Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As delícias do ócio criativo

11.01.26

Resultado de imagem para morteHá um vídeo na rede mostrando Judi Dench e Kenneth Branagh conversando e ele diz pra ela o que aconselhou a um amigo que perdeu seu pai e tinha que dizer algo no funeral. O ator inglês se reporta a uma situação vivida por ele mesmo e diz uma frase de Hamlet: “He was a man, take him for all in all, I shall not look upon his like again”,

traduzindo,

“Ele era um homem, em todos os sentidos, não verei outro igual a ele”

ou

“Ele foi um homem, considere-o por tudo que ele representa, não verei outro igual a ele”,

ou ainda

“Ele era um homem, aceito por tudo que representa, não verei outro igual a ele”.

Mais não digo, a não ser pedir desculpas por possíveis erros de tradução...

10.01.26

Certa feita, já vai um tempo, conversando com uma amiga, ela disse que a partir dos 60 eu ia aprender o real significado da palavra limitação. É fato. Uma série de manifestações dessa coisa inexplicável – mas nem tanto – começa a fazer parte da rotina. Agora, chegando aos 70, isso começa a se adensar. E não de uma maneira negativa. Ainda bem! A pasta dental – ou dentifrício, como eu aprendi e gosto de falar – vinha numa embalagem metalizada que sempre estava “completamente” cheia. Não havia a bolha de ar que aparece hoje, na embalagem plastificada, depois de dois ou três apertos. Visitar os avós nos finais de semana. Brincar com as tias idosas no quintal de sua casa. Pedir a benção aos pais, avós, tios. Levantar-se quando o professor entrava na sala de aula. O tempo passa. E passando, ele traz coisas interessantes. Ontem recebei de outra amiga – esta portuguesa – um recorte de jornal que reproduzo abaixo. (Ao fim, vai a imagem enviada). Foi publicado ontem mesmo, até prova em contrário, no diário matutino português que atende pelo nome de Público. Fez pensar... mais um pouco. O intuito, aqui, é o mesmo...

“Os velhos poderosos

Ainda ontem

Miguel Esteves Cardoso

E se a maneira como olhamos para os velhos for o contrário do que faz sentido?

E se a velhice for um jogo em que todos os anos se arranjam para os concorrentes, cada vez mais velhos, novos impedimentos e novas sobrecargas, exortando-os: ‘Desiste! Desanima!’ Começa para aí aos 50 anos. Apetece logo desanimar. Começam a morrer pessoas de quem gostamos muito.Com surpresas. Más. Começam as doenças. Começam as dores. Começam os preconceitos. Começam os cansaços.

Cada vez que aparece o monstro – o monstro da vida, o monstro da idade com novos encolhimentos da nossa alegria de viver, ele grita-nos ‘Desanima! Desiste! Ao menos, entristece...’ Mas os velhos picam-se. Gostam do jogo. Não é como se houvesse outro para jogar. Sentem-se desafiados: ‘Aié? Aié? Então já vais ver!’

‘Então já vais ver, vida madrasta de um raio – ou julgavas que eu me deixava ir abaixo com tão pouco?’

Os velhos engolem os pais mortos, os amigos mortos, as coisas que já não podem fazer, mais a cara que os fita no espelho, com a língua de fora, e as cidades que se tornaram irreconhecíveis, e as paisagens que nunca mais voltarão, e as análises que estão cada vez piores. Engolem, enchem o peito, secam os olhos e apalpam a alma para ver se desanimou. Não desanimou. Ainda lá está. E é assim que ganham força: ainda estou de pé, ainda me rio, ainda me apetece brincar, ainda sou um gatinho.

Os velhos que não desanimaram são muito mais fortes do que os jovens que nunca foram desafiados a desanimar.

Aliás, desanimar com pouco é próprio da juventude: é um luxo deitarmo-nos abaixo com tão pouco. O monstro dos jovens não é o monstro dos velhos. Não é a morte. É pior do que a morte: o monstro dos jovens é a ignorância. E uma ignorância invencível, por muito que se leia e se viva. Leva a grandes desperdícios. Entrega-se de corpo e alma a grandes desânimos, todos redundantes.

Já os velhos sabem. Sabem e mesmo assim não desanimam. Não são só sobreviventes. São vencedores.”

97a92967-99ce-4e6f-8e23-8abbd2827f64.JPG

 

03.01.26

Resultado de imagem para rapidinho desenho animado

A internete (Sim, escrevo com “e” no final, porque falo/escrevo/leio LÍNGUA PORTUGUESA. Dicionarizado ou não, o termo vai continuar sendo escrito por mim dessa maneira. Punto i basta!) é um “achado” para o bem e para o mal. Tanta coisa inútil, tanta imbecilidade, tanto estereótipo... No entanto, tanta novidade e, um mundo imensurável de informações ideias e coisas absolutamente desconhecidas, inesperadas, interessantes. Dentre elas está o vídeo que pode ser visto por meio da ligação no fim deste texto. Cliquem nele. Deliciem-se com uma das coisas que, do ponto de vista prático, não servem para nada; mas fazem pensar num monte de coisas... inesperadas...

(1) Instagram

 

02.01.26

baixados.webp

É quase um milagre: estou a escrever outra postagem no segundo dia do ano. Sem um intervalo. Dois dias seguidos! Vai hoje um poema (no original e minha tradução, um tanto livre) de W.H Auden ou Wystan Hugh Auden, poeta anglo-americano – nasceu na Inglaterra e morreu na Áustria –, considerado um dos mais importantes poetas do século 20. O poema é triste, ainda que grandioso. É de uma eloquência contundente e inabalável. Pode ser que haja quem não goste, sobretudo à sombra do último período de “festas” a que a tradição nos conduz a cada ano. Repetição: em minha mensagem de Natal, falei sobre isso. Bem... Segue o texto.

Funeral Blues

W.H. Auden

 

Stop all the clocks, cut off the telephone,

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum

Bring out the coffin, let the mourners come.

 

Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling on the sky the message He is Dead.

Put crepe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

 

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last forever: I was wrong.

 

The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun,

Pour away the ocean and sweep up the wood;

For nothing now can ever come to any good.

************************************************************************

Funeral Blues

W.H. Auden

 

Parem todos os relógios, deixem o telefone cortado,

Impeçam o cachorro de latir com um osso alimentado,

Silenciem os pianos e com abafados tambores

Tragam o caixão, deixem vir os enlutados e suas dores.

 

Deixe os aviões circularem como lamentos aéreos

Rabiscando "Ele está morto". em traços etéreos

Enlacem com crepe pescoços brancos do alto escalão

Deixem guardas de trânsito com luvas pretas de algodão.

 

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Minha semana de trabalho e ócio dominical inconteste

Meus meio-dia e meia-noite, minha conversa e canção;

Pensei que o amor duraria para sempre: agora sei que não.

 

As estrelas não são mais necessárias; apaguem todas elas

Embrulhem a lua e desmanchem o sol

Despejem o oceano e varram a floresta;

Pois agora, ainda que ocorra, nada mais presta.

PS: não traduzi o título. “Blues”, no singular, é “azul”. No plural, pode ser um estilo musical ou um estado de alma (triste). Penso que a tradução tiraria a carga semântica e, por que não, “sentimental” do poema. No entanto, tradução possível, a meu ver, seria “Lamentos funestos”. Não fica bom... Aceito sugestões...

01.01.26

Antes de mais, feliz ano novo!

Vai hoje o primeiro do ano, no primeiro dia do mesmo ano,... quem sabe mais outros virão com um pouco mais de frequência... Não posso garantir.

Inauguro mais um ano deste blogue com um texto atribuído a Pablo Neruda. O particípio procede dado que, mesmo com o “ano novo”, minha preguiça continua a mesma! A ideia era publicar “Funeral Blues”, do W.H. Auden. No entanto, o tom fúnebre, ainda que monumental, do poema exigiria muita explicação por aparecer num dia de (suposta) alegria e comemoração. A suposição é por minha conta. Pensem o que quiserem. Como não queria gastar meu tempo (e paciência) com as explicações irrecorríveis, vai o anunciado.

Os anos que me restam.

“Nunca tinha pensado nisso desta forma, até que uma manhã, com o café fumegando, compreendi que os anos que tenho… já não os tenho.

Sim, soa estranho, mas é a verdade. Aqueles anos que digo ter já se foram, permanecem em fotografias, em risos antigos, em amores que já não doem, em roupas que já não me servem e em sonhos que mudaram de forma.

Os verdadeiros anos que tenho são os que me restam para viver, os que ainda não me viram rir às gargalhadas, os que ainda guardam um abraço, uma conversa sob a lua ou um brinde inesperado.

Nesta idade, compreende-se que o tempo já não se mede em velas ou novas rugas, mas em momentos valiosos, em risos que se prolongam e em silêncios que não nos pesam.

Quero passar os anos que me restam devagar, sem pressa, com a calma de quem já não precisa de provar nada. Já não me preocupo se o relógio está a correr.” Ou se a vida mudar de planos. Que ela siga seu curso, que mude, que me surpreenda.

Tudo o que eu quero é que os anos que me restam sejam meus, verdadeiramente meus… vividos com a alma aberta, o coração em paz e a certeza de que tudo o que fui, com meus erros e acertos, me trouxe até aqui.

E aqui estou eu: tomando café, observando a vida passar pela janela, grata pelos anos que já não tenho… e abraçando com carinho aqueles que ainda viverei.”

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub