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As delícias do ócio criativo

08.10.25

Fazendo uma limpeza no computador, deparei-me com o texto que segue. Não é de minha autoria., por isso, as aspas. Fato é que gostei do seu conteúdo, daí a partilha. Fala de Literatura – assunto de que gosto imenso. Mesmo aposentado e, conforme o adagiário, “afastado de Deus” no que tange às lides “acadêmicas”, continuo um interessado contumaz sobre o assunto. Tomara que o tédio não tome conta dos olhos de quem se dispuser a ler...

“A ideia de senso comum cria – aparentemente de forma ‘natural’ – certo conflito. O discurso corrente sobre a literatura, que desig­na os pontos de referência para uma teorização, como acontece aqui, na abordagem de um texto constituído a partir da correspondência entre dois poetas, está sujeito, na sua base, a alguns questionamentos, haja vista o exame de pressupostos relativamente a certo número de noções fundamentais. Todo discurso sobre a literatura assume posição implícita e/ou explícita em relação a seu objeto. O ‘caso’ das cartas não é diferente.

Um balanço, um mapa, da teoria, literária seria, entretanto, concebível? E de que forma? Não seria esse um projeto abortado se, como afirma Paul de Man, ‘o principal interesse teórico da teoria literária consiste na impossibilidade de sua definição’?

A teoria não poderia, então, ser apreendida senão graças a uma teoria negativa, segundo o modelo desse Deus escondido do qual somente uma teologia negativa pode falar. Isso significa situar o horizonte alto demais, ou longe demais as afinidades, aliás reais, entre a teoria literária e o niilismo. A teoria não pode se reduzir a uma técnica nem a uma pedagogia – ela vende sua alma nos vade-mécum de capas coloridas expostos nas vitrinas das livrarias do Quartier Latin –, mas isso não é motivo para fazer dela uma metafisica nem uma mística. Não a tratemos como uma religião. A teoria literária não teria senão um ‘interesse teórico’? Não, se estou certo ao sugerir que ela e também, talvez essencialmente, critica, opositiva ou polêmica.

Porque não é do lado teórico ou teológico, nem do lado prático ou pedagógico, que a teoria me parece principalmente interessante e autêntica, mas pelo combate feroz e vivificante que empreende contra as ideias preconcebidas dos estudos literários, e pela resistência igualmente determinada que as ideias preconcebidas lhe opõem. Esperaríamos, talvez, de um balanço da teoria literária, que depois de ter oferecido sua própria definição de literatura, como definição condestável – trata-se, na verdade, do primeiro lugar-comum teórico: ‘O que é a literatura?’ –, depois de ter prestado uma rápida homenagem as teorias literárias antigas, medievais e clássicas, desde Aristóteles até Batteux, sem esquecer uma passagem pelas poéticas não-ocidentais, arrolasse as diferentes escolas que compartilharam a atenção teórica no século XX: formalismo russo, estruturalismo de Praga, New Criticism norte-americano, fenomenologia alemã, psicologia genebresa, marxismo internacional, estruturalismo e pós-estruturalismo franceses, hermenêutica, psicanalise, neo-marxismo, feminismo etc. Inúmeros manuais são assim: ocupam os professores e tranquilizam os estudantes. Mas esclarecem um lado muito acessório da teoria.

Ou até mesmo a deformam, pervertem-na; porque o que a caracteriza, na verdade, e justamente o contrário do ecletismo, e seu engajamento, sua vis polêmica, assim como os impasses a que esta última a leva sem que ela se de conta. Os teóricos dão a impressão, muitas vezes, de fazer criticas muito sensatas

contra as posições de seus adversários, mas visto que estes, confortados por sua boa consciência de sempre, não renunciam e continuam a matraquear, os teóricos se põem também eles a falar alto, defendem suas próprias teses, ou antíteses, até o absurdo, e, assim, anulam-se a si mesmos diante de seus rivais

encantados de se verem justificados pela extravagância da posição adversária. Basta deixar falar um teórico e contentar-se em interrompê-lo de vez em quando com um ‘Ah!’ um pouco debochado, para vê-lo desmoronar diante de nossos olhos!

Quando entrei no sexto ano do pequeno liceu Condorcet, nosso velho professor de latim-francês, que era também prefeito de sua cidadezinha na Bretanha, perguntava-nos a cada texto de nossa antologia: ‘Como vocês compreendem essa passagem? O que o autor quis dizer? Onde está a beleza do verso ou da prosa? Em que a visão do autor e original? Que lição podemos tirar daí?’ Acreditamos, durante um tempo, que a teoria literária tivesse banido para sempre essas questões lancinantes. Mas as respostas passam e as perguntas permanecem.

Estas são mais ou menos as mesmas. Ha algumas que não cessam de se repetir de geração em geração. Colocavam-se antes da teoria, já se colocavam antes da história literária, e se colocam ainda depois da teoria, de maneira quase idêntica. A tal ponto que nos perguntamos se existe uma história da crítica literária, como existe uma história da filosofia ou da linguística, pontuada de criações de conceitos, como o cogito ou o complemento. Na crítica, os paradigmas não morrem nunca, juntam-se uns aos outros, coexistem mais ou menos pacificamente e jogam indefinidamente com as mesmas noções que pertencem a linguagem popular. Esse é um dos motivos, talvez o principal motivo, da sensação de repetição que se experimenta, inevitavelmente, diante de um quadro histórico da crítica literária: nada de novo sob o sol. Em teoria, passa-se o tempo tentando apagar termos de uso corrente: literatura, autor, intenção, sentido, interpretação, representação, conteúdo, fundo, valor, originalidade, história, influência, período, estilo etc. E o que se fez também, durante muito tempo, em lógica: recortava-se na linguagem cotidiana uma região linguística dotada de verdade. Mas a lógica formalizou se depois. A teoria literária não conseguiu desembaraçar-se da linguagem corrente sobre a literatura, a dos ledores e dos amadores. Assim, quando a teoria se afasta, as velhas noções ressurgem intocadas. É por serem ‘naturais’ ou ‘sensatas’ que nunca não escapamos delas realmente? Ou, como pensa de Man, é porque só desejamos resistir a teoria, porque a teoria faz mal, contraria nossas ilusões sobre a língua e a subjetividade?  (...) Objetividade, gosto e clareza, Barthes assim resumia, cm Critique et Verite [Crítica e Verdade], em 1966, ano mágico, os dogmas do ‘suposto crítico’ universitário, o qual ele queria substituir por uma

‘ciência da literatura’. Há teoria quando as premissas do discurso corrente sobre a literatura não são mais aceitas como evidentes, quando são questionadas, expostas como construções históricas, como convenções. Em seu começo, também a história literária se fundava numa teoria, em nome da qual eliminou do ensino literário a velha retórica, mas essa teoria perdeu-se ou edulcorou-se a medida que a história literária foi se identificando com a instituição escolar e universitária.

O apelo a teoria é, por definição, opositivo, até mesmo subversivo e insurrecto, mas a fatalidade da teoria é a de ser transformada em método pela instituição acadêmica, de ser recuperada, como dizíamos. Vinte anos depois, o que surpreende, talvez mais que o conflito violento entre a história e a teoria literária, é a semelhança das perguntas levantadas por uma e por outra nos seus primórdios entusiastas, sobretudo esta, sempre a mesma: ‘O que é a literatura?’

Permanência das perguntas, contradição e fragilidade das respostas: dai resulta que e sempre pertinente partir das noções populares que a teoria quis anular, as mesmas que voltaram quando a teoria se enfraqueceu, a fim de não só rever as respostas opositivas que ela propôs, mas também tentar compreender por que essas respostas não resolveram de uma vez por todas as velhas perguntas. Talvez porque a teoria, a custa de sua luta contra a Hidra de Lerna, tenha levado seus argumentos longe demais e eles tenham se voltado contra ela? A cada ano, diante de novos estudantes, é preciso recomeçar com as mesmas figuras de bom senso e clichês irreprimíveis, com o mesmo pequeno número de enigmas ou de lugares comuns que balizam o discurso corrente sobre a literatura. Examinarei alguns, os mais resistentes, porque é em torno deles que se pode construir uma apresentação simpática da teoria literária com todo o vigor de sua justa cólera, da mesma maneira como ela os combateu – em vão.”

 

03.10.25

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Crônica da ascensão e queda de um alpinista social. Título instigante? Muito! Provável? Sim. Adequado? Penso que não, sobretudo quando se trata de um romance monumental – como tantos outros. Estou a falar de O vermelho e o negro (Le rouge et le noir), do Stendhal. Como ponto de partida, considero o que vem escrito na página da famigerada Wikipedia. Sim, eu a consult0, a consultei e não tenho motivos razoáveis para não a consultar num futuro provável. Se alguém me apresentar tal argumento, sou capaz de abandonar esta prática... Voltando ao que interessa. O verbete da tal Wikipedia diz o seguinte: “Le rouge et le noir (O vermelho e o negro, em francês), com o subtítulo Chronique du XIX siécle (‘Crônica do século XIX’), é um romance histórico psicológico em dois volumes do escritor francês Stendhal, publicado em 1830. Costuma ser citado como o primeiro romance realista, embora imbuído de uma sensibilidade romântica e, diferindo da literatura realista em geral (em especial Balzac), seja econômico nas descrições de ambientes físicos e pessoas, preferindo se aprofundar em seus processos psicológicos, levando ao extremo o foco do narrador onisciente. A ação transcorre na França no tempo da Restauração antes da Revolução de 1830, supostamente entre 1826 e 1830, e trata das tentativas de um jovem de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas para encontrar-se traído por suas próprias paixões. (...) O nome da obra é motivo para controvérsias. Discute-se muito a que Stendhal se referia com o ‘vermelho’ e o ‘negro’. Muitos atribuem o negro a cor da batina do herói e o vermelho ao sangue lavado, mas há outras interpretações que também podem ser citadas como a razão para o nome. O que reforça a dúvida é que em certas ocasiões, conclamam que o nome O vermelho e o negro, vem do vermelho da antiga farda vermelha (que depois tornou-se azul-claro) dos franceses e o negro da batina dos padres, demonstrando a principal dúvida de Julien: “revelar-se nobre e ter ascensão rápida e garantida na hierarquia religiosa, ou continuar mundano sob as mesmas circunstâncias na vida militar”. Essa é uma interpretação para a aceitação de um jovem de origem humilde nos meios sociais de maior vulto e influência.” O verbete continua, mas o que me interessa está aqui. Vamos por partes. De cara, uma chatice. Ao afirmar que O vermelho e o negro pode ser considerado ‘o primeiro romance realista, embora imbuído de uma sensibilidade romântica e, diferindo da literatura realista em geral’, eu poderia dizer que isso é uma grandessíssima bobagem. Não é. O fato é que reduzir a leitura de um romance como o de que trato aqui a estes parâmetros ‘classificatórios’ é imperdoável. Claro está que a periodização é importante e desempenha seu papel didático no estudo da Literatura, seja qual for a sua nacionalidade. No entanto, este texto de Stendhal, como tantos outros, transcendem essas mesmas periodizações, ainda que deles sejam feitos reféns por gente rasteira e sem perspectiva.  A aproximação com Balzac, irrecorrível, dá vantagem a Stendhal. Reservo-me o direito de ter por Balzac, opinião bem firme: um chato (como tantos outros). O detalhismo dele me cansa, entendia. Há peças memoráveis, por evidente, mas é um chato por conta do citado detalhismo. Além disso, a narrativa de Stendhal se alimenta dos miasmas napoleônicos de que ressente a cultura francesa (será que um dia livrar-se-á dela?). O caráter sociológico de que se reveste o desempenho do protagonista, Julien Sorel, ultrapassa o estreito limite da “crônica social”, como o referido verbete também anuncia. O enredamento de questões sociais, política, econômicas e religiosas formam um primoroso bordado da sociedade francesa coetânea do período recoberto pelo romance. Ba ficção, o escritor francês faz cortes cirúrgicos, notadamente em abcessos de hipocrisia dos quais a mesma sociedade se alimenta e deles se vangloria. Mais um dos paradoxos que a Literatura costuma construir, desvelar e, em muitos casos, demolir. De mais a mais, os envolvimentos amorosos de Julien Sorel escapam galhardamente de armadilhas românticas que tanto notabilizaram outros escritores do mesmo idioma. Ocorre-me, por acaso, Alexandre Dumas, com o seu O conde de monte Cristo. De igual maneira, em outro diapasão, Os miseráveis, de Victor Hugo. A lista é inumerável. De qualquer forma, a releitura deste romance me trouxe uma satisfação enorme. O gosto pela “alta literatura”, para Lembrar Leyla Perrone-Moisés é insaciável e encontra nos famigerados “clássicos” alimento inesgotável. Sei que sou um chato, mas gosto de ler, fazer o quê...!

