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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Abril 11, 2024

Foureaux

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Mexendo no meu computador – já velho, que não reconhece certos arquivos, que me impede de abrir outros tantos e que vai ficando cada vez mais lento – encontrei este fragmento. Já não sei se fui eu mesmo quem o escreveu. Já não sei se copiei de algum lugar. Para evitar dores de cabeça, vai entre aspas. Se, por acaso, não fui eu o autor, e se, por acaso, o autor o reconhecer... faça—me saber.

“Existe, creio que atavicamente, um traço distintivo no ser humano: a sede de ser o primeiro. Tenho dúvidas sobre ser “sede” o termo correto. Talvez desejo soasse melhor ou faria mais sentido ou daria mais consistência à ideia exposta. Tanto faz. Aqui, qualquer uma das formas vai dizer a que veio. Esta sede permeia quase todas as atitudes do ser humano. Há um grupo, num certo lugar que, num determinado – pelo próprio grupo – momento, resolveu inventar uma coisa. Não há necessidade de se dizer que coisa é essa. Fato é que a coisa foi inventada pelos elementos que compunham o grupo, num sentido mais estrito. Na verdade, o grupo era mais numeroso. A invenção, no entanto, era peculiaridade do pequeno conjunto. A coisa foi inventada e divulgada, tomou forma e corpo. Alçou voo e alcançou outros rincões mundo a fora. Sua genuinidade pode ser questionada, por óbvio. Faz tempo que o conceito de originalidade vem perdendo força, eficácia, eficiência, relevância... A invenção persiste. Assim, pensar no primeiro, no original, no início é exercício filosófico de monta. Ser da primeira turma que cursou um programa de disciplinas diferente por conta de uma reforma de ensino. Ser da primeira turma da graduação em Língua Portuguesa que, antes, só oferecia Licenciaturas duplas. Ir pela primeira vez a um determinado local e, no primeiro quilômetro deste local, sofrer uma acidente. Ser o primeiro classificado em primeiro lugar num concurso público. Ser o primeiro... este exercício pode encher de orgulho e empáfia um sujeito que não esteja atento ao que se passa à sua volta. Dizer “sou o primeiro” é motivo de reprovação ou vergonha? Depende. O contrário também depende. Tudo é relativo, sobretudo no discurso. O contexto pode modificar a simplicidade de uma assertiva, tornando-a profundamente ofensiva, e até criminal, quando é o caso. E há muitos casos... O que importa, no entanto, é saber que a sensação de ser o primeiro não é ruim. Nada ruim. Há que se procurar certa sabedoria intrínseca, implícita e intuitiva, para não se deixar engambelar pelo “canto de sereia” da vaidade que leva o sujeito à ruína. Nem sempre, mas leva. Nem sempre é simples.”

Abril 09, 2024

Foureaux

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Depois de um intervalo alongado, volto com uma postagem, digamos, enigmática. Há que ler com olhos de ver e pensar, inclusive em voz alta, com ouvidos de ouvir. Para bom entender, um pingo é letra!

Ameaça, substantivo feminino que tem três acepções no Houaiss: fato, ação, gesto ou palavra que intimida ou atemoriza; indício de acontecimento desfavorável ou maléfico, sinal; ato que ficou ou ainda está no princípio; intenção. A etimologia da palavra mostra que o vocábulo se origina do latim vulgar minacia do adjetivo que significa ‘iminente’ (com aglutinação do artigo).

Então, repetindo: ameaça é um substantivo feminino que identifica palavra, ato, gesto pelos quais se exprime a vontade que se tem de fazer mal a alguém; intimidação; sinal, manifestação que leva a acreditar na possibilidade de ocorrer alguma coisa, ou sinal de que algo ruim ou prejudicial pode acontecer.

Entenda quem quiser e/ou puder... e se puder e/ou quiser...

Março 24, 2024

Foureaux

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Recentemente, vi um vídeo em que Vinícius de Moraes declama um poema seu (Ausência). Fiquei impactado. Gosto de ver/escutar poetas declamando seus próprios poemas. Já vi Drummond, Manuel Bandeira e agora Vinícius de Moraes. O poema causou-me tal impressão que resolvi fazer uma brincadeira: apropriei-me de alguns versos/fragmentos de versos e compus outro poema tentando ecoar o que li/escutei do original. Pretendo abrir meu novo livro de poesia (apocrifói) com o resultado desta brincadeira. Gostaria de saber sua impressão!

 

Exercício

 

Se tomo como minhas, palavras alheias,

não deixo de poetar.

