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É quase um milagre: estou a escrever outra postagem no segundo dia do ano. Sem um intervalo. Dois dias seguidos! Vai hoje um poema (no original e minha tradução, um tanto livre) de W.H Auden ou Wystan Hugh Auden, poeta anglo-americano – nasceu na Inglaterra e morreu na Áustria –, considerado um dos mais importantes poetas do século 20. O poema é triste, ainda que grandioso. É de uma eloquência contundente e inabalável. Pode ser que haja quem não goste, sobretudo à sombra do último período de “festas” a que a tradição nos conduz a cada ano. Repetição: em minha mensagem de Natal, falei sobre isso. Bem... Segue o texto.
Funeral Blues
W.H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.
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Funeral Blues
W.H. Auden
Parem todos os relógios, deixem o telefone cortado,
Impeçam o cachorro de latir com um osso alimentado,
Silenciem os pianos e com abafados tambores
Tragam o caixão, deixem vir os enlutados e suas dores.
Deixe os aviões circularem como lamentos aéreos
Rabiscando "Ele está morto". em traços etéreos
Enlacem com crepe pescoços brancos do alto escalão
Deixem guardas de trânsito com luvas pretas de algodão.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana de trabalho e ócio dominical inconteste
Meus meio-dia e meia-noite, minha conversa e canção;
Pensei que o amor duraria para sempre: agora sei que não.
As estrelas não são mais necessárias; apaguem todas elas
Embrulhem a lua e desmanchem o sol
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora, ainda que ocorra, nada mais presta.
PS: não traduzi o título. “Blues”, no singular, é “azul”. No plural, pode ser um estilo musical ou um estado de alma (triste). Penso que a tradução tiraria a carga semântica e, por que não, “sentimental” do poema. No entanto, tradução possível, a meu ver, seria “Lamentos funestos”. Não fica bom... Aceito sugestões...