10.01.26
Certa feita, já vai um tempo, conversando com uma amiga, ela disse que a partir dos 60 eu ia aprender o real significado da palavra limitação. É fato. Uma série de manifestações dessa coisa inexplicável – mas nem tanto – começa a fazer parte da rotina. Agora, chegando aos 70, isso começa a se adensar. E não de uma maneira negativa. Ainda bem! A pasta dental – ou dentifrício, como eu aprendi e gosto de falar – vinha numa embalagem metalizada que sempre estava “completamente” cheia. Não havia a bolha de ar que aparece hoje, na embalagem plastificada, depois de dois ou três apertos. Visitar os avós nos finais de semana. Brincar com as tias idosas no quintal de sua casa. Pedir a benção aos pais, avós, tios. Levantar-se quando o professor entrava na sala de aula. O tempo passa. E passando, ele traz coisas interessantes. Ontem recebei de outra amiga – esta portuguesa – um recorte de jornal que reproduzo abaixo. (Ao fim, vai a imagem enviada). Foi publicado ontem mesmo, até prova em contrário, no diário matutino português que atende pelo nome de Público. Fez pensar... mais um pouco. O intuito, aqui, é o mesmo...
“Os velhos poderosos
Ainda ontem
Miguel Esteves Cardoso
E se a maneira como olhamos para os velhos for o contrário do que faz sentido?
E se a velhice for um jogo em que todos os anos se arranjam para os concorrentes, cada vez mais velhos, novos impedimentos e novas sobrecargas, exortando-os: ‘Desiste! Desanima!’ Começa para aí aos 50 anos. Apetece logo desanimar. Começam a morrer pessoas de quem gostamos muito.Com surpresas. Más. Começam as doenças. Começam as dores. Começam os preconceitos. Começam os cansaços.
Cada vez que aparece o monstro – o monstro da vida, o monstro da idade com novos encolhimentos da nossa alegria de viver, ele grita-nos ‘Desanima! Desiste! Ao menos, entristece...’ Mas os velhos picam-se. Gostam do jogo. Não é como se houvesse outro para jogar. Sentem-se desafiados: ‘Aié? Aié? Então já vais ver!’
‘Então já vais ver, vida madrasta de um raio – ou julgavas que eu me deixava ir abaixo com tão pouco?’
Os velhos engolem os pais mortos, os amigos mortos, as coisas que já não podem fazer, mais a cara que os fita no espelho, com a língua de fora, e as cidades que se tornaram irreconhecíveis, e as paisagens que nunca mais voltarão, e as análises que estão cada vez piores. Engolem, enchem o peito, secam os olhos e apalpam a alma para ver se desanimou. Não desanimou. Ainda lá está. E é assim que ganham força: ainda estou de pé, ainda me rio, ainda me apetece brincar, ainda sou um gatinho.
Os velhos que não desanimaram são muito mais fortes do que os jovens que nunca foram desafiados a desanimar.
Aliás, desanimar com pouco é próprio da juventude: é um luxo deitarmo-nos abaixo com tão pouco. O monstro dos jovens não é o monstro dos velhos. Não é a morte. É pior do que a morte: o monstro dos jovens é a ignorância. E uma ignorância invencível, por muito que se leia e se viva. Leva a grandes desperdícios. Entrega-se de corpo e alma a grandes desânimos, todos redundantes.
Já os velhos sabem. Sabem e mesmo assim não desanimam. Não são só sobreviventes. São vencedores.”
