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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Palavras

Foureaux, 22.09.22

Palavras são “seres” interessantíssimos. Parecem, às vezes, ter vida própria. Seus significados seduzem e confundem. Seu sentido pode mudar conforme a inflexão da voz ou o contexto em que aparecem. Um mundo praticamente mágico que muitos têm a ousadia de afirmar que conseguem dominar. Ledo engano! Um amigo colocou em sua página do facebook observações sobre duas palavras: enfezado e gari. Na onda de preguiça que está citando a passar por aqui, deixo os comentários para o vosso deleite (imitando expressão alfacinha!)

Como surgiu a palavra “ENFEZADO”. Um pouco de História: a cidade do Rio de Janeiro, como conhecemos hoje, é fruto de um processo de modificação que foi acontecendo ao logo do tempo. No século XIX, ela estava bem longe de ser chamada de cidade maravilhosa. Pessoas brutas, ruas esburacadas, sujas e esgoto faziam naturalmente parte do cenário da pequena cidade do Rio de Janeiro. No século XIX, quem sofria bastante com esse cenário eram os “Tigres”. Muita gente atravessava a rua quando cruzava com um deles. Muitos podem se assustar ao ouvir isso hoje em dia, mas naquela época isso tudo fazia parte do cotidiano. Os tigres não eram animais, eram africanos escravizados que faziam o serviço doméstico. Um dos trabalhos dos tigres era jogar os dejetos dos seus senhores na Baia de Guanabara e nas Lagoas. Existiam pontes de madeira exclusiva para isso. De tardinha, os escravos saiam para jogar os dejetos com uma tina na cabeça cheia de fezes. Às vezes, o conteúdo vazava e as fezes escorriam pelos seus corpos, nas peles que ficavam manchadas. Quando isso acontecia eles eram chamados de “tigres” devido às manchas. Algo bem pior acontecia com frequência, as tinas estouravam, o escravo ficava furioso, e muitos diziam: “O escravo está enfezado”. Enfezado, isto é, cheio de fezes... (Texto: Marcelo S. Souza &

Imagem: Revista A Semana Ilustrada).

A origem do termo “gari”. No Brasil, as ações iniciais de limpeza das vias públicas aparecem na época do governo imperial. No ano de 1830, uma lei da capital federal estipulava que houvesse o “desempachamento” das ruas da cidade. No caso, além de retirar o lixo, a lei de natureza “higiênica” determinava que as mesmas ruas fossem livradas dos mendigos, loucos, desempregados e outros animais ferozes. Uma das primeiras ações organizadas para o serviço de recolhimento do lixo urbano apareceu no Brasil quando o governo imperial contratou o francês Aleixo Gary para transportar o lixo produzido no Rio de Janeiro para a ilha de Sapucaia. O sobrenome do contratado acabou sendo utilizado para a designação feita a todos os funcionários que realizam a coleta de lixo nas cidades. (Texto: Rainer Gonçalves Sousa, postado originalmente em O Rio de Janeiro que não vivi /facebook)

Passado

Foureaux, 17.09.22

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico, e o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante. Se conseguimos conquistar com braço forte o penhor dessa igualdade, o nosso peito desafia a própria morte em seu seio, ó liberdade. O nosso peito desafia a própria morte! Ó pátria amada, idolatrada, salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vivido de amor e de esperança à terra desce. Se a imagem do cruzeiro resplandece em teu formoso céu, risonho e límpido, gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, e o teu futuro espelha essa grandeza, terra adorada, entre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada! És mãe gentil dos filhos deste solo, pátria amada, Brasil!

Fulguras, o Brasil, florão da América, deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, iluminado ao sol do Novo Mundo! Teus risonhos, lindos campos têm mais flores do que a terra, mais garrida. Nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio, mais amores, ó pátria amada, idolatrada, salve! Salve!

O lábaro que ostentas estrelado seja símbolo de amor eterno e diga o verde-louro dessa flâmula: “Paz no futuro e glória no passado”, mas, se ergues a clava forte da justiça, verás que um filho teu não foge à luta, quem te adora nem teme a própria morte, terra adorada, entre outras mil és tu, Brasil, ó Pátria amada! És mãe gentil dos filhos deste solo, pátria amada, Brasil!

