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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Outro capítulo

Foureaux, 24.05.22

Otacílio Piffio é o nome do livro que tenho tentado escrever. Já tenho dois capítulos que considero “armados”, um outro que há de se colocar em algum do livro “a ser”. Tentei experimentar, com este livro, uma brincadeira que, parece, não deu certo. Publiquei os dois capítulos, um de cada vez. Propus a quem os lesse que tentassem escrever alguma coisa como uma espécie de interferência na história que os ditos capítulos suscitassem na imaginação de quem os lia. Apenas duas pessoas responderam ativamente à proposta. Disso poderia concluir que tenho apenas dois leitores. O que não corresponde à verdade. Sei disso, por conta de alguns comentários e das “sinalizações” que o “sistema” me envia quando alguém “arte” o que escrevi e publiquei no blogue. Sim, com “e” no final. Escrevo em Língua Portuguesa e me dou o direito de aportuguesar o termo originário da língua do tipo Sam de que gosto muito pouco. É isso. Ainda sem saber para que e por que escrevo - mesmo que especulações, inclusive minhas, mão faltem - escrevi mais esse projeto de capítulo, como acima mencionado. A ver onde é que isso vai dar...

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que, inicialmente, ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pessoas perguntam coisas a respeito. Perguntas soltas, às vezes desarticuladas. Ele sabe que todos querem saber o que ele também quer, e não sabe. Ainda. Acredita que com o resultado do que faz seja possível encontrar uma resposta. Ou não. Será que importa mesmo encontrar a resposta? Ele se pergunta, sempre, mas continua. Então... ele caminha. Senta-se e começa os eu trabalho. Aproveita as tonalidades que a luz do sol ou sua ausência oferece, à sua vista, à sua sensibilidade. Se alguém perguntar como é que sabe que está na hora e fazer o que gosta de fazer, ele, sem dúvida, responderá que é incapaz de dizer. Só sabe que percebe que a hora é aquela. Pronto. Ele começa a fazer. Na escrita que desenvolver, se lembra de muita coisa que aconteceu ali, onde morou e onde, por força das circunstâncias, veio a estabelecer o que costumam chamar por aí de império. Ele não acreditava nisso. Seu amigo mais chegado, Otacílio, costumava dizer que um império não é mais que um monte de papéis que vão envelhecendo e que, como acúmulo de pó, acabam por se transformar em castelos. Ruínas, na verdade, seria mais preciso., mas o homem não acreditava em seu amigo. O homem apenas sabia que houve um tempo em que se prendia em escolas destinadas ao ensino da Filosofia. Todos que não eram como ele, os tais “aristocratas” discutiam e aprendiam com seus mestres. Era engraçado pensar na existência de uma Academia, como a de Platão; ou o Liceu, como o de Aristóteles e os Jardins de Epicuro que podem ser consideradas antecipações históricas das futuras instituições de educação superior, as universidades. Isto era apenas História. Sim, História, com “h” maiúsculo... É que o homem era muito chato. Assim não fosse, não teria sobrevivido a tudo o que se passou. Até o momento em que o testamento foi descoberto, o tormento foi grande. Com a leitura do documento de Otacílio, ninguém mais teve coragem de duvidar do que quer que seja. Tudo estava muito claro. Isso era o mais importante para o homem. Em suas andanças pela Praça 13 de maio, sempre se lembrava dos dias ensolarados em Itaara, a beira do lago Sangu. Nome estranho. Como caeté. Mata frondosa. Para além de identificar uma tribo indígena em território brasileiro, mais precisamente entre a ilha de Itamaracá, em Pernambuco até as margens do rio São Francisco, caeté também identifica. uma das duas seções da mata amazônica, a mata verdadeira das planícies, só inundada nas grandes enchentes. Dizem que pode se escrever/falar caaetê – que, até prova em contrário, é a forma “original” da palavra. Otacílio acreditava que a origem está no tupi kaá eté. O homem não sabia o significado disso na língua indígena. Um fato notório é que foi essa tribo, a dos caetés, que devorou o famoso bispo Sardinha. No século XVI, Mem de Sá determinou que fossem todos escravizados. Triste fim... E o nome dele não era Policarpo. Mata densa, mata virgem. Tudo no mesmo nome. E o homem se deliciava com essas curiosidades de sua própria língua. Gostava de conversar sobre isso com Otacílio. Os outros não se importavam. Agora, sozinho, mais que sozinho, falava consigo mesmo. Para não enlouquecer, escrevia. Dialogava com seus escritos, como se Otacílio estivesse ali. O homem era velho. Inteligente e velho, o homem. Continuava acreditando em tudo que viu e ouviu.

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