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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Palavras outras

Foureaux, 13.12.21

Chato.jpegSignificar, como verbo transitivo direto significa querer dizer; apresentar-se como expressão de; exprimir, traduzir. Por força de derivação por prefixação, resinificar é um verbo transitivo que caracteriza a ação de atribuir um novo significado a algo ou alguém. A ressignificação é um elemento importante no processo criativo, em que a habilidade de atribuir novas importâncias a um evento comum se torna útil e propicia prazer às pessoas. Claro está que esta “definição” não foi retirada do Houaiss. Copiei da “rede”. Entretanto, serve para o meu propósito aqui. É preciso, para isso, prestar atenção na ideia principal do verbo. Em seguida, atente-se para o fato de que o prefixo aposto ao verbo, faz dele a expressão de um ato repetitivo, de reforço de seu próprio significado. Ou seja, o prefixo aglutina ao sentido original do verbo o aspecto positivo de seu significado. Em outras palavras, o verbo prefixado, em sua forma derivada, faz com que o senso de positividade carregado pela forma original se faz reafirmada, confirmada, repetida. Por isso mesmo reforçada. Essa volta toda é só para enfeitar um pouco a minha estranheza ao escutar numa estação de rádio a mocinha – decerto, muito orgulhosa de seu diploma em jornalismo, obtido com muito esforço, muita cachaça e a ajuda preciosa de uma bolsa do prouni, reuni ou qualquer uma dessas muletas que ululam por aí, em nome de uma suposta “democratização” do ensino superior. Meu ponto de fuga não é esse. O que me interessa é comentar o esquisito uso feito por essa mocinha, na tal estação de rádio, quando fala, com todos os “esses” e “erres”, sobre a importância e a qualidade da “ressignificação dos traumas”. Não prestei atenção ao que a mocinha tinha falado antes. Creio que não interessava mesmo. Esta expressão, só esta expressão em si, já denota a “qualidade” da formação da mocinha. Resignificar trama. Em sã consciência, qualquer pessoa seria capaz, no uso de suas faculdades mentais, investir esforços para resignificar um trauma. Que eu saiba, trauma, a gente cura, se livra dele, o ultrapassa. Trauma, por força de sua própria natureza, é algo incômodo, ruim, que faz sofrer, que não causa alegria a ninguém. Posso estar enganado, é claro. Ainda assim, continuo estupefato com a sonora e presunçosa afirmação da mocinha. Há miríades de pessoas que fazem o mesmo uso e se sentem absolutamente felizes e brilhantes como celebridades em sua ofuscante ignorância. Repito, posso estar enganado. Ainda assim,mantenho a minha chatice.

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O fim

Foureaux, 01.12.21

Hoje é o primeiro dia do início do fim do ano. Mais um. Tudo igual. A mesma cantilena. É a época do ano de que menos gosto, mas fazer o quê? Amanhã, já vou providenciar o bacalhau para a noite do dia 24, como é costume aqui em casa. Aproveito para comprar umas jujubas de que tanto gosto. Com parcimônia, porque o diabetes é um demônio que ronda a gente com vigilância mais que canina... Assim, resolvi fazer a postagem de hoje com um texto que já deve ser conhecido de tão “rodado” na rede. Fazer o quê? É só pra matar o tempo mesmo e tentar não deixar pesar o “clima”... O texto não é meu e desconheço a autoria, por isso está entre aspas. Aí vai:

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“Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!... O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disseram que sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C medroso que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, “Kkk” pra cá, “www” pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo de medo”. Tudo bem, vou-me embora da Língua Portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o Alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!... Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na História.

Adeus,
Trema.

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Lusofonia

Foureaux, 29.11.21

Tenho um amigo em Lisboa, O José Colaço. Faz ex-libris muito bonitos. Um sujeito muito simpático. Mandou-me mensagem com expressões correntes em Portugal. Tem sua graça. Partilho aqui. É divertido e aprende-se um pouco mais acerca dessa cultura nossa matriz. 

Bandeira.jpeg— Um português não tem um problema, na realidade ele está “feito ao bife”.
— Um português não lhe diz para deixá-lo em paz, diz-lhe “vai chatear o Camões”.
— Um português não lhe diz que é sexy, diz-lhe “é boa como o milho”.
— Um português não repete o que diz, ele “vira o disco e toca o mesmo”.
— Um português nunca se chateia, apenas “fica com os azeites”.
— Um português não tem muita experiência, ele tem “muitos anos a virar frangos”.
— Um português não se livra de problemas, ele “sacode a água do capote”.
— Um português não está numa situação desesperante, ele está com “água pela barba”.
— Um português não se irrita, ele “vai aos arames”.
— Um português que muda de ideias facilmente é um “troca-tintas”.
— Um português não é descarado, ele “tem lata”.
— Um português não se recusa a dar informação, ele “fecha-se em copas”.
— Um português não morre, ele “estica o pernil”.
— Um português não se faz de surdo, ele “faz orelhas moucas”.
— Um português não diz que está tudo suspenso por tempo indeterminado, ele diz que “ficou tudo em águas de bacalhau”.
— Um português não diz “É indiferente para mim”, ele diz “Não me aquece nem me arrefece”.
— Um português não passou por situações difíceis, ele “passou as passas do Algarve”.

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"Dia do professor"

Foureaux, 16.10.21

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Eu pensei em escrever sobre uma cena televisada hoje. Um policial militar desce o cacete numa moça que, aparentemente, falava alguma coisa de muito agressivo e gesticulava nervosamente, enquanto os demais policiais e transeuntes observavam como se fosse um set de filmagem. Tudo errado. Em lugar disso, vou transcrever mensagem recebida de um amigo querido, Paulo Meyer, a quem conheço por mais de duas décadas, de quem compro bilhetes aéreos e seguros de viagem. Mandou-me o texto a propósito do dia 15 de agosto, ontem, data em que se “comemora”, no Brasil, o dia do professor. Desconheço a autoria.

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*Português não é para amador.*
Um poeta escreveu:
“Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar”.
Às vezes, não acentuar parece mesmo a solução.
Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê.
Assim como, obviamente, prefiro o coco ao cocô.
No entanto, nem sempre a ausência do acento é favorável...
Pense no cágado, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração.
E há outros casos, claro!
Eu não me medico, eu vou ao médico.
Quem baba não é a babá.
Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária.
Será que a romã é de Roma?
Seus pais vêm do mesmo país?
A diferença na palavra é um acento; assento não tem acento.
Assento é embaixo, acento é em cima.
Embaixo é junto e em cima separado.
Seria maio o mês mais apropriado para colocar um maiô?
Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá?
O que tem a pele do Pelé?
O que há em comum entre o camelo e o camelô?
O que será que a fábrica fabrica?
E tudo que se musica vira música?
Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com as más pessoas?

Será que tudo que eu valido se torna válido?
E entre o amem e o amém, que tal os dois?
Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta.
É a primeira vez que tu não o vês.
Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha.
Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo.
Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração.
Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto.
Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.
Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa.

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Calça, você bota; bota, você calça.
Oxítona é proparoxítona.
Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico.
E paro por aqui, pois esta lista já está longa.
Realmente, português não é para amador!
Se você foi capaz de ENTENDER TUDO, parabéns!!! Seu português está muito bom!