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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Quase um mês...

Foureaux, 12.07.22

O intervalo desta vez foi mais longo. Não sei dizer se proposital ou apenas circunstancial. Arriscaria o palpite de que foi um pouco de cada. Uma mistura. Quem me conhece há está acostumado. Isto posto, segue mais uma série de mal traçadas linhas obre um autor que aprendi a gostar, que conheci pessoalmente e que me agrada muito.

Três são as fases da vida. Três, os momentos do dia. Três, os pedidos que Aladim fez ao gênio da lâmpada maravilhosa. No conto infantil, as maravilhas realizadas pelo “gênio’ encantam e divertem, mas não eixam de, nas entrelinhas, instigar raciocínios outros que podem ser interpretados como nem tão infantis assim. De um jeito ou e outro a ideia de se encontrar um gênio e poder fazer três pedidos continua alimentando a imaginação e as fantasias humanas. Assim é com Octávio, um funcionário público daqueles bem típicos. O nome apresentado leva o “c” porque é criação portuguesa. O autor quis, desse modo, reafirmar sua autonomia com a utilização de letras e outras guirlandas vocabulares que lhe garantem o fluxo e o refluxo de ideias. “Acordos”, “reformas” e quejandos não são capazes de conter o ímpeto criador de quem escreve, como é bem o caso aqui. Octávio C. é o nome “completo” da personagem de um livro encantador, não como o conto de Aladim, mas de uma maneira muto sua, já minha conhecida, assim como de muito mais gente mundo afora. Octávio C. é funcionário público, como disse. Trabalha na Conservatória. É como um cartório de notas e ofícios do lado de cá do grande lago. Octávio C. se relaciona bem com seus colegas de trabalho. Um deles trata das mortes, a outra dos divórcios, um outro dos nascimentos. Ali, na Conservatória, cada um tem seu papel bem desenhado e definido. Faz parte da boa conduta funcional, neste ambiente, cumprimento de suas funções, o reconhecimento das relações entre os diversos registros e, acima de tudo, o respeito à hierarquia funcional. O serviço público parece não mudar muito de um continente para o outro. Otávio C. está apaixonado por uma de suas colegas de trabalho, mas não consegue verbalizar seu sentimento nem tomar uma atitude que o leve a consumar o afeto que alimenta a sua paixão. Depois de se lembrar de uma história contada pelo avô, por conta de situações e circunstâncias que não convém desvelar aqui – o assim chamado spoiler estragaria o prazer de possíveis leitores do romance (porque se trata de um romance) – Octávio C. manuseia, ainda uma vez, uma lamparina dourada que seu avô – que só conversava com ele em inglês, quando conviveram na infância do próprio Octávio. A ilusão dos três pedidos se desfaz, mas em sonhos, o gênio da lâmpada aparece e interage com Octávio C. Obviamente, ele faz seus três pedidos: um mundo sem armas, um mundo sem dinheiro, um mundo sem medo. O gênio, como no conto, da irreversibilidade dos pedidos, no que tange a seus efeitos. Octávio bate o pé. O gênio tenta induzir Octávio C. a pedir alguma coisa que definisse o “estado da arte” de seu sentimento em relação à companheira de trabalho. Nada. Os três pedidos continuam sendo os mesmos e o gênio os concede. As consequências, apresentadas numa narrativa divertida e pitoresca, são as mais inusitadas. Para surpresa de todos, inclusive do próprio Octávio. De novo, abro mão de mais alguns spoilers... O que vale a pena é acompanhar a trilha que Octávio C. apresenta ao leitor, pelas mãos de um narrador que observa e, insidiosamente, se intromete colorindo sua narrativa com humor igualmente colorido e, ainda uma vez pitoresco, as diversas formas que a personagem central vai encontrando de discutir (consigo mesmo e com o gênio a lâmpada) sobre os já referidos efeitos e as inesperadas consequências de seus três pedidos. No fundo, de maneira sutil, mas contundente, o desejo – sob a égide de Freud e Lacan – pontifica o desenrolar desta narrativa que volta a um universo já visitado e soberbamente explorado pelo mesmo autor.  O romance se chama Os três desejos de Octávio C. Seu autor é o já por mim comentado Pedro Eiras, que é professor na Universidade do Porto. Esteve recentemente em São Paulo, participando da Bienal do Livro que, neste ano, homenageou a “terrinha”, lá do outro lado do grande lado: Portugal. Numa entrevista (https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8913.pdf), Pedro Eiras diz: “Olha, para te dizer a verdade, nunca pensei nessas duas palavras – utopia, distopia – ao escrever Os Três Desejos de Octávio..., enfim, os teus Desejos. Digamos que não precisei desses nomes, na altura; mas não quer dizer que não sejam uma boa descrição do que acontece nessas páginas. O vocabulário teórico pode vir mais tarde – quando me transformo em leitor, de mim mesmo, entenda-se. A teoria é ao retardador.”. O trecho pode parecer confuso. Continuará assim se você que me ler não tiver a curiosidade de ir até a fonte, citada entre parênteses) não sem antes, ou depois, ir até o livro mesmo e lê-lo, com prazer, como eu o fiz. Fica o convite.

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