Hoje deu vontade de fazer uma coisa que fiz numa das primeiras aulas de Língua Portuguesa, no primeiro semestre do curso de Letras. Pode parece anacrônico e sem sentido, mas o professor, numa de suas aulas, fez esse exercício conosco para introduzir o estudo da gramática tradicional, então obrigatória – que falta faz ela hoje!!! Colocávamos em ordem direta os versos do hino, como se fosse uma sequência de períodos e em seguida, fazíamos destes a análise sintática. Depois, durante a correção, discutíamos com o professor e passávamos para o capítulo posterior. Numa de outras aulas, fizemos o mesmo com um canto d’Os lusíadas. A escolha era do professor. Aliás, nesta aula, o mesmo exercício, com os versos da epopeia, serviu de avaliação parcial do semestre. Aprendia-se a Língua Portuguesa em seu funcionamento, para depois estabelecer e reconhecer as regras deste mesmo funcionamento. Uma didática que se perdeu no tempo, infelizmente.

 

De passagem

Foureaux, 14.09.22

Meu professor de análise sintática era o tipo de sujeito inexistente.

Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida, regular como um paradigma da primeira conjugação.

Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto.

Casou com uma regência.

Foi infeliz.

Era possessivo como um pronome.

E ela era bitransitiva.

Tento ir para os eua.

Não deu.

Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.

A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.

Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

 

Este texto não é meu. Vi-o como postagem, de Facebook, de um sujeito chamado Dagoberto Wagner. Não sei quem é. O autor da postagem, coloca aspas no início e no fim do texto. Entre parênteses, embaixo, está escrito Paulo Leminski. Não conheci este poeta. Vi dele algumas fotos. Li algumas linhas, mais de comentários do que dele próprio. Sei que ficou com fama de transgressor. Cá entre nós, tinha cara de quem gostava de uma birita. Fumava, se não me equivoco. O que se passa é que foi mais um desses fenômenos que o tal “mercado” gosta de enaltecer e que acaba, para o bem e para o mal, entrando na tão famigerada “série literária”. Quem cursou Letras nas décadas de 70 e 80 do século passado vai entender estas aspas. Mão vou explicá-las. Bom. Ao fim e ao cabo, copiei e digitei aqui, para não ficar muito mais de dez dias sem colocar nada neste blogue que já tem mais de década de existência e que, até hoje, continua sobrevivendo, resiliente, à sombra do oblivium... Nullam id enim ipsum...

Idiossincrasias

Foureaux, 20.07.22

Ontem revi um filme com Nicole Kidman. Gosto desta atriz. O filme contava a história de Grace Kelly. Logo de início, aparece a observação que diz ser o filme baseado em fatos verídicos ainda que tenha sua história adaptada. Logo, deduz-se, não condiz com a verdade inteira. o entanto, uma vez mais, é daqueles filmes que demonstram o valor intrínseco das palavras. Ou melhor da “palavra”. Falo daquilo que o sujeito empenha e do poder que este empenho imprime aos vocábulos que usa, transformando suas assertivas em verdadeiros petardos de sentido, de valor, de verdade. Vejam o filme (Grace de Mônaco, 2015, direção de OlivernDahan, roteiro de Arash Amel).  Está no Netflix. A propósito de palavras, mesmo antes de dormir, recebi mensagem de uma amiga com um texto sobre acentuação, inclusive. Ainda não consegui esclarecer para mim mesmo porque comecei falando do filme para introduzir a partilha da mensagem que entendo como interessante. Vá lá...

“Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar. Às vezes, não acentuar parece mesmo a solução. Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê. Assim como, obviamente, prefiro o coco ao cocô. No entanto, nem sempre a ausência do acento é favorável... Pense no cágado, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração. E há outros casos, claro! Eu não me medico, eu vou ao médico. Quem baba não é a babá. Quem bebe não é bebê. Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária. Será que a romã é de Roma? Seus pais vêm do mesmo país? A diferença na palavra é um acento; assento não tem acento. Assento é embaixo, acento é em cima. Embaixo é junto e em cima separado. Seria maio o mês mais apropriado para colocar um maiô? Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá? Essa eu não sabia. O que tem a pele do Pelé? O que há em comum entre o camelo e o camelô? O que será que a fábrica fabrica? E tudo que se musica vira música? Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com as más pessoas? Falando em mas, quem escreve mais ou mas achando que tanto faz, erra demais. Mas, se prestar a devida atenção, um dia não errará mais. E poderá, enfim, escrever mas ou mais na santa Paz. Aqueles que não entenderam, um dia entenderão. Será que tudo que eu valido se torna válido? E entre o amem e o amém, que tal os dois? Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta. É a primeira vez que tu não o vês. *Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto. Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas. Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça, você bota; bota, você calça. Oxítona é proparoxítona. Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico. E paro por aqui, pois esta lista já está longa. Realmente, Português não é para amador! Se você foi capaz de entender tudo, parabéns! Seu Português está muito bom! (Desconheço autoria)

 

Coisa

Foureaux, 07.06.22

O texto que segue não é de minha autoria, como se vê logo abaixo do título). Já o conhecia. Não me lembro se já o coloquei aqui. Pode ser que sim. Minha abissal preguiça me impediu de procurar nos alfarrábios deste blogue (creio que já há mais de dez anos o seu aparecimento). Deixa pra lá. O que importa é que o danado do texto é divertido, ainda que discutível. Vá lá. Minha chatice anda modorrenta. deve ser o frio...

 

Coisas do Português

(Francicarlos Diniz, jornalista e escritor, pós-graduado em Comunicação pela USP)

 

A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia.

Gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: Ô, seu “coisinha”, você já “coisou” aquela coisa que eu mandei você “coisar”? Em Olinda, o bloco carnavalesco “Segura a Coisa” tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: Segura a “coisa” com muito cuidado / Que eu chego já.”

Já em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem – menos o trem, que lá é chamado de “coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trens que lá vem a “coisa”!

E, no Rio de Janeiro? Olha que “coisa” mais linda, mais cheia de graça... A garota de Ipanema era coisa de fechar o trânsito! Mas se ela voltar, se ela voltar, que “coisa” linda, que “coisa” louca. Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a cachaça. Nunca vi coisa assim! Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira um monte de coisas...

Mas a “coisa” tem história mesmo é na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, a coisa estava na letra das duas vencedoras: “Disparada”, de Geraldo Vandré: Prepare seu coração pras “coisas” que eu vou contar...; e A Banda, de Chico Buarque: pra ver a banda passar, cantando “coisas” de amor... Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta. E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “coisa” linda, “coisa” que eu adoro! Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade afinal, são tantas “coisinhas” miúdas. E esse papo já tá qualquer “coisa”. Já qualquer “coisa” doida dentro mexe... Essa coisa doida é um trecho da música “Qualquer Coisa”, de Caetano, que também canta: alguma “coisa” está fora da ordem! e o famoso hino a São Paulo: “alguma coisa acontece no meu coração”!

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, afinal, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal e coisa, e coisa e tal. Um cara cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. Já um cara cheio das coisas, vive dando risada. Gente fina é outra coisa! Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma. A coisa pública não funciona no Brasil. Político, quando está na oposição, é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando elege seu candidato de confiança, o eleitor pensa: Agora a “coisa” vai... Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Se as pessoas foram feitas para serem amadas, e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, felicidade e outras “cositas” mais.

Mas, deixemos de “coisa”, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou “coisa” parecida... Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento:

“AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS “COISAS”.

Entendeu o espírito da coisa?

Inusitado

Foureaux, 11.05.22

A maré de preguiça e falta de graça, somada à de vontade, tem feito buracos enormes em minhas publicações. Não me importo. Leio tanta bobagem. Escuto tanta asneira. Vejo tanta coisa horrorosa e sem graça que nem sei. Agorinha, repassando algumas coisas no facebook – coisa de ente à toa – deparei-me com uma publicação de um amigo querido, o Joel, lá do Pará (ainda volto a Belém!). Há uma imagem na postagem dele que não vai aqui reproduzida. O inusitado da informação despertou um lampejo de ânimo para fazer esta publicação...

