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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Ironia

Foureaux, 14.04.22

O texto que segue não é meu. Publico-o aqui por ser um exemplo de fina ironia, desvelada numa linguagem acuradíssima. É texto que dá prazer de ler. E muito. As omissões representadas por (...) se devem ao fato de que desejo preservar a identidade das “personagens” envolvidas, mas, acima de tudo e antes de mais nada, a minha própria tranquilidade. Não quero ser incomodado por A ou B em função de ter publicado este texto. Não desejo ser acusado “disso ou daquilo” por fazê-lo, como se isso, e somente isso, fosse suficiente para me acusar de estar “de um lado ou de outro”. Espero que gostem (e se divirtam!) com um texto tão bem escrito! Espero mesmo, como eu me diverti, e muito!

“A coluna de (...) em O Globo de 14 de janeiro noticia, com chamada na primeira página, que um segurança do Hotel Intercontinental barrou a entrada de uma jovem senhora negra por achar que se tratava de garota de programa, quando ela chegava acompanhada do marido, (...), diretor do (...). No entender do colunista e do editor da capa, o fato tipifica o crime de racismo. A acusação é repetida no dia 15, em matéria assinada por (...), e provavelmente será endossada pelo consenso das classes letradas, dos políticos, dos líderes religiosos, dos artistas e, enfim, de todas as pessoas maravilhosas.

Modismos à parte, no entanto, o segurança não pode ser acusado senão de um erro de raciocínio indutivo, a que qualquer um de nós estaria sujeito em iguais circunstâncias. Todo habitante do Rio de Janeiro sabe que, quando vê na praia de Copacabana um europeu bem vestido e de meia-idade de braço dado com uma negra, em geral não está diante de um quadro paradisíaco de harmonia conjugal por cima das diferenças de raça, mas sim de um caso vulgar de turismo sexual. É fato notório que a eventual atração do europeu por mulheres negras quase nunca dá em casamento, mas, reprimida pelo racismo, vem buscar expressão clandestina em hotéis cariocas, bem longe do olhar fiscalizador dos vizinhos e parentes. Não há nada de anormal nem de criminoso em que um porteiro ou segurança, vendo o par afro-germânico, interprete a cena no sentido mais óbvio e costumeiro, seguindo uma presunção de senso comum e não lhe ocorrendo a hipótese, rebuscada e invulgar, de estar diante de um casal regularmente casado. Se esta hipótese, no caso, coincidiu com a verdade, foi com uma probabilidade de um em mil, para dizer o mínimo. O segurança, longe de ser ele próprio um racista, deve antes ser acusado de prejulgar como racista em incursão sexual furtiva o inocente amigo da raça negra, que santamente se dirigia ao leito com sua legítima esposa. E é certo que sua suposição não se fundou só na observação corriqueira do que se passa nas praias cariocas, mas também num preconceito forjado pelos meios de comunicação, que, disseminando uma suscetibilidade racial exagerada, acabam por induzir as pessoas a encarar como coisa rara e inverossímil o casamento de branco e negra, ou branca e negro, na verdade uma norma e padrão neste país de mestiços.

Qualquer pessoa no pleno uso de suas faculdades mentais, a quem não cegue um parti pris rancoroso e demagógico, vê que o episódio não foi causado por um preconceito racista, mas, bem ao contrário, por uma atmosfera generalizada de prevenção exagerada e neurótica, que procura suspeitos de racismo embaixo da cama e quando não os encontra os inventa.

Desejariam os nossos jornalistas que o segurança, incumbido de suspeitar, em princípio, de todas as mulheres jovens, abrisse exceção sistemática para as negras, fundado na ideia de que muitas delas são casadas com banqueiros suíços? Façam uma estatística, pelo amor de Deus: quantos, dentre os suíços e alemães que entraram em hotéis do Rio de Janeiro no mês passado com mulheres negras, eram maridos delas? Quantos eram turistas que, na sua terra de origem, não desejariam ser vistos com mulher negra?

Fui casado por mais de uma década com mulher negra e ela só foi barrada uma vez, no cinema, porque parecia menor de idade aos 22 anos. Uma jovem de hoje não acharia o episódio lisonjeiro e divertido, como ela, mas faria trejeitos grotescos de dignidade ofendida e chamaria a imprensa para encenar um show antirracista.

É assustador constatar até que ponto a exploração maliciosa do rancor irracional se tornou norma corrente nas nossas classes letradas, chegando a infundir nos cidadãos o temor de fazer uso do bom senso. Quando a razão se torna suspeita, o fanatismo fala mais alto — e um fanatismo não se torna menos letal por se adornar de um falso prestígio intelectual, por se encobrir de pretextos “éticos” ou por ser cultivado como sinal de elegância nos meios chiques. Será que ninguém na imprensa percebe que o temor exagerado de passar por racista coloca o indivíduo numa posição psicologicamente insustentável e neurotizante e acaba por fazê-lo cometer alguma gaffe que a malícia de uns quantos e a tolice de muitos interpretará retroativamente como prova de racismo? Será que ninguém percebe que a neurotização das relações entre pretos e brancos cria artificialmente conflitos raciais a pretexto de evitá-los?

Mas na denúncia contra o segurança há um aspecto ainda mais pérfido. Pois quem espalhou pelo mundo a imagem do nosso país como fornecedor de negras e mulatas para o turista sexual europeu, senão os meios de comunicação que agora caem de paus e pedras sobre o incauto funcionário do Intercontinental? A exibição de peitos e traseiros nos jornais e programas de TV na época de Carnaval não é decerto um incentivo a que os europeus respeitem nossas mulheres negras e se casem decentemente com elas, mas um convite direto e franco a que venham usar e abusar delas em hotéis de cinco estrelas na praia de Copacabana. A confissão descarada de que a mulher brasileira – ou, o que dá na mesma, a mulher mestiça – é artigo para consumo estrangeiro torna-se, por assim dizer, oficializada no momento em que uma revista pornô tem a petulância de se denominar Brazil Export. E não se venha dizer que os pobres jornalistas fazem isso obrigados por patrões malvados: pois o capitalismo da sacanagem não aproveita só aos capitalistas, mas também a seus supostos adversários de esquerda, imbuídos da crença de que o deboche e a pornografia são armas de uso legítimo contra a “moral conservadora”, tanto quanto, complementarmente, é recurso legítimo do combate ideológico atiçar ressentimentos e levar o povo a crer que a inveja rancorosa o mais elevado padrão ético de conduta. Ninguém, entre os responsáveis por tais discursos, pergunta se a confluência de tantas estimulações contraditórias sobre a cabeça do cidadão pode ter outro resultado senão o de destruir nele o raciocínio, o senso crítico e o senso de autonomia pessoal e torná-lo um pateta vulnerável a qualquer propaganda demagógica.