Como se fosse possível

a originalidade

em absoluto.

Então, prossigo

 

Não vou deixar “que morra em mim”
o desejo de amar aqueles olhos doces

por impossível presentear, em agrado,

a não ser pela mágoa causada,

essa sim,

pela exaustão que os olhos alheios

enxergam

naquele que escreve em solidão.

 

Ainda assim, sentir sua presença
“é qualquer coisa como a luz e a vida”:
percepção de “meu gesto”

que ecoa no gesto seu

como se falássemos a mesma língua,

eco uma da outra.

 
Não quero ter você: 

nisseo, “em meu ser tudo estaria terminado”.
Só quero sua aparição

assim

epifânica

“como a fé nos desesperados” –
caminho único “para que eu possa levar”

a “gota de orvalho”
como lágrima pendida sobre “terra amaldiçoada”;

inerte “sobre a minha carne”
fazendo as vezes de “nódoa do passado”.

 

Quero deixar assim, solene

a sua vontade de encontrar em outras

a própria face,

como se nos meus versos fosse.
Vou abrir caminho

para que o encontro desta face seja

o enlaçamento de dedos

em frenesi

que desabrocha em rara madrugada,

como foi um dia.

 

Desse modo, você

não poderá saber ter sido eu

a escrever

no intuito de tocar você

como quem colhe flor em jardim delicado,

na intimidade da noite que não mais há

“porque eu fui o grande íntimo da noite”

e nossos copos se encostaram

em outro frenesi, mais solerte e vão,

enquanto ouvia uma voz

a ciciar “fala amorosa”
de novo

num cruzar de dedos enlaçados em meio à névoa
suspensa no espaço.

 

Com meus versos,

trouxe para você, em mim,

a essência misteriosa do abandono

que foi deixado, presente alheio,

no “abandono desordenado”
de quem está só.

 

“Veleiros nos portos silenciosos”

da sedução inútil

de versos sofismáticos

à busca da conquista de alguém,

de alguma coisa,

a não deixar mais partir,

não mais.


“Todas as lamentações do mar”

ecoam o vento,

desenham o céu,

desdenham as aves,

invejam as estrelas

e serão a presença da voz alheia

presente
na ausência da minha

encarnada em versos sutis,

úmidos de sereno.

 

No intervalo, como aspas,

o alheio ecoa a mesma ânsia

de não saber como manter o peso

do verso que se desfaz. 

Março 14, 2024

Foureaux

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Era o fim de mais um dia de treino no Mackenzie. Já estava quase escuro. Na avenida Afonso Pena, passava a passeata de luto pelo assassinato do estudante na boate Calabouço no Rio de Janeiro. Alienado que era, fiquei olhando sem entender aquela gente calada, em silêncio, alguns com pano preto a boca a andar pela avenida. Fui embora. Esta cena se deu em minha juventude, entre o final dos 60 e o início dos 70, do século passado. Tempos ouros. Outro dia, recebi pelo Whatsapp o texto que segue. Não sei a autoria, mas gostei tanto que compartilho...

“PASSEANDO PELA AVENIDA AFONSO PENA.

