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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Primeira versão

Foureaux, 24.03.22

Segue a primeira versão de um poema (comentários e palpites continuam a ser esperados).

 

Sem sentido

 

Uma tarde que passa

como as demais que também passam

repetindo a mesma ritmada canção muda,

a que embala quimeras e decepções

num paul inquieto de ilusões e temores

de gente que vive a trabalhar sem tino, rumores

daquilo que podia ter sido.

 

Não é, decerto,

o melhor dos sonhos a envolver o dia

de quem acorda sem saber o primeiro passo

já tendo dado os seguintes na inversão

que nada altera, nem ilustra, nem seduz.

Um passo, e só isso

a reverberar na música surda das letras que pululam

entre vírgulas e ideias estapafúrdias 

(ainda que não seja poético falar assim).

 

Ah, o barulho do mar que não encobre

o pio da coruja que

ao contrário da outra, a do sertão, não assusta

quase diviniza a maré que ressoa,

brisa sudeste a anunciar bom tempo

e a melancolia de rever os dias,

revisitar os mortos,

sonhar o impossível.

 

Não há mais panteras presas

e olhares temerosos

guardando a raiva felina que, recalcada,

rescende a vingança, sem ter havido crime.

A natureza não há mais.

Não há mais modo de escuta, olhar complacente

só o alarido das verdades individuais

gritos num labirinto com identificação de saída,

mas a cegueira não deixa ver...

nem o voo mais alto que poderia,

se alentado, sobreviver 

ao rasteiro caos

que se instaura e insiste e fere

interfere incólume sem se abater.

 

Rima impossível.

Quero a rima impossível

escrita num poema cego e surdo

com letras mortas,

a apagar qualquer sentido

dando ordem a tudo

e, ainda assim, não satisfaz o querer,

do poema.

Intervalo

Foureaux, 09.03.22

Um intervalo. Mais um. Faz uns tantos dias que não escrevo, nem mesmo para repercutir algum texto alheio. Nada. Antes de viajar, li um livro do Augusto Abelaira, escritor português (ainda vou comentar algo sobre ele aqui): A cidade das flores, seu primeiro romance (1959). Se não me engano é este mesmo o nome dele. A indicação é de um amigo querido, o Artur, marido da não menos querida Alexandra, pais de Esther. Todos vivendo numa soberba residência no Paço da Quinta de Justes, em Braga, onde fabricam espumantes e vinhos verdes. Um paraíso terreal. Pois é. O Artur me indicou e vou escrever sobre o livro, em homenagem ao amigo dileto. Não devo fazer isso? Houve um tempo em que eu ficaria na dúvida sobre a pertinência de tal motivação. Tempos passados. Não os posso esquecer, porque se passaram com a minha participação, ou me envolvendo eles, em suas artimanhas, todas elas comandadas por seu mentor e controlador, pai: Cronos, implacável. Pois é. Ninguém escapa. Assim se fazemos intervalos. Os dias passados no litoral repetiram a mesma sensação de que a mudança é acertada. Olhar para o mar, todos os dias, durante horas infindáveis, é mesmo uma prática que só renova energias, sensações, esperanças. Incansável. Não há nada mais “sedutor” num certo sentido. Claro está que há uma pontinha de melancolia. Em tudo ela se mete. Afinal, altos e baixos são os movimentos irrecorríveis da existência. Sua exacerbação, por consequência, é que leva tudo para as vielas escuras, úmidas e miasmáticas da patologia. Isso não! Nesta temporada de quase quinze dias pensei em escrever mais um poema. Já tinha escrito dois, quando o pensamento me assalto. Ocorreu a “inspiração” por conta de uma folha amarela que estava na praia. Vi-a quando fiz uma de minhas caminhadas matinais. Lá, por imitadas que são, ainda, minhas estadas, é a “atividade física”, sentença irrecorrível das autoridades médicas em nome da famigerada “saúde”... Bem. Os versos que me vieram, de estalo, eram mais ou menos assim: “Uma flor amarela / jaz sob o tempo de vasto azul / vista / ainda que cego o olhar / pelo reflexo da estrela diurna”. Mais ou menos porque acrescentei uma que outra palavra que, no momento da “inspiração” não me vieram à mente. De certeza que não! Logo em seguida, pensei em escrever uma história que começava pela leitura deste poema por um professor. Os alunos, atentos, escutavam a voz melódica do mestre, ao declamar os versos, sem dizer-lhes a autoria. Gostava de contar o milagre, mas não o santo! Depois da leitura, perguntaria aos alunos: onde está a flor? Um deles responderia que na praia. O professor, maliciosa, perguntaria como é que você sabe que é na praia. Ora, professor, responderia o aluno, o último verso, tem uma expressão – “estrela diurna” que, seguramente é o sol. (O advérbio é por minha conta, como responsável pela voz narrativa). Seguindo seu raciocínio, o estudante diria que este elemento, quando considerado o substantivo imediatamente anterior, “reflexo” sustenta a hipótese. Além do mais, o verbo jazer, no segundo verso, leva o leitor a pensar na superfície da praia, por onde anda o poeta observador, dado que a expressão seguinte “vasto azul” bem poderia ser o céu, na praia em dia ensolarado. Este detalhe final, ganha consistência ao se observar que a flor é observada de cima para baixo, pois o “reflexo” faz “cego” o poeta que observa. A turma estava muda. O professor também. Houve quem pensasse que o estudante era petulante, ou método, ou teria descoberto de antemão o poema a ser lido em aula e, ajudado pelas “ferramentas de pesquisa” hoje em dia disponíveis, teria se preparado com a análise de outrem. Tudo é possível. Sem ter como especular sobre esta possibilidade, o professor, estupefato e feliz, elogiaria a análise do estudante, confirmando-a. A história não acabaria aí, mas a minha caminhada terminou, os dias se passaram e somente agora é que escrevo alguma coisa sobre o poema iniciado... e inconcluso, por enquanto. Isso para, ora veja, justificar um intervalo!

 

Referência

Foureaux, 15.02.22

Li o livro de uma sentada. Abri e fui até o fim, numa tarde apenas. Devo confessar que o li com vivo interesse. D princípio ao fim. No entanto, não sei dizer se gostei ou não. O interesse não levou à surpresa. Esta, por sua vez, não estimulou a jouissance que costuma acompanhá-la, pelo menos, algumas vezes. não. Li com interesse e só. Será isso um defeito do livro ou uma lacuna na/da leitura? Vou morrer sem saber. Nélida Piñon, nas orelhas do volume, traz Machado de Assis como matriz do modus operandi do livro que li. Terá sido a expectativa criada por esta ilação – também ela fruto de leitura... – a responsável por esta sensação indefinível que me ficou ao terminar o romance? Sim. Trata-se de um romance, ainda que as características mais comuns, tradicionais, clássicas deste exemplar do gênero narrativo não estejam presentes no arsenal narratológico utilizado pelo autor. Brasileiro, diga-se de passagem. Como a referência assinalada pela autora das orelhas. Ainda que tenha ficado, anos luz, distante desta. Talvez, esta seja outra consequência nefasta da expectativa insidiosa que se aninhou no inconsciente do leitor, eu. Essas coisas acontecem! O livro se chama O dom do crime. Seu autor, Marco Lucchesi. Seu verbete indica que foi professor visitante em “diversas instituições internacionais”. Deve ser algo de muito importante mesmo. Eu diria “instituições estrangeiras”. Internacionais, qualquer uma em solo pátrio pode ser. Basta levar em consideração alguns “critérios” das famigeradas agências de fomento” para enquadrar as atividades de investigação na/da terra brasilis. Mas vamos. Deixo de lado a chatice e reconheço seu “valor” – palavra perigosa... Afinal, ocupa uma cadeira na ABL! Como disse certa vez, a mesma autora aqui referida, a das orelhas: uma casa de notáveis. O livro gira em torno de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Fato irrecorrível. Usei o verbo “girar” propositadamente. A impressão que se tem é a de que a narrativa “age” como mariposa em torno da lâmpada em dia de chuva. Pois é. O crime a que se dedica o narrador, não se consolida como tal. Difunde-se em indícios e referências esparsas, pulverizadas num texto suposta e pressupostamente erudito, dado que cheio de referências explícitas ou não. Estas, por sua vez, são consideradas pela “orelheira” responsáveis pelo caráter “erudito” do romance. Hum... Sei não... Erudito? Só por conta das circunlocuções narrativas a que o texto se presta como suporte? Certo que o livro prendeu minha atenção. Mas... erudito. Sei não. De fato, o applomb do narrador mais lembra o de Brás Cubas, bem piorado. Penso que posso estar usando de muito rigor, mas faço-o assim mesmo. O defunto autor fica muito adiante do narrador de O dom do crime, mesmo com toa a generosidade do mundo. Ainda que o livro tenha prendido minha atenção e gerado satisfação ao final da leitura. Hum... soou ambígua esta afirmação, mas não me explico. Deixo a exegese de minha assertiva para quem, por acaso, venha a se interessar pela leitura do livro, depois de ler estas mal traçadas. Muita presunção de minha parte! Continuando...Num artigo (de Denize Bartolo Medeiros) que encontrei alhures (no portal ACADEMIA), li o seguinte: “Dono de profunda precisão verbal, Lucchesi não é um autor qualquer. Seu texto foge da simplicidade, mas se mantém aberto à criação. O resultado é uma mistura de prosa e poesia, numa linguagem que encanta e hipnotiza. Tradutor, ensaísta e poeta premiado, Lucchesi volta seu talento para outro gênero e se lança, pela primeira vez, ao romance com o aguardadíssimo O DOM DO CRIME. Lucchesi cria um delicioso narrador-autor, não identificado, que conta uma história para o futuro. Um homem do século XIX que, ao ser aconselhado pelo médico a escrever suas memórias, se lança não para a própria vida, mas sobre um crime passional, notícia no Rio de Janeiro de Machado de Assis. Esse misterioso narrador traça paralelos curiosos entre este assassinato, o julgamento que absolve o marido supostamente traído e a obra mais aclamada de Machado, Dom Casmurro.” A transcrição é literal, sem tirar nem por nada. Contive meu ímpeto de fazer algumas mudanças, digamos, técnicas. Duas na verdade: o nome do livro de Lucchesi ficaria com apenas a inicial maiúscula, e em itálico; como dar-se-ia (adoro mesóclise!) com o título do romance de Machado de Assis. Deixando, ainda uma vez, minha chatice de lado, dois dedinhos de prosa. Não sei se o texto é mesmo uma mistura de prosa e poesia. Não o li assim. Não percebi esta nuance. Isso pode ser, obviamente, falha minha. Depois, não considero o narrador “delicioso”. Não chega a tanto. Eu diria pretensioso, mas sou um chato. Por fim, na paráfrase que o autor do trecho citado faz do romance, escorrega na afirmação de que os paralelos são “curiosos”. De fato, há certa confusão, talvez causada pela presunção do narrador. Eu queria dizer autor, mas não vou me expor a tapas e pedradas. É isso. Vale a pena ler O dom do crime do tal professor titular de Literatura Comparada da "sacrossanta" UFRJ. Sorte maior terá quem pegar o livro de supetão, no escuro, de surpresa, sem nenhum tipo de indução. Seu prazer, ou desprazer, será genuíno, comme il faut. Ainda assim, repito: o livro é interessante.

Começo

Foureaux, 10.02.22

O texto que segue, eu o escrevi de uma sentada agora no finalzinho do dia Fiquei pensando num romance. Aparentemente, policial, mas eu não o quero assim. Fui escrevendo sem pensar muito, deixando fluir as ideias que me vinham. Parei com dois parágrafos e resolvi colocá-lo aqui como uma proposta, um convite, quase um desafio. Todo mundo sabe que o romance, como gênero narrativo, teve nos jornais, uma de suas primeiras manifestações materiais no mundo moderno. O famigerado "folhetim" fez muito sucesso. Algumas vezes, ao longo da História, mais de uma pessoa participou da confecção destes folhetins, simultaneamente. A proposta, o convite, o desafio: cada leitor deste trecho escreve dois parágrafos dando continuidade aos que eu escrevi. Ao fim de um tempo, teremos material, quem sabe, para consolidar o tal romance a inúmeras mãos. Tenho certeza quase absoluta de que  convite, o desafio, a proposta vai morrer na casca. Ainda assim, eu tento. Quem quiser que se habilite. Segue o texto:

 

O nome do romance é A última vontade de Otacílio Piffio. Otacílio Piffio era também o pseudônimo do autor. Na reunião do júri com o editor e o mecenas do concurso, a opinião foi unânime. Era o vencedor. O romance foi selecionado entre outros 3725. Destes, 2400 passaram por uma triagem. Trezentos professores universitários de diversas partes do país leram 80 romances cada e selecionaram dois. Os 600 selecionados passaram pelo crivo de um júri de 10 personalidades literárias nacionais que, por sua vez, selecionaram três cada um. Da mesma forma, o júri oficial leu os trinta selecionados e escolheram o melhor. A última vontade de Otacílio Piffio. Na reunião de registro do vencedor, foi revelado o nome do autor da obra. Para surpresa de todos os jurados era um professor universitário de 67 anos de idade. Consternação. Susto. Sarcasmo. Estas foram as reações de cada um dos jurados. O editor e o Mecenas não conheciam o autor. Os outros três, sim. Era óbvio, o incômodo. O resultado era irrecorrível, conforme o edital. Havia um jornalista convidado para funcionar como fiel da balança. Ele não conhecia ninguém naquela sala. Por dentro, divertia-se com a situação. Percebeu o constrangimento. Não entendeu muito bem o porquê dele imediatamente. No entanto, na medida em que os sussurros eram trocados e os olhares enviesados se cruzavam naquela sala, densamente eletrificada pelo mal-estar causado pelo resultado revelado, o jornalista ria-se por dentro e entendeu tudo. Não havia segundo colocado. O prêmio ia, definitivamente para o tal professor malquisto. O mecenas, sem perceber muito bem o que passava, perguntou se havia algum problema. Silêncio absoluto. O editor, ciente da situação, tentou descontrair o ambiente. Contou uma piada. Ninguém riu. Não havia o que fazer. Não havia segundo colocado. Não havia a menor possibilidade de se ter outro resultado. O presidente do júri ainda tentou, sem sucesso, argumentar que poderiam fazer uma segunda rodada de avaliação. O argumento foi o de que, apesar da unanimidade pelo resultado, havia outra questão: alguns pontos do romance não foram assim tão merecedores de premiação. Os outros dois jurados hesitaram. O editor deu a martelada final. O campeão era o professor. O romance A última vontade de Otacílio Piffio. Seiscentas e sessenta e seis páginas de texto. Um calhamaço. Dez capítulos de sessenta e seis páginas cada, mais uma “coda” de seis páginas. Um cartapácio. Números cabalísticos, pensou o jornalista.