Por que na Ásia o nome de vários países termina em “-istão”? Porque nas línguas mais faladas nessa região do mundo, como o hindi, o persa e o quirguiz, “-istão” quer dizer “lugar de morada” de um determinado povo ou etnia. De acordo com esse princípio, Cazaquistão, por exemplo, significa “território dos cazaques”; Quirguistão, “território dos quirguizes”; Afeganistão, “território dos afegãos” e assim por diante. É algo equivalente a adicionar os sufixos “-lândia” (que vem de land, “terra”, nas línguas germânicas) ou “-polis” (“cidade”, em grego) ao final de nomes. Petrópolis é a cidade de Pedro, Teresópolis, a de Teresa. Suazilândia é a terra dos suázis – mas, recentemente, o país mudou de nome para Essuatíni que significa justamente “terra dos suázis” na língua local. “A forma “-stão” deriva de uma antiga raiz linguística indo-europeia. Esse sufixo carregava a ideia de ‘parar’ ou ‘permanecer’ e deu origem, por exemplo, aos verbos stare, em latim, e stand, em inglês”, diz o linguista Mário Ferreira, da Universidade de São Paulo (USP). Do stare latino, inclusive, vem o verbo “estar” em português. Ou seja: pensando na raiz etimológica da coisa, você pode traduzir os nomes desses países, ao pé da letra, como “onde estão os afegãos”, “onde estão os cazaques” e assim por diante. A única exceção a essa regra é o caso do Paquistão batizado cerca de 20 anos antes de o território do país ser constituído, em 1947. “Rahmat Ali, o idealizador da independência paquistanesa, juntou ao termo “-istão” o vocábulo “paki”, surgido a partir de uma combinação das iniciais das áreas reivindicadas pela futura nação. O “p” representava a província do Punjab, enquanto o “k” equivalia à região da Caxemira, no noroeste da Índia, afirma Mário.

Note que os nomes de países islâmicos localizados no Oriente Médio e no norte da África não carregam o sufixo “istão”. Ali, a língua predominante é o árabe, que não possui raízes indo-europeias – ele pertence a outro tronco, o semítico, compartilhado com o hebraico e o aramaico.

Fonte: @revistasuper

Quer uma dica de livro? Entra aqui ó:

https://youtu.be/cAYg-sFTFU0

 

Besteira

Foureaux, 04.02.22

Recebi o texto que segue de um/a amigo/a, já não me lembro quem. Tenho certeza de que ele/a não fica ofendido/a pelo meu esquecimento. No entanto, devo dizer que algumas reações me causaram espécie. Uma, em particular, de outra amiga, que diz que estava gostando do texto até que percebeu que se tratava de um texto político. Comecei a rir. A pergunta seria: qual texto não é político? Claro está que “político”, aqui, tem a ver com o conceito de procedimentos, atitudes, relações e correlações no âmbito da cidade, como queriam os gregos – se eu não comento equívoco de interpretação. Não se trata de partidarismo ideológico. No entanto, devo também asseverar que, ao final deste mesmo texto, há uma referência, digamos, discursiva a este recorte conceitual do mesmo termo: “política”. Vá lá..., ninguém é de ferro. Outra reação também foi um tanto engraçada, apesar de repetitiva. O sujeito disse que até a menção à política – no sentido mais restrito, aqui – o texto era uma aula de Português. A partir do referido “ponto” tornou-se mais uma opinião. Isto seria um elogio ou uma desqualificação? Vou morrer sem saber, porque não vou gastar meu tempo especulando sobre o assunto. Segue o tal texto de que, reafirmo, gostei imenso, por concordar com cada sílaba de cada palavra que compõe cada uma de suas orações. Alerto, ainda, que o analfabetismo funcional está matando a capacidade de muita gente – mas bota gente nisso! – para perceber a ironia e a graça num texto que é, apenas, uma provocação inteligente e não uma arma ideológica. Ai que preguiça... Boa leitura! Ah... Em tempo: desconheço a autoria!

Professora de Português dando aula
“Vamos conversar. 
Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. 
Eu sou professora de português.
Eu estava explicando um conceito de português e fui chamada de desrespeitosa por isso.
Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser ‘neutre’.
Em Português, a vogal temática, na maioria das vezes, não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. 
Vou mostrar pra vocês.
O motorista: termina em ‘A’ e não é feminino.
O poeta: termina em ‘A’ e não é feminino.
A ação, a depressão, a impressão, a ficção. Todas as palavras que terminam em ‘ão’ são femininas, embora terminem com ‘O’.
Boa parte dos adjetivos da Língua Portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, independentemente da letra final: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável, etc.
Terminar uma palavra com ‘E’ não faz com que ela seja neutra.
A alface: termina em ‘E’ e é feminino.
O elefante: termina em ‘E’ e é masculino.
Como o gênero em Português é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais temáticas, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.
E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o ‘preconceito’.
Meu conselho é: em vez de insistir tanto na questão do gênero, entendam, de uma vez por todas, que gênero não existe, é uma coisa socialmente construída. 
O que existe é sexo. 
Entendam, em segundo lugar, que ‘gênero linguístico’, ‘gênero literário’, ‘gênero musical’, são coisas totalmente diferentes de ‘gênero’. 
Não faz absolutamente diferença nenhuma mudar gêneros de palavras. 
Isso não torna o mundo mais acolhedor.
E entendam, em terceiro lugar, que vocês podiam tirar o dedo da tela e parar de falar bobagem e se engajar em algo que realmente fizesse a diferença para melhorar o mundo, ao invés de ficarem arrumando discussões sem sentido. 
Tenham atitude! (Palavra que termina em ‘E’ e é feminina!). 
E parem de ficar militando no sofá! (Palavra que termina em ‘A’ e é masculina).
Quando me questionam porque sou de direita, esta é a explicação:
Quando um tipo de direita não gosta de armas, não as compra; quando um tipo de esquerda não gosta de armas, quer proibi-las.
Quando um tipo de direita é vegetariano, não come carne; quando um tipo de esquerda é vegetariano, quer fazer campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
Quando um tipo de direita é homossexual, vive tranquilamente a sua vida; quando um tipo de esquerda é homossexual, faz um auê e inventa que está sofrendo de homofobia.
Quando um tipo de direita é ateu, não vai à igreja, nem à sinagoga, nem à mesquita; quando um tipo de esquerda é ateu, quer que nenhuma alusão a Deus ou a uma religião seja feita na esfera pública.
Quando a economia vai mal, o tipo de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais; quando a economia vai mal, o tipo de esquerda diz que os ‘malvadões’ dos patrões são os responsáveis e param o país.
E a tese final: quando um tipo de direita lê este texto, ele ri, concorda que infelizmente é uma realidade e até compartilha, quando um tipo de esquerda lê este texto, te insulta e te rótula de fascista, nazista, genocida, etc.”