Fatos e ideias, valores e discursos, costumes e pretextos, tudo, mas tudo mesmo, no ambiente mental brasileiro, induz e pressiona o homem comum das nossas ruas a enxergar as coisas como as enxergou o segurança do hotel: suíço com negra é turista com garota de programa. Só que, após ter-lhe ensinado que as coisas são assim e que assim deve ser, ela o pune por acreditar na lição. O episódio não denuncia o racismo de um indivíduo, mas a irresponsabilidade e a confusão mental de toda uma cultura. É compreensível que uma neurose – pessoal ou coletiva – busque exorcizar-se a si mesma por meio de poses de indignação e discursos postiços contra bodes expiatórios. Incompreensível, vergonhoso, inadmissível, é que aqueles incumbidos de a curar – os intelectuais, os jornalistas, os homens de cultura – prefiram criar racionalizações para legitimar o fingimento histérico, fortalecendo a carapaça de defesas contra toda invasão da verdade e da evidência.

Para cúmulo de ironia, o segurança envolvido no episódio é ele próprio mestiço, como aliás o era seu célebre antecessor no papel de bode expiatório, o palhaço Tiririca. Na mentalidade da militância histérica, a repórter (...) deverá, portanto, ser implacavelmente acusada de racista por chamá-lo de “mulato” em vez de “negro”, como exige o vocabulário politicamente correto.”

Sarcasmo

Foureaux, 17.02.22

Uma vez mais, o texto que segue não é de minha autoria: por isto, as indefectíveis aspas! Como da outra vez, sei quem é o autor, mas prefiro não mencionar seu nome para não ensejar celeumas. Não quero meu nome em bocas de matildes e de detratores disso ou daquilo. Não me quero associado a um lado ou a outro, por conta de palavras que não são minas. Resolvi trazer aqui esta pérola porque o texto é isso mesmo, uma pérola de sarcasmo, ironia, deboche, galhofa e, de quebra, é um texto muito bem escrito. Pensem o que quiserem e queimem um pouco mais de fosfato para descobrir quem é o autor. Hão de se surpreender! E tenho dito!

“Desejando ardentemente admitido em rodas de intelectuais, pus-me a estudar os temas e a linguagem das publicações culturais e das entrevistas que as pessoas reconhecidamente letradas davam na TV. Meu intuito era saber os gostos e hábitos dessa gente, sem cuja companhia e aplauso a vida humana é, como todo mundo sabe, um tédio, um saco, um inferno. Após alguns meses de investigação, consegui delinear um quadro de normas de conduta, que ponho aqui à disposição de todos os que, como eu, somem a uma atração mágica pelos círculos de gente fina uma vocação incoercível de alpinista social. Aqui encontrarão a fórmula que abre as portas da admissão no grande mundo das pessoas belas e significativas, longe da opacidade cinzenta do anonimato.

Mas não pensem que se trata de um modelo rígido, de um conjunto de fórmulas prontas que qualquer um possa ir copiando sem a menor criatividade. O que importa é aqui menos a adesão expressa a uma tábua de mandamentos conhecida, como o ‘politicamente correto’ dos americanos, do que um tom, um jeito, um estilo sutil pelo qual a intelectualidade reconhece seus membros típicos e os distingue dos indesejáveis, penetras, bicões e caretas de toda sorte. Ao ler os preceitos que se seguem, trate de ir além da letra e captar, como se diz, o espírito da coisa.

  1. O tom certo é queixoso, de modo geral, contra a sociedade e contra a realidade, mas não pode cair no negativismo completo e deve permanecer soft o bastante para poder fazer coro com as campanhas da ética e da cidadania, que requerem um certo otimismo – aquele otimismo capaz de levar as várias classes a se congraçarem para promover fraternalmente a luta de classes. Você não deve falar mal de ninguém, exceto daqueles que a imprensa reservou especialmente para esse fim: Collor, Maluf, Quércia, Ricardo Fiúza, os empreiteiros. As demais pessoas famosas devem ser sempre mencionadas como portadoras de qualidades excelsas, de preferência mediante o uso das expressões ‘pessoa maravilhosa’, ‘um ser humano muito especial’, etc. De maneira nominal e individualizada, tais expressões aplicam-se a figuras do show business, dos negócios ou da vida cultural, principalmente aquelas que você nunca viu mais gordas, mas das quais todo mundo diz essas coisas. De maneira impessoal e coletiva, e a uma higiênica distância em caso de mau cheiro, aplicam-se aos pobres e às vítimas, categoria que compreende os meninos de rua, os sem-terra, os índios, os garotos e garotas de programa, os líderes do Comando Vermelho, as mulheres em geral e sobretudo aquelas que estão doidinhas para abortar, os cantores negros que vendem cinco milhões de discos, os gays e lésbicas, o Betinho, o candidato presidencial Luís Inácio Lula da Silva e alguns bicheiros cuja origem popular conta mais do que seus saldos bancários; excluem-se dela, porém, aqueles pentelhos que querem tomar conta do nosso carro e, de modo geral, os pedintes (os letrados sempre foram contra dar esmolas na rua; antes, porque atrasava a revolução; agora, porque acham um acinte esses sujeitinhos apelarem à caridade individual e apolítica dos transeuntes, boicotando a campanha do Betinho). Se por acaso você está na frente de uma câmera de TV, não há limites para o emprego da expressão ‘pessoa maravilhosa’: mas se lhe ocorre usá-la com relação a alguém que nunca foi chamado assim, faça isso logo, antes que o próximo entrevistado o faça.
  2. Se entrar numa disputa verbal, exponha suas crenças com forte convicção, mas não caia na esparrela de tentar provar que são verdadeiras. Caso você não o consiga, será considerado um chato e prolixo. Caso consiga, será odiado como um intolerante e dono da verdade. Sobretudo não use argumentos lógicos de espécie alguma, que são considerados autoritários e repressivos. Experimente alguma coisa mais liberal e progressista, como levantar a voz, fazer caretas e dar pulinhos como José Celso Martinez Correia ou fazer chantagem emocional, que são considerados meios legítimos e democráticos de persuasão. Caso falhem, recorra à programação neurolinguística, à hipnose ou a alguma outra forma de manipulação subliminar, que são todas bem aceitas pela comunidade educada como instrumentos adequados para fomentar a autenticidade nas relações humanas. Qualquer que seja o caso, repita várias vezes, durante a performance, o mote: ‘Não há verdades absolutas’, e verá que esta ideia deixa as pessoas muito felizes e aliviadas, mesmo porque elas se sentiriam arrasadas caso topassem com alguma verdade que se recusasse a mudar conforme os seus desejos. Se tiver encantos físicos, use-os abundantemente em defesa de suas teorias: eles são um dos mais fortes argumentos entre as pessoas cultas. Se não conseguir persuadir ninguém, pelo menos adquirirá uma fama de sedutor, palavra que, embora designe um crime previsto no Código Penal (Art. 217), se tornou, talvez por isto mesmo, um dos mais altos elogios que se pode fazer a alguém nos círculos intelectuais.
  3. Quaisquer ideias conservadoras ou que tenham a fama de sê-lo devem ser sempre tratadas como preconceitos, por mais conceptualmente elaboradas que sejam – de modo que a palavra preconceito deixe de designar de modo genérico qualquer julgamento proferido por hábito irrefletido e passe a rotular determinadas ideias em particular, isto é, aquelas que não são muito apreciadas nesse ambiente seleto. Se você aprender a usar direitinho a palavra preconceito, logo as pessoas passarão a concordar automaticamente com tudo o que você disser, pois têm horror a preconceitos.
  4. Identifique logo a minoria discriminada a que pertence – pois todo mundo pertence a alguma – e exiba-a como um cartão de ingresso: ela dá direito a ser bem recebido neste círculo. Não venha com essa de que não tem nenhuma. Se você não é preto, nem gay, nem judeu, nem baixinho, nem gordo, nem índio, deve pelo menos ter o peru pequeno. Não precisa sair contando isso para todo mundo; diga apenas que pertence à categoria dos fisicamente prejudicados, termo recém desembarcado que impõe o maior respeito.
  5. Qualquer que seja a posição social e a origem das riquezas do falante, ele deve dar a impressão de que teria tudo a ganhar e nada a perder com uma revolução comunista. O socialite, pois que os há de montão entre os intelectuais, deve sempre deixar crer que está mais solidário com os sem-terra do que com os seus colegas de diretoria do banco.
  6. Quando se trate de manifestações culturais, elas devem expressar, sobretudo, essa gama de sentimentos coletivos, e nada dizer ao público com que ele já não esteja disposto a concordar de antemão. Mas é importante dar a essa pasta homogênea de opiniões concordantes um status de heresia, de desvio, de marginalismo original e não-conformista, para que os ouvintes e espectadores possam todos sentir-se heréticos também, já que a coisa que mais faz um sujeito se sentir solitário e abandonado hoje em dia é ver-se fora da categoria dos excluídos.
  7. Em matéria de sexo, deve-se falar a mesma coisa que todo mundo, mas dando sempre a impressão de ser o primeiro a fazê-lo, de estar rompendo as regras estabelecidas e desafiando com incalculável ousadia a ira do convencionalismo repressor. Se tiver de admitir que é heterossexual, faça-o com discrição. Se mencionar a Aids, que seja num tom de vaga revolta contra o establishment. Caso sinta firmeza, diga algumas palavras contra o Papa, que não deixou nossas mães nos abortarem, o safado.
  8. Se alguém lhe perguntar sua religião, opte por uma destas: duendes, nenhuma, afro, new age (importada ou nacional), Lair Ribeiro, satanismo light. Não caia jamais na besteira de dizer que é católico, exceto se tiver fama de comunista, pois aí essa opção extravagante será bem acolhida por todos como saudável manifestação de hipocrisia. Muito do prestígio do Lula provém de as pessoas acharem que ele só é católico por conveniência.
  9. Quando puxarem a conversa para o lado literário e citarem alguma obra que você não conhece, afirme resolutamente que ela rompe com as convenções do gênero. Você agradará a todos e não terá a menor possibilidade de errar, pois há meio século não se publica no Brasil uma obra que não rompa novamente com alguma convenção literária do tempo de Walter Scott.
  10. No visual, você deve passar uma impressão de saúde, bem-estar e riqueza dignos de uma autêntica pessoa maravilhosa, ao mesmo tempo que em palavras sugere ser uma vítima de um mundo mau e sem sentido, onde um Deus maligno nos abandonou sem outro socorro além das camisinhas e da campanha do Betinho.
  11. Se lhe perguntarem de economia e política diga uma destas três coisas, ou, melhor ainda, todas elas: ‘Sou contra a privatização, mas isto não quer dizer que seja a favor da estatização’. ‘O socialismo faliu e a solução para o Brasil é o PT’, ‘O importante é que o movimento da massa não termine em pizza’.”

Uma carta

Foureaux, 13.02.22

O texto que segue é uma carta. Não fui quem a escreveu. Cortei os nomes citados para preservar a intimidade dos envolvidos. Cortei outros nomes e indícios identitários pelo mesmo motivo. Quis colocar esta carta aqui pelo sabor, a fineza da ironia, a suntuosidade da linguagem, o vigor do sarcasmo e a inteligência demonstrados pelo autor da carta. Mantive o local e a data, retirando o “endereço” para manter um certo clima de suspense. A referência é implícita. O movimento é o de metonímia, por aproximação, contingência, não comparação/substituição. O leitor, se bem-informado, estará mais bem equipado para tentar identificar as peças que faltam. O quebra-cabeça é divertido. Eu, simplesmente, adoraria ter escrito uma carta como esta para um certo número de destinatários, por conta de uma série de motivos. Mas já não o farei, por decurso de prazo e por estar gozando do ócio criativo que tanto prazer e gratificação me dá! Puntoi i basta. Segue a carta.

“Rio, 10 de fevereiro de 1996.

Ilmo. Sr. (1) – (...)

Prezado senhor,

Escrevo-lhe sem a menor ilusão de ver minhas palavras publicadas, ao menos sem cortes estratégicos que, extirpando delas toda a sua substância argumentativa, as reduzam a mero pretexto para dar um ar triunfante a qualquer resposta idiota que se estampe ao seu lado.

Na verdade, não escrevo esta carta para sair na (A), mas para fazer dela mais um capítulo de meu livro em elaboração, (B), a sair ainda este ano, obra inteiramente consagrada, como se vê pelo título, ao estudo das manifestações cerebrais de pessoas como V.Sa. Eis o motivo por que lhe remeto estas linhas. Julguei que não ficaria bem publicar este capítulo sem dar prévia ciência dele ao personagem: seria fazer de besta um sujeito que já se faz de besta por si – uma redundância intolerável, esteticamente. E caso V.Sa. fareje em minhas palavras uma intenção um tanto desrespeitosa, saiba que suas células olfativas não o enganam de todo. Mas não vá me dizer que está ofendido. Pois o assunto de que pretendo lhe falar é o artigo de sua autoria, ‘(C)’, e não posso crer que V.Sa., ao escrevê-lo, julgasse estar fazendo coisa digna de respeito. Inocência tem limites.

Não posso crer, por exemplo, que V.Sa., ao reduzir a reputação literária de (2) a mero efeito do deslumbramento provinciano ante as amizades internacionais do poeta, ignorasse realmente a distinção entre ser amigo de escritures célebres e receber louvores críticos de escritores célebres. V.Sa. retrata (2) como ‘uma figura típica do nosso meio literário – o amigo de notáveis’, e cita dois casos similares: Gerald Thomas, o antigo de Samuel Beckcett, e Diogo Mainardi, o íntimo de Gore Vidal. Mas não consta que Beckett ou Vidal tenham atestado jamais a qualidade artística das obras desses seus amigos. Nem é verossímil que nossa plateia, por mais caipira que fosse, se impressionasse antes com as amizades VIPs de Tolentino do que com os louvores à sua obra, firmados por Jean Starobinsky, Saint-John Perse e Yves Bonnefoy, entre outros. É uma distinção elementar, que não pode ter escapado a V.Sa., embora V.Sa. tentasse o possível e o impossível para fazê-la escapar dos olhos do público.

Também não posso crer que V.Sa., não sendo nem um pouquinho cabotino, acredite seriamente que é mais provinciano dar crédito ao juízo crítico de Bonnefoy ou Starobinsky que ao de (1).

Menos ainda posso admitir, a sério, que V.Sa., enxergando tanto provincianismo no encantamento da plateia local ante as amizades célebres do poeta, não visse nenhum na incredulidade caipira que as põe em dúvida.

Porém, o mais inadmissível de tudo, excluída a hipótese de uma inocência patológica, é que V.Sa. ache realmente típico do provincianismo nacional o fato de darmos acolhida a recomendações críticas que, antes, foram aceitas em Bristol, Essex e Oxford; pois isto equivaleria a dizer que tais localidades, antecedendo-nos no deslumbramento bocó ante uma obra que só vale pela autopromoção, são ainda mais tipicamente brasileiras e caipiras do que Rio e São Paulo. Também é inverossímil supor que, no entender de V.Sa., Starobinski e tutti quanti escrevessem louvores a (2) no propósito de fazê-los acreditar pelo público brasileiro, em vez do europeu a quem se dirigiam e a quem, na época, se destinava toda a produção escrita do poeta; pois é essa hipótese maluca que está subentendida quando V.Sa. diz que os crédulos somos nós, e não os europeus que antes de nós aplaudiram (2); ou essa, ou uma outra mais maluca ainda, segundo a qual não somente os três figurões citados, mas ainda W.H. Auden e Giuseppe Ungaretti, teriam elogiado a poesia de (2) por pura amizade, abdicando de toda probidade crítica e armando um monumental engodo do qual teria vindo libertar-nos, por fim, o tirocínio providencial de (1). E enfim, não pode ser que V.Sa. imagine, no pleno uso de seus neurônios, que os meios literários nacionais foram tão subservientemente caipiras ao ponto de esperar pela consagração europeia para reconhecer um poeta brasileiro, se na década de 60, antes do exílio europeu, ele já estava mais que consagrado aqui mesmo pelo aplauso de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo, Ênio Silveira e mais não sei quantos.

Não: ninguém pode acreditar que V.Sa. escreva essas coisas a sério.

Mas V.Sa. vai mais longe. Diz-nos que enxerga, nos versos de (D), uma poesia que é, ao mesmo tempo, ‘de costumes’ e ‘escrita por um simbolista tardio’. Devemos crer então que um professor de literatura da USP ignora as definições de estilos de época? Que não sabe que literatura de costumes não existe no simbolismo?

Mas, não contente com isto, V. Sa. ainda nos diz que essa literatura de costumes descreve ‘a aventura espiritual de uma consciência cristã’, como se fosse possível uma autoridade intelectual do seu porte ignorar que toda literatura de costumes é, por definição, alheia a essas altitudes místicas. Ou será que ignora mesmo? Afinal, o escritor que conseguisse inventar uma coisa como a literatura de costumes simbolistaespiritualista teria mesmo operado um tour de force digno dos louvores de muitos Starobinskis.

Aí os termos do problema se definem melhor: ou V. Sa. está com tretas, ou é um ignorante muito metido a besta.

Esta última hipótese é reforçada por alguns indícios, como por exemplo o fato de que V.Sa., no tom de quem fala a coisa mais óbvia e arquissabida, qualifique Alberto Torres de ‘conservador’, ignorando toda a linha de investigações que, inaugurada há mais de trinta anos por Barbosa Lima Sobrinho, já mostrou a falácia dessa rotulação.