Nos anos 50, a Avenida Afonso Pena era uma versão mineira da Avenida Champs Elysées, de Paris. Lá estavam todas as butiques e lojas importantes da cidade. Até o início dos anos 70, era um charme caminhar ao longo da Avenida Afonso Pena, que exibia aquele belo cartão-postal de uma jovem e exuberante cidade-jardim, a nossa Belo Horizonte. O trânsito ainda era bem controlado e vivíamos um nível avançado de progresso: prédios arrojados, comércio diversificado, lojas atraentes, com amplas e bem cuidadas vitrines, vários cinemas, cafés e leiterias, hotéis, empresas de ponta, os bancos, consultórios e, também, muita gente bonita e elegante transitando pra lá e pra cá. Infelizmente, hoje, a nossa elogiada Afonso Pena não representa nem uma sombra do que foi. Ela ficou simplesmente triste e árida, poluída, suja e malcuidada. Uma feiura de dar dó. Agora, a nossa avenida de referência, no Centro, é corredor de carros particulares e coletivos, todos apressados e barulhentos, tentando alcançar os sinais de trânsito da ‘onda verde’. Nas calçadas, que chamávamos de passeios, uns gatos pingados circulam se misturando com as andanças de pessoas desocupadas e vendedores de quinquilharias por todo lado, às vezes. Lembro-me de que, ainda nos bons tempos, estacionei o meu fusquinha 66, azul calcinha, placa 2-9682, na maior tranquilidade, em frente à Secretaria de Agricultura, na Praça Rio Branco, numa tarde de brisa suave e saí caminhando. O rádio tocava uma intrigante novidade: o Samba de uma nota só, de Tom Jobim, com voz e violão de um tal João Gilberto. Olhei ao redor e vi a torre da PRI 3 – Rádio Inconfidência, na então Feira de Amostras, a matriz da longeva desde 1906 Drogaria Araujo (a que inventou o corajoso Plantão Noturno 24 horas) e o delivery de medicamentos, em 1963, primeiro fazendo as entregas com bicicletas, trocadas por fuscas no lançamento do Drogatel, depois substituídos por motos, mais rápidas; a loja A Brochado & Cia, o Armazém do Grilo (conhecido camelô que virou empresário), e aquela placa luminosa no alto do prédio-sede da Minas- Brasil Seguros. Continuei andando por debaixo de árvores generosas, entre vistosos e grandes carros de aluguel, tentando fugir das inevitáveis ‘amintinhas’, que invadiram e tomaram conta das árvores frondosas e as condenaram à morte. Em compensação, caminhava e ouvia a algazarra dos pardais, dos camelôs e as vozes repetitivas de cambistas gritando ao mesmo tempo – ‘Olha o macaco’; ‘Olha a cobra’ ; ‘Vaca, galo e porco’; ‘Olha o viado’ –, sem esquecer o boneco, tipo perna de pau, com roupas largas de chita barata e megafone à mão, a serviço promocional de ‘A Cristaleira’ e ‘Casa Isnard’. E quem não passou pelo Centro de BH daquela época e foi cercado por uma cigana bonita, cabelos lisos, saias rodadas e longas, supercoloridas, unhas enormes, cheia de anéis e argolas, que se oferecia para ler a nossa mão e tirar a sorte? Enquanto dou vazão à minha memória, vão surgindo alguns apelos publicitários e frases conhecidas dos ‘reclames’ divulgados pelo rádio: ‘De dia e de noite, siga direto, Drogaria Araujo’; ‘Quem bate? – É o friiiio. Não adianta bater (...) Nas Casas Pernambucanas...’ ‘Guanabara – Com um cartão de crédito, veste-se toda a família’; ‘Sortes grandes? Campeão da Avenida’, ‘Se bem não escreveu, não foi Abreu quem vendeu’, ‘O Abdala é fogo na roupa...’, ‘Duas gotas/Dois minutos/Dois olhos claros e bonitos!’, ‘Casa do Rádio – A que mais vende televisão’, ‘Sobrado dos Calçados – Mais economia em cada degrau’, ‘Banco Financial da Produção – Paga mais juros e oferece mais garantias’, ‘Você ainda era criança e Giácomo já vendia e pagava sortes grandes’, ‘Vidros para sua casa, com perfeição e arte? Vidrarte!’, ‘Quem bebe Grapete/ repete Grapete’, ‘Regulador Xavier, um, dois...’, ‘Use e abuse dos Caramelos Buse’, ‘Tosse, bronquite, rouquidão? Xarope São João’; ‘Se a criança acordou/ Dorme, dorme, menina/Tudo calmo ficou/Mamãe tem Auriscedina’, ‘TV Itacolomi, sempre na liderança/Canal 4, Belo Horizonte/ Minas Gerais’. O vai-e-vem... e passa, também, pela memória, a imagem do ônibus Avenida, azulão, que só transportava passageiros naquela única via, indo da Praça da Rodoviária até as grimpas da Praça Milton Campos, comecinho do bairro da Serra, onde o nosso arcebispo, dom Antonio dos Santos Cabral, tinha reservado uma grande área para construir a sonhada catedral metropolitana, um Palácio de Cristal. Verdade é que, naqueles tempos, o vaivém constante era prova de que tudo acontecia na Afonso Pena, que “era o