se pergunta, sempre, mas continua. Então... ele caminha. Senta-se e começa os eu trabalho. Aproveita as tonalidades que a luz do sol ou sua ausência oferece, à sua vista, à sua sensibilidade. Se alguém perguntar como é que sabe que está na hora e fazer o que gosta de fazer, ele, sem dúvida, responderá que é incapaz de dizer. Só sabe que percebe que a hora é aquela. Pronto. Ele começa a fazer. Na escrita que desenvolver, se lembra de muita coisa que aconteceu ali, onde morou e onde, por força das circunstâncias, veio a estabelecer o que costumam chamar por aí de império. Ele não acreditava nisso. Seu amigo mais chegado, Otacílio, costumava dizer que um império não é mais que um monte de papéis que vão envelhecendo e que, como acúmulo de pó, acabam por se transformar em castelos. Ruínas, na verdade, seria mais preciso., mas o homem não acreditava em seu amigo. O homem apenas sabia que houve um tempo em que se prendia em escolas destinadas ao ensino da Filosofia. Todos que não eram como ele, os tais “aristocratas” discutiam e aprendiam com seus mestres. Era engraçado pensar na existência de uma Academia, como a de Platão; ou o Liceu, como o de Aristóteles e os Jardins de Epicuro que podem ser consideradas antecipações históricas das futuras instituições de educação superior, as universidades. Isto era apenas História. Sim, História, com “h” maiúsculo... É que o homem era muito chato. Assim não fosse, não teria sobrevivido a tudo o que se passou. Até o momento em que o testamento foi descoberto, o tormento foi grande. Com a leitura do documento de Otacílio, ninguém mais teve coragem de duvidar do que quer que seja. Tudo estava muito claro. Isso era o mais importante para o homem. Em suas andanças pela Praça 13 de maio, sempre se lembrava dos dias ensolarados em Itaara, a beira do lago Sangu. Nome estranho. Como caeté. Mata frondosa. Para além de identificar uma tribo indígena em território brasileiro, mais precisamente entre a ilha de Itamaracá, em Pernambuco até as margens do rio São Francisco, caeté também identifica. uma das duas seções da mata amazônica, a mata verdadeira das planícies, só inundada nas grandes enchentes. Dizem que pode se escrever/falar caaetê – que, até prova em contrário, é a forma “original” da palavra. Otacílio acreditava que a origem está no tupi kaá eté. O homem não sabia o significado disso na língua indígena. Um fato notório é que foi essa tribo, a dos caetés, que devorou o famoso bispo Sardinha. No século XVI, Mem de Sá determinou que fossem todos escravizados. Triste fim... E o nome dele não era Policarpo. Mata densa, mata virgem. Tudo no mesmo nome. E o homem se deliciava com essas curiosidades de sua própria língua. Gostava de conversar sobre isso com Otacílio. Os outros não se importavam. Agora, sozinho, mais que sozinho, falava consigo mesmo. Para não enlouquecer, escrevia. Dialogava com seus escritos, como se Otacílio estivesse ali. O homem era velho. Inteligente e velho, o homem. Continuava acreditando em tudo que viu e ouviu.

Primeira versão II

Foureaux, 30.03.22

Há poucos momentos olhei para o céu, de um dos lados da varanda de minha casa e vi nuvens, grandes, densas, volumosas. Levantei-me. Liguei o computador e deixei que as palavras viessem ao meu pensamento, escorrerem pelos dedos sobre o teclado, efeito da visão que me tocou. Não sei dizer como, nem porquê. Apenas, tocou. Daí escrevi isso:

 

De repente,

do lado esquerdo,

formas densas e brancas destacam-se

diante do fundo azul pálido em confronto

com o laranja avermelhado do lado direito,

como todos os dias,

o fim.

Formas oblíquas e volumosas

a desvelar saudades de mim

em perdidas quimeras aglomeradas

e soltas, 

envoltas em inconsútil véu

ao léu

mesmo com a pobreza das rimas.

Saudades.

 

O que fazer com esse tipo de palavra

que inutilmente se utilizam ara nada

um vazio sonoro que retumba, 

oco?

O que fazer com a ideia

volátil fumaça a esgarçar-se leve

como floco de neve

gris?

O que fazer?

 

Se, ao menos, pudesse, ou, antes, soubesse

dizer o que aqui dentro vai corroendo

silenciosa e temerariamente

o que não é possível dizer

porque dividendo

das experiências que já não há?

O invisível é, agora, a marca:

não mais corpos musculosos,

não mais curvas harmoniosas

não mais gíria atenta,

não mais chavões instigantes,

não mais estilo tribal,

não mais lugar destacado,

não mais... nada.

Invisível é o que o tempo produz.

 

Na multidão,

de olhar esgazeado por não entender

a própria invisibilidade, 

o poeta pensa, com saudade de si mesmo,

pensa

e depois escreve, não o que pensa,

mas o que restou da experiência não falada

não escrita, dividendo inesperado,

ainda que anunciado.

 

Se o desejo não arrefece,

seu espaço míngua, involuntariamente.

Míngua, como a lua sazonal,

repetitiva como a constatação do mesmo,

sensual,

que instiga a febre fria

em tremores paralisados pelo tônus desgastado

da pele que um dia, num frêmito,

atraiu não apenas olhares cheiro se esvai, ou melhor,

é trocado.

O gosto se apura, ainda que difícil.

O gesto paralisa o pensamento

e o olhar do poeta circunvaga alhures

por horizontes alheios à procura,

de quê,

nem mesmo ele sabe, mas procura.

Depois escreve.

Outro capítulo

Foureaux, 26.03.22

Pensei no que já tinha escrito antes. Talvez a ideia de um novo romance esteja mesmo começando a se transformar num embrião. Escrevi o que segue abaixo. Do que escrevi primeiro, recebi dois comentários com, digamos, provocações. Tive a ilusão de que receberia mais. Não importa. Segue agora um segundo passo. Quem sabe...

******

Em seu depoimento, o funcionário respondeu calmamente a todas as perguntas. Ele não entendia muito bem por que estava ali, porque tinha de responder. O delegado dizia poucas palavras, além das perguntas. A certa altura, uma moça entrou e entregou um envelope amarelo ao delegado. Olhou para o funcionário e franziu o cenho. O funcionário não notou. Continuou cabisbaixo, pensando no tempo que estava perdendo em seu dia de folga. Era para estar no Jardim Zoológico, com seu vizinho, o jardineiro do hotel. Era o que estava combinado desde a semana anterior. Já passava das onze e o interrogatório não acabava. O funcionário estava com fome. Depois de abrir o envelope, o delegado virou-se para o funcionário com ar de espanto. “Você conhece Marizabel Veiga?”. Sim, foi a resposta. “Desde quando?”. O funcionário disse que não se lembrava quando a tinha conhecido. Lembrava-se dela por conta de um passeio ao Horto Florestal, com o jardineiro do hotel, seu vizinho, que a apresentou. Disse que teve a impressão de que o amigo estava namorando a moça. Depois disso, encontraram-se, por acaso, na praça ao lado hotel. “Você manteve contato com ela”? Não. “Nunca mais a viu, depois do encontro da praça?” Não. “Você sabia que ela é irmã de um escritor português, o Tiago Veiga?”. Não. “Na verdade, meia irmã. O pai dela teve um filho do primeiro casamento, o tal Tiago. Parece que nunca conviveram. Marizabel Veiga, logo depois de nascida, veio para o Brasil com a mãe, que se separou do marido. Trabalho numa casa de modas, no centro do Rio de Janeiro. Depois, num restaurante, como garçonete.” No dossiê, que estava no envelope amarelo, havia uma foto desta mulher com a filha, Marizabel. Não havia mais nenhuma informação. “Você sabe onde vive Marizabel Veiga?”. Não. Uma e meia da tarde. O estômago do funcionário roncava. Ele estava envergonhado pois o ronco era alto. Estava irritado por ter perdido o passeio com o amigo, o jardineiro do hotel. O delegado saiu da sala. Não demorou muito. Ao voltar pediu ao funcionário que lesse o seu depoimento e, se estivesse de acordo, o assinasse. Já cansado, um tanto mais irritado, o funcionário chegou em casa. Ligou para seu amigo, o jardineiro. Conversaram por alguns minutos. Combinaram o passeio para a próxima folga, dali a quinze dias. Trocaram impressões sobre o dia. O funcionário fez um lanche e dormiu um pouco, no sofá de sua sala. Acordou com o telefone tocando. Atendeu. Mudo. Desligou e foi ao banheiro. O telefone tocou de novo. Atendeu e, mais uma vez, mudo. Voltou ao banheiro, lavou a cara, penteou os cabelos. Trocou de camisa e saiu. Ao chegar ao portão de sua casa, ainda escutou o telefone tocando mais uma vez. Foi ao cinema. Na saída, passou numa loja de eletrodomésticos e comprou uma secretária eletrônica. Se o telefone tocasse e ficasse mudo, ia identificar o número que chamava pela bina. Isso poderia esclarecer os telefonemas. Fez muito calor durante o dia. Anoiteceu e havia nuvens pesadas no céu. Voltando para casa, o funcionário foi apanhado pela chuva. Não se importou. Continuou caminhando calmamente. Não estava longe de casa. Ao atravessar a última rua antes de chegar em casa, ele viu um carro conhecido cruzando a rua do outro lado. Era o marido da camareira. Estava sozinho. Dirigia devagar. O funcionário acenou. Não foi visto. Estranhou o acontecido, mas se lembrou dos irritantes telefonemas mudos. Ficou satisfeito por ter comprado a secretária eletrônica. Tinha a certeza de identificar quem chamava e não falava nada. A chuva parou, de repente. O céu ficou estrelado, de repente. O funcionário chegou em casa. 

Primeira versão

Foureaux, 24.03.22

Segue a primeira versão de um poema (comentários e palpites continuam a ser esperados).

 

Sem sentido

 

Uma tarde que passa

como as demais que também passam

repetindo a mesma ritmada canção muda,

a que embala quimeras e decepções

num paul inquieto de ilusões e temores

de gente que vive a trabalhar sem tino, rumores

daquilo que podia ter sido.

 

Não é, decerto,

o melhor dos sonhos a envolver o dia

de quem acorda sem saber o primeiro passo

já tendo dado os seguintes na inversão

que nada altera, nem ilustra, nem seduz.

Um passo, e só isso

a reverberar na música surda das letras que pululam

entre vírgulas e ideias estapafúrdias 

(ainda que não seja poético falar assim).

 

Ah, o barulho do mar que não encobre

o pio da coruja que

ao contrário da outra, a do sertão, não assusta

quase diviniza a maré que ressoa,

brisa sudeste a anunciar bom tempo

e a melancolia de rever os dias,

revisitar os mortos,

sonhar o impossível.

 

Não há mais panteras presas

e olhares temerosos

guardando a raiva felina que, recalcada,

rescende a vingança, sem ter havido crime.

A natureza não há mais.

Não há mais modo de escuta, olhar complacente

só o alarido das verdades individuais

gritos num labirinto com identificação de saída,

mas a cegueira não deixa ver...

nem o voo mais alto que poderia,

se alentado, sobreviver 

ao rasteiro caos

que se instaura e insiste e fere

interfere incólume sem se abater.

 

Rima impossível.

Quero a rima impossível

escrita num poema cego e surdo

com letras mortas,

a apagar qualquer sentido

dando ordem a tudo

e, ainda assim, não satisfaz o querer,

do poema.

Intervalo

Foureaux, 09.03.22

Um intervalo. Mais um. Faz uns tantos dias que não escrevo, nem mesmo para repercutir algum texto alheio. Nada. Antes de viajar, li um livro do Augusto Abelaira, escritor português (ainda vou comentar algo sobre ele aqui): A cidade das flores, seu primeiro romance (1959). Se não me engano é este mesmo o nome dele. A indicação é de um amigo querido, o Artur, marido da não menos querida Alexandra, pais de Esther. Todos vivendo numa soberba residência no Paço da Quinta de Justes, em Braga, onde fabricam espumantes e vinhos verdes. Um paraíso terreal. Pois é. O Artur me indicou e vou escrever sobre o livro, em homenagem ao amigo dileto. Não devo fazer isso? Houve um tempo em que eu ficaria na dúvida sobre a pertinência de tal motivação. Tempos passados. Não os posso esquecer, porque se passaram com a minha participação, ou me envolvendo eles, em suas artimanhas, todas elas comandadas por seu mentor e controlador, pai: Cronos, implacável. Pois é. Ninguém escapa. Assim se fazemos intervalos. Os dias passados no litoral repetiram a mesma sensação de que a mudança é acertada. Olhar para o mar, todos os dias, durante horas infindáveis, é mesmo uma prática que só renova energias, sensações, esperanças. Incansável. Não há nada mais “sedutor” num certo sentido. Claro está que há uma pontinha de melancolia. Em tudo ela se mete. Afinal, altos e baixos são os movimentos irrecorríveis da existência. Sua exacerbação, por consequência, é que leva tudo para as vielas escuras, úmidas e miasmáticas da patologia. Isso não! Nesta temporada de quase quinze dias pensei em escrever mais um poema. Já tinha escrito dois, quando o pensamento me assalto. Ocorreu a “inspiração” por conta de uma folha amarela que estava na praia. Vi-a quando fiz uma de minhas caminhadas matinais. Lá, por imitadas que são, ainda, minhas estadas, é a “atividade física”, sentença irrecorrível das autoridades médicas em nome da famigerada “saúde”... Bem. Os versos que me vieram, de estalo, eram mais ou menos assim: “Uma flor amarela / jaz sob o tempo de vasto azul / vista / ainda que cego o olhar / pelo reflexo da estrela diurna”. Mais ou menos porque acrescentei uma que outra palavra que, no momento da “inspiração” não me vieram à mente. De certeza que não! Logo em seguida, pensei em escrever uma história que começava pela leitura deste poema por um professor. Os alunos, atentos, escutavam a voz melódica do mestre, ao declamar os versos, sem dizer-lhes a autoria. Gostava de contar o milagre, mas não o santo! Depois da leitura, perguntaria aos alunos: onde está a flor? Um deles responderia que na praia. O professor, maliciosa, perguntaria como é que você sabe que é na praia. Ora, professor, responderia o aluno, o último verso, tem uma expressão – “estrela diurna” que, seguramente é o sol. (O advérbio é por minha conta, como responsável pela voz narrativa). Seguindo seu raciocínio, o estudante diria que este elemento, quando considerado o substantivo imediatamente anterior, “reflexo” sustenta a hipótese. Além do mais, o verbo jazer, no segundo verso, leva o leitor a pensar na superfície da praia, por onde anda o poeta observador, dado que a expressão seguinte “vasto azul” bem poderia ser o céu, na praia em dia ensolarado. Este detalhe final, ganha consistência ao se observar que a flor é observada de cima para baixo, pois o “reflexo” faz “cego” o poeta que observa. A turma estava muda. O professor também. Houve quem pensasse que o estudante era petulante, ou método, ou teria descoberto de antemão o poema a ser lido em aula e, ajudado pelas “ferramentas de pesquisa” hoje em dia disponíveis, teria se preparado com a análise de outrem. Tudo é possível. Sem ter como especular sobre esta possibilidade, o professor, estupefato e feliz, elogiaria a análise do estudante, confirmando-a. A história não acabaria aí, mas a minha caminhada terminou, os dias se passaram e somente agora é que escrevo alguma coisa sobre o poema iniciado... e inconcluso, por enquanto. Isso para, ora veja, justificar um intervalo!

 

Referência

Foureaux, 15.02.22

Li o livro de uma sentada. Abri e fui até o fim, numa tarde apenas. Devo confessar que o li com vivo interesse. D princípio ao fim. No entanto, não sei dizer se gostei ou não. O interesse não levou à surpresa. Esta, por sua vez, não estimulou a jouissance que costuma acompanhá-la, pelo menos, algumas vezes. não. Li com interesse e só. Será isso um defeito do livro ou uma lacuna na/da leitura? Vou morrer sem saber. Nélida Piñon, nas orelhas do volume, traz Machado de Assis como matriz do modus operandi do livro que li. Terá sido a expectativa criada por esta ilação – também ela fruto de leitura... – a responsável por esta sensação indefinível que me ficou ao terminar o romance? Sim. Trata-se de um romance, ainda que as características mais comuns, tradicionais, clássicas deste exemplar do gênero narrativo não estejam presentes no arsenal narratológico utilizado pelo autor. Brasileiro, diga-se de passagem. Como a referência assinalada pela autora das orelhas. Ainda que tenha ficado, anos luz, distante desta. Talvez, esta seja outra consequência nefasta da expectativa insidiosa que se aninhou no inconsciente do leitor, eu. Essas coisas acontecem! O livro se chama O dom do crime. Seu autor, Marco Lucchesi. Seu verbete indica que foi professor visitante em “diversas instituições internacionais”. Deve ser algo de muito importante mesmo. Eu diria “instituições estrangeiras”. Internacionais, qualquer uma em solo pátrio pode ser. Basta levar em consideração alguns “critérios” das famigeradas agências de fomento” para enquadrar as atividades de investigação na/da terra brasilis. Mas vamos. Deixo de lado a chatice e reconheço seu “valor” – palavra perigosa... Afinal, ocupa uma cadeira na ABL! Como disse certa vez, a mesma autora aqui referida, a das orelhas: uma casa de notáveis. O livro gira em torno de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Fato irrecorrível. Usei o verbo “girar” propositadamente. A impressão que se tem é a de que a narrativa “age” como mariposa em torno da lâmpada em dia de chuva. Pois é. O crime a que se dedica o narrador, não se consolida como tal. Difunde-se em indícios e referências esparsas, pulverizadas num texto suposta e pressupostamente erudito, dado que cheio de referências explícitas ou não. Estas, por sua vez, são consideradas pela “orelheira” responsáveis pelo caráter “erudito” do romance. Hum... Sei não... Erudito? Só por conta das circunlocuções narrativas a que o texto se presta como suporte? Certo que o livro prendeu minha atenção. Mas... erudito. Sei não. De fato, o applomb do narrador mais lembra o de Brás Cubas, bem piorado. Penso que posso estar usando de muito rigor, mas faço-o assim mesmo. O defunto autor fica muito adiante do narrador de O dom do crime, mesmo com toa a generosidade do mundo. Ainda que o livro tenha prendido minha atenção e gerado satisfação ao final da leitura. Hum... soou ambígua esta afirmação, mas não me explico. Deixo a exegese de minha assertiva para quem, por acaso, venha a se interessar pela leitura do livro, depois de ler estas mal traçadas. Muita presunção de minha parte! Continuando...Num artigo (de Denize Bartolo Medeiros) que encontrei alhures (no portal ACADEMIA), li o seguinte: “Dono de profunda precisão verbal, Lucchesi não é um autor qualquer. Seu texto foge da simplicidade, mas se mantém aberto à criação. O resultado é uma mistura de prosa e poesia, numa linguagem que encanta e hipnotiza. Tradutor, ensaísta e poeta premiado, Lucchesi volta seu talento para outro gênero e se lança, pela primeira vez, ao romance com o aguardadíssimo O DOM DO CRIME. Lucchesi cria um delicioso narrador-autor, não identificado, que conta uma história para o futuro. Um homem do século XIX que, ao ser aconselhado pelo médico a escrever suas memórias, se lança não para a própria vida, mas sobre um crime passional, notícia no Rio de Janeiro de Machado de Assis. Esse misterioso narrador traça paralelos curiosos entre este assassinato, o julgamento que absolve o marido supostamente traído e a obra mais aclamada de Machado, Dom Casmurro.” A transcrição é literal, sem tirar nem por nada. Contive meu ímpeto de fazer algumas mudanças, digamos, técnicas. Duas na verdade: o nome do livro de Lucchesi ficaria com apenas a inicial maiúscula, e em itálico; como dar-se-ia (adoro mesóclise!) com o título do romance de Machado de Assis. Deixando, ainda uma vez, minha chatice de lado, dois dedinhos de prosa. Não sei se o texto é mesmo uma mistura de prosa e poesia. Não o li assim. Não percebi esta nuance. Isso pode ser, obviamente, falha minha. Depois, não considero o narrador “delicioso”. Não chega a tanto. Eu diria pretensioso, mas sou um chato. Por fim, na paráfrase que o autor do trecho citado faz do romance, escorrega na afirmação de que os paralelos são “curiosos”. De fato, há certa confusão, talvez causada pela presunção do narrador. Eu queria dizer autor, mas não vou me expor a tapas e pedradas. É isso. Vale a pena ler O dom do crime do tal professor titular de Literatura Comparada da "sacrossanta" UFRJ. Sorte maior terá quem pegar o livro de supetão, no escuro, de surpresa, sem nenhum tipo de indução. Seu prazer, ou desprazer, será genuíno, comme il faut. Ainda assim, repito: o livro é interessante.