Não sei se, de fato, Jorge Luis Borges se ateve ao versículo bíblico que nomeia seu poema para criá-lo. Não sei se quis estabelecer esta ilação. Parece-me óbvio, mas não posso afirmar isso. O versículo Mateus 25:30 diz: “Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes”. Este versículo faz parte da parábola dos talentos, na qual o servo que não utilizou seu talento é punido por sua inatividade. Pelo sim, pelo não, como gostei do poema (da forma como chegou pra mim) compartilho. A gente deve sempre partilhar o que é bom ou, antes, o que parece bom, mesmo correndo risco de engano. Confesso: joguei o original no google translator. Não fiz correções. Muita preguiça, mais que habitual, me acomete a cada dia por aqui... Se pudesse, mudar-me-ia imediatamente, mas... Aí vai.
Mateo, XXV, 30
El primer puente de Constitución y a mis pies
Fragor de trenes que tejían laberintos de hierro.
Humo y silbatos escalaban la noche,
Que de golpe fue el juicio Universal. Desde el invisible horizonte
Y desde el centro de mi ser, una voz infinita
Dijo estas cosas (estas cosas, no estas palabras,
Que son mi pobre traducción temporal de una sola palabra):
-Estrellas, pan, bibliotecas orientales y occidentales,
Naipes, tableros de ajedrez, galerías, claraboyas y sótanos,
Un cuerpo humano para andar por la tierra,
Uñas que crecen en la noche, en la muerte,
Sombra que olvida, atareados espejos que multiplican,
Declives de la música, la más dócil de las formas del tiempo,
Fronteras del Brasil y del Uruguay, caballos y mañanas,
Una pesa de bronce y un ejemplar de la Saga de Grettir,
Álgebra y fuego, la carga de Junín en tu sangre,
Días más populosos que Balzac, el olor de la madreselva,
Amor y víspera de amor y recuerdos intolerables,
El sueño como un tesoro enterrado, el dadivoso azar
Y la memoria, que el hombre no mira sin vértigo,
Todo eso te fue dado, y también
El antiguo alimento de los héroes:
La falsía, la derrota, la humillación.
En vano te hemos prodigado el océano,
En vano el sol, que vieron los maravillados ojos de Whitman;
Has gastado los años y te han gastado,
Y todavía no has escrito el poema.
1953
“El otro, el mismo” (1964)
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Mateus, XXV, 30
A primeira ponte de Constitución e a meus pés
O rugido dos trens tecendo labirintos de ferro.
Fumaça e assobios subiam pela noite,
De repente, chegou o Juízo Final. Do horizonte invisível
E do centro do meu ser, uma voz infinita
Disse estas coisas (estas coisas, não estas palavras,
Que são a minha pobre tradução temporal de uma única palavra):
- Estrelas, pão, bibliotecas orientais e ocidentais,
Cartas de baralho, tabuleiros de xadrez, galerias, claraboias e adegas,
Um corpo humano para andar na terra,
Unhas que crescem na noite, na morte,
Sombra que esquece, espelhos ocupados que se multiplicam,
Declínios da música, as formas mais dóceis do tempo,
Fronteiras do Brasil e do Uruguai, cavalos e manhãs,
Um peso de bronze e um exemplar da Saga de Grettir,
Álgebra e fogo, o peso de Junín no teu sangue,
Dias mais populosos que Balzac, o perfume da madressilva,
Amor e a véspera do amor e memórias intoleráveis,
Sono como tesouro enterrado, acaso abundante
E memória, que o homem não olha sem vertigem,
Tudo isso Foi-te dado, e também
O antigo alimento dos heróis:
Falsidade, derrota, humilhação.
Em vão te derramámos o oceano,
Em vão o sol, que os olhos maravilhados de Whitman viram;
Passaste os anos e eles te gastaram,
E ainda não escreveste o poema.
1953
“O Outro, o Mesmo” (1964)