principal lugar prá gente ir”, como sugere um dos versos do inspirado samba Bela Belô, homenagem do compositor mineiro Gervásio Horta. Mas, não parei aí; continuei caminhando, nostalgicamente, e  passei pela grande loja da Mesbla, pelas Pernambucanas, Calçados Leila, Casa Gaúcha, Sobrado dos Calçados, Cine Arte-Avenida, Camisaria Avenida, O Rei do Sanduíche, Associação Comercial, Drogaria São Felix, Casa do Rádio, Salão Cadillac  (saiu do ramo e virou Camisaria Cadillac),  Sapataria Americana, no térreo do edifício residencial Theodoro, esquina com Rua Tupinambás – onde faziam ponto garçons e músicos, para receber e negociar indicações de trabalho. Não por acaso, esse endereço era bem pertinho de uma dose da ‘pura’ e do inigualável Caol, apelido do famoso PF formado com as iniciais de cachaça, arroz, ovo e linguiça, ideia do Café Palhares e batizado pelo conhecido compositor Rômulo Paes. Edifício discreto na esquina com Rua São Paulo, de frente para a Avenida Afonso Pena, o revolucionário prédio de 10 andares, erguido em 1935, o edifício Ibaté (em tupi-guarani, o ponto mais alto), de consultórios médicos – o médico JK foi um dos pioneiros, advogados, psicólogos e dentistas. Revi a Hudersfield, área depois ocupada pelo edifício Ignácio Ballesteros, com escritórios e a matriz da Elmo Calçados; a Adriática, Camisaria Epson, Casa Para Todos, A Nacional Magazin, no discreto edifício Mariana (na sobreloja, uma curiosidade: o restaurante Giratório, cujo balcão girava suavemente); Casa Falci, de Antonio Falci & Cia., desde o início da cidade – um verdadeiro supermercado de material de construção; sapataria A Balalaica, Óptica e Relojoaria Luiz De Marco, Casa Titan, Lanches Odeon, Bar Polo Norte e Bar Simões, quase emparedados, e a Casa Mexicana, expondo à  entrada esporas, arreios, selas, botas, chicotes para animais e ferramentas para fazendeiros. Grandes espetáculos e junto, as atraentes portas do hotel e banco Financial, duas propriedades do multimilionário e controvertido médico e empresário Antônio Luciano, personagem de muitas histórias inacreditáveis; o zum-zum do Cinédia – café, bar e leiteria frequentado por torcedores entendidos de futebol, cujo espaço acabou cedido para a Tapeçaria Marcelo; Copacabana Tecidos, Casa Abreu, a pioneira das canetas, transformada em Centro Ótico. Camisaria As Três Américas, Banco do Progresso, Campeão da Avenida, Café Rochinha, Praça Sete Calçados, no mesmo ponto da antiga Joalheria Theodomiro Cruz; edifício-sede do Banco da Lavoura, mais tarde, Banco Real; Café Pérola, o famoso prédio cinza, em curva, do enorme Cine Theatro Brasil (com amplas rampas laterais de entrada e saída, para facilitar o movimento de espectadores em grandes espetáculos nacionais e internacionais, na tela e no palco).  Após longo tempo inoperante, o cinema recebeu minuciosa reforma interna e foi reaberto sob patrocínio da empresa multinacional Valourec; no antigo subsolo, botecos e o restaurante popular Bandejão, de saudosa memória. Como vizinhos, o Brasil Palace Hotel, Banco Mineiro da Produção, que virou Bemge, o estiloso prédio do Banco Hipotecário e Agrícola, a Livraria e Papelaria Rex, irmã da Sapataria Bristol. No meio disso tudo e diante de uma multidão de pedestres, indo e vindo, minha lembrança se fixou nos dois abrigos de bondes, que circulavam em rotatória no pirulito da Praça Sete, palco de grandes manifestações populares, shows, desfiles, comícios, passeatas e protestos de grevistas e de muitos carnavais. Manchetes o ruído estridente das rodas de aço dos bondes, que estampavam a mensagem que ficou famosa: ‘Veja ilustre passageiro/O belo tipo faceiro/Que o senhor tem a seu lado’... Um homem carrancudo, de terno, sobe numa escada portátil e escreve, alternando giz branco e colorido, as manchetes principais do jornal Estado de Minas sobre o vidro de um quadro, preso no alto do poste. Muitas pessoas, atentas, acompanhavam esse trabalho para saber das novidades do momento em primeira mão. Outras, ouvem ‘a palavra de Deus’ por um pregador solitário da Bíblia sagrada. Um cambista grita sua frase de efeito: ‘Quem quer perder, tá na hora!’. O velho vendedor ambulante anuncia um remédio: ‘Pomada Balena, para calo e cravo!’... E os meninos engraxates, com suas cadeiras de trabalho postadas debaixo das árvores, ao redor da praça, chamam os fregueses: ‘Vai uma graxa aí, doutor?’. De repente, um corre-corre: estudantes provocam conhecida personagem de rua, que reage com um pedaço de pau ao ouvir seu apelido: ‘Lambreta! Lambreta!’... Miