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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Outro capítulo

Foureaux, 26.03.22

Pensei no que já tinha escrito antes. Talvez a ideia de um novo romance esteja mesmo começando a se transformar num embrião. Escrevi o que segue abaixo. Do que escrevi primeiro, recebi dois comentários com, digamos, provocações. Tive a ilusão de que receberia mais. Não importa. Segue agora um segundo passo. Quem sabe...

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Em seu depoimento, o funcionário respondeu calmamente a todas as perguntas. Ele não entendia muito bem por que estava ali, porque tinha de responder. O delegado dizia poucas palavras, além das perguntas. A certa altura, uma moça entrou e entregou um envelope amarelo ao delegado. Olhou para o funcionário e franziu o cenho. O funcionário não notou. Continuou cabisbaixo, pensando no tempo que estava perdendo em seu dia de folga. Era para estar no Jardim Zoológico, com seu vizinho, o jardineiro do hotel. Era o que estava combinado desde a semana anterior. Já passava das onze e o interrogatório não acabava. O funcionário estava com fome. Depois de abrir o envelope, o delegado virou-se para o funcionário com ar de espanto. “Você conhece Marizabel Veiga?”. Sim, foi a resposta. “Desde quando?”. O funcionário disse que não se lembrava quando a tinha conhecido. Lembrava-se dela por conta de um passeio ao Horto Florestal, com o jardineiro do hotel, seu vizinho, que a apresentou. Disse que teve a impressão de que o amigo estava namorando a moça. Depois disso, encontraram-se, por acaso, na praça ao lado hotel. “Você manteve contato com ela”? Não. “Nunca mais a viu, depois do encontro da praça?” Não. “Você sabia que ela é irmã de um escritor português, o Tiago Veiga?”. Não. “Na verdade, meia irmã. O pai dela teve um filho do primeiro casamento, o tal Tiago. Parece que nunca conviveram. Marizabel Veiga, logo depois de nascida, veio para o Brasil com a mãe, que se separou do marido. Trabalho numa casa de modas, no centro do Rio de Janeiro. Depois, num restaurante, como garçonete.” No dossiê, que estava no envelope amarelo, havia uma foto desta mulher com a filha, Marizabel. Não havia mais nenhuma informação. “Você sabe onde vive Marizabel Veiga?”. Não. Uma e meia da tarde. O estômago do funcionário roncava. Ele estava envergonhado pois o ronco era alto. Estava irritado por ter perdido o passeio com o amigo, o jardineiro do hotel. O delegado saiu da sala. Não demorou muito. Ao voltar pediu ao funcionário que lesse o seu depoimento e, se estivesse de acordo, o assinasse. Já cansado, um tanto mais irritado, o funcionário chegou em casa. Ligou para seu amigo, o jardineiro. Conversaram por alguns minutos. Combinaram o passeio para a próxima folga, dali a quinze dias. Trocaram impressões sobre o dia. O funcionário fez um lanche e dormiu um pouco, no sofá de sua sala. Acordou com o telefone tocando. Atendeu. Mudo. Desligou e foi ao banheiro. O telefone tocou de novo. Atendeu e, mais uma vez, mudo. Voltou ao banheiro, lavou a cara, penteou os cabelos. Trocou de camisa e saiu. Ao chegar ao portão de sua casa, ainda escutou o telefone tocando mais uma vez. Foi ao cinema. Na saída, passou numa loja de eletrodomésticos e comprou uma secretária eletrônica. Se o telefone tocasse e ficasse mudo, ia identificar o número que chamava pela bina. Isso poderia esclarecer os telefonemas. Fez muito calor durante o dia. Anoiteceu e havia nuvens pesadas no céu. Voltando para casa, o funcionário foi apanhado pela chuva. Não se importou. Continuou caminhando calmamente. Não estava longe de casa. Ao atravessar a última rua antes de chegar em casa, ele viu um carro conhecido cruzando a rua do outro lado. Era o marido da camareira. Estava sozinho. Dirigia devagar. O funcionário acenou. Não foi visto. Estranhou o acontecido, mas se lembrou dos irritantes telefonemas mudos. Ficou satisfeito por ter comprado a secretária eletrônica. Tinha a certeza de identificar quem chamava e não falava nada. A chuva parou, de repente. O céu ficou estrelado, de repente. O funcionário chegou em casa. 

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