Outro indício é que qualifica de atrasado no tempo o engajamento político de (E), mostrando que não leu sequer as datas de composição dos poemas, que atestam sua contemporaneidade aos acontecimentos que os inspiram. Também indica que V. Sa. não leu (E) o fato de que acuse o autor de ‘ignorar as relações entre o exílio individual e o processo político coletivo’, quando essas relações constituem precisamente o único tema do livro. Talvez V. Sa. queira dizer que elas não são como o livro as descreve, mas neste caso deveria dar-nos alguma ideia, por vaga e alusiva que fosse, de como elas são na real idade, mas V. Sa. se abstém criteriosamente de tocar neste ponto, o que me leva a suspeitar que as ignora por completo.

Há fortes argumentos, também, em favor da hipótese das tretas. Pois treta, treta mesmo (se não é quid pro quo verbal de quem simplesmente não sabe escrever?), é dizer que (2), ao atribuir a uma freira do século passado a autoria de seus poemas de feitio clássico, se ‘ocultou sob uma máscara moderna’. V. Sa., digo eu, ainda não viu nada: de mais moderna ainda se fez Marguerite Yourcenar, que se disfarçou de imperador romano.

Mas não são só (2) e Yourcenar que atribuem suas palavras a outrem. V. Sa. também sabe fazer isso, como se vê pelo fato de que, explicando a fama literária de (2) exclusivamente pelas amizades e pela autopromoção cabotina, escreve também que ‘vez por outra, alguém ameaça desmascarar o suposto charlatão’, procurando dar a impressão de que são outros e não V. Sa. quem faz, a um tempo, ameaça e suposição.

Ora, quem é tão hábil não pode ser ao mesmo tempo tão besta, a não ser que possua essas duas qualidades em planos diferentes. Pois a mim me parece que é precisamente esta a solução do problema acima exposto: V.Sa. tem de ignorante e besta em literatura o que tem de destro e arguto na maledicência.

Mas, tal como a inocência, a destreza tem limites. Por mais que salte com a habilidade de um babuíno de um pretexto ao seu contrário, V. Sa. mostra enfim que não tem nada mais a nos transmitir, no fundo, senão isto: que não gosta muito do poeta, mas não sabe muito bem por que não gosta. E se para expressar este sentimento tem de armar uma tamanha rede de equívocos e contrassensos, é porque é próprio do ser humano, quando embirra com alguém por motivos irracionais, inventar contra ele toda sorte de argumentos contraditórios que o condenem per fas et per nefas.

Pois a única objeção crítica propriamente dita que, por trás de todo o seu palavrório, V.Sa. faz à obra poética de (2), é que, além de arcaizante na forma, não é muito progressista no conteúdo. O quanto vale esta objeção, no entanto, evidencia-se pelas seguintes linhas, publicadas num editorial do jornal do Partido Comunista trinta e três anos atrás, que condenava o simplismo crítico das classificações bipolares: ‘Segundo este esquema, tudo o que temos de fazer é classificar as pessoas, os atos e os fatos em ‘revolucionários’ ou ‘reacionários’. Feito isto, está concluída a ‘tarefa’. Como poderemos compreender o realidade, mantendo esta atitude?’

Trocando apenas as palavras ‘reacionário’ e ‘revolucionário’ pelos seus equivalentes da moda, ‘conservador’ e ‘progressista’, temos aí um perfeito retrato do método crítico de V.Sa., tão grosseiro e simplório no seu esquematismo, que três décadas atrás já era desprezado até pelos comunistas de carteirinha. Vá ser arcaizante assim lá em Oxfordgrado.

Para terminar estas considerações, desejo aliviar a tarefa de V. Sa., dando-lhe prontas algumas das motivações sórdidas com que poderá explicar, numa resposta fulminante, minha decisão de escrever-lhe a presente carta:

  1. desejo fazer crer ao público que sou membro do círculo VIP de (2);
  2. desejo, mutatis mutandis, fazer autopromoção às custas de um (1) como (2) fez com o outro;
  3. não me aguento (...) de vontade de sair no (...);
  4. tenho com o poeta (2) um convênio de Inter badalação e defesa mútua das nossas reputações;
  5. eu e (2) formamos em segredo um casal gay;
  6. (2) me pagou para escrever estas coisas, ou, pior ainda, prometeu e não pagou;
  7. escrevo-as de graça por ser um puxa-saco compulsivo;
  8. não existo e sou um pseudônimo de (2);
  9. (2) não existe e é um pseudônimo deste que ora se despede de V.Sa.,

Atenciosamente, (3).”

Besteira

Foureaux, 04.02.22

Recebi o texto que segue de um/a amigo/a, já não me lembro quem. Tenho certeza de que ele/a não fica ofendido/a pelo meu esquecimento. No entanto, devo dizer que algumas reações me causaram espécie. Uma, em particular, de outra amiga, que diz que estava gostando do texto até que percebeu que se tratava de um texto político. Comecei a rir. A pergunta seria: qual texto não é político? Claro está que “político”, aqui, tem a ver com o conceito de procedimentos, atitudes, relações e correlações no âmbito da cidade, como queriam os gregos – se eu não comento equívoco de interpretação. Não se trata de partidarismo ideológico. No entanto, devo também asseverar que, ao final deste mesmo texto, há uma referência, digamos, discursiva a este recorte conceitual do mesmo termo: “política”. Vá lá..., ninguém é de ferro. Outra reação também foi um tanto engraçada, apesar de repetitiva. O sujeito disse que até a menção à política – no sentido mais restrito, aqui – o texto era uma aula de Português. A partir do referido “ponto” tornou-se mais uma opinião. Isto seria um elogio ou uma desqualificação? Vou morrer sem saber, porque não vou gastar meu tempo especulando sobre o assunto. Segue o tal texto de que, reafirmo, gostei imenso, por concordar com cada sílaba de cada palavra que compõe cada uma de suas orações. Alerto, ainda, que o analfabetismo funcional está matando a capacidade de muita gente – mas bota gente nisso! – para perceber a ironia e a graça num texto que é, apenas, uma provocação inteligente e não uma arma ideológica. Ai que preguiça... Boa leitura! Ah... Em tempo: desconheço a autoria!

Professora de Português dando aula
“Vamos conversar. 
Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. 
Eu sou professora de português.
Eu estava explicando um conceito de português e fui chamada de desrespeitosa por isso.
Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser ‘neutre’.
Em Português, a vogal temática, na maioria das vezes, não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. 
Vou mostrar pra vocês.
O motorista: termina em ‘A’ e não é feminino.
O poeta: termina em ‘A’ e não é feminino.
A ação, a depressão, a impressão, a ficção. Todas as palavras que terminam em ‘ão’ são femininas, embora terminem com ‘O’.
Boa parte dos adjetivos da Língua Portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, independentemente da letra final: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável, etc.
Terminar uma palavra com ‘E’ não faz com que ela seja neutra.
A alface: termina em ‘E’ e é feminino.
O elefante: termina em ‘E’ e é masculino.
Como o gênero em Português é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais temáticas, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.
E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o ‘preconceito’.
Meu conselho é: em vez de insistir tanto na questão do gênero, entendam, de uma vez por todas, que gênero não existe, é uma coisa socialmente construída. 
O que existe é sexo. 
Entendam, em segundo lugar, que ‘gênero linguístico’, ‘gênero literário’, ‘gênero musical’, são coisas totalmente diferentes de ‘gênero’. 
Não faz absolutamente diferença nenhuma mudar gêneros de palavras. 
Isso não torna o mundo mais acolhedor.
E entendam, em terceiro lugar, que vocês podiam tirar o dedo da tela e parar de falar bobagem e se engajar em algo que realmente fizesse a diferença para melhorar o mundo, ao invés de ficarem arrumando discussões sem sentido. 
Tenham atitude! (Palavra que termina em ‘E’ e é feminina!). 
E parem de ficar militando no sofá! (Palavra que termina em ‘A’ e é masculina).
Quando me questionam porque sou de direita, esta é a explicação:
Quando um tipo de direita não gosta de armas, não as compra; quando um tipo de esquerda não gosta de armas, quer proibi-las.
Quando um tipo de direita é vegetariano, não come carne; quando um tipo de esquerda é vegetariano, quer fazer campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
Quando um tipo de direita é homossexual, vive tranquilamente a sua vida; quando um tipo de esquerda é homossexual, faz um auê e inventa que está sofrendo de homofobia.
Quando um tipo de direita é ateu, não vai à igreja, nem à sinagoga, nem à mesquita; quando um tipo de esquerda é ateu, quer que nenhuma alusão a Deus ou a uma religião seja feita na esfera pública.
Quando a economia vai mal, o tipo de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais; quando a economia vai mal, o tipo de esquerda diz que os ‘malvadões’ dos patrões são os responsáveis e param o país.
E a tese final: quando um tipo de direita lê este texto, ele ri, concorda que infelizmente é uma realidade e até compartilha, quando um tipo de esquerda lê este texto, te insulta e te rótula de fascista, nazista, genocida, etc.”

Suspense

Foureaux, 03.02.22

“No sumário, não havia sequer uma indicação de que tal assunto poderia vir a ser tratado no texto do livro. Igual ausência era notada no índice remissivo. De acordo com os “entendidos” estes dois índices eram necessários para a validação do livro na lista de publicações daquele ano. Em vão. Incontáveis horas de leitura, riscando trechos inteiros, anotando palavras-chave pelas margens da mancha tipográfica. Discussões intermináveis com o supervisor. Interpretações, as mais inesperadas, com os estudantes. Nada. Em vão. O livro não valia nada, mas estava escrito. O que fazer? O burburinho foi grande. Havia rumores de que uma rusga antiga entre o editor e o autor teria sido o motivo da encrenca. Outros diziam que outra pessoa havia escrito o livro que foi roubado para ser lançado. Nada ficou muito bem esclarecido. O que sucedeu foi que a cópia do arquivo com o índice remissivo foi perdida. A apuração não chegou a nome algum, mas ao fim, o arquivo foi encontrado. Em seguida, nova querela. O prazo havia vencido. O detalhe técnico foi apontado pelo editor como obstáculo intransponível. Picuinha, foi o que disseram. Conversa daqui, telefona dali, mais burburinho, e o lançamento aconteceu como previsto originalmente. Três meses e meio depois da data inicial, mas lá estava ele, o livro. Dois cartazes circularam pelos corredores do prédio principal. Duas entradas na programação da rádio. Uma entrevista no canal de televisão que servia de laboratório também foi agendada. Tudo acontecendo normalmente. A pré-venda foi um sucesso. Parece que a venda seguiria pelo mesmo caminho. Era esperar pra ver. No dia do lançamento o salão principal da livraria estava decorado com sobriedade. Espaços livres para circulação, duas colunas com os livros e, ao centro, a mesa para o autor, com algumas cadeiras à volta. Haveria uma sessão de leitura de trechos do tal livro. Convidados chegando. Garçons circulando. Música tocando. A hora passava e o autor não chegava. Não chegou. Dez minutos depois do horário marcado para a sessão de leitura, o editor toma o microfone e anuncia o atraso. Foi interrompido pelo estardalhaço causado pela chegada de um rapaz. Com ar insolente, atravessou o salão sem prestar atenção a nada, nem a ninguém. Interrompeu o editor, tomou-lhe o microfone e anunciou a leitura de trechos. Silêncio nervoso, tenso, carregado. Ao fim da leitura. Alguém interrompe o silêncio e pergunta quem era ele. O rapaz levantou-se e se apresentou como o verdadeiro autor do livro. Contou a história de como conheceu o suposto autor, se aproximou dele, trabalhou para ele como secretário. Com o passar do tempo, tornou-se amigo, quase confidente. O velho começou a discutir os planos do livro que então era lançado. Deu as linhas gerais para o secretário e pediu que ele escrevesse. Foi o que fez. Ao fim do trabalho, o velho decidiu colocar o próprio nome e não comparecer ao lançamento, mandando seu secretário, como aconteceu. Incrédulo, o editor questionou. Muitos, na plateia o acompanharam. O rapaz insolente abriu então um envelope e leu o que nele estava escrito. A assinatura era do velho. Imediatamente, entregou a carta para o editor que confirmou a assinatura e a história contada pelo rapaz. Boquiaberto, viu o insolente sair da livraria, sob o olhar estupefato de todos. Nunca mais foi visto. O velho morreu duas horas depois de saber do sucesso do lançamento, como anunciado posteriormente pela nota da editora. O livro foi um sucesso.” (Autor desconhecido)

Chatice

Foureaux, 01.02.22

Não há medida certa. A intuição parece ser o melhor critério. O insondável mundo do desejo não se revela inteiro, de uma vez. Aos pedaços, deixando rastros aqui e ali, incomodando mais adiante, a gente vai se dando conta de que ele está ali, atento. Edaz, não se contenta. quanto mais se satisfaz, mais quer, mais busca, mais atormenta. Em que pese a rima que não anima, o desejo pode sempre vencer, pois é de seu feitio assim ser. E, no entanto, não se explica. Não se sente obrigado. Nessa toada, continuo a perguntar: Para quê? Escrever? Quem vai ler? Mas não há tranquilo proceder quando de escrever se trata. A cada dia, a dúvida se renova, mesmo com os amigos elogios. Esses não contam, mas são os que sustentam a persistência. Dois ou três dizem alguma coisa. De resto, a poeira assenta e patina o papel que enruga, amarelece, esfarinha. O tempo. Não acredito que alguém possa “ensinar” a escrever. Não no. sentido em que estou pensando. Que sentido é esse? Cabe a quem me ler tentar descobrir. Não é disso que se trata? Um jogo de gato e rato, fingindo novidade, em cada mútua, sem fim. Sá de Miranda não teve aulas numa oficina de escrita criativa. Antero de Quental não se aconselhou com algum erudito que vendia aulas de leitura. Eles começaram a escrever e pronto. Hoje estão aí, à disposição. E os especuladores que se auto intitulam teóricos, ou pior, críticos, insistem em afirmar em seus sofismas são a mais pura expressão de uma verdade absolutamente inalcançável. Quem escreveu sabe. E pensar que alguém pode se arvorar na hipótese de afirmar o que quis ou não dizer Aristóteles em suas notas de aula. Eram notas de aula mesmo? Alguém as assistiu para atestar o “fato”. E o outro que nunca escreveu, mas só falou? Será mesmo? Teria sido mesmo assim? Enfim... Há coisas que jamais serão elucidadas. Jamais. Não adianta me dizerem que a tradição isso, que a cultura aquilo, ninguém jamais vai ser capaz de afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que fulano quis dizer isso ou aquilo. Se a gente não conhece (bem) quem escreveu, conversou com o(a) autor(a), conviveu e discutiu, a possibilidade dessa afirmação inexiste. Sou chato, seu sei. Ainda assim...

Como assim?

Foureaux, 31.01.22

“Uma das coisas que ele sabia era que um dia, sem aviso prévio – mais provavelmente –, ele iria morrer. E durante a tal noite, ele ficou sem saber se o que estava sentindo era o tal de processo de morrer. Uma sensação estranha, incômoda, desagradável. As horas não passavam, o calor, o som das batidas do coração no ouvido. Num dos ouvidos, na verdade. A mesma sensação que vinha se repetindo. Na mesma proporção de suas dúvidas. Os sonhos confusos. Todos os mortos e vivos a comemorar um aniversário. O incômodo contínuo. A angustiada ansiedade por conta do equívoco no roteiro da viagem. O planejamento lento, detalhado, minucioso. A ideia de que foi pouco. Simultaneamente, a certeza de que a mão tinha gostado. Um desejo realizado, ainda que mal planejado. Tudo muito comum, reles. Os livros que não foram escritos a bordejar a mente inquieta no meio da noite. A chama da vela a incomodar a pálpebra sensível, um pequeno passo até a insônia. O tum-tum do coração que não parava. O efeito do analgésico. Haveria mesmo a possiblidade de se perceber o momento exato?” Autor desconhecido

 

Uns gostam de se vestir simplesmente. Comer coisas comuns, sem sofisticação. Falar de maneira direta, sem subterfúgios sofismáticos na tentativa viperina de ludibriar, enredar, confundir. A palavra direta, grosseira até – depende do ponto de vista. Outros são o contrário. Ainda há aqueles que preferem a mentira deslavada, repetida à exaustão. O desejo de prevalência da consolidação da verdade pela repetição infinita e iterativa da mentira. E para completar, preferem cachaça. Sem a simplicidade dos gestos comuns. No meio disso, uma turba insana, desorganizada, funcionalmente analfabeta a vociferar, criticar, julgar, acusar e apontar o dedo. Enquanto isso, nada muda...

(Re)início

Foureaux, 15.01.22

Começou 2022 e, mesmo antes de 2021 terminar, eu já não escrevia com tanta regularidade. Deixa isso pra lá. Como faço desde que comecei a escrever um blogue, tento, anualmente, modificar a aparência dele. É, de fato, uma tentativa de deixá-lo mais atraente, o que parece não surtir muito efeito. Mas lá se vão mais de dez anos. Se não me equivoco, comecei quando estava em Zagreb, naqueles dois anos instigantes e, mesmo, reveladores que lá passei. Pois bem. Na primeira postagem do ano, ainda com os motores em estado de aquecimento, faço a transmissão de ideias alheias. Trata-se de trecho de um artigo de J.R. Guzzo, publicado na edição da revista Oeste, da última sexta-feira (ontem). Assevero que, pelo fato de transportar literalmente o trecho aqui, não estou a subscrever cegamente as ideias do autor. Jamais faço isso. Quem me conhece sabe. Logo, a motivação é uma certa inquietude trazida pelas miríades de incertezas e falácia acerca de tudo que ocorre no planeta. Coisa cansativa, chata, triste, rasa. mas vamos lá... Ainda vale a pena ler. Segue o trecho:

“Trabalho é para os 90% da população brasileira que tem de se pendurar em poste elétrico para consertar o corte de luz na casa de quem não admite comparecer ao serviço — ou para todos os que são obrigados a trabalhar para sobreviver. É coisa de quem tira lixo da rua. É coisa de quem guia o metrô, ou do motoboy do delivery, ou do porteiro do prédio. É coisa de quem trabalha no comércio, no hospital ou na polícia. É coisa de operário, do técnico da torre de aeroporto, do homem da companhia de gás que se enfia embaixo da terra para garantir o fogão dos terraços gourmet. Não é o mundo do professor da USP. Não é a Praia da Pipa. Esse é o Brasil da maioria que realmente produz, e não o Brasil dos parasitas – do universo político, dos banqueiros de esquerda, da CPI da Covid, dos comunicadores e das classes intelectuais que andam de máscara, combatem o genocídio e querem que o mundo continue nessa camisa de força que lhes faz tão bem. A lista dos sócios do vírus ainda vai longe. Pode incluir a big pharma norte-americana e mundial em peso, da Pfizer, AstraZeneca e Johnson&Johnson a todas as suas irmãs. Só o Brasil, e só nesta primeira fase, colocou no Orçamento cerca de R$ 30 bilhões para gastar com vacinas, numa conta que ainda pode ser muito maior. Calcule agora o tamanho dessa bonança em termos mundiais; é de dar inveja em qualquer Google da vida. Junte os fornecedores de testes para covid, os fabricantes de insumos para a vacina e os produtores de material de apoio. Some as empresas de transporte, as redes de farmácias e outros serviços de assistência – para não falar em médicos e hospitais. Não se esqueça, enfim, dos 6.000 prefeitos e dos 27 governadores brasileiros, que ganharam do Supremo Tribunal Federal o prodigioso direito de fazerem o que bem entendem para “salvar vidas” – a começar pela dispensa de licitação para gastar dinheiro público no combate à covid. É roubar, deitar e rolar, com a aprovação do Judiciário e o diploma de “heróis da saúde” concedido pelos editoriais da imprensa. Quem vai querer outra vida? É covid para toda a eternidade.”

 

Quem sabe...

Foureaux, 21.12.21

“IMBECILIS TROPICALIS”

O pequeno verbete tem cheiro e sabor de parábola. Para completar, é temperado com ironia e mordacidade, o que o faz mais atraente e apetitoso para a inteligência. Como dito no final, a autoria é desconhecida. Tomei a liberdade de apor alguns pitacos, cortar algumas excrescências e modificar algumas outras tantas cositas. Ao fim e ao cabo, pode ser divertida, a leitura.

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Também conhecido por “otarius tupiniquensis”, é uma subespécie humanoide que habita várias regiões do Brasil. Devido à baixa capacidade cognitiva, seus hábitos ainda são um mistério para os pesquisadores. As primeiras pistas indicam que se alimentam de mortadela e têm uma religião primitiva, que adora um ser marinho pequeno e vulgar. Ainda não foram registradas atividades laborais, o que leva a crer que sejam alguma espécie de parasita, que sobrevive do trabalho alheio. Com baixíssima capacidade de entrosamento entre espécies, o “imbecilis tropicalis”, geralmente, é avistado somente em bandos ruidosos, gritando ofensas aos demais. O aspecto contraditório, aliás, é o que mais intriga os pesquisadores. Esta subespécie acredita que queimando pneus, estátuas, depredando bens públicos e particulares ou fechando ruas em algazarras estão exercendo a cidadania e a democracia. Pedem respeito à todas as crenças, mas desrespeitam a crença da maioria. Dizem-se defensores das famigeradas minorias, mas defendem regimes que exterminaram e continuam a exterminar estas mesmas minorias. Apesar de raciocinarem como primatas, têm conduta parecida à dos pombos. Fazem muito barulho, muita sujeira e sempre saem de peito estufado. Esse hábito ainda é um mistério. A maior discussão, entre os cientistas, é como essa espécie se desenvolveu. Alguns apoiam a teoria de que o “otarius tupiniquensis” é fruto de uma época de muitas facilidades, que se acomodou à sombra de um Estado corrupto e paternalista. Outros aventam a possibilidade de uma infecção viral e temem uma epidemia. O terceiro grupo, porém, acredita que são frutos de experiências secretas, realizadas por professores e pela grande mídia, numa tentativa macabra de reengenharia social. Sem dúvida, é uma subespécie de mentecaptos que infelizmente habitam o Brasil e que lutam para ser escravos num regime comunista.

Autor desconhecido. 

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"Dia do professor"

Foureaux, 16.10.21

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Eu pensei em escrever sobre uma cena televisada hoje. Um policial militar desce o cacete numa moça que, aparentemente, falava alguma coisa de muito agressivo e gesticulava nervosamente, enquanto os demais policiais e transeuntes observavam como se fosse um set de filmagem. Tudo errado. Em lugar disso, vou transcrever mensagem recebida de um amigo querido, Paulo Meyer, a quem conheço por mais de duas décadas, de quem compro bilhetes aéreos e seguros de viagem. Mandou-me o texto a propósito do dia 15 de agosto, ontem, data em que se “comemora”, no Brasil, o dia do professor. Desconheço a autoria.

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*Português não é para amador.*
Um poeta escreveu:
“Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar”.
Às vezes, não acentuar parece mesmo a solução.
Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê.
Assim como, obviamente, prefiro o coco ao cocô.
No entanto, nem sempre a ausência do acento é favorável...
Pense no cágado, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração.
E há outros casos, claro!
Eu não me medico, eu vou ao médico.
Quem baba não é a babá.
Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária.
Será que a romã é de Roma?
Seus pais vêm do mesmo país?
A diferença na palavra é um acento; assento não tem acento.
Assento é embaixo, acento é em cima.
Embaixo é junto e em cima separado.
Seria maio o mês mais apropriado para colocar um maiô?
Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá?
O que tem a pele do Pelé?
O que há em comum entre o camelo e o camelô?
O que será que a fábrica fabrica?
E tudo que se musica vira música?
Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com as más pessoas?

Será que tudo que eu valido se torna válido?
E entre o amem e o amém, que tal os dois?
Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta.
É a primeira vez que tu não o vês.
Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha.
Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo.
Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração.
Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto.
Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.
Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa.

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Calça, você bota; bota, você calça.
Oxítona é proparoxítona.
Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico.
E paro por aqui, pois esta lista já está longa.
Realmente, português não é para amador!
Se você foi capaz de ENTENDER TUDO, parabéns!!! Seu português está muito bom!