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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Março 24, 2024

Foureaux

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Recentemente, vi um vídeo em que Vinícius de Moraes declama um poema seu (Ausência). Fiquei impactado. Gosto de ver/escutar poetas declamando seus próprios poemas. Já vi Drummond, Manuel Bandeira e agora Vinícius de Moraes. O poema causou-me tal impressão que resolvi fazer uma brincadeira: apropriei-me de alguns versos/fragmentos de versos e compus outro poema tentando ecoar o que li/escutei do original. Pretendo abrir meu novo livro de poesia (apocrifói) com o resultado desta brincadeira. Gostaria de saber sua impressão!

 

Exercício

 

Se tomo como minhas, palavras alheias,

não deixo de poetar.

Como se fosse possível

a originalidade

em absoluto.

Então, prossigo

 

Não vou deixar “que morra em mim”
o desejo de amar aqueles olhos doces

por impossível presentear, em agrado,

a não ser pela mágoa causada,

essa sim,

pela exaustão que os olhos alheios

enxergam

naquele que escreve em solidão.

 

Ainda assim, sentir sua presença
“é qualquer coisa como a luz e a vida”:
percepção de “meu gesto”

que ecoa no gesto seu

como se falássemos a mesma língua,

eco uma da outra.

 
Não quero ter você: 

nisseo, “em meu ser tudo estaria terminado”.
Só quero sua aparição

assim

epifânica

“como a fé nos desesperados” –
caminho único “para que eu possa levar”

a “gota de orvalho”
como lágrima pendida sobre “terra amaldiçoada”;

inerte “sobre a minha carne”
fazendo as vezes de “nódoa do passado”.

 

Quero deixar assim, solene

a sua vontade de encontrar em outras

a própria face,

como se nos meus versos fosse.
Vou abrir caminho

para que o encontro desta face seja

o enlaçamento de dedos

em frenesi

que desabrocha em rara madrugada,

como foi um dia.

 

Desse modo, você

não poderá saber ter sido eu

a escrever

no intuito de tocar você

como quem colhe flor em jardim delicado,

na intimidade da noite que não mais há

“porque eu fui o grande íntimo da noite”

e nossos copos se encostaram

em outro frenesi, mais solerte e vão,

enquanto ouvia uma voz

a ciciar “fala amorosa”
de novo

num cruzar de dedos enlaçados em meio à névoa
suspensa no espaço.

 

Com meus versos,

trouxe para você, em mim,

a essência misteriosa do abandono

que foi deixado, presente alheio,

no “abandono desordenado”
de quem está só.

 

“Veleiros nos portos silenciosos”

da sedução inútil

de versos sofismáticos

à busca da conquista de alguém,

de alguma coisa,

a não deixar mais partir,

não mais.


“Todas as lamentações do mar”

ecoam o vento,

desenham o céu,

desdenham as aves,

invejam as estrelas

e serão a presença da voz alheia

presente
na ausência da minha

encarnada em versos sutis,

úmidos de sereno.

 

No intervalo, como aspas,

o alheio ecoa a mesma ânsia

de não saber como manter o peso

do verso que se desfaz. 

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