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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Adaptação

Foureaux, 25.10.22

Traduzi o poema abaixo de uma língua estrangeira. Adaptei seu conteúdo, com menos explicitude, para não correr riscos. É preciso enxergar, para além de ver...

 

“É proibido          mostrar imagens.

                               pendurar a bandeira do Brasil em qualquer fachada.

                               utilizar fatos históricos em documentários.

                               falar que ele defende a legalização do aborto.

                               afirmar que ele é a favor da liberação das drogas.

                              asseverar que ele pactua coma validade das invasões de terras.

                              confirmar que ele quer a volta de censura.

                              divulgar a sua amizade com ditadores latino-americanos.

                              dizer que há ligação sua com as farc’s.

                              propalar que ele foi condenado.

                              insinuar que ele é ladrão.

                             deduzir que ele se favoreceu de manobras ‘superiores’.

                             rir do fato de que ele tem amigos ‘superiores’ que o protegem.

                             relacioná-lo à morte daquele outro.

                             ligá-lo àquele ‘cabo eleitoral’ detido.

                             associar sua pessoa ao pê com dois cês.

                            comentar sobre o ‘lobo solitário’ internado.

                            fazer menção ao atentado de seu colega.

                            admirar-se de sua desenvoltura no ‘complexo’.

                            rir do fato de um hacker fez o que quis e nada aconteceu com ele.

                            admirar-se com o fato de que o “sigilo” a tudo encobre.

                           ‘lamentar’ a perda (provocada) de todos os dados da invasão.

                           sugerir a interferência de um dos supremos na famigerada auditoria.

                           comentar sobre a vulnerabilidade de certas máquinas.

                           duvidar da segurança dessas mesmas máquinas.

                           denunciar as concretas fraudes eleitorais.

                           indagar sobre a parcialidades dos dois ‘tês’, um com ‘f’ outro com ‘e’, ambos

                           com ‘s’ pelo meio...

                          afirmar que existe (de novo) censura no país.

                          gritar que existe perseguição a certos grupos.

                         suspeitar do flagrante e sucessivo desrespeito à lei maior.

                         noticiar a ilegalidade certos inquéritos...

                         constatar e se assustar com a exceção que volta, com força.

 

É proibido, ‘mas eu canto’, apropriando-me de outro poeta...

Talvez, um dia,

quem sabe,

todo o resto volte a ser possível.”

Rodolfo

Foureaux, 11.10.22

Outra personagem inventada. Antes da fraude eletrônica de que fui vítima, pensei nela. O nome tem seus motivos que vão ficar ocultos por questão de discrição. Como de outras vezes, não sei o que vai ser disso. Enquanto não decido, sigo inventando...

É assim uma espécie de torpor que toma a alma. Olhar para o horizonte é quase um sofrimento. Cada respiração parece dilacerar a pouca esperança que resta de se ter confiança na humanidade. Um roubo. Uma coisa a que qualquer um está sujeito e que pode acontecer a qualquer momento. Inusitado. A experiências não é boa. A sofisticação dos meliantes anda tão aprimorada que o contato com o banco passa a fazer parte da paranoia: quem garante que os próprios meliantes não conseguiram simular todos os ademanes discursivos de um funcionário do setor de fraudes de um banco grande para ludibriar, em segundo grau, com mais profundidade, e com maldade cirúrgica, o desavisado correntista. Desânimo. Desconfiança. Paranoia. Mistura de sentimentos que faz falhar o sistema imunológico do mais saudável dos seres. Uma coisa inexplicável. Com estes pensamentos, Rodolfo Rotto chegou à cidade. Imbuído de espírito criativo – sua ideia para um novo romance o deixava inquieto e animado nas semanas que antecederam à viagem – saiu à procura do hotel que Zuleica Sueli havia indicado. Só pensava em literatura, apesar do assalto. “A vida tão longe e a literatura tão perto.” De quem é mesmo essa frase? Ele chegava com a sensação reconfortante de cumprir uma promessa feita ao amigo Otacílio. Chegar àquela cidade sem expectativas, com um livro nas mãos e o chapéu de feltro – ainda era outono, mas fiapos de vento frio já começavam a se assanhar aqui e ali – caminhar absorto é dos exercícios mais saudáveis. Destino razoavelmente bom. Rodolfo, discípulo do Reis, mesmo sem o saber, uma espécie de flâneur que denegava a metafísica – ele sempre se sentia como aquela personagem de um poema longo que falava de alguém numa tabacaria –, entrou, tal como o sujeito na tabacaria imaginária. Tinha os olhos cansados, ardendo, da noite mal dormida no trem. Os ouvidos, no entanto, captavam tudo. Cidade alegre, colorida e vibrante, olhos bem abertos, ouvidos muito atentos. Entrou na cidade como se procurasse qualquer coisa sabendo que não a encontraria ali. O prazer está na busca, pensou. Isso, para ele, é entrar num lugar, como entrar em metáforas – somente um escritor é capaz disso, o leitor passa por elas e as analisa, as observa, não entra, de fato. Rodolfo chegou sem expectativas explicáveis.  Sem expectativas. No alto de uma colina, já na entrada da cidade, o Castelo, com a velha torre de menagem: os séculos cresceram ali, ganharam importância. Pode ser que os que ali habitaram, sobretudo os velhos, sabiam admirar a sua beleza. O castelo transformou-se na residência dos antepassados de Otacílio. Rodolfo descobriu isso durante uma pesquisa para localizar informações sobre um seu antepassado. Por ali pensadores conhecidos. A matriz faz lembrar, numa escala mais modesta, mas não menos nobre, a de Florença. Mais adiante, uma construção monumental, um palácio que se parece muito com a casa dos bicos, em Lisboa. Rodolfo, admirado, para, senta-se à sombra de uma árvore e abre um livro É a história de um poeta que se exila num país distante e retorna; torna-se mecenas e promove talentos literários do local. A história dele se parece com a de Rodolfo, mas isso não interessa a ele mesmo. Uma fase passada. Na atualidade, está mais preocupado em publicar seu novo romance e encontrar-se com pessoas que conviveram com Otacílio, matéria importante para sua ficção. Rodolfo sorri. Toca um ramo mais baixo da árvore e suspira. Sonha com a premiação de prestimoso certame literário. Rodolfo continua o seu caminho, como aliás todo mundo deve fazer depois de tentar tocar em ramo de árvore que se encontra muito longe de casa. Rodolfo visita o museu local, vislumbra pinturas de Tintoretto e Cosime Tura. A visita àquela cidade parecia prometer alegrias infindáveis a Rodolfo Rotto, o escritor. Quanto mais andava pelas ruas centrais da cidade, mais decidido estava no passo sem expectativas. Na tratoria que encontra seius ruelas abaixo da praça em que estava, Rodolfo se depara com um prato de flores de abóbora fritas e recheadas com muçarela. Uma garrafa de Carmenère na temperatura ideal. Rodolfo pensa na vida. Na verdadeira, grande e forte acepção da palavra. A vida que estava levando desde que conheceu Otacílio, ainda que à distância. Ainda na tratoria, a vida surgiu quando parecia andar tão longe. Um casal sentado na mesa ao lado parecia desconhecer a existência da humanidade. A tratoria é rústica e elegante, pintada de branco, com muitos vasos e um teto de madeira. Janelas altas e largas por onde entra a luz da vida e da literatura e tudo o que um leitor quiser. Bebericando o vinho, o jovem, elegantemente vestido, levanta-se para logo de seguida se ajoelhar perante a sua amada. Retira do bolso uma pequena caixa de veludo negro, abre-a e nela palpita um anel dourado e brilhante, cor do fogo. Ele chama-a pelo nome. Ela traz um vestido vermelho. Pede a moça em casamento. Rodolfo se enternece e, cínico, ensaia um sorriso disfarçado. Então, com o copo na mão, mas de boca ridiculamente semi-aberta, assistia a este episódio e lembrava-se de como a vida está tão perto da literatura que às vezes me esqueço do quão bonita pode ser a realidade. E a vida continuou. E a literatura também. Passou o resto da tarde a deambular pelas ruelas da cidade. Já não quis saber de museus, nem de História, nem de pintores e muito menos de poetas. A literatura estava a acontecer ali à frente, de braço dado com a vida, e tinha a forma de um anel brilhante. Pode ter sido efeito do vinho, ou do sol, ou do céu olímpico, que fazia lembrar “um granzoal azul de grão-de-bico”, ou do deambular, ou de outras águas como as do rio ali adiante. Pode ser que houvesse distância considerável entre vida e literatura. Quem sabe a resposta poderia vir a público e apresentá-la, se é que existe a possibilidade de dizer o que seja, de fato, o que significa. As viagens acabam sempre num regresso a outras paragens: mãos dadas, talvez. Quiçá outros lábios.

Uma carta

Foureaux, 05.10.22

Uma carta. Ainda não sei o que vou fazer com ela. Quem escreve é Otacílio Piffio, o escritor identificado por esse pseudônimo. Não sei se darei a ele um nome. Por enquanto mantenho o nome da personagem do romance que ele escreve igual ao pseudônimo que usou para escrevê-lo. Acredito que pode dar um certo ar de suspense. Não pretendo que o romance seja policial. Não quero mistério pelo mistério. Isso, a garotada das oficinas de escrita criativa é capaz de fazer. O “mercado” gosta e consome. Isso é vulgar. Está se tornando cada vez mais vulgar. Gosto de ler, mas não gosto de cultivar o gênero. Sou chato, sim e daí? Por isso não sei o que fazer com essa carta. Não sei se revelarei o nome verdadeiro do autor do romance. E tenho que pensar no que já escrevei, no corpo encontrado no quarto de hotel, na relação entre a camareira e o rapaz da limpeza. Tem o detetive. A Zuleica e agora esse destinatário da carta de Otacílio Piffio. Tanta coisa! A preguiça só faz aumentar. Por enquanto, fico com a carta como aqui está!

 

“Recebi sua carta ontem. Uma coisa e outra e, pronto, não respondi ontem mesmo. respondo hoje. Sei que você, às vezes, prefere as mensagens de texto, ou mesmo, as de áudio. Confesso que é muito mais prático. Não há dúvida. Mas e o charme de escrever pensando no destinatário. Marcar o papel lembrando de passagens comuns. Imaginar a reação de quem vai receber e ler a carta. Tenho a ilusão de que sempre vai ser uma surpresa. Conheço você muito bem. Faz quase quarenta anos que nos conhecemos e ainda tenho a mesma ilusão. Sei que você sente o mesmo, ou algo muito parecido. Por aqui tudo tranquilo. Aas chatices do concurso continuam. Recebi notícia de que o romance foi classificado para a terceira etapa. O problema é o júri final., aquele que lê apenas Sempre me entusiasmei com a vida dos santos. Quando fui beneditino cheguei a ler algumas obras a respeito. Dentre eles, há um que sempre me chamou a atenção, por conta de sua relação visceral com a ordem beneditina, que sempre me fascinou. O nome dele é Bernardo de Claraval. Em francês, seu nome fica bem mais chique: Bernard de Clairvaux. Mas não se trata de “chiquezas” aqui… Bernardo foi um abade francês canonizado em 1174 e em 1830 Pio VIII o proclamaou Doutor da Igreja. Foi o principal responsável por reformar a Ordem de Cister – daí minha fascinação com ele e com a ordem dos beneditinos. Este santo participou do Concílio de Troyes, que delineou a regra monástica que guiaria os cavaleiros templários e que rapidamente tornou-se o ideal de nobreza utilizado no mundo cristão. Foi eficiente na reconciliação da Igreja durante o chamado “cisma papal de 1130”. Foi Bernardo quem ajudou a organizar o Segundo Concílio de Latrão – em 1141, Inocêncio convocou o Concílio de Sens para tratar da denúncia de Bernardo contra Pedro Abelardo. Com bastante experiência em curar cismas na Igreja, Bernardo foi em seguida recrutado para ajudar no combate às heresias que grassavam no sul da França. No Oriente Médio, depois da derrota cristã no cerco de Edessa, o papa encarregou Bernardo de pregar a Segunda Cruzada, cujo fracasso seria depois considerado parcialmente culpa sua. Morreu aos 63 anos, depois de passar quarenta anos enclausurado. Foi o primeiro cisterciense no calendário de santos, tendo sido canonizado por Alexandre III em 18 de janeiro de 1174. Ao que parece, São Bernardo foi um homem de muitas iniciativas e poucos sucessos. Parece ter sido um homem enérgico que acabou, vamos dizer assim, metendo os pés pelas mãos, ainda que tenha se tornado santo. mas isso é outra história. Por enquanto, basta guardar estas informações. Mudando de assunto, uma ave que me fascina é a coruja. Simbolicamente, esta ave representa a reflexão, o conhecimento racional e intuitivo. Na mitologia grega, Athena, a deusa da sabedoria, tinha a coruja como símbolo. A associação desta ave a Athena, faz com que a gente veja a deusa como um ícone de profecia e sabedoria. Além disso, os gregos acreditavam que por ser um pássaro noturno, era um símbolo de busca pelo conhecimento, já que esse era o horário considerado propício para o pensamento filosófico. Mas o que é que pode haver de comum entre estas duas considerações? Respondo logo: a releitura de um romance que sempre me impressionou: São Bernardo. De novo, quando fui beneditino, um colega e ordem me perguntou o que é que eu pensava de Graciliano Ramos. Respondi que era um escritor chato, seco e sem graça. O colega riu muito. Conversamos um tanto sobre Literatura Brasileira e ele arrematou a conversa dizendo que eu lesse CaetésAngústia e Memórias do cárcere. Exatamente nesta ordem. Fi-lo. Depois de fazê-lo, voltamos a conversar e minha opinião mudou radicalmente. Hoje, pela quarta ou quinta vez, releio São Bernardo. Um romance impressionante. Primeiro porque pensei em associar a figura da personagem principal, Paulo Honório, à do santo mesmo. Leio alegoricamente esta associação, sobretudo, no que o santo tem de enérgico, cheio de inciativa e desastrado ao final das contas. Segundo, porque há no romance o pio da coruja que aparece, se não me engano, três dezes. Duas delas chegam a assustar o protagonista do romance. Isso não pode ser gratuito.

Mudando de saco pra mala, não quero a mirada da mediocridade a obscurecer os momentos de lucidez que, porventura, venham a me inundar a alma. Não mais ter que aguentar as caras tortas de quem acredita que um poema vale menos, bem menos, que tudo que alguém pode dizer sobre ele. Mesmo quem jamais “leu” o poema como seria de esperar. A dispensa do poema não é garantia de melhor abordagem teórica ou crítica ou analítica. Os detalhes de um poema contam. A discussão começa por conta da dúvida sobre o “excessivo” uso de vírgulas ou de pronomes relativos na composição de seu poema. Foi “decretado”, antes de tudo começar, que a biografia do poeta é dispensável, por foça de sua influência sobre o entendimento da “mensagem” do poema. Comecei a rir. Daí, um salto para a circunscrição do poeta e de seu poema na “série histórica” da literatura nacional à qual pertence, sem esquecer, é claro, o problema dos gêneros, subgêneros tipos textuais e quejandos que a poética – a de Dilthey ou a de Hegel, bem entendido –, exigem como conditio sine qua non. Eles não sabiam o significado da expressão, assim como desconheciam o bom uso da mesóclise. Patético.

O romance foi selecionado entre outros 3725. Destes, 2400 não passaram pela primeira triagem. Trezentos professores universitários de diversas partes do país leram 8 romances cada. Depois, o júri preliminar selecionou três. O júri final, composto por três membros por sua vez, leu apenas três romances selecionados pelo outro. Uma judiaria. Muita coisa boa deve ter passado batido. Parece um massacre. Imagina. Não sei se sinto orgulho disso. Não sei dizer. Fico imaginando a trabalheira e a quantidade de interesses e picuinhas que interferiram em todo o processo. De qualquer maneira, gostando ou não, pode-se dizer que é uma vitória.

Tédio. Isso é o que eu sinto agora. Tédio. Você não responde mais com a mesma frequência. Eu também ando atrasando as minhas cartas. Você prefere os meios mais modernos. Eu quero tudo o que eu não tenho. Quero ser lido. Quero ser valorizado. Quero ter meus livros vendidos sem ter que me preocupar se a editora está ou não depositando os direitos autorais. Tudo impossível. Esta cidade está impossível. Ainda assim eu escrevo, mesmo sem saber para quê, por quê, para quem. Escrevo e continuo sentindo o mesmo tédio. Vamos ver se você não demora tanto a responder desta vez!”