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25.09.25

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Pensando no que escrever depois de (mais um!) lapso de tempo, deu-me um estalo e abri o arquivo com as obras completas de Augusto dos anhos, poeta de que gosto imenso. Passei os olhos pelo índice e deparei-me com um título instigante. O poema que a este título corresponde acabou por ser minha postagem de hoje. Sem mais!

Tomara que gostem...

POEMA NEGRO

A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.

Intimamente sei que não me iludo.

Para onde vou (o mundo inteiro o nota)

Nos meus olhares fúnebres, carrego

A indiferença estúpida de um cego

E o ar indolente de um chinês idiota!

 

A passagem dos séculos me assombra.

Para onde irá correndo minha sombra

Nesse cavalo de eletricidade?!

Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:

— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?

E parece-me um sonho a realidade.

 

Em vão com o grito do meu peito impreco!

Dos brados meus ouvindo apenas o eco,

Eu torço os braços numa angústia douda

E muita vez, à meia-noite, rio

Sinistramente, vendo o verme frio

Que há de comer a minha carne toda!

 

É a Morte — esta carnívora assanhada —

Serpente má de língua envenenada

Que tudo que acha no caminho, come...

— Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,

Sai para assassinar o mundo inteiro,

E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

 

Nesta sombria análise das cousas,

Corro. Arranco os cadáveres das lousas

E as suas partes podres examino...

Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,

Na podridão daquele embrulho hediondo

Reconheço assombrado o meu Destino!

 

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.

Então meu desvario se renova...

Como que, abrindo todos os jazigos,

A Morte, em trajes pretos e amarelos,

Levanta contra mim grandes cutelos

E as baionetas dos dragões antigos!

 

E quando vi que aquilo vinha vindo

Eu fui caindo como um sol caindo

De declínio em declínio; e de declínio

Em declínio, com a gula de uma fera,

Quis ver o que era, e quando vi o que era,

Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

 

Chegou a tua vez, oh! Natureza!

Eu desafio agora essa grandeza,

Perante a qual meus olhos se extasiam...

Eu desafio, desta cova escura,

No histerismo danado da tortura

Todos os monstros que os teus peitos criam!

 

Tu não és minha mãe, velha nefasta!

Com o teu chicote frio de madrasta

Tu me açoitaste vinte e duas vezes...

Por tua causa apodreci nas cruzes,

Em que pregas os filhos que produzes

Durante os desgraçados nove meses!

 

Semeadora terrível de defuntos,

Contra a agressão dos teus contrastes juntos

A besta, que em mim dorme, acorda em berros:

Acorda, e após gritar a última injúria,

Chocalha os dentes com medonha fúria

Como se fosso o atrito de dois ferros!

 

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.

Tu mataste o meu tempo de criança

E de segunda-feira até domingo,

Amarrado no horror de tua rede,

Deste-me fogo quanto eu tinha sede...

Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

 

Súbito outra visão negra me espanta!

Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.

A trava invade o obscuro orbe terrestre

No Vaticano, em grupos prosternados,

Com as longas fardas rubras, os soldados

Guardam o corpo do Divino Mestre.

 

Como as estalactites da caverna,

Cai no silêncio da Cidade Eterna

A água da chuva em largos fios grossos...

De Jesus Cristo resta unicamente

Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente

Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

 

Não há ninguém na estrada da Ripetta.

Dentro da Igreja de S. Pedro, quieta,

As luzes funerais arquejam fracas...

O vento entoa cânticos de morte.

Roma estremece! Além, num rumor forte

Recomeça o barulha das matracas.

 

A desagregação da minha Ideia

Aumenta. Como as chagas da morfeia,

O medo, o desalento e o desconforto

Paralisam-me os círculos motores.

Na Eternidade, os ventos gemedores

Estão dizendo que Jesus é morto!

 

Não! Jesus não morreu! Vive na serra

Da Borborema, no ar de minha terra,

Na molécula e no átomo... Resume

A espiritualidade da matéria

E ele é que embala o corpo da miséria

E faz da cloaca uma urna de perfume.

 

Na agonia de tantos pesadelos

Uma dor bruta puxa-me os cabelos.

Desperto. É tão vazia a minha vida!

No pensamento desconexo e falho

Trago as cartas confusas de um baralho

E pedaço de cera derretida!

 

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.

Eu, somente eu, com a minha dor enorme

Os olhos ensanguento na vigília!

E observo, enquanto o horror me corta a fala

O aspecto sepulcral da austera sala

E a impassibilidade da mobília.

 

Meu coração, como um cristal, se quebre;

O termômetro negue minha febre,

Torne-se gelo o sangue que me abrase,

E eu me converta na cegonha triste

Que das ruínas duma cassa assiste

Ao desmoronamento de outra casa!

 

Ao terminar este sentido poema

Onde vazei a minha dor suprema

Tenho os olhos em lágrimas imersos...

Rola-me na cabeça o cérebro oco.

Por ventura, meu Deus, estarei louco?!

Daqui por diante não farei mais versos.

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24.07.25

Não sei se, de fato, Jorge Luis Borges se ateve ao versículo bíblico que nomeia seu poema para criá-lo. Não sei se quis estabelecer esta ilação. Parece-me óbvio, mas não posso afirmar isso. O versículo Mateus 25:30 diz: “Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes”. Este versículo faz parte da parábola dos talentos, na qual o servo que não utilizou seu talento é punido por sua inatividade. Pelo sim, pelo não, como gostei do poema (da forma como chegou pra mim) compartilho. A gente deve sempre partilhar o que é bom ou, antes, o que parece bom, mesmo correndo risco de engano. Confesso: joguei o original no google translator. Não fiz correções. Muita preguiça, mais que habitual, me acomete a cada dia por aqui... Se pudesse, mudar-me-ia imediatamente, mas... Aí vai.

Mateo, XXV, 30

El primer puente de Constitución y a mis pies
Fragor de trenes que tejían laberintos de hierro.
Humo y silbatos escalaban la noche,
Que de golpe fue el juicio Universal. Desde el invisible horizonte
Y desde el centro de mi ser, una voz infinita
Dijo estas cosas (estas cosas, no estas palabras,
Que son mi pobre traducción temporal de una sola palabra):
-Estrellas, pan, bibliotecas orientales y occidentales,
Naipes, tableros de ajedrez, galerías, claraboyas y sótanos,
Un cuerpo humano para andar por la tierra,
Uñas que crecen en la noche, en la muerte,
Sombra que olvida, atareados espejos que multiplican,
Declives de la música, la más dócil de las formas del tiempo,
Fronteras del Brasil y del Uruguay, caballos y mañanas,
Una pesa de bronce y un ejemplar de la Saga de Grettir,
Álgebra y fuego, la carga de Junín en tu sangre,
Días más populosos que Balzac, el olor de la madreselva,
Amor y víspera de amor y recuerdos intolerables,
El sueño como un tesoro enterrado, el dadivoso azar
Y la memoria, que el hombre no mira sin vértigo,
Todo eso te fue dado, y también
El antiguo alimento de los héroes:
La falsía, la derrota, la humillación.
En vano te hemos prodigado el océano,
En vano el sol, que vieron los maravillados ojos de Whitman;
Has gastado los años y te han gastado,
Y todavía no has escrito el poema.
1953
“El otro, el mismo” (1964)

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Mateus, XXV, 30

A primeira ponte de Constitución e a meus pés

O rugido dos trens tecendo labirintos de ferro.

Fumaça e assobios subiam pela noite,

De repente, chegou o Juízo Final. Do horizonte invisível

E do centro do meu ser, uma voz infinita

Disse estas coisas (estas coisas, não estas palavras,

Que são a minha pobre tradução temporal de uma única palavra):

- Estrelas, pão, bibliotecas orientais e ocidentais,

Cartas de baralho, tabuleiros de xadrez, galerias, claraboias e adegas,

Um corpo humano para andar na terra,

Unhas que crescem na noite, na morte,

Sombra que esquece, espelhos ocupados que se multiplicam,

Declínios da música, as formas mais dóceis do tempo,

Fronteiras do Brasil e do Uruguai, cavalos e manhãs,

Um peso de bronze e um exemplar da Saga de Grettir,

Álgebra e fogo, o peso de Junín no teu sangue,

Dias mais populosos que Balzac, o perfume da madressilva,

Amor e a véspera do amor e memórias intoleráveis,

Sono como tesouro enterrado, acaso abundante

E memória, que o homem não olha sem vertigem,

Tudo isso Foi-te dado, e também

O antigo alimento dos heróis:

Falsidade, derrota, humilhação.

Em vão te derramámos o oceano,

Em vão o sol, que os olhos maravilhados de Whitman viram;

Passaste os anos e eles te gastaram,

E ainda não escreveste o poema.

1953

“O Outro, o Mesmo” (1964)

01.02.25

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No capítulo das releituras que causam enorme prazer, mais uma: O cemitério de Praga, Umberto Eco. O semioticista sabia escrever um romance. Romance mesmo, dos bons. Depois de lê-lo pela primeira vez, estive em Praga. Procurei encontrar o “clima” de algumas passagens do romance naquela cidade misteriosamente encantadora. Devo confessar que, desta vez, uma estranheza me ocorreu: não me dei conta de algumas “personagens”, como descrito na contracapa do volume que compulsei (2ª edição, Record, 2011). A satanista e as missas negras por exemplo. Pode ter sido falta de atenção minha, pode ter sido leitura malfeita, pode ter sido efeito de “problemas” de tradução. Vai saber. Isso não importa, na verdade. O romance é delirantemente delicioso. Para além disso, é de uma graça, às vezes, estonteante. Há passagens hilárias. O humor refinadíssimo do autor e sua verve sarcástica marcam presença inolvidável. Prova de sua erudição e amplo conhecimento de causa. Uma delícia de ler. Destaco duas passagens, das muitas que me deixaram estonteado de tanto prazer na leitura. Não sei se o efeito vai ser o esmo em que está lendo estas linhas, mas vale o esforço.

A primeira: “Entre os intelectuais parisienses, há quem admita, antes de exprimir a própria repugnância “ante os judeus, que alguns dos seus melhores amigos o são. Hipocrisia. Não tenho amigos judeus (Deus me livre); na minha vida sempre evitei essa gente. Talvez os tenha evitado por instinto, porque o judeu (veja só, como o alemão) sente-se pelo bodum (disse-o inclusive Victor Hugo, fetor judaica), que os ajuda a se reconhecerem, por esses e outros sinais, como aconte

ce aos pederastas. Meu avô me recordava que o cheiro del do uso desmedido de alho e cebola e talvez das carnes de carneiro e de ganso, sobrecarregadas por açúcares viscosos que as tornam atrabiliosas. Mas devem ser também a raça, o sangue infecto, os dorsos derreados. São todos comunistas, vejam-se Marx e Lassalle, ao menos nisso meus jesuítas tinham razão.

Sempre evitei os judeus também porque estou atento aos sobrenomes. Os judeus austríacos, quando enriqueciam, compravam sobrenomes

graciosos, de flor, de pedra preciosa ou de metal nobre, daí Silbermann ou Goldstein. Os mais pobres adquiriam sobrenomes como Grünspan (azinhavre). Na França, como na ltália mascararam-se adotando nomes de cidades ou de lugares, como Ravenna, Modena, Picard, Flamand, e por vezes se inspiraram no calendário revolucionário (Froment, Avoine, Laurier) – justamente, visto que seus pais foram os artífices ocultos do regicídio. Con­vém, porém, prestar atenção também aos nomes próprios que vezes mascaram nomes judeus: Maurice vem de Moisés, Isidore de Isaac, Edouard de Aarão, Jacques de Jacó e Alphonse de Adão...

Sigmund é um nome judeu? Por instinto, eu tinha decidido não dar confiança àquele medicozinho, mas um dia, ao pegar o saleiro, Froïde o derrubou. Entre vizinhos de mesa devem-se respeitar certas normas de cortesia e eu lhe estendi o meu, observando que, em cercos países, derramar o sal era de mau agouro, e ele, rindo, respondeu que não era supersticioso. Desde aquele dia, começamos a trocar umas palavras. Ele se desculpava pelo seu francês, que con­ siderava muito arrastado, mas se fazia entender muito bem. São nômades por vício, precisam se adaptar a todas as línguas. Gentilmente, eu disse: ‘O senhor só precisa habituar mais o ouvido.’ E ele me sorriu com gratidão. Escorregadia.

Froïde era mentiroso até enquanto judeu. Eu sempre ouvira dizer que os da sua raça devem consumir apenas alimentos especiais, cozidos apropriadamente, e por isso se mantêm sempre nos guetos, ao passo que Froïde comia em grandes bocados tudo o que lhe sugeriam no Magny e não desdenhava um copo de cerveja às refeições. (p. 48)”

A segunda: “– Senhores, a afirmação de que Cristo era judeu é uma lenda divulgada precisamente pelos judeus, como eram São Paulo e os quatro evangelistas. Na realidade, Jesus era de raça céltica, como nós, franceses, que só muito tarde fomos conquistados pelos latinos. E, antes de serem emasculados pelos latinos, os celtas eram um povo conquistador; já ouviram falar sobre os gálatas, que chegaram até a Grécia? A Galileia se chama assim por causa dos gauleses, que a colonizaram. Por outro lado, o mito de uma virgem que teria parido um filho é mito céltico e druídico. Jesus, basta olhar todos os retratos que temos dele, era louro e de olhos azuis. E falava contra os usos, as superstições, os vícios dos judeus e, ao contrário de tudo o que os judeus esperavam do Messias, dizia que seu reino não era deste mundo. E, se os judeus eram monoteístas, Cristo lança a ideia da Trindade, inspirando-se no politeísmo céltico. Foi por isso que mataram. Judeu era Caifás que o condenou, judeu era Judas que o traiu, judeu era Pedro que o renegou...” (p. 379)

Há receitas, aqui e ali, durante a narrativa. Tudo temperado com afinada ironia, tal como a seguinte observação: “Os tolos precisam ter sob as cobertas uma mulher, ou um rapazinho, para não se sentirem sós. Não sabem que a água na boca é melhor do que uma ereção. (p. 26). Mais “saboroso”, quase impossível! Atenção: não me venham com o lero-lero de que Umberto Eco era antissemita. Por favor! Tenham a decência de ler suas palavras no diapasão da ironia ficcional de que se serve para escrever o romance. Que romance!

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13.01.25


Voltando a falar do que eu mais gosto: Literatura. Estou relendo dois livros fundamentais para qualquer leitor: O pequeno príncipe e Dom Quixote. Os dois fazem parte do acervo do Clube de Literatura Clássica de que sou assinante. O primeiro veio como brinde da publicação de Terra dos homens, do mesmo Antoine de Saint-Exupéry. O segundo, nova edição a partir da tradução de Aquilino Ribeiro. Joias preciosíssimas! As releituras têm revelado, uma, surpresa, outra, confirmação. O pequeno príncipe tem me surpreendido, sobretudo por seu início. A passagem em que o aviado conhece o príncipe e, numa conversa bastante reveladora vai trocando primeiras impressões. É quando os desenhos aparecem e é aí que, para mim, reside a surpresa. Quando li o livro pela primeira vez, confesso, estava embalado pela “onda” editorial de então. (Tenho 69 anos incompletos, logo, é possível imaginar o que era isso quando eu tinha meus 11 ou 12!). A sequência de diálogos acerca do desenho, nesta releitura abriu-me todo um horizonte de expectativas para o livro. Há ali, penso agora, o desenvolvimento de princípios filosóficos sobre a existência, a realidade e o sentido dos símbolos que chega bem perto de Kant, Sartre (e todo o time de existencialistas, Freud e, acrescentaria, Wittgenstein. Não vou desenvolver as teses de cada um desses. Meu propósito, aqui, é provocar quem me ler. Sempre foi. O fruto de minha leitura, agora, é perceber as possibilidades de ilações desse tipo. Claro que posso estar enganado, mas a impressão prevalece. De outro lado, o livro de Cervantes é a confirmação das impressões que ficaram de duas leituras anteriores. A primeira, fragmentos, trechos. A segunda, completa. A ironia, a desfaçatez, o humor e a sagacidade do escritor espanhol continuam a espantar e admirar. Nada se compara à leveza jocosa com que o narrador vai apresentado as presepadas que o cavaleiro andante apronta e as enrascadas em que envolve seu fiel escudeiro. Diferentemente de Grande sertão: veredas e Os lusíadas, dois cartapácios de similar volume, Dom Quixote diverte e ensina, informa e descreve, narra e deslinda o espírito humano localizado no tempo e no espaço sem deixar de se projetar num infinito referencial que o transforma num clássico. Os outros dois cartapácios, como já disse antes, são de uma chatice imensurável, verdadeiros muros de dificuldade de leitura. No entanto, ao adentrar o palácio de beleza que os textos constroem, toda dificuldade se desfaz e o prazer, então, é igualmente imensurável.

06.11.24


Na postagem de ontem, esqueci-me, de acrescentar comentário sobre o que afirmei acerca dos dois primeiros versos do poema do Antônio Cícero: “No dia em que fui mais feliz / eu vi um avião cruzar o seu olhar até sumir”. Estou assumindo a ideia de que se trata de dois versos apenas. Como letra de música, na gravação de Adriana Calcanhoto (aliás, vou perguntar ao professor google se mais alguém gravou a mesma canção que faz jus ao poema), dependendo do site em que aparece podem ser mais versos, como por exemplo “No dia em que fui mais feliz / eu vi um avião / cruzar o seu olhar até sumir”, ou ainda “No dia em que fui mais feliz / eu vi um avião cruzar o seu olhar / até sumir”. Ao fim e ao cabo, a posição dos versos, aqui, não importa. A forma definitiva está no livro do poeta, já publicado. Quem quiser que o consulte. O que desejo expressar é a confirmação de minha assertiva. Trata-se, a meu ver, da mais acachapante declaração de amor de que tenho notícia. Vejam, que disse “acachapante”, não disse “única” ou “definitiva”. Porque as opiniões são diversas... e mudam. As interpretações não se prendem a grilhões ideológicos e cada um lê como quer, porque o poeta não pode, isso, controlar. Então... A imagem criada por Antônio Cícero fala de um fenômeno ao qual pouco se presta atenção. O avião que cruza o céu é percebido pelo eu lírico nos olhos de quem está à sua frente ou ao seu lado, não importa. Na leitura que faço, os olhos são do ser amado que olha para o céu e vê o avião. O eu lírico olha para o olho de seu/sua amado/a e vê neles o reflexo do avião que cruza o céu. se isto não é lindo, não sei o que é. Se isso não expressa amor infinito, inclusive pela ilação possível com “céu”, também, não sei do que se trata. Lacan já dizia que o sujeito deseja ser o que ele vê refletido nos olhos de sua mãe, no momento da amamentação. Disse isso, em outras palavras, de outra forma, mas, salvo equívoco meu, foi isso que ele disse. Logo, no poema, Antônio Cícero, tendo ou não procurado saber do que disse Lacan antes de escrever o poema, diz, em outras palavras, a mesma coisa. A analogia procede, tanto que é possível pensar que, inconscientemente, o poeta já percebe o que explicou o psicanalista – mesmo que, cronologicamente, a ordem não seja esta. De qualquer maneira, resta afirmar, confirmar e asseverar a beleza dos versos e sua acachapante forma de declaração de amor. E tenho dito!

PS: falando em poesia, recebi de uma amiga virtual (Natalia Castelluccio) um acróstico para o mês de novembro, em três línguas (Adoro tradução e suas artimanhas, suas surpresas e suas epifanias!). Fiz algumas adaptações, que julguei necessárias, e compartilho:

ACROSTICO DI NOVEMBRE

Nuove
Occasioni
Vibrano
Eternamente
Mentre
Bramiamo
Regole
Eccezionali
NOVEMBER
’s ACROSTIC
New
Occasions
Vibrate
Eternally
Meanwhile
Be craved
Exceptional

Rules
ACROSTICHE DE NOVEMBRE

Nouveau

Occasions

Vibrent

Éternellement

Momentanément

Bavardons

Règles

Exceptionnels

21.02.24

Uma das coisas que podem ser chamadas de “dificuldade” na prática da leitura crítica de obras literárias é a tal de “opinião”. Inescapável realidade que muitos tentam camuflar, desconsiderar e, até, tentar inutilizar. Em vão. Não se escapa dela. Por isso mesmo, não pode haver critério(s) “chamados” de objetivos para avaliações deste universo. Assim é que, ao ler um livro – sobretudo de autor próximo, conhecido, até amigo – a dificuldade aumenta e os tais critérios tidos como objetivos escapam inexoravelmente. A crítica fica, então, adstrita a um circuito de maledicência e/ou bajulação. Não há escapatória. Há algum tempo, deixei de me submeter a tais idiossincrasias, pelo simples fato de estar aposentado, em caráter definitivo. Neste estatuto, livrei-me, de uma vez por todas, da obrigação de agradar a quem quer que seja, submetendo minha “produção” ao parecer alheio, sempre sujeito a outro cariz idiossincrático. Isso tudo se agudiza quando se trata de um livro novo, o primeiro, na carreira de alguém. Nas vamos lá!

O livro se chama Autos da razão. Seu autor: Israel Quirino. Posso dizer que, mesmo em caráter mínimo e superficial, conheço o autor. Acabei de ler seu livro e não me furto ao impulso de escrever algumas linhas sobre a obra. A edição é austera. Capa simples, mostrando um par de mãos em fundo rosa pálido, champagne, diriam alguns. Ao observar a capa, lembrei-me de uma das disciplinas cursadas no Mestrado – “Fundamentos de Literatura Comparada” – para a qual escolhi, como tema da monografia de conclusão da disciplina, a Titulologia. Capítulo dos pródromos da Literatura Comparada no Ocidente, a Titulologia, como está no vocábulo estuda os títulos na perspectiva que caracteriza a própria disciplina: o comparativismo. As relações entre biografia autorial e título, entre tema e título, entre capa e título, entre assunto e título, entre contexto e título, etc. No fundo, como a própria disciplina de que faz parte, a Titulologia caracteriza-se por ter caráter especulativo e essencialmente teórico. Naquela altura, analisei um romance de Júlio Ribeiro, A carne, cuja capa apresentava um suculento filé, descansando sobre uma almofada de adamascado oriental carmim, enfeitado por grelos dourados. Foi um trabalho irônico e, por que não dizer, iconoclasta. Não vou repetir a dose aqui. A lembrança se justifica pois não encontrei relação plausível entre a ilustração da capa e o conteúdo do livro. Atenção: isto não é um defeito, nem uma qualidade. É, apenas e somente, a conclusão de um leitor que se quer atento e curioso. Punto i basta.

O relato ficcional – ainda que me senti tentado a relacionar certas passagens à traços de autobiografia – se desenvolve a partir das elucubrações de um protagonista que é responsável por sua própria narração. Et voilá: é um juiz. O autor é advogado. Uma coisa pode levar a outra, mas não “advogo” este direito para a leitura que fiz. No entanto, não quis deixar escapar a oportunidade da menção. Interessantemente, o livro é composto de seis capítulos. O detalhe poderia passar batido, não fosse o fato de o autor fazer parte ativa de um movimento cultural em Mariana-MG, cidade onde vive e atua, que tem um ícone identitário, a aldravia. Poema formado por seis versos univocabulares. A ideia mater desta forma poética é suscitar o leitor a construir o sentido do poema, dando vazão a um impulso metonímico provocado e sustentado pela linguagem poética. esta é a marca identitária deste poema e, por extensão, do movimento em cujo seio foi forjado. O número seis, portanto, não pode ser tomado apenas como marco instrumental de organização textual. Como leitor, aproveito o indício para estabelecer correlação entre o conteúdo ficcional do texto narrativo e o contexto a que se subscreve. Isso pode render leituras mais instigantes, suponho, do que a minha própria.

O título remete a uma forma literária em prosa ou verso que remonta aos séculos XV e XVI, notadamente a Gil Vicente, prócer da Literatura Portuguesa e, por extensão, da Literatura Brasileira. No entanto, para além do fato de não ser escrito em versos, os Autos da razão não deixam de contemplar um dos aspectos presentes na produção de Gil Vicente: o caráter moral de seus escritos, sempre voltados a questões de ordem ética (religiosa, mais acertadamente). No caso do escritor mineiro, o dilema pelo qual passa o juiz que protagoniza a narrativa rende eluvubrações de variado cariz, proporcionando ao leitor momentos de reflexão muito instigantes. É de se notar que, em certos passos do relato, a exaração de temas, questões e problemas jurídicos, enchem páginas e páginas, o que pode levar algum leitor a experimentar o tédio. Isso não é regra, mas é notável. Leio isto como exercício apaixonado de um profissional que transcende o tratado, na pena da ficção, não para demonstrar erudição – o que seria um pecado mortal –, mas para ilustrar de forma veemente – conseguindo, assim, mais verossimilhança no e para o relato que apresenta – as circunstâncias po quais passa o protagonista em sua sendo profissional, ética e, até espiritual. Os dramas vividos pelo juiz, no desenvolvimento do processo em que está envolvido, alimenta-se das dúvidas e apreensões que surgem na relação com a ré. Neste sentido, no embate com sua esposa, a dúvida e a angústia marcam o pensamento do narrador que se apresenta frágil diante da realidade acachapante que vai se criando ao longo do desenvolvimento do relato.

Texto de redação quase suntuosa, o relato traz para a cena ficcional, um universo já explorado em outro diapasão, o do suspense. Este não é o caso aqui, por inútil. Quer me parecer – é bom lembrar que sou apenas um leitor e, assim, não cabe a mim determinar o que se passou (ou não) na cabeça do autor para escrever isto ou aquilo em sua obra – a narrativa busca desenhar um percurso subjetivo em seu constante movimento de busca de esclarecimento, ou de uma verdade que escapa nas fímbrias de qualquer discurso, como é o caso do Direito e, por que não, da Literatura também.

Parece que consegui vencer certas dificuldades referidas no começo. Li o livro. Falei sobre ele. Implicitamente, fiz um convite. E não precisei nem bajular, nem condenar quem quer que seja, Alea jacta est!

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22.11.23

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O texto que segue foi publicado hoje num grupo de que faço parte - Compartilhando leituras - no Facebook. Como não sei quem tem curiosidade procurar por esse tipo de grupo... resolvi partilhar aqui. Dessa maneira, mantenho o ritmo de postagens do blogue, vencendo a preguiça...

Faz tempo que não partilho nada por aqui. O que não quer dizer que eu não esteja lendo. Pelo contrário. O prazer só aumenta com esta prática solitária e saudável, uma coisa insubstituível. Tenho o prazer de anunciar que, mais uma vez, decidi parar de ler um livro que estava me chateando muito Don Juan. Sim. Uma chatice. Parei no segundo canto. Não vejo sentido em me obrigar a ler o cartapácio enviado pelo Clube de Literatura Clássica do qual fui sócio. A edição é muito bem cuidada e bonita, como as demais do mesmo clube. No entanto, a leitura não rendia. Não vi graça nenhuma. Minha erudição não é para tanto, se é que tenho alguma. Entretanto, li três obras que me chamaram a atenção. Duas delas de um mesmo autor, sobre as quais quero comentar alguma coisa. São de um autor paranaense – Rogério Pereira. Ele é o editor do jornal Rascunho, do qual fui assinante. Desisti da assinatura porque os jornais não chegavam em data adequada, quando chegavam. Como tenho preguiça de ler em computador ou tablete, apesar de tentar continuar a fazê-lo, desisti, mas recomendo a assinatura e a leitura. O jornal é muito bom. Pois é. O Rogério, editor do Rascunho escreve, e bem. Os livros têm por título Na escuridão, amanhã (2013) e Antes do silêncio (2023). No mais antigo, os capítulos se organizam em dois blocos: letras e números. Confesso que não fiz um exercício que seria interessante fazer: anotar a ordem em que aparecem os capítulos indiciados por letras para verificar se a sequência obtida compões expressão que tenha algum sentido. Num segundo momento, este exercício levaria a considerações acerca da articulação desta expressão como o texto do próprio romance. Como não fiz o referido exercício fico na intuição de que alguma coisa resulta desta opção ficcional do autor. Os capítulos, então, vão compondo uma sinfonia dramática em que o leit motif é a relação da voz narrativa com sua mãe. Ela vai sendo apresentada em seus momentos mais cruciais durante o tratamento de um câncer. A primeira pessoa do relato esmiuça os detalhes – sórdidos, dramáticos, contundentes – de tudo o que envolve esta doença miserável. Suas opiniões, pensamentos, reações e cogitações compõem um painel doloroso de um processo em que toda uma vida se revê, como uma espécie de anamnese existencial que procura certa remissão. A estrutura do romance se alterna percepções de um presente narrativo com considerações de um passado recente e não tão recente assim. Isso faz com que esta narrativa se aproxima da outra. Nesta, a mais recente, o foco muda de mãe para o pai. Não há doença como costura de “episódios” relatados. Neste caso, o tom é mais confessional. A voz narrativa, na mesma primeira pessoa, faz considerações – nem sempre simpáticas – a seu pai. Um universo imenso de caraterísticas, situações, sentimentos e reações é caudalosamente articulado por um texto que flui de maneira densa, pesada, mas em nada e por nada desagradável. É bom ler este texto. Um detalhe interessante é que ambos os livros se desenvolvem numa chave bastante usual no âmbito da Literatura produzida no Brasil, em períodos alternados a outras experiências. O fato de os relatos se circunscreverem a uma primeira pessoa que narra, leva, imediatamente à consideração de dois traços característicos da própria ficção concebida por Rogério Pereira: o memorialismo e a autobiografia. Estes dois termos ensejam, para alguns, categorias narrativas “autônomas”. Declino do direito de polemizar com esta assertiva, sem deixar de registrar que trata-se de possibilidades de abordagem dos livros de Rogério Pereira. Quem afirmar que todo e qualquer texto narrativo – romance, conto ou novela – é fruto de um registro e de uma ficcionalização que passa, obrigatoriamente, pela memória e pela experiência existencial do autor, deixa de ser acurado em sua afirmativa. Há sempre controvérsias. Tal ideia não pode, por sua própria natureza, ser tomada como axioma irrecorrível do gênero narrativo, sobretudo quando se trata de um romance – ainda que curto, como é o caso aqui. Do contrário, quem nega resvala no mesmo equívoco. O que desejo afirmar é que: não conhecendo o autor pessoalmente e conhecendo menos ainda sua performance existencial – com exceção feita a seu exercício editorial de inquestionável valor – não posso afirmar que se trata de ficção, digamos, intimistas. Uso este termo para agradar a alguns críticos de plantão que ainda acreditam que tal “intimismo” é apenas resultado de uma espécie de relato subjetivo e confessional. No entanto, é impossível ceder à tentação de “imaginar” – aqui, este verbo é tudo! – a plausibilidade de tal possiblidade de abordagem. Pelo sim, pelo não, recomendo a leitura. Ainda que guarde certa dose mágoa: o autor jamais respondeu a uma carta que lhe enviei, quando do encaminhamento de dois livros meus. Eu adoraria ter recebi pelo menos uma nota de recebimento dos mesmos. Mas isso é outra história...

24.09.23

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Reli, ainda uma vez, 1984 de George Orwell. Impressionante. Desta vez, ao chegar quase ao final do livro deparei-me com um trecho que me fez pensar por longos minutos. Na edição impressa que reli (Clube de Literatura clássica, 2023) o trecho está entre as páginas 265-268. O mesmo trecho, aqui explicitado, tirei de uma edição virtual (https://multimidia.gazetadopovo.com.br/media/info/2022/202209/1984/e-book-1984.pdf) e encontra-se entre as páginas 456-462. Qualquer coincidência não é mera semelhança, infelizmente!

“Duplopensar significa o poder de manter duas crenças contraditórias em uma mente simultaneamente, e aceitando os dois. O intelecto do Partido sabe em que direção suas memórias devem ser alteradas; ele sabe, portanto que ele está pregando peças na realidade; mas pelo exercício de duplopensar ele também satisfaz a necessidade de saber que a realidade não é violada. O processo tem que ser consciente, ou não seria realizado com precisão suficiente, mas também tem que estar inconsciente, ou traria consigo uma sensação de falsidade e, portanto, de culpa. Duplopensar está no coração do Socing, uma vez que o ato essencial do Partido é usar a decepção consciente enquanto mantém a firmeza de propósito que é consequência da total honestidade. Pois dizer mentiras plenas e continuar acreditando genuinamente nelas, esquecer qualquer fato que se tornou conveniente e lembrar dele quando ele se tornou necessário novamente, durante o tempo que for necessário, negar a existência da realidade objetiva enquanto se leva em consideração a realidade que é negada – tudo isso é completamente necessário. Até mesmo o uso da palavra Duplopensar é necessário para se exercer o duplopensar. Ao usar a palavra, se admite a adulteração da realidade; com um novo ato de duplopensar se apaga esse conhecimento; e assim por diante indefinitivamente, com a mentira sempre um pulo à frente da verdade. Em última análise, é por meio do duplopensar que o Partido tem sido capaz – e pode, pelo que sabemos, continuar sendo capaz por milhares de anos, de deter o curso da história.

Todas as oligarquias do passado caíram do poder ou porque se calcificaram ou porque amoleceram. Ou elas se tornaram estúpidas e arrogantes, fracassaram em se ajustar à mudança de circunstância e foram derrubadas; ou se tornaram liberais e covardes, fizeram concessões quando deveriam ter usado a força, e foram derrubadas. Ou seja, elas caíram ou pela consciência ou pela inconsciência. É uma conquista do Partido ter produzido um sistema de pensamento no qual ambas as condições podem existir simultaneamente. O domínio do Partido não se tornaria permanente com nenhuma outra base intelectual. Se for para governar, e para continuar governando, é preciso ser capaz de deslocar o sentido da realidade. Pois o segredo da governabilidade é combinar a crença na própria infalibilidade com o poder de aprender com os erros do passado.

Não é preciso dizer que os praticantes mais sutis de duplopensar são aqueles que inventaram o duplopensar e sabem que se trata de um vasto sistema de trapaça. Em nossa sociedade, aqueles que têm o melhor conhecimento do que acontece são também os que menos conseguem ver o mundo como é. Em geral, quanto maior a compreensão, maior a ilusão; quanto mais inteligente, menos são. Uma ilustração clara disto é o fato de que a histeria bélica aumenta de intensidade à medida que se sobe na escala social. Aqueles cuja atitude em relação à guerra é mais racional são os povos sujeitos nos territórios disputados. Para esses povos a guerra é simplesmente uma calamidade contínua que varre sob seus corpos de um lado para o outro como uma onda gigantesca. Qual lado está ganhando é uma questão completamente indiferente para eles. Eles estão cientes de que uma mudança de soberania significa simplesmente que estarão fazendo o mesmo trabalho que antes para os mestres novos, que os tratam da mesma maneira que os antigos. Os trabalhadores ligeiramente mais favorecidos, que são chamados de “proles”, estão apenas intermitentemente conscientes da guerra. Quando necessário, eles podem ser levados a um frenesi de medo e ódio, mas quando deixados a si mesmos, são capazes de esquecer que a guerra está acontecendo por longos períodos. Mas é entre o Partido, sobretudo no Partido Interno, que se encontra o verdadeiro entusiasmo de guerra. A conquista mundial é uma crença mais firme entre aqueles que sabem que ela é impossível. Esta relação peculiar entre opostos – conhecimento com ignorância, cinismo com fanatismo – é um dos principais diferenciais da sociedade da Oceania. A ideologia oficial é abundante em contradições mesmo quando não há nenhuma razão prática para elas.

Assim, o Partido rejeita e vilipendia todos os princípios do Socialismo original e faz isso em nome do Socialismo. Ele prega um desprezo pela classe trabalhadora que não era demonstrado por séculos, e veste seus membros com um uniforme que, em determinado momento, era comum aos trabalhadores manuais – e é justamente por isso que foi adotado. Isso mina sistematicamente a solidariedade da família, e chama seu líder por um nome que é um apelo direto ao sentimento de lealdade familiar. Mesmo os nomes dos quatro Ministérios pelos quais somos governados exibem uma espécie de insolência em sua reversão deliberada dos fatos. O Ministério da Paz se ocupa da guerra, o Ministério da Verdade com mentiras, o Ministério do Amor com a tortura e o Ministério da Abundância com a fome. Estas contradições não são acidentais, nem resultam de hipocrisia; elas são exercícios deliberados de duplopensar. Pois é apenas reconciliando as contradições que o poder pode ser retido indefinidamente. O ciclo antigo não seria quebrado de nenhuma outra maneira. Se a igualdade humana for evitada para sempre – se os Altos, como chamamos, devem manter seus lugares permanentemente – então a condição mental predominante precisa ser uma insanidade controlada.”

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