Gerações...
O texto que partilho – para não faltar ao costume! – não é de minha autoria. Tenho a impressão de que é bastante corriqueiro e que já deve estar circulando há mito tempo. Não vou verificar isso – de novo, para não faltar ao costume – por pura, declarada, assumida e sincera preguiça. De qualquer maneira, vai o texto que, acredito, faz pensar, mesmo sabendo que este verbo expressa atividade cada vez menos valorizada e mais vilipendiada, haja vista o que anda acontecendo por aqui, na terra dos Burundangas... O assunto já não é novidade, mas, infelizmente, tem sustentado bravatas de profunda imbecilidade e tendenciosidade... ai, que preguiça. Evoé, Macunaíma!
“Nós somos aquela geração que não vai voltar.
Crescemos com sapatos cheios de pó, joelhos raspados e coração apressado.
não para olhar para uma tela, mas para terminar o lanche e sair correndo para a rua — onde a única coisa importante era uma bola e alguns amigos.
Nós éramos os que voltávamos da escola a pé. falando alto ou sonhando em silêncio, com a mente já no próximo jogo, na próxima aventura, entre um buraco na areia e um segredo sussurrado atrás de um canto.
Um pau podia ser uma espada, uma poça virava um mar para conquistar.
Nossos tesouros eram berlindes, cromos, barquinhos de papel. E o céu, nosso único limite.
Não tínhamos backups, apenas memórias na mente e nos rolos fotográficos.
As fotos eram tocadas, cheiradas, guardadas em gavetas – junto a cartas escritas à mão, postais dos avós, e desenhos coloridos que os pais guardavam como joias.
Nós chamávamos de ‘mãe’ a quem curava nossas febres e ‘pai’ a quem nos ensinou a andar de bicicleta. Não era preciso mais.
À noite, sob os cobertores, conversamos baixinho com o irmão na cama ao lado, rindo por besteira, com medo que algum adulto ouvisse e desligue esse pequeno mundo de cumplicidade.
Essa geração está indo, pouco a pouco, como uma fotografia que perde a cor,
mas ninguém quer jogar fora.
Nós nos afastamos silenciosamente, levando uma mala invisível: o eco do riso na rua, o cheiro de pão acabado de fazer, corridas sem sentido e aquela liberdade que eu não conhecia notificações.
Nós éramos crianças quando ainda se podia ser.
E talvez essa seja a nossa maior fortuna.
(José Vergara)”