Palavras outras

Foureaux, 13.12.21

Chato.jpegSignificar, como verbo transitivo direto significa querer dizer; apresentar-se como expressão de; exprimir, traduzir. Por força de derivação por prefixação, resinificar é um verbo transitivo que caracteriza a ação de atribuir um novo significado a algo ou alguém. A ressignificação é um elemento importante no processo criativo, em que a habilidade de atribuir novas importâncias a um evento comum se torna útil e propicia prazer às pessoas. Claro está que esta “definição” não foi retirada do Houaiss. Copiei da “rede”. Entretanto, serve para o meu propósito aqui. É preciso, para isso, prestar atenção na ideia principal do verbo. Em seguida, atente-se para o fato de que o prefixo aposto ao verbo, faz dele a expressão de um ato repetitivo, de reforço de seu próprio significado. Ou seja, o prefixo aglutina ao sentido original do verbo o aspecto positivo de seu significado. Em outras palavras, o verbo prefixado, em sua forma derivada, faz com que o senso de positividade carregado pela forma original se faz reafirmada, confirmada, repetida. Por isso mesmo reforçada. Essa volta toda é só para enfeitar um pouco a minha estranheza ao escutar numa estação de rádio a mocinha – decerto, muito orgulhosa de seu diploma em jornalismo, obtido com muito esforço, muita cachaça e a ajuda preciosa de uma bolsa do prouni, reuni ou qualquer uma dessas muletas que ululam por aí, em nome de uma suposta “democratização” do ensino superior. Meu ponto de fuga não é esse. O que me interessa é comentar o esquisito uso feito por essa mocinha, na tal estação de rádio, quando fala, com todos os “esses” e “erres”, sobre a importância e a qualidade da “ressignificação dos traumas”. Não prestei atenção ao que a mocinha tinha falado antes. Creio que não interessava mesmo. Esta expressão, só esta expressão em si, já denota a “qualidade” da formação da mocinha. Resignificar trama. Em sã consciência, qualquer pessoa seria capaz, no uso de suas faculdades mentais, investir esforços para resignificar um trauma. Que eu saiba, trauma, a gente cura, se livra dele, o ultrapassa. Trauma, por força de sua própria natureza, é algo incômodo, ruim, que faz sofrer, que não causa alegria a ninguém. Posso estar enganado, é claro. Ainda assim, continuo estupefato com a sonora e presunçosa afirmação da mocinha. Há miríades de pessoas que fazem o mesmo uso e se sentem absolutamente felizes e brilhantes como celebridades em sua ofuscante ignorância. Repito, posso estar enganado. Ainda assim,mantenho a minha chatice.

Palavras.jpeg

 

O fim

Foureaux, 01.12.21

Hoje é o primeiro dia do início do fim do ano. Mais um. Tudo igual. A mesma cantilena. É a época do ano de que menos gosto, mas fazer o quê? Amanhã, já vou providenciar o bacalhau para a noite do dia 24, como é costume aqui em casa. Aproveito para comprar umas jujubas de que tanto gosto. Com parcimônia, porque o diabetes é um demônio que ronda a gente com vigilância mais que canina... Assim, resolvi fazer a postagem de hoje com um texto que já deve ser conhecido de tão “rodado” na rede. Fazer o quê? É só pra matar o tempo mesmo e tentar não deixar pesar o “clima”... O texto não é meu e desconheço a autoria, por isso está entre aspas. Aí vai:

Adeus.png

“Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!... O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disseram que sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C medroso que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, “Kkk” pra cá, “www” pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo de medo”. Tudo bem, vou-me embora da Língua Portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o Alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!... Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na História.

Adeus,
Trema.

Trema.png

 

Lusofonia

Foureaux, 29.11.21

Tenho um amigo em Lisboa, O José Colaço. Faz ex-libris muito bonitos. Um sujeito muito simpático. Mandou-me mensagem com expressões correntes em Portugal. Tem sua graça. Partilho aqui. É divertido e aprende-se um pouco mais acerca dessa cultura nossa matriz. 

Bandeira.jpeg— Um português não tem um problema, na realidade ele está “feito ao bife”.
— Um português não lhe diz para deixá-lo em paz, diz-lhe “vai chatear o Camões”.
— Um português não lhe diz que é sexy, diz-lhe “é boa como o milho”.
— Um português não repete o que diz, ele “vira o disco e toca o mesmo”.
— Um português nunca se chateia, apenas “fica com os azeites”.
— Um português não tem muita experiência, ele tem “muitos anos a virar frangos”.
— Um português não se livra de problemas, ele “sacode a água do capote”.
— Um português não está numa situação desesperante, ele está com “água pela barba”.
— Um português não se irrita, ele “vai aos arames”.
— Um português que muda de ideias facilmente é um “troca-tintas”.
— Um português não é descarado, ele “tem lata”.
— Um português não se recusa a dar informação, ele “fecha-se em copas”.
— Um português não morre, ele “estica o pernil”.
— Um português não se faz de surdo, ele “faz orelhas moucas”.
— Um português não diz que está tudo suspenso por tempo indeterminado, ele diz que “ficou tudo em águas de bacalhau”.
— Um português não diz “É indiferente para mim”, ele diz “Não me aquece nem me arrefece”.
— Um português não passou por situações difíceis, ele “passou as passas do Algarve”.

Língua.jpeg