Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Primeira versão II

Foureaux, 30.03.22

Há poucos momentos olhei para o céu, de um dos lados da varanda de minha casa e vi nuvens, grandes, densas, volumosas. Levantei-me. Liguei o computador e deixei que as palavras viessem ao meu pensamento, escorrerem pelos dedos sobre o teclado, efeito da visão que me tocou. Não sei dizer como, nem porquê. Apenas, tocou. Daí escrevi isso:

 

De repente,

do lado esquerdo,

formas densas e brancas destacam-se

diante do fundo azul pálido em confronto

com o laranja avermelhado do lado direito,

como todos os dias,

o fim.

Formas oblíquas e volumosas

a desvelar saudades de mim

em perdidas quimeras aglomeradas

e soltas, 

envoltas em inconsútil véu

ao léu

mesmo com a pobreza das rimas.

Saudades.

 

O que fazer com esse tipo de palavra

que inutilmente se utilizam ara nada

um vazio sonoro que retumba, 

oco?

O que fazer com a ideia

volátil fumaça a esgarçar-se leve

como floco de neve

gris?

O que fazer?

 

Se, ao menos, pudesse, ou, antes, soubesse

dizer o que aqui dentro vai corroendo

silenciosa e temerariamente

o que não é possível dizer

porque dividendo

das experiências que já não há?

O invisível é, agora, a marca:

não mais corpos musculosos,

não mais curvas harmoniosas

não mais gíria atenta,

não mais chavões instigantes,

não mais estilo tribal,

não mais lugar destacado,

não mais... nada.

Invisível é o que o tempo produz.

 

Na multidão,

de olhar esgazeado por não entender

a própria invisibilidade, 

o poeta pensa, com saudade de si mesmo,

pensa

e depois escreve, não o que pensa,

mas o que restou da experiência não falada

não escrita, dividendo inesperado,

ainda que anunciado.

 

Se o desejo não arrefece,

seu espaço míngua, involuntariamente.

Míngua, como a lua sazonal,

repetitiva como a constatação do mesmo,

sensual,

que instiga a febre fria

em tremores paralisados pelo tônus desgastado

da pele que um dia, num frêmito,

atraiu não apenas olhares cheiro se esvai, ou melhor,

é trocado.

O gosto se apura, ainda que difícil.

O gesto paralisa o pensamento

e o olhar do poeta circunvaga alhures

por horizontes alheios à procura,

de quê,

nem mesmo ele sabe, mas procura.

Depois escreve.

Outro capítulo

Foureaux, 26.03.22

Pensei no que já tinha escrito antes. Talvez a ideia de um novo romance esteja mesmo começando a se transformar num embrião. Escrevi o que segue abaixo. Do que escrevi primeiro, recebi dois comentários com, digamos, provocações. Tive a ilusão de que receberia mais. Não importa. Segue agora um segundo passo. Quem sabe...

******

Em seu depoimento, o funcionário respondeu calmamente a todas as perguntas. Ele não entendia muito bem por que estava ali, porque tinha de responder. O delegado dizia poucas palavras, além das perguntas. A certa altura, uma moça entrou e entregou um envelope amarelo ao delegado. Olhou para o funcionário e franziu o cenho. O funcionário não notou. Continuou cabisbaixo, pensando no tempo que estava perdendo em seu dia de folga. Era para estar no Jardim Zoológico, com seu vizinho, o jardineiro do hotel. Era o que estava combinado desde a semana anterior. Já passava das onze e o interrogatório não acabava. O funcionário estava com fome. Depois de abrir o envelope, o delegado virou-se para o funcionário com ar de espanto. “Você conhece Marizabel Veiga?”. Sim, foi a resposta. “Desde quando?”. O funcionário disse que não se lembrava quando a tinha conhecido. Lembrava-se dela por conta de um passeio ao Horto Florestal, com o jardineiro do hotel, seu vizinho, que a apresentou. Disse que teve a impressão de que o amigo estava namorando a moça. Depois disso, encontraram-se, por acaso, na praça ao lado hotel. “Você manteve contato com ela”? Não. “Nunca mais a viu, depois do encontro da praça?” Não. “Você sabia que ela é irmã de um escritor português, o Tiago Veiga?”. Não. “Na verdade, meia irmã. O pai dela teve um filho do primeiro casamento, o tal Tiago. Parece que nunca conviveram. Marizabel Veiga, logo depois de nascida, veio para o Brasil com a mãe, que se separou do marido. Trabalho numa casa de modas, no centro do Rio de Janeiro. Depois, num restaurante, como garçonete.” No dossiê, que estava no envelope amarelo, havia uma foto desta mulher com a filha, Marizabel. Não havia mais nenhuma informação. “Você sabe onde vive Marizabel Veiga?”. Não. Uma e meia da tarde. O estômago do funcionário roncava. Ele estava envergonhado pois o ronco era alto. Estava irritado por ter perdido o passeio com o amigo, o jardineiro do hotel. O delegado saiu da sala. Não demorou muito. Ao voltar pediu ao funcionário que lesse o seu depoimento e, se estivesse de acordo, o assinasse. Já cansado, um tanto mais irritado, o funcionário chegou em casa. Ligou para seu amigo, o jardineiro. Conversaram por alguns minutos. Combinaram o passeio para a próxima folga, dali a quinze dias. Trocaram impressões sobre o dia. O funcionário fez um lanche e dormiu um pouco, no sofá de sua sala. Acordou com o telefone tocando. Atendeu. Mudo. Desligou e foi ao banheiro. O telefone tocou de novo. Atendeu e, mais uma vez, mudo. Voltou ao banheiro, lavou a cara, penteou os cabelos. Trocou de camisa e saiu. Ao chegar ao portão de sua casa, ainda escutou o telefone tocando mais uma vez. Foi ao cinema. Na saída, passou numa loja de eletrodomésticos e comprou uma secretária eletrônica. Se o telefone tocasse e ficasse mudo, ia identificar o número que chamava pela bina. Isso poderia esclarecer os telefonemas. Fez muito calor durante o dia. Anoiteceu e havia nuvens pesadas no céu. Voltando para casa, o funcionário foi apanhado pela chuva. Não se importou. Continuou caminhando calmamente. Não estava longe de casa. Ao atravessar a última rua antes de chegar em casa, ele viu um carro conhecido cruzando a rua do outro lado. Era o marido da camareira. Estava sozinho. Dirigia devagar. O funcionário acenou. Não foi visto. Estranhou o acontecido, mas se lembrou dos irritantes telefonemas mudos. Ficou satisfeito por ter comprado a secretária eletrônica. Tinha a certeza de identificar quem chamava e não falava nada. A chuva parou, de repente. O céu ficou estrelado, de repente. O funcionário chegou em casa. 

