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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Realidade e ficção: tênue limite

Foureaux, 15.12.21

Um.pngA mulher cumpriu vinte anos de prisão por assassinato. Sua irmã, mais nova, criada por ela – a mãe morreu e o pai suicidou-se – foi adotada por uma família. Durante os anos de cadeia, a mulher escreveu inúmeras cartas para a irmão, através do serviço social. Jamais recebeu uma resposta. Os pais adotivos da menina guardaram todas as cartas, mas jamais mencionaram nada acerca da irmã presa. A irmã mais nova foi criada sem saber se a irmã está viva ou morta. Saindo da prisão, a mulher, tenta fazer contato com a família. A resistência é grande. A atitude dos pais adotivos está correta? A mulher, depois de solta, tem direito de procurar a irmã? A “justiça” pode impedir o reencontro das irmãs? Os pais poderiam ter feito o que fizeram com as cartas da mulher para sua irmã mais nova? O drama está armado. Todas as outras nuances possíveis parecem fenecer diante do impasse que se cria. A subjetividade de pais adotivos, de advogado e de mulher assassina são componentes fortes num drama que ultrapassa a mera ficção sentimental. A simples consideração de um fato, recortando as circunstâncias à luz da perspectiva de apenas um dos lados da questão não parece ser a melhor solução. Justificar o assassinato que premeditou too o resto é impossível, por óbvio. Aceitar, sem mais, que as irmãs têm o direito a se reencontrarem pode parecer uma solução demasiado redutora. Deixa que a acriança adotada jamais saiba de seu passado também não parece ser razoável. Como desfazer o nó? acrescente-se a isso a vingança desejada dos filhos da vítima da mulher assassina, inconformados com o fato dela estar livre com apenas 20 anos de cárcere.  Isso também aumenta o nível de pressão que os aparentes paradoxos engendram. a narrativa não é simples. O enredo, um tanto mais complexo que o cotidiano de cada um dos envolvidos – um defensor da nova linguagem “inclusive” vai me boicotar aqui por conta deste plural correto, gramaticalmente –, parece aproximar-se de m dramalhão. Não necessariamente acontece assim. Em algum lugar, aqui por perto, foguetes espocam no ar por conta de um jogo de futebol. O maxilar inferior, do lado direito, dói um pouco depois de um implante a meio caminho de sua conclusão. Amanhã é quinta-feira. O Natal se aproxima e, com ele, a mesma sensação de festa desfeita, ou estereotipada, falsa, uma casquinha de papel celofane a envolver um iceberg em chamas. Paradoxo. Há quem chame a isto poesia. Há outros nomes possíveis, mas a preguiça...

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