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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Dezembro 13, 2023

Foureaux


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Conta a lenda que ao sair de seu retiro, feito depois do longo período de recuperação, fruto de suas leituras, Inácio de Loyola caminhou de volta a sua casa quando se deparou com um riacho. Nele, percebeu um brilho intenso. Meteu a mão na água, mas o brilho desapareceu. Tentava pegar a pedra que refletia o brilho. Debalde. Toda vez que tentava, o mesmo resultado: o lodo do riacho encobria o brilho. Tocado, então, pelo Espírito Santo, Inácio entendeu o que significava aquilo. O brilho era para ser contemplado, não, tocado. O nome do riacho é Cardoner. A passagem da biografia do Santo recebeu o nome de “Visão do Cardoner”. Salvo engano meu, é este o título que aparece na Autobiografia de Inácio. Esta é a minha visão – mantida pela memória de quase trinta anos desde a experiência jesuítica em Campinas. Claro está que ela responde ao ditado popular: quem conta um conto, aumenta um ponto. Trago esta passagem aqui para falar do carisma da Companhia de Jesus: contemplatio agendo, em tradução livre: contemplação nação. Não vou falar de Teologia, mas a referência é necessária para dar início à minha tergiversação sobre um filme que vi. O ato de vê-lo, no momento mesmo em que o vi, é expressão, imagino, do que se pode sentir quando se dá espaço para a vivência desse carisma. Talvez, em outras palavras, seja uma forma de tentar entender a revelação que 

Inácio, o santo, teve à beira do Cardoner. Essa iluminação causou-lhe “consolação, com certeza – pata usar um termo inaciano muito caro. Creio que senti-me como santo, quando da revelação à beira do Cardoner: consolado. É preciso esclarecer que o sentido desse adjetivo aqui, não é o corriqueiro, mais usual, senão o de completo, satisfeito, para além de maravilhado, feliz. Revelação. Esta é a palavra-chave aqui! Foi assim que me senti, pari passu, ao ver o filme, que não tem nada de extraordinário, a não ser pelo fato de que vai direto ao ponto, sem firulas. Trata-se de Nuovo Olimpo, de Ferzan Özpetek (2023). Não sou cineasta, nem teórico de cinema, apenas gosto de ver filmes. Assim, tenho a impressão de que o orçamento não foi gigantesco o que se nota pela produção que tem ares de modesta. Os atores são absolutamente desconhecidos do “meio”. São todos italianos. O filme se passa em Roma, se não me engano, nos anos 70 e conta a história de dois homens que se conhecem, se apaixonam, instantaneamente e t6em suas vidas atravessada por circunstâncias fora de seu próprio controle. O que me chamou a atenção é o fato de que o filme é romântico até a raiz dos cabelos (dos atores), mas não tem nada de piegas e muito menos estereotipado. Bem...a não se pelo fato de que há um “casamento” entre dois homens – um deles, um dos protagonistas da fita – e, por outro lado, o fato de o encontro se dar num cinema de pegação – quem quiser que vá procurar o que significa isso. Declino do direito de explicar o que seja... Fora isso, não há do que reclamar. A história se desenvolve leve, bem articulada, sem exageros, nem maneirismos, muito menos panfletagem. Esta é uma das mais fortes qualidades do filme: ele não serve de plataforma para militância. Seu discurso é pura e simplesmente estético, obviamente eivado de “realismo” sociopolítico, mas sem o viés de defender pautas e ou apoiar movimentos. A impressão que tenho é de que o diretor quis, simplesmente, contar sua história (Autobriográfica?). Contou-a de modo direto, sincero, bonito e muito, muito comovente. Está na Netflix. Vê quem quer. Vi e gostei. Foi uma experiência balsâmica no quadro atual da filmografia atual, diuturnamente preocupada em defender isso ou aqui, em “lacrar”, em “cancelar pessoas, reputações, tradições. Uma chatice. O filme é um oásis no deserto em que vem se transformando o cinema mundial.

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