******

A camareira, pressurosa, abriu a porta. O aviso de “Não me perturbe” estava na porta. Mesmo assim ela abriu. Havia dois dias que o aviso estava ali. Ela consultou as colegas dos outros turnos e todas afirmaram não ver a porta sem o aviso. Então, decidiu entrar. O quarto estava escuro. Cortinas cerradas. Cheiro de comida guardada, de vinho azedo, de vela queimada. Pediu licença. Disse “bom dia”. Nada. Nenhuma resposta. Entrou. A cama estava desfeita. Papeis sobre a mesa cheia de tocos de cigarro, meio copo de vinho e restos de farelo de pão. Os talheres meticulosamente colocados sobre o prato, comme il faut. Foi catando as migalhas de pão. Jogou os tocos de cigarro no lixo. Dirigiu-se ao banheiro. Cirurgicamente limpo. Trocou as toalhas. Recompôs a cesta de gadgets de higiene. Lavou o banheiro. Fechou a porta e voltou ao quarto. Ao contornar a cama, deu um grito. O corpo de um homem, nu, estendido no chão. Sua expressão era tranquila. Não havia sinal de violência. Ela pegou o telefone e chamou a gerência. Em pouco menos de uma hora, um investigador policial chegou. Entrou no apartamento em que estavam a camareira, o gerente e mais um funcionário. Ninguém tinha tocado no corpo. A equipe de perícia chegou em seguida. O investigador fez algumas perguntas, pediu que os três comparecessem à delegacia no dia seguinte para tomar seus depoimentos. Um fotógrafo registrou tudo. Uma senhora, muito calmamente, recolheu tudo o que encontrou sobre a mesa, no chão. Tirou as roupas do morto do armário e colococou em sua mala. Perguntou se a camareira encontrou alguma coisa no banheiro. Nada. Saiu com tudo num carrinho de mão. O silêncio era constrangedor. A camareira choramingava um pouco. O gerente, nervoso, não queria escândalo. O outro funcionário olhava tudo com cara de quem não entendia nada do que se passava. Em pouco mais de duas horas, o quarto estava limpo, pronto para receber outro hóspede. A polícia já tinha ido embora quando o telefone da gerência tocou. A recepcionista passou a ligação para o escritório central, onde estava o gerente. Este, ao atender, levantou a sobrancelha esquerda. Disse meia dúzia de monossílabos. Pegou um envelope guardado no cofre e saiu. A camareira viu quando ele atravessou a rua. Ela esperava pelo marido que a ia buscar todos os dias. Chovia forte. O dia acabava numa melancolia úmida, mofada, enfadonha. A camareira deu um suspiro e acendeu um cigarro. Escureceu. Mais quinze minutos e o marido da camareira chegou. O gerente voltava para o hotel: estava na hora de concluir seu expediente. Tinha que passar informações e o “caixa” para o seu substituto no turno da noite. O funcionário que acompanhou a chegada da polícia já tinha ido embora. Morava bem ao lado do hotel. Depois de jantar, ele ligou o rádio e sentou-se diante da janela que dava para o jardim no fundo de sua pequena casa. Pegou um livro para ler. Tomou um gole de chá. Ligou o rádio. O locutor anunciava que A última vontade de Otacílio Piffio era o romance ganhador do prêmio daquele ano na cidade. O funcionário engasgou-se com o chá. Franziu a testa. Desligou o rádio. Fechou a janela e foi dormir.

Um poema

Foureaux, 09.02.22

Não gosto de poesia de ocasião. Aliás, não gosto de Literatura de ocasião. Mas é isso, não gosto. Quem quiser que o faça. Entretanto, fiz esse poema... de ocasião.

Alerta

 

Enquanto isso...

flores morrem, solitárias

num jardim abandonado:

o jardineiro não pode sair de casa

e contaminar o ar.

 

Enquanto isso...

a capelinha é invadia:

o ritual não ascende a alma, dizem

rebaixa o espírito.

 

Enquanto isso...

dar adeus poder engano:

quem vê pensa que é outra coisa

e adeus!

 

Enquanto isso...

O verso desaparece da linha

a página continua em branco

a procurar o par de olhos que ao vai acompanhar

até onde?

 

Enquanto isso... 

Tentativa e erro

Foureaux, 27.10.21

Há momentos em que eu penso que estou perdendo o juízo. Não sou tão presunçoso para considerar que o que eu escrevo é melhor do que outros escrevem. No entanto, há coisas que leio, coisas “premiadas” que... por favor... Nem deixando toda a presunção de lado, sou capaz de reconhecer alguma “qualidade” no que leio. Mas não dou tratos a esta bola. Deixo passar e continuo “cometendo” meus poemas. Como os que seguem abaixo. Há quem critique o fato de compartilhar poemas inéditos. A roubalheira é grande. Não me importo. Sigo tentando. Quem sabe um dia...

Um.jpeg

Credo

Juntei duas palavras bonitas,

daquelas de que gosto muito.

Juntei-as numa frase sonora.

E acreditei ter escrito um poema.

 

À direita, o rapaz de barba e óculos não gostou,

disse que não tinha substância.

A senhora vetusta e grisalha,

do alto de sua erudição,

concluiu que o poema era o resultado,

apenas o resultado de um moedor de palavras.

A mocinha, loura e espevitada,

riu, e não disse nada,

mas escreveu à colega comentando

que o poema era fraquinho.

O senhor de óculos de tartaruga

franziu o sobrolho,

sério, vaticinou: em futuro.

 

Confuso, recolhi-me,

e nunca minha insignificância foi tão aconchegante.

Fechei o caderno e fui dormir.

Quem sabe um dia,

escolho outras duas palavras e as junto

numa frase sonora,

acreditando que ainda posso escrever um poema.

Dois.png

Reverso

Por duas vezes, apenas duas vezes.

Este foi o número de ocorrências

fatídicas, ambas

e sorrateiras

como as duas mulheres de fala mansa.

 

Alcoviteiras de livros, juntaram-se

e num conluio perverso

acertaram as pontas de um novelo

e o cara de pug venceu:

uma delas deu sua benção,

a outra aquiesceu.

Depois, a outra não se conteve

e, fria, melíflua e sagaz

soltou no ar a dúvida:

com isso não se brinca.

O dedo de Midas que, ao revés,

tudo derrete e reduz a pó, sem dó.

Fiel à sua conduta, criou o desequilíbrio necessário

para outrem, se locupletando, afirmar-se.

 

Dois passos.

Dois dias.

A população, por inteiro a esperar pela conclusão.

Indiferença e tédio.

 

Mais tempo se passa e as duas, ainda alcoviteiras

de livros, agora, empoeirados.

O reencontro para mais um tirocínio.

Da incômoda resolução do passado,

a ideia de definição do futuro

alheio.

 

Incompetência, ignorância, despreparo,

imaturidade.

Os epítetos, tal petardos,

podiam derrubar muros altos.

Mas não, apenas muretas caíram

no vazio da denúncia irresponsável que levou ao sucesso alheio.

Com alheia era sua vontade.

Nada como sonhado,

um dia depois de outro e bum!

Tudo acabado.

as donas caladas. Os dois mequetrefes mudos.

O mundo girando entre letras garrafais do sucesso.

E nenhum poema escrito.

Três.jpeg