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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Livros

Foureaux, 18.08.22

Que livro duro.

Que livro triste.

Que livro soberbo!

Faz mais ou menos 45 anos, na Rua Ricardo Tim, em Campinas, conversava com o Rogério, cearense do Crato, noviço do segundo ano. Depois do almoço, era praxe um papinho na “sala de jogos”, ouvindo música – com ele, apenas a erudita. No dia desta conversa, o concerto número 4 para piano e orquestra de Beethoven.  Foi a primeira vez. Deslumbramento. Foi o primeiro ame falar de Literatura, de um modo que me fascinou. Perguntou o que eu achava de Graciliano Ramos. EU disse que era um escritor seco, chato e sem graça. Tinha lido dele apenas Vidas secas, no ginásio, por obrigação, para fazer as famigeradas – hoje extintas – provas de leitura. Não gostei. Ele riu muito. Disse que com três palavras destruí décadas de literatura. Continuamos a conversa e no final ele aconselhou-me a ler Caetés, Memórias do Cárcere e Angústia. Não me lembro se, necessariamente, nessa ordem. Depois de ler os romances indicados – no noviciado, a biblioteca tinha bons e vários títulos em seu acervo – voltamos a conversar. Discutimos muito, falamos de outros autores até que ele viajou ara uma “missão”. Depois disso, ele foi para o Rio de Janeiro, fazer a Filosofia, quando foi expulso da Companhia de Jesus porque lia muito e ficava no quarto estudando, em lugar de jogar conversa fora com outros noviços. Hoje é doutor em Teologia e Filosofia, leciona Filosofia na FASBAM, em Curitiba. Devo a ele, e depois Jose Carlos Barcellos– oportunamente, supervisor de meu primeiro estágio pós-doutoral, que em paz descanse! – a minha iniciação nos estudos de Literatura. Pois então. Reli o tal Vidas Secas. As três primeiras expressões desta postagem, bem diferentes daquela que apresentei ao Rogério, revelam o que sinto hoje, depois da releitura. A densidade do romance é mais que inquestionável. A saga de Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e Baleia é alguma coisa de, simultaneamente, delicado e aterrador. Delicado, porque o autor vai às entranhas de seres que vivem por pirraça, dadas as inumanas condições de sobrevivência a que se vêm expostos. Curioso notar que, na série inicial dos romances de Graciliano Ramos, este é o primeiro a não tocar no tópico do escrever. Este é um ponto que poderia sugerir caminhos para construção de um problema de análise a ser equacionado numa dissertação ou possivelmente resolvido – no mínimo, analisado – numa tese. A dureza da existência de Fabiano não deixa espaço para esse tipo de elucubração. No entanto, seu final, ao sonhar com Sinhá Vitória com as consequências positivas de uma sonhada chuva que, aparentemente, se anuncia, é de um lirismo que beira a esquizofrenia. O contraste com a realidade é abissal. O impossível se manifesta como tábua de salvação para um homem que, a certa altura do romance, pensou em matar seu próprio filho, por conta do trabalho que dava carregá-lo durante a caminhada sertão afora, ou adentro... A travessia, aqui, não tem nada de, digamos, messiânica, como em Guimarães Rosa – pelo menos, penso nesta possibilidade de leitura, ainda que eu não seja um “especialista”. Afinal o que é mesmo um especialista? Ou seria, “especialiste” para subscrever a boçalidade ignorante que grassa a seara pública de quem se diz “antenado” ... Voltando ao que interessa... As idas e vindas morais e éticas de Fabiano deparam-se com obstáculos quase intransponíveis, como quando de seu entrevero com o soldado amarelo. Num “segundo round”, a luta parece concluir-se, para não dizer que a vingança incruenta encontra sua realização. O que interessa, no fundo, é perceber como a dureza da caatinga e da seca não destroem o senso de humanidade e a percepção do que é certo e do que é errado, no universo crestado em que sobrevive o protagonista do romance. Ou deveria dizer um dos protagonistas? A dúvida procede, dado que cada capítulo é dedicado a cada um dos personagens – até a cadela Baleia e o horizonte coberto de aves (agourentas?) – como no capítulo “O mundo coberto de penas” – entram nesta galeria. Assim sendo, cada uma das personagens poderia ser considerada protagonista. O desejo de uma cama de couro, que sustenta a esperança de Sinhá Vitória ou a peleja do menino mais velho com a cabra podem ser lidos como índice do que mencionei acima como esquizofrenia. Nada, no comportamento das personagens pode ser interpretado literalmente, ainda que seja inegável a grandeza e contundência da narrativa. As “condições” de sobrevivência não permitem. Indo por esse caminho, a construção de Fabiano, em certa medida, repete – e esta repetição aqui reveste-se de caráter psicanalítico, portanto, em nada, pejorativa – os passos de outras personagens “centrais”, como nos romances publicado antes de Vidas secas. No projeto de releitura que tenho posto em marcha – o ócio criativo permite esses deleites, hoje absolutamente desconhecidos do pétit monde acadêmico –, só posso fazer esta retrospecção. Pretendo chegar ao fim de todos os romances, tentando observar se esta linha de raciocínio se sustenta. A vontade, no fundo, é a de escrever um ensaio, longo e alentado, procurando delinear linhas de força na/da narrativa de Graciliano. No entanto, preguiça prima dileta do ócio me faz lembrar da quase inutilidade de fazê-lo: que editora se disporia a publicar tal ensaio? Depois de publicado, quem, de fato lê-lo-ia (Adoro mesóclise!)? Há outras dúvidas. As respostas, subliminarmente, eu já sei. Mas fico por aqui, pensando nas perguntas. Vida secas, de fato, é uma peça cuja dramaticidade sobeja requinte e sinceridade. Por isso, duro, o livro, e triste. Na mesma medida vai seu caráter irrecorrivelmente estupendo. não repito o que já se sabe da concisão e personalidade da linguagem de Graciliano Ramos. Deixo de lado as elucubrações consideradas “sociológicas” – daquelas que ficam borboleteando entre questões “políticas” e de “gênero”, veleidades de quem “goza” coma redução de universos ficcionais a estreitos perímetros de equivocada leitura –, por pura preguiça de ter que apontar, nelas, descaminhos, falácias e muita, mas muita falta de leitura. Assim, termino. Calo-me e recolho-me à minha insignificância.

Indicação

Foureaux, 22.03.22

Numa sequência de um episódio em uma das temporadas da série britânica Outlander, a personagem de Caitriona Balfe faz uma experiência com miolo de pão, na tentativa de descobrir um remédio que seja antibiótico. Ela viaja no tempo, tem conhecimento avançado em relação aos demais que vivem com ela no passado e está preocupada com algumas mortes que poderiam ter sido evitadas com antibióticos. No tempo para o qual ela foi transmutada, é impossível fabricar penicilina e similares, obviamente. Ela busca, então, na sabedoria popular – de fato por um acidente doméstico –, uma solução para o seu problema. No tal episódio, ela vai até a cozinha de sua casa e percebe que o pão está mofado. Há todo um diálogo que não vou reproduzir aqui, por pura preguiça de procurar o episódio a que me refiro. Em síntese, por causa do mofo no pão, ela resolve fazer uma cultura de fungos para produzir o medicamente de que precisa. Bolor, mofo, miasma, hircismo, sito, abolorecimento. Tantas palavras... A primeira é a que me interessa. Bolor. Este é o título do romance que quero comentar, para chegar a outro, A cidade das flores. Ambos foram escritos por Augusto Abelaira e, ainda uma vez, com estes comentários, presto homenagem a um amigo caro, o Artur.

A cidade das flores é de 1959, primeiro romance de Augusto Abelaira. Bolor é de 1968. Começo por ele. Ambos, em alguma medida, expressam a verve experimentalista do autor. Com isso não que o dizer que ele pertença a uma “geração” de escritores     que tenha se notabilizado, na série histórica portuguesa, como experimentalista. Longe disso. O que desejo reafirmar é que a escrita de Abelaira, nestes dois romances é reveladora de uma criatividade que se se desenvolve na experimentação de registro ficcional não usual em seu tempo. Talvez, por alguma influência estrangeira – o espaço deste meu texto é estreito e não pretendo defender uma tese, apenas registrar minhas impressões – o texto de Abelaira, nestes dois livros destaque-se por esta peculiaridade. No primeiro de sua extensa obra, as três personagens – Humberto, Maria dos Remédios e Aleixo – estão envoltos numa trama afetiva que os faz preconizar uma espécie de triângulo amoroso. A ideia não é minha. Li já não me lembro onde, mas é fato. O diálogo que se desenvolve, numa complexa rede de reviravoltas, intersecções, torneios discursivos e revezes, é denso e marcado pelas impressões trocadas, sobretudo, acerca da relação que entre si mantêm as três personagens. Há quem dê muita importância ao fato de Humberto escrever com cor de tinta azul; Maria dos Remédios Varela Rodrigues, com tinta preta e Aleixo, com tinta roxa. É bom lembrar que num romance, como este de Abelaira, a presença de uma voz narrativa fragmentada não é mero acaso. Há, por certo, uma espécie de objetivo escritural a ser alcançado a partir do uso de tal estratégia. desta forma, a diferenciação de cor da tinta com que escrevem as personagens, em igual media, não é mero detalhe, decoração ou falta de assunto. No entanto, também isso não é meu ponto de fuga aqui. De fato, o que mais desejo registrar é a deliciosa trama que se urde ao longo das anotações de um diário fictício (e ficcional) escrito pelas três personagens do romance. Isso me fez pensar na associação do título do livro com seu similar, na biologia. Por mais que uma casa seja limpa e nova, está sujeita à ação do mofo, que pode aparecer naquele cantinho do ambiente que é mais úmido e escuro, e que pouco se dá atenção. Assim se pode ler a relação estabelecida entre as três personagens do romance. A proliferação do mofo, dizem a sabedoria popular e a ciência, pode causar doenças. No romance, esta particularidade da matéria biológica pode ter seu correlato na troca de impressões que o diário partilhado pelas personagens do rmance de Balaira revela. É como se algo estivesse a envolver Aleixo, Humberto e Maria dos Remédios. Algo que é deles conhecido, mas não nitidamente percebido pelo leitor. Ou, por outrolado, alguma coisa eu o leitor identifica e vai percebendo, ainda que por rastros, índices, ilações, e não se revela aberta, completa e definitivamente. A associação com a ideia do unheimliche freudiano não passa batida por aqui.

Aolado deste romance, aqui, A cidade das flores pode, em certa medida, ser lido como uma espécie de contraponto. Não no sentido dissociativo, mas no de estímulo a um diálogo intertextual que, se não foi proposital, passou muito perto disso. Tal possibilidade conta com o respaldo do tempo que se atravessa entre a publicação de Bolor e de A cidade das flores. Neste, as personagens também se envolvem numa trama de impressões, ilações, comentários e, até desabafos. No entanto, a ausência de um cenário definido, no primeiro, a funcionar como “espaço narrativo” faz do segundo uma espécie de rota a ser seguida em território italiano. Como foi a primeira vez que li este romance, chamou-me a atenção este dado. O romance se passa na Itália. Ou estarei equivocado? O risco existe. Depois de tantas leituras e dando azo ao sedutor ócio criativo, em bem posso ter fantasiado tal circunstâncias. Valho-me do direito a fantasiar. A trama de A cidade das flores se passa na Itália. Isso poderia levar um leitor menos avisado a concluir que o romance foge do caráter nacionalizante que, mesmo nas entrelinhas, por debaixo do pano, está a solicitar sua dose de obediência. Por isso, faço minhas as palavras da Almerinda que, em seu blog (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/a-cidade-das-flores-augusto-abelaira-50249) comenta o mesmo romance: “Em 1961, no posfácio à segunda edição de A Cidade das Flores, Augusto Abelaira faz uma reflexão e uma série de perguntas que considerei muito relevantes. Começa assim: “A nova edição de um livro significa que esse livro não morreu”. E mais à frente: “Um livro que se reedita é um livro que se esgotou. Portanto: Quem o esgotou? Quem o leu? E por quê?” (…) “Porque leio eu um romance?” (…) “Independentemente de me ajudar a passar o tempo, a leitura dum romance multiplica em várias direcções a minha pobre vida quotidiana, permitindo-me sonhar.” (…) “Essas histórias… ajudam-me a sair de mim próprio e a descobrir o mundo.” (…) “Os romances preocupam-se com homens vulgares, mais próximos de mim, homens que vivem no meu modesto universo.” (…) “Acontece, porém, que, muitas vezes, buscamos num romance as nossas próprias vidas, as vidas confusas dos nossos irmãos, as nossas preocupações.” (…) “… creio que “A Cidade das Flores” documenta qualquer coisa, a reacção de certos homens a uma praga social – o fascismo; a reacção de certos homens a uma situação social adversa.” (…) “ Homens que não crêem no futuro, ou, melhor: homens que, acreditando no futuro, não têm coragem de viver no presente esse futuro.” (…) “… tenho esperança de que, dentro de cinquenta anos, A cidade das flores já não seja lida. Significará isso que os problemas deste romance já passaram à história e que os homens deram mais um passo no caminho da justiça social.” (…) “Desejaria que A cidade das flores fosse entendida como um livro de quem acredita no progresso, na justiça, na paz, na possibilidade real de os homens serem todos iguais.” (…) “E no entanto, nós, cidadãos deste ano da graça de 1961, sabemos que a História, apesar de tudo, não deu razão ao pessimismo de Fazio. Sabemos que o Hitler não dominou por mil anos. Sabemos que nenhum Hitler dominará por mil anos. A cidade das flores decorre na Itália de Mussolini. Os intervenientes são jovens que vivem em Florença, mais ou menos envolvidos na resistência ao fascismo em ascensão. Augusto Abelaira da geração de escritores da oposição a Salazar a escrever no período negro da censura, transpõe neste romance para o meio cultural, social e literário português dos anos 50 uma realidade paralela, usando personagens doutro país e doutro regime ditatorial com preocupações semelhantes e com ânsias de liberdade. Logo no início do romance, Fazio observa um casal de ingleses que tiram fotografias junto à estátua de David. Enquanto se sente escravo, prisioneiro, ele inveja aqueles turistas que para ele representam a liberdade. Fazio, Soldati, Domenico, Rosabianca, Renatta, Vianello e no outro extremo Briganti adepto das ideias de Mussolini. Nas suas conversas, nos seus encontros, os grandes temas que os preocupam. O que é resistir? O que é colaborar? Até onde se consegue resistir? O que é ser incorruptível? O que é ser honesto? Pode-se ser feliz, quando há alguém que está a sofrer, que está a ser torturado, que está preso? As ideias justas triunfarão? Quanto tempo dura o amor? O que é ser livre? É possível ser-se livre? (...) Senti este romance como intemporal, moderno e actual. No entanto, ao contrário do desejo de Abelaira, de que 50 anos depois daquela 2ª edição do romance ele já não fosse lido, a verdade é que os problemas de que fala o romance não “passaram à história”. A história e o percurso da humanidade estão longe de alcançar a justiça social e os perigos que marcaram o século XX continuam activos e sempre à espera que a democracia baixe as suas bandeiras. Resistir é um imperativo.”Esse trecho diz muito do que eu gostaria de ter dito. O romance de Abelaira, ao “deslocar” o espaço narrativo de Portugal para a Itália não faz mais que dar oportunidade à sua própria ficção de desempenhar seu papel precípuo: ficcionalizar a realidade. Os comentários do Artur, ao recomendar a leitura deste romance, ecoam agora que termino este texto. Uma vez mais, obrigado, amigo!

 

 

 

 

 

Livros

Foureaux, 15.03.22

Foi numa noite fria de novembro. Ao fim da tarde, o róseo azulado céu que se via da Quinta de Juste forrava o pensamento com uma luzidia corrente que se espraiava sobre a planície a encobrir o rio Cávado com uma névoa matinal que diariamente se vê a esta altura do ano. Os panos envidraçados da casa não escondem um só detalhe da magnífica planície que se espalha e encanta os olhos, o espírito, o tempo. No aconchego de uma sala familiar, Artur chega do trabalho e conversa comigo, seu convidado. trocamos ideias sobre vários assuntos e caímos na Literatura Portuguesa. É quando ele me indica a leitura de um romance de Augusto Abelaira, A cidade das flores. Já conhecia Bolor, do mesmo Augusto Abelaira, que reli semanas depois. Mas não é sobre eles que desejo falar agora. O preâmbulo serve apenas para dar vazão à saudosa memória dos dias que passei ali, naquele recanto do mundo a bafejar beleza e encanto, misturados à História. Esta palavra serve de relé a acionar um circuito de ideias que giram em torno de um núcleo comum: a memória.

Imagine-se encontrar, do nada, um baú. Ou, mesmo, ter um desses em casa, guardado há muito. Quando se abre, o que se encontra pode ser uma surpresa ou uma decepção. Isso vai depender de uma série de variáveis que contribuem pala a volatilidade da ideia que subjaz à situação descrita. Um baú repleto de objetos, fotografias, papéis diversos, recortes, trapos, toda a sorte de coisas que o tempo colecionou através de mãos (e ideias!) humanas. Geralmente, quando se fala em “baú”, logo vem ao pensamento a ideia de passado, de lembranças, de História. Sem registro cronológico de depósitos, ou descrição pormenorizada de conteúdo, um baú é uma espécie de caixa de Pandora, não necessariamente pletora de todos os males. É admissível supor que haja algum mal que possa advir do ato de remexer no conteúdo de um baú. No entanto as descobertas e revelações e, consequentemente, algumas explicações acrescidas de, quem sabe, mais mistérios constituem material muito mais afeito ao exercício involuntário de vasculhar o conteúdo de um baú. Pois.

Há quem afirme que o material exposto nas páginas do livro sofre de desorganização e empilhamento. Fato. Há muita coisa. E há que se enfatizar o termo “muita”. No entanto, isso não chega constituir um defeito do livro. Não. Definitivamente, não! O fato permanece. O acúmulo de informações com que se depara quem folheia as páginas desse luxuoso e elegante livro é notável. De uma riqueza imensurável. Trata-se do volume intitulado Genealogia das coisas: um baú de memórias, de autoria de Alexandra Maria Soares Jorge de Moraes Campello Pereira de Castro. Sua significação, seu sentido, em certa medida, sofrem influência dos olhos e do pensamento de quem olha, de quem repara, de quem folheia o livro. Sempre foi assim. É assim o caso deste livro. Sempre será assim com qualquer livro de similar natureza. Além do mais, sempre vai haver alguém com mais disposição para enumerar defeitos e deslizes, em lugar de fruir o que se oferece como matéria observável. Tenha a forma que tiver. Como contraposição positiva a esta possibilidade, reproduzo as palavras de Ana Cristina Martins, em texto que compõe a abertura do volume:

“Extasiada com a quantidade, variedade e possibilidades de investigação, rapidamente me apercebo da urgência de inventariar todo o conteúdo do baú, antes de o digitalizar e acondicionar corretamente. Nada, porém, que me impeça de começar a estudá-lo, associando-o a outras coisas existentes na casa, submergindo numa estratigrafia de memórias. Certamente que ficarão mais perceptíveis com este meu exercício. Passo antepasso, reunindo e cotejando informação, entrevejo uma verdadeira tríade neste processo: casa, documentos gráficos e outros objetos a examinar de modo estratigráfico. Somente assim conseguirei construir a história de parte da minha família. Apenas deste modo poderei transformar coisas em estórias com rostos, contextos, textos e pretextos. Mas este será outro desafio, quem sabe traduzível em livros que darei à estampa em anos vindouros. Preciso, no entanto, das chaves de outros baús, assim como de estantes das quais retirarei parte das fontes a consultar para alcançar com maior propriedade os seus conteúdos.”

A autora destas palavras é pesquisadora do Instituto de História Contemporânea – Polo da Universidade de Évora UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Assino embaixo de suas palavras. O material que compõe o livro de Alexandra é por demais rico para ser reduzido por olhares menos dispostos a ver nele mesmo o veio de histórias familiares, lembranças, registros da passagem do tempo a alinhavar subjetividades que, ainda fragmentariamente, conservaram-se protegidas pelo baú. A genealogia, apontada no título do volume, é o resultado desta abordagem estratificante e descritiva a anotar, observar, remarcar e apontar os pontos de costura do fio condutor de uma história que se conta por objetos díspares reunidos e acumulados numa coleção muito peculiar, porque já foi contada pela experiência. A observação da professora aponta para a possibilidade de considerar a coleção, recolhida e apresentada por Alexandra, como fonte da História. Esta, por sua vez, confrontada a cada passo com outras tantas coleções, outros baús, outros registros. Assim, a genealogia se desenvolve e consolida. Assim, o baú, como o das memórias de Alexandra, pode ser considerado fonte documental da tão afamada História.

O formato do livro sugere, mesmo, um álbum de fotografias. A sugestão já circunscreve o perímetro delimitado pela ideia de memória que sustenta a proposta do trabalho realizado e exposto no volume. Neste sentido, Genealogia das coisas: um baú de memórias é um álbum de fotografias, no seu suporte. De novo, alguém pode reclamar de certa falta de roteiro, de caminho a ser seguido para a observação das imagens que se apresentam nas páginas reproduzidas. Repito que isso é uma chatice de quem assim pensa. O fato que permanece é que as páginas e as representações que nela se afiguram impressas compõem um roteiro íntimo, familiar, portanto, livre de qualquer pressuposto técnico ou acadêmico de uma abordagem que ultrapassa seu sentido primário. E este adjetivo, aqui, é muito mais que a equivocada suposição de menos valia do conteúdo. Não. Definitivamente não. Ao colecionador, no caso, a autora do livro, não importa se isso ou aquilo está assim ou assado ou pode induzir o leitor a concluir correta ou equivocadamente sobre o que quer que seja. O que importa é a história que ela conta – ainda que, por vezes, não os saiba ou não o possa saber, por circunstância. Isso é o que importa, ao fim e ao cabo.

O livro de Alexandra é uma experiência sígnica, sensorial, afetiva e mnemônica: um exercício estético de rara beleza. Vale mais que a pena ler. Nesta conclusão, retorno ao início deste texto. Posso, então, falar de A cidade das flores e Bolor. os dois romances de Augusto Abelaira, como dito no início. Fá-lo-ei em seguida.  

 

 

Três - parte 3

Foureaux, 26.01.22

Pois é. Dizer que o gajo continua a escrever sob a égide de Paul Auster é exagero. O rapaz evoluiu, no sentido de aprimorar a própria, marca escritural. Estou falando de João Tordo. Em sue último romance, Felicidade, ele se apresenta mais maduro, mais seguro. Um tanto constante em certos procedimentos ficcionais. Mantém a verve. Consegue envolver o leitor de maneira sutil. Há sempre um segredo, um detalhe que escapa. Rastros de experiências outras a indicar caminhos possíveis para o deslinde de situações aparentemente insolúveis. A história se desenrola a partir de um acontecimento ocorrido na adolescência do protagonista. Arrastam-se as consequências por uns 20 ou 30 anos, em minuciosa análise de detalhes que vão compondo um quebra-cabeça a desenhar o “mapa da mina”. Já adianto, sem querer fazer o famigerado spoiler: não se trata de romance policial. Matriz de criação do jovem escritor, o romance policial tem cedido espaço, ao longo de sua obra, para o “tratamento” de questões, eu diria, mais existenciais, com um pouco mais de interesse. Difícil para quem vem se acostumando a ler a mesma coisa com capas diferentes – como sói acontecer com certa parcela do chamado público leitor. este sai perdendo, obviamente. Não sei o que vem por aí. Decerto que outros romances virão sem dúvida. No entanto, fica sempre o suspense para a repetição de uma trilogia. Por isso incluí o nome de João Tordo nestas postagens que partem das elucubrações que fiz sobre o número três. A trilogia a que me refiro inclui O luto de Elias Gro, 2015; O paraíso segundo Lars D., 2015 e O deslumbre de Cecília Fluss, 2017. Aqui, as personagens transitam pelos romances num enredado universo de descobertas, decepções e recorrências. Um bordado delicado e muito arguto que prende a atenção do leitor, se se tornar óbvio ou enfadonho. As recorrências das personagens não são levianas. Ao contrário, adensam a narrativa fazendo com que a ideia de trilogia não pareça assim tão vulgar, óbvia, empobrecida. AO contrário, quando faz uso deste recurso dá-lhe personalidade. Há quem diga que “João Tordo indaga sobre a memória e a decadência do corpo no romance que conclui a trilogia que mudou o rumo da literatura que o escritor produz. No fim, com O Deslumbre de Cecilia Fluss, atam-se todas as pontas soltas. As possíveis.” Assim, “João Tordo fecha a trilogia iniciada em 2015 com O Luto de Elias Gro, partindo de uma fórmula hipotética onde a prova da sua veracidade é secundária face àquilo que a exploração dessa possibilidade lhe permite enquanto escritor: “Memória + Tempo — Decadência = Verdade”. Estas duas considerações não são minhas por óbvio. Quem quiser conferir, basta buscar em https://www.publico.pt/2017/06/25/culturaipsilon/critica/resta-a-loucura-o-que-e-1776162. Vale a pena ler para dizer se tal argumento procede ou não. Mais não digo.

Da surpresa causada pela aparência hard do autor e sua linguagem delicada e diáfana, ficou a certeza de que seria um dos escolhidos para estas postagens. Falo de José Luis Peixoto. Em seu livro Almoço de domingo. Uma vez mais, sua região natural as terras portuguesas acima do Tejo, comparece em todo o seu esplendor de melancolia, um certo ceticismo e muita delicadeza nutrida pelas memórias, marcas da passagem do tempo e percepção da própria pequenez. Poder-se-ia dizer que estas são três linhas de abordagem da escrita de José Luis Peixoto. Cabe a cada leitor decidir. Fico com elas. Bastam para meu horizonte de expectativas de leitor curioso. Gosto do que este autor escreve. Ao contrário do primeiro, aqui, este não se preocupou (ainda) em apresentar a seu público uma trilogia, pensada e realizada como tal. Pelo menos, até onde acompanhei esta procissão... Alhures, encontrei um artigo que faz uma apresentação, a meu ver bastante consistente, do romance. A ver: o “autor de Galveias, que já anteriormente transportara José Saramago para dentro de um romance, Autobiografia, publicado em julho de 2019. Almoço de domingo, ‘sobe um degrau’, porque a personagem retratada ‘ainda está aí’, disse o escritor em entrevista à Lusa. Trata-se da história de um ‘homem de 90 anos, que olha para o seu passado e faz um balanço de vida a partir de episódios significativos da sua história pessoal, que em muitos aspetos tocam a do próprio país (...) contou o escritor. (...) Contudo, a pessoa é subentendida na leitura do texto, pelo percurso que segue, pelo império que cria, pela geografia e pela família em que se insere, a partir das quais tudo parte (...). José Luís Peixoto explica porquê: “do ponto de vista do texto, é um romance e como romance é um exemplo, a personagem é uma personagem, não é um texto histórico não é um texto biográfico”. O romance, de acordo com o escritor, tem como protagonista um sujeito cartorial. Não sabia desse detalhe quando da leitura do romance. Ao saber, fiquei estupefato, mas feliz: não li o romance como uma espécie de ficcionalização de certa biografia. Nada contra. O que me incomoda é “amarrar”
a leitura de qualquer um com esta cordinha tão frágil, porque óbvia. O texto do romance transcende esta tentativa de redução. A linguagem faz jus às premiações recebidas pelo autor. O romance é um convite à reflexão, como soe acontecer, sem deixar de ser mais um exemplo da preciosa e sofisticada poesia de José Luís Peixoto. Poesia esta que se deslinda pela prosa na mancha tipográfica: um universo “poético” anos luz de distância da famigerada prosa poética.  do autor é o que me interessa. A maneira como manipula lembranças, segredos, detalhes e descobertas num ambiente familiar é outro “toque de Midas” de sua ficção. Para conferir basta buscar em: https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2021-03-09-jose-luis-peixoto-transpos-memorias-de-rui-nabeiro-para-o-papel-e-criou-um-romance/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=jose-luis-peixoto-transpos-memorias-de-rui-nabeiro-para-o-papel-e-criou-um-romance

O terceiro e último passo é falar de um homem extraordinário. Suas atitudes são muito reveladoras da personalíssima prosa que desenvolve. Durante a entrevista que com ele fiz, ainda em 2014, que confirma a hipótese, foi recheada de comentários sutil e incisivos, temperados com uma finíssima ironia e uma mais ainda sofisticada presença de espírito. Um artista! Ao contrário de João Tordo, que construiu “de caso pensado” uma trilogia e de José Luís Peixoto que, até prova em contrário, ainda não se deu a este trabalho, Mario Claudio fez o mesmo que João Tordo e, de brinde, ganhou de seus críticos mais atentos, com acuidade de leitura mais que aguçada, a possibilidade de ver outros títulos de sua vasta produção reunidos em trilogias, “pensadas” pelo olhar destes leitores. Uma espécie de meio do caminho entre o “João” e o “José” que aqui comparecem. Pois. O ponto de fuga aqui é o romance Embora eu seja um velho errante. A sagacidade sofisticada do autor o levou a começar seu romance com uma cena inusitada. Um homem idoso cuida das cutículas enquanto começa a passear por suas memórias. Demais! As três partes do romance se encaixam como peças de uma engrenagem que, simultaneamente, inventa um mundo fantasioso e apropriado para as elucubrações do narrador e instaura a possibilidade de ser, a narrativa, um relato autobiográfico sem preocupação cartorial de sustentar todas as hipóteses de modo documental. Uma maravilha. O procedimento não é original, no conjunto de obra de Mario Claudio. Isso não interfere em nada na procedência do altíssimo grau de narratividade do autor. Marca personalíssima de sua ficção é o preenchimento de lacunas biográficas do sujeito cartorial ficcionalizado – quando é o caso – por elucubrações outras, de natureza genuinamente ficcional. Uma espécie de jogo de esconde-esconde divertidíssimo e sofisticado, muito sofisticado. No caso deste romance, acredito, esta proposta chega a um nível mais que superior e profundo. Neste caso, não recorro a opiniões alheias. Fico com as minhas impressões, ciente de minhas limitações, mas sou um leitor contumaz, digo o que penso sobre o que li. Sobretudo agora, no início da plenitude do ócio criativo em que vivo. Vale muito a leitura!

Três - parte 2

Foureaux, 24.01.22

Os três escritores ainda figuram em minha lista particular de preferências. Conheci pessoalmente os três. Com um deles, ainda mantenho certo contato, ainda que muito esporádico, depois que o visitei em sua residência. Os outros dois, conhecidos em país estrangeiro – meu e deles – são apenas autores de predileção. Não tenho contato. Li muitas obras dos três. Gostaria de ter lido tudo que os três escreveram, mas, como todo mundo sabe, livros portugueses custam uma fortuna nos estados unidos de bruzundanga. Além disso, estou naquela fase de não mais acumular volumes em estantes que só retroalimentam a cadeia alimentar dos fungos, ácaros e insetos, sob a pele diáfana da poeira que o tempo deixa como rastro. Ele passa. Os livros ficam. José Luis Peixoto foi o primeiro que conheci, em Zagreb, como João Tordo, na mesma cidade. Graças às atividades propostas pela Leitora de Português do Instituto Camões, a Sofia Soares, conheci-os. Escutei deles uma conferência. Conversei com eles. Foi muito bom. As três vidas (Quidnovi), lançado em Setembro de 2008 – meses depois de minha chegada a Zagreb – ganhou o Prémio José Saramago no ano seguinte. Gostei muito. Depois dele, foi a vez de ouvir José Luis Peixoto declamar um seu poema, lindo, que faz parte de um dos livros mais impressionantes que já tinha lido até então: Morreste-me, sua primeira obra publicada. Sua figura era completamente antagônica se considerada em comparação com sua escrita, mas isso é chatice minha. Dele, a primeira leitura foi: Nenhum olhar, seu segundo livro de ficção. Eu não sabia, mas minhas visitas à “terrinha”, anos depois, só confirmaram a impressão tocante do Ribatejo que li e depois conheci. Uma fulgurante e melancólica beleza. Anos depois, já em 2014, por conta do pós-doutoramento em Coimbra, vim a conhecer o terceiro, Mario Claudio. Fiz-lhe uma visita e uma entrevista – muito esclarecedora para a pesquisa que então desenvolvia – em sua residência, perto da parada chamada Francos, nos arredores do Porto. Dele, considerando o conjunto de obra, li muito pouco. Mas impressionou-me sobretudo o último: Embora eu fosse um velho errante. Livro impressionante por conta de uma espécie de síntese (se é que isso é possível) que o autor faz de seu próprio modus operandi. O livro é um exercício de criatividade insuperável. Acompanhando o raciocínio da postagem anterior, a primeira de uma série de três, esta aqui enfoca apenas a apresentação mais que genérica, superficial, dos autores que me interessam para a postagem final. Lá, se a preguiça assim o permitir, pretendo discorrer m pouco sobre a leitura que fiz das três últimas obras publicadas por José Luis Peixoto. João Tordo e Mario Claudio. Os três, na verdade, têm um ponto em comum: são portugueses. Quanto à obra de cada um, ah... há controvérsias. E é bom que haja mesmo. A unanimidade, como já dizia Nelson Rodrigues, é mesmo burra. Seus estilos são muito peculiares e abissalmente diferentes. O modo de encarar a Literatura, a mim me parece – como leitor – é outra abissal distância que se impões entre os três. Isso só reafirma a “qualidade” (n`á gosto desta palavra!) dos três: incontestável. Não especulei sobre as plausíveis “influências” em cada caso – isso seria pertinente se eu ainda lecionasse. Como desfruto do ócio criativo permanente, já não me faz falta satisfazer tal especulação. No entanto, a leitura de seus livros me leva a crer que, como todo o resto da população de escritores do planeta, também os três têm lá suas preferências de leitura e, por via de consequência suas influências sintomatizadas. A personalidade também é outro vetor a diferenciar os três, mas isso já não consegue ultrapassar a larga margem da obviedade. Como só conheci mais proximamente o mais velho dos três, Mario Claudio, não posso dizer nada acerca da pessoa dos outros dois. É assim mesmo. Quisera ter todos os livros dos três. Quisera poder ler todos os livros dos três. Quisera ter ânimo para escrever um ensaio sobre cada um deles e publicá-los, individualmente como livros. Melhor ainda, nessa série de “quisera”... seria ser lido. Mas aí já é pedir demais ao destino. Aguardem a terceira e última etapa.

Três - parte 1

Foureaux, 21.01.22

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Três. Número ímpar. Também, número primo. Simbolicamente, representa, salvo engano meu, o equilíbrio perfeito, entre outras coisas. Três é um número sagrado, relacionado à luz. É o número do resultado da moldagem das substâncias – produto da união. Número dos extrovertidos, dos inteligentes, criativos e espirituosos. Em nossa tradição cultural/espiritual, o homem (1) se uniu com sua companheira (2) e juntos geraram um filho. Assim surge o número 3, a tríade, a trindade. Ideia de progressão cíclica: começo, meio e fim. O 3 é representado pelo triângulo, primeira forma geométrica perfeita, pois todos os lados têm a mesma medida. Claro está que não elimino aqui as outras “espécies” de triângulo: isósceles, retângulo, escaleno, equilátero, obtusângulo, acutângulo. No Sepher Yetzirah, é o terceiro caminho da sabedoria, da inteligência sagrada e da sabedoria original. Na esfera superior, 3 são os princípios divinos. Na esfera do intelecto, significa os 3 degraus dos abençoados e as três hierarquias dos anjos. Na esfera celestial, indica os senhores planetários das triplicidades. Na esfera elemental, os três degraus elementais. Na esfera inferior, a cabeça, o seio e a região do plexo solar. Na esfera infernal, indica os três degraus dos danados, os três juízes infernais e as três fúrias infernais. A trindade prevalece nas religiões antigas e modernas. O triângulo tem 3 pontas. Com a ponta para cima, significa o fogo e os poderes celestes; com a ponta para baixo, significa a água e as hostes inferiores. O triângulo é geralmente usado em ritos místicos e pela maçonaria, tanto esotérica e exotérica – deixo a explicação destas duas categorias relegas à curiosidade de quem me lê. Não vou entregar todo o “ouro ao bandido”...! O triskel, figura composta de três espirais, significa as três camadas da natureza da alma humana. Uma figura central no simbolismo celta antigo. Terra, mar e céu, “casamento triplo”. O número 3 reúne os ideais necessários para o amadurecimento espiritual dos seus membros: fé, esperança e caridade. Para Pitágoras, representa a perfeição. Isso porque ele é a soma do um, que significa unidade, e do dois, que significa diversidade. É o número perfeito para os chineses: junção do céu e da terra, da qual resulta a humanidade. O número três representa a unidade divina, a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Para os gregos e os romanos, a manifestação divina decorre de uma trindade da qual fazem parte Júpiter/Netuno, Plutão/Zeus, Poseidon/Hades, respectivamente – deuses relacionados com coisas que têm relação com o número 3: o raio de Júpiter, o tridente de Netuno e o cão de três cabeças de Plutão. Também os hindus têm 3 deuses principais: Brahma, Vishnu e Shiva. Da mesma forma, os egípcios têm Ísis, Osíris e Hórus. Além da manifestação divina, várias coisas são representadas por três elementos: o ciclo da vida (nascimento, vida e morte), os Reis Magos – em que pese a teoria de que teria existido um quarto...), a ressurreição de Jesus ao terceiro dia, o fato de Pedro ter negado Jesus por 3 vezes. Três são os meses década estação do ano. Três, as fases da existência humana: infância, juventude, velhice. As medidas volumétricas são três. O raciocínio humano, mais tradicional tem três etapas: hipótese, antítese, síntese. Uma boa redação dissertativa tem três partes irrecorríveis: introdução, desenvolvimento, conclusão. Três as atitudes do carcará: pega, mata e come. Mesmo que muito aranhados, aqui nos estados unidos de bruzundanga, três são os “poderes”: legislativo, executivo, judiciário – na verdade, de poder andam a ter muito pouco, em função de sua disfuncionalidade galopante. Na Literatura, o três aparece em “romances de cavalaria”: Atos, Aramis e Dartagnan. Nas histórias infantis, três são os porquinhos: Palhaço, Palito e Pedrito – pelo menos, na versão que aprendi com minha mãe. Tio Patinhas tinha três sobrinhos sapecas: Huguinho, Zezinho e Luizinho. A energia elétrica, em terras tropicais, funciona num sistema trifásico – e anda caríssima, para manter a ganância de alguns poucos. Dizem por aí que é um número chave da democracia, pois é a quantidade mínima de pessoas necessárias para que se consiga tomar uma decisão em grupo. No grupo das fantasias sexuais, o três se faz presente: ménage à trois – aqui, a curiosidade de quem me lê não vai sofrer tanto para se satisfazer...! Se você fizer três fogueiras, em local em que não haja outra possibilidade de se fazer perceber, seu pedido será compreendido. A não esquecer as letrinhas mágicas, que são três, neste caso: SOS. Aqui termina a primeira parte de uma postagem que (ainda) vai falar de Literatura tout cour, a propósito do número três. Se a minha preguiça não vencer, a complementação segue amanhã. Caso contrário... só Deus!

Em tempo: muito do que aqui vai escrito eu tirei das páginas que se encontram abaixo identificadas!

https://medium.com/@nomeruz.nc/simbologia-do-número-3-2625424a32eb

https://www.dicionariodesimbolos.com.br/numero-3/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Três 

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