Lição

Foureaux, 25.03.22

A eletricidade tomava conta de cada segundo dos dias naquela semana. As provas finais das eliminatórias que definiriam o time olímpico iam acontecer. A piscina estava pronta. Os cronômetros e toda a aparelhagem, em perfeito estado. Os juízes, observadores, jornalistas e pessoal de apoio, devidamente treinados e a postos. Seria praticamente uma celebração. Os melhores atletas eram esperados, inclusive, os que causaram polêmica. Tudo do pronto. A cidade já vivia o clima das finais com movimento extra nos hotéis. Carros de emissoras televisivas por quase todas as ruas. cada vez que um atleta aparecia, era um alvoroço. Muitas entrevistas. Restaurantes, padarias, mercearias e bares estavam faturando muito. Afinal numa cidade pequena como aquela, um evento de tal magnitude pode ser avassalador, para o bem e para o mal. Nada podia dar errado. Nas escolas, não se fala outra coisa. Entre os finalistas, havia alguém da cidade. Uma glória para a localidade. Nas praças, o frisson era tão intenso quanto... Até o padre, no sermão do domingo anterior às finais fez um sermão celebrando o acontecimento. Todo o país estava de olho. Olheiros de todo lado pululavam pela cidade, observando os atletas que era uma “promessa”. Todos. Enfim, a sexta-feira chegou. A cerimônia de abertura das finais foi até simples. O estádio estava cheio. Sim, a piscina coberta ficava dentro de um verdadeiro estádio, construído especialmente para a ocasião! Depois, segundo o administrador local, ia ser reutilizado pelos estudantes da cidade em atividades esportivas. Na verdade, só para natação. De qualquer jeito, pompa e circunstância. Todas as provas foram concorridas, técnica e socialmente. Os locais ocuparam todos os espaços possíveis. O juiz avisou que iam entrar as atletas da última prova feminina. Somente uma pessoa apareceu à borda da piscina. O silêncio era ensurdecedor. Das dez finalistas, nove não compareceram. O juiz tornou a anunciar a entrada das nadadoras. O mesmo silêncio e nada. Ninguém mais apareceu. Por alguns instantes, os juízes da competição murmuraram entre si. A plateia, quase silenciosa a esta altura, começou a retirar-se do ginásio. Ouvia-se apenas o barulho dos passos e o murmúrio das pessoas saindo. Todo mundo foi embora, inclusive os profissionais da imprensa: rádio, jornal e televisão. Ninguém ficou no ginásio, a não ser a tal de Lia, que algum tempo se chamava William e disputava as provas masculinas.

 

Primeira versão

Foureaux, 24.03.22

Segue a primeira versão de um poema (comentários e palpites continuam a ser esperados).

 

Sem sentido

 

Uma tarde que passa

como as demais que também passam

repetindo a mesma ritmada canção muda,

a que embala quimeras e decepções

num paul inquieto de ilusões e temores

de gente que vive a trabalhar sem tino, rumores

daquilo que podia ter sido.

 

Não é, decerto,

o melhor dos sonhos a envolver o dia

de quem acorda sem saber o primeiro passo

já tendo dado os seguintes na inversão

que nada altera, nem ilustra, nem seduz.

Um passo, e só isso

a reverberar na música surda das letras que pululam

entre vírgulas e ideias estapafúrdias 

(ainda que não seja poético falar assim).

 

Ah, o barulho do mar que não encobre

o pio da coruja que

ao contrário da outra, a do sertão, não assusta

quase diviniza a maré que ressoa,

brisa sudeste a anunciar bom tempo

e a melancolia de rever os dias,

revisitar os mortos,

sonhar o impossível.

 

Não há mais panteras presas

e olhares temerosos

guardando a raiva felina que, recalcada,

rescende a vingança, sem ter havido crime.

A natureza não há mais.

Não há mais modo de escuta, olhar complacente

só o alarido das verdades individuais

gritos num labirinto com identificação de saída,

mas a cegueira não deixa ver...

nem o voo mais alto que poderia,

se alentado, sobreviver 

ao rasteiro caos

que se instaura e insiste e fere

interfere incólume sem se abater.

 

Rima impossível.

Quero a rima impossível

escrita num poema cego e surdo

com letras mortas,

a apagar qualquer sentido

dando ordem a tudo

e, ainda assim, não satisfaz o querer,

do poema.

Indicação

Foureaux, 22.03.22

Numa sequência de um episódio em uma das temporadas da série britânica Outlander, a personagem de Caitriona Balfe faz uma experiência com miolo de pão, na tentativa de descobrir um remédio que seja antibiótico. Ela viaja no tempo, tem conhecimento avançado em relação aos demais que vivem com ela no passado e está preocupada com algumas mortes que poderiam ter sido evitadas com antibióticos. No tempo para o qual ela foi transmutada, é impossível fabricar penicilina e similares, obviamente. Ela busca, então, na sabedoria popular – de fato por um acidente doméstico –, uma solução para o seu problema. No tal episódio, ela vai até a cozinha de sua casa e percebe que o pão está mofado. Há todo um diálogo que não vou reproduzir aqui, por pura preguiça de procurar o episódio a que me refiro. Em síntese, por causa do mofo no pão, ela resolve fazer uma cultura de fungos para produzir o medicamente de que precisa. Bolor, mofo, miasma, hircismo, sito, abolorecimento. Tantas palavras... A primeira é a que me interessa. Bolor. Este é o título do romance que quero comentar, para chegar a outro, A cidade das flores. Ambos foram escritos por Augusto Abelaira e, ainda uma vez, com estes comentários, presto homenagem a um amigo caro, o Artur.

A cidade das flores é de 1959, primeiro romance de Augusto Abelaira. Bolor é de 1968. Começo por ele. Ambos, em alguma medida, expressam a verve experimentalista do autor. Com isso não que o dizer que ele pertença a uma “geração” de escritores     que tenha se notabilizado, na série histórica portuguesa, como experimentalista. Longe disso. O que desejo reafirmar é que a escrita de Abelaira, nestes dois romances é reveladora de uma criatividade que se se desenvolve na experimentação de registro ficcional não usual em seu tempo. Talvez, por alguma influência estrangeira – o espaço deste meu texto é estreito e não pretendo defender uma tese, apenas registrar minhas impressões – o texto de Abelaira, nestes dois livros destaque-se por esta peculiaridade. No primeiro de sua extensa obra, as três personagens – Humberto, Maria dos Remédios e Aleixo – estão envoltos numa trama afetiva que os faz preconizar uma espécie de triângulo amoroso. A ideia não é minha. Li já não me lembro onde, mas é fato. O diálogo que se desenvolve, numa complexa rede de reviravoltas, intersecções, torneios discursivos e revezes, é denso e marcado pelas impressões trocadas, sobretudo, acerca da relação que entre si mantêm as três personagens. Há quem dê muita importância ao fato de Humberto escrever com cor de tinta azul; Maria dos Remédios Varela Rodrigues, com tinta preta e Aleixo, com tinta roxa. É bom lembrar que num romance, como este de Abelaira, a presença de uma voz narrativa fragmentada não é mero acaso. Há, por certo, uma espécie de objetivo escritural a ser alcançado a partir do uso de tal estratégia. desta forma, a diferenciação de cor da tinta com que escrevem as personagens, em igual media, não é mero detalhe, decoração ou falta de assunto. No entanto, também isso não é meu ponto de fuga aqui. De fato, o que mais desejo registrar é a deliciosa trama que se urde ao longo das anotações de um diário fictício (e ficcional) escrito pelas três personagens do romance. Isso me fez pensar na associação do título do livro com seu similar, na biologia. Por mais que uma casa seja limpa e nova, está sujeita à ação do mofo, que pode aparecer naquele cantinho do ambiente que é mais úmido e escuro, e que pouco se dá atenção. Assim se pode ler a relação estabelecida entre as três personagens do romance. A proliferação do mofo, dizem a sabedoria popular e a ciência, pode causar doenças. No romance, esta particularidade da matéria biológica pode ter seu correlato na troca de impressões que o diário partilhado pelas personagens do rmance de Balaira revela. É como se algo estivesse a envolver Aleixo, Humberto e Maria dos Remédios. Algo que é deles conhecido, mas não nitidamente percebido pelo leitor. Ou, por outrolado, alguma coisa eu o leitor identifica e vai percebendo, ainda que por rastros, índices, ilações, e não se revela aberta, completa e definitivamente. A associação com a ideia do unheimliche freudiano não passa batida por aqui.

Aolado deste romance, aqui, A cidade das flores pode, em certa medida, ser lido como uma espécie de contraponto. Não no sentido dissociativo, mas no de estímulo a um diálogo intertextual que, se não foi proposital, passou muito perto disso. Tal possibilidade conta com o respaldo do tempo que se atravessa entre a publicação de Bolor e de A cidade das flores. Neste, as personagens também se envolvem numa trama de impressões, ilações, comentários e, até desabafos. No entanto, a ausência de um cenário definido, no primeiro, a funcionar como “espaço narrativo” faz do segundo uma espécie de rota a ser seguida em território italiano. Como foi a primeira vez que li este romance, chamou-me a atenção este dado. O romance se passa na Itália. Ou estarei equivocado? O risco existe. Depois de tantas leituras e dando azo ao sedutor ócio criativo, em bem posso ter fantasiado tal circunstâncias. Valho-me do direito a fantasiar. A trama de A cidade das flores se passa na Itália. Isso poderia levar um leitor menos avisado a concluir que o romance foge do caráter nacionalizante que, mesmo nas entrelinhas, por debaixo do pano, está a solicitar sua dose de obediência. Por isso, faço minhas as palavras da Almerinda que, em seu blog (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/a-cidade-das-flores-augusto-abelaira-50249) comenta o mesmo romance: “Em 1961, no posfácio à segunda edição de A Cidade das Flores, Augusto Abelaira faz uma reflexão e uma série de perguntas que considerei muito relevantes. Começa assim: “A nova edição de um livro significa que esse livro não morreu”. E mais à frente: “Um livro que se reedita é um livro que se esgotou. Portanto: Quem o esgotou? Quem o leu? E por quê?” (…) “Porque leio eu um romance?” (…) “Independentemente de me ajudar a passar o tempo, a leitura dum romance multiplica em várias direcções a minha pobre vida quotidiana, permitindo-me sonhar.” (…) “Essas histórias… ajudam-me a sair de mim próprio e a descobrir o mundo.” (…) “Os romances preocupam-se com homens vulgares, mais próximos de mim, homens que vivem no meu modesto universo.” (…) “Acontece, porém, que, muitas vezes, buscamos num romance as nossas próprias vidas, as vidas confusas dos nossos irmãos, as nossas preocupações.” (…) “… creio que “A Cidade das Flores” documenta qualquer coisa, a reacção de certos homens a uma praga social – o fascismo; a reacção de certos homens a uma situação social adversa.” (…) “ Homens que não crêem no futuro, ou, melhor: homens que, acreditando no futuro, não têm coragem de viver no presente esse futuro.” (…) “… tenho esperança de que, dentro de cinquenta anos, A cidade das flores já não seja lida. Significará isso que os problemas deste romance já passaram à história e que os homens deram mais um passo no caminho da justiça social.” (…) “Desejaria que A cidade das flores fosse entendida como um livro de quem acredita no progresso, na justiça, na paz, na possibilidade real de os homens serem todos iguais.” (…) “E no entanto, nós, cidadãos deste ano da graça de 1961, sabemos que a História, apesar de tudo, não deu razão ao pessimismo de Fazio. Sabemos que o Hitler não dominou por mil anos. Sabemos que nenhum Hitler dominará por mil anos. A cidade das flores decorre na Itália de Mussolini. Os intervenientes são jovens que vivem em Florença, mais ou menos envolvidos na resistência ao fascismo em ascensão. Augusto Abelaira da geração de escritores da oposição a Salazar a escrever no período negro da censura, transpõe neste romance para o meio cultural, social e literário português dos anos 50 uma realidade paralela, usando personagens doutro país e doutro regime ditatorial com preocupações semelhantes e com ânsias de liberdade. Logo no início do romance, Fazio observa um casal de ingleses que tiram fotografias junto à estátua de David. Enquanto se sente escravo, prisioneiro, ele inveja aqueles turistas que para ele representam a liberdade. Fazio, Soldati, Domenico, Rosabianca, Renatta, Vianello e no outro extremo Briganti adepto das ideias de Mussolini. Nas suas conversas, nos seus encontros, os grandes temas que os preocupam. O que é resistir? O que é colaborar? Até onde se consegue resistir? O que é ser incorruptível? O que é ser honesto? Pode-se ser feliz, quando há alguém que está a sofrer, que está a ser torturado, que está preso? As ideias justas triunfarão? Quanto tempo dura o amor? O que é ser livre? É possível ser-se livre? (...) Senti este romance como intemporal, moderno e actual. No entanto, ao contrário do desejo de Abelaira, de que 50 anos depois daquela 2ª edição do romance ele já não fosse lido, a verdade é que os problemas de que fala o romance não “passaram à história”. A história e o percurso da humanidade estão longe de alcançar a justiça social e os perigos que marcaram o século XX continuam activos e sempre à espera que a democracia baixe as suas bandeiras. Resistir é um imperativo.”Esse trecho diz muito do que eu gostaria de ter dito. O romance de Abelaira, ao “deslocar” o espaço narrativo de Portugal para a Itália não faz mais que dar oportunidade à sua própria ficção de desempenhar seu papel precípuo: ficcionalizar a realidade. Os comentários do Artur, ao recomendar a leitura deste romance, ecoam agora que termino este texto. Uma vez mais, obrigado, amigo!

 

 

 

 

 

Livros

Foureaux, 15.03.22

Foi numa noite fria de novembro. Ao fim da tarde, o róseo azulado céu que se via da Quinta de Juste forrava o pensamento com uma luzidia corrente que se espraiava sobre a planície a encobrir o rio Cávado com uma névoa matinal que diariamente se vê a esta altura do ano. Os panos envidraçados da casa não escondem um só detalhe da magnífica planície que se espalha e encanta os olhos, o espírito, o tempo. No aconchego de uma sala familiar, Artur chega do trabalho e conversa comigo, seu convidado. trocamos ideias sobre vários assuntos e caímos na Literatura Portuguesa. É quando ele me indica a leitura de um romance de Augusto Abelaira, A cidade das flores. Já conhecia Bolor, do mesmo Augusto Abelaira, que reli semanas depois. Mas não é sobre eles que desejo falar agora. O preâmbulo serve apenas para dar vazão à saudosa memória dos dias que passei ali, naquele recanto do mundo a bafejar beleza e encanto, misturados à História. Esta palavra serve de relé a acionar um circuito de ideias que giram em torno de um núcleo comum: a memória.

Imagine-se encontrar, do nada, um baú. Ou, mesmo, ter um desses em casa, guardado há muito. Quando se abre, o que se encontra pode ser uma surpresa ou uma decepção. Isso vai depender de uma série de variáveis que contribuem pala a volatilidade da ideia que subjaz à situação descrita. Um baú repleto de objetos, fotografias, papéis diversos, recortes, trapos, toda a sorte de coisas que o tempo colecionou através de mãos (e ideias!) humanas. Geralmente, quando se fala em “baú”, logo vem ao pensamento a ideia de passado, de lembranças, de História. Sem registro cronológico de depósitos, ou descrição pormenorizada de conteúdo, um baú é uma espécie de caixa de Pandora, não necessariamente pletora de todos os males. É admissível supor que haja algum mal que possa advir do ato de remexer no conteúdo de um baú. No entanto as descobertas e revelações e, consequentemente, algumas explicações acrescidas de, quem sabe, mais mistérios constituem material muito mais afeito ao exercício involuntário de vasculhar o conteúdo de um baú. Pois.

Há quem afirme que o material exposto nas páginas do livro sofre de desorganização e empilhamento. Fato. Há muita coisa. E há que se enfatizar o termo “muita”. No entanto, isso não chega constituir um defeito do livro. Não. Definitivamente, não! O fato permanece. O acúmulo de informações com que se depara quem folheia as páginas desse luxuoso e elegante livro é notável. De uma riqueza imensurável. Trata-se do volume intitulado Genealogia das coisas: um baú de memórias, de autoria de Alexandra Maria Soares Jorge de Moraes Campello Pereira de Castro. Sua significação, seu sentido, em certa medida, sofrem influência dos olhos e do pensamento de quem olha, de quem repara, de quem folheia o livro. Sempre foi assim. É assim o caso deste livro. Sempre será assim com qualquer livro de similar natureza. Além do mais, sempre vai haver alguém com mais disposição para enumerar defeitos e deslizes, em lugar de fruir o que se oferece como matéria observável. Tenha a forma que tiver. Como contraposição positiva a esta possibilidade, reproduzo as palavras de Ana Cristina Martins, em texto que compõe a abertura do volume:

“Extasiada com a quantidade, variedade e possibilidades de investigação, rapidamente me apercebo da urgência de inventariar todo o conteúdo do baú, antes de o digitalizar e acondicionar corretamente. Nada, porém, que me impeça de começar a estudá-lo, associando-o a outras coisas existentes na casa, submergindo numa estratigrafia de memórias. Certamente que ficarão mais perceptíveis com este meu exercício. Passo antepasso, reunindo e cotejando informação, entrevejo uma verdadeira tríade neste processo: casa, documentos gráficos e outros objetos a examinar de modo estratigráfico. Somente assim conseguirei construir a história de parte da minha família. Apenas deste modo poderei transformar coisas em estórias com rostos, contextos, textos e pretextos. Mas este será outro desafio, quem sabe traduzível em livros que darei à estampa em anos vindouros. Preciso, no entanto, das chaves de outros baús, assim como de estantes das quais retirarei parte das fontes a consultar para alcançar com maior propriedade os seus conteúdos.”

A autora destas palavras é pesquisadora do Instituto de História Contemporânea – Polo da Universidade de Évora UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Assino embaixo de suas palavras. O material que compõe o livro de Alexandra é por demais rico para ser reduzido por olhares menos dispostos a ver nele mesmo o veio de histórias familiares, lembranças, registros da passagem do tempo a alinhavar subjetividades que, ainda fragmentariamente, conservaram-se protegidas pelo baú. A genealogia, apontada no título do volume, é o resultado desta abordagem estratificante e descritiva a anotar, observar, remarcar e apontar os pontos de costura do fio condutor de uma história que se conta por objetos díspares reunidos e acumulados numa coleção muito peculiar, porque já foi contada pela experiência. A observação da professora aponta para a possibilidade de considerar a coleção, recolhida e apresentada por Alexandra, como fonte da História. Esta, por sua vez, confrontada a cada passo com outras tantas coleções, outros baús, outros registros. Assim, a genealogia se desenvolve e consolida. Assim, o baú, como o das memórias de Alexandra, pode ser considerado fonte documental da tão afamada História.

O formato do livro sugere, mesmo, um álbum de fotografias. A sugestão já circunscreve o perímetro delimitado pela ideia de memória que sustenta a proposta do trabalho realizado e exposto no volume. Neste sentido, Genealogia das coisas: um baú de memórias é um álbum de fotografias, no seu suporte. De novo, alguém pode reclamar de certa falta de roteiro, de caminho a ser seguido para a observação das imagens que se apresentam nas páginas reproduzidas. Repito que isso é uma chatice de quem assim pensa. O fato que permanece é que as páginas e as representações que nela se afiguram impressas compõem um roteiro íntimo, familiar, portanto, livre de qualquer pressuposto técnico ou acadêmico de uma abordagem que ultrapassa seu sentido primário. E este adjetivo, aqui, é muito mais que a equivocada suposição de menos valia do conteúdo. Não. Definitivamente não. Ao colecionador, no caso, a autora do livro, não importa se isso ou aquilo está assim ou assado ou pode induzir o leitor a concluir correta ou equivocadamente sobre o que quer que seja. O que importa é a história que ela conta – ainda que, por vezes, não os saiba ou não o possa saber, por circunstância. Isso é o que importa, ao fim e ao cabo.

O livro de Alexandra é uma experiência sígnica, sensorial, afetiva e mnemônica: um exercício estético de rara beleza. Vale mais que a pena ler. Nesta conclusão, retorno ao início deste texto. Posso, então, falar de A cidade das flores e Bolor. os dois romances de Augusto Abelaira, como dito no início. Fá-lo-ei em seguida.  

 

 

Intervalo

Foureaux, 09.03.22

Um intervalo. Mais um. Faz uns tantos dias que não escrevo, nem mesmo para repercutir algum texto alheio. Nada. Antes de viajar, li um livro do Augusto Abelaira, escritor português (ainda vou comentar algo sobre ele aqui): A cidade das flores, seu primeiro romance (1959). Se não me engano é este mesmo o nome dele. A indicação é de um amigo querido, o Artur, marido da não menos querida Alexandra, pais de Esther. Todos vivendo numa soberba residência no Paço da Quinta de Justes, em Braga, onde fabricam espumantes e vinhos verdes. Um paraíso terreal. Pois é. O Artur me indicou e vou escrever sobre o livro, em homenagem ao amigo dileto. Não devo fazer isso? Houve um tempo em que eu ficaria na dúvida sobre a pertinência de tal motivação. Tempos passados. Não os posso esquecer, porque se passaram com a minha participação, ou me envolvendo eles, em suas artimanhas, todas elas comandadas por seu mentor e controlador, pai: Cronos, implacável. Pois é. Ninguém escapa. Assim se fazemos intervalos. Os dias passados no litoral repetiram a mesma sensação de que a mudança é acertada. Olhar para o mar, todos os dias, durante horas infindáveis, é mesmo uma prática que só renova energias, sensações, esperanças. Incansável. Não há nada mais “sedutor” num certo sentido. Claro está que há uma pontinha de melancolia. Em tudo ela se mete. Afinal, altos e baixos são os movimentos irrecorríveis da existência. Sua exacerbação, por consequência, é que leva tudo para as vielas escuras, úmidas e miasmáticas da patologia. Isso não! Nesta temporada de quase quinze dias pensei em escrever mais um poema. Já tinha escrito dois, quando o pensamento me assalto. Ocorreu a “inspiração” por conta de uma folha amarela que estava na praia. Vi-a quando fiz uma de minhas caminhadas matinais. Lá, por imitadas que são, ainda, minhas estadas, é a “atividade física”, sentença irrecorrível das autoridades médicas em nome da famigerada “saúde”... Bem. Os versos que me vieram, de estalo, eram mais ou menos assim: “Uma flor amarela / jaz sob o tempo de vasto azul / vista / ainda que cego o olhar / pelo reflexo da estrela diurna”. Mais ou menos porque acrescentei uma que outra palavra que, no momento da “inspiração” não me vieram à mente. De certeza que não! Logo em seguida, pensei em escrever uma história que começava pela leitura deste poema por um professor. Os alunos, atentos, escutavam a voz melódica do mestre, ao declamar os versos, sem dizer-lhes a autoria. Gostava de contar o milagre, mas não o santo! Depois da leitura, perguntaria aos alunos: onde está a flor? Um deles responderia que na praia. O professor, maliciosa, perguntaria como é que você sabe que é na praia. Ora, professor, responderia o aluno, o último verso, tem uma expressão – “estrela diurna” que, seguramente é o sol. (O advérbio é por minha conta, como responsável pela voz narrativa). Seguindo seu raciocínio, o estudante diria que este elemento, quando considerado o substantivo imediatamente anterior, “reflexo” sustenta a hipótese. Além do mais, o verbo jazer, no segundo verso, leva o leitor a pensar na superfície da praia, por onde anda o poeta observador, dado que a expressão seguinte “vasto azul” bem poderia ser o céu, na praia em dia ensolarado. Este detalhe final, ganha consistência ao se observar que a flor é observada de cima para baixo, pois o “reflexo” faz “cego” o poeta que observa. A turma estava muda. O professor também. Houve quem pensasse que o estudante era petulante, ou método, ou teria descoberto de antemão o poema a ser lido em aula e, ajudado pelas “ferramentas de pesquisa” hoje em dia disponíveis, teria se preparado com a análise de outrem. Tudo é possível. Sem ter como especular sobre esta possibilidade, o professor, estupefato e feliz, elogiaria a análise do estudante, confirmando-a. A história não acabaria aí, mas a minha caminhada terminou, os dias se passaram e somente agora é que escrevo alguma coisa sobre o poema iniciado... e inconcluso, por enquanto. Isso para, ora veja, justificar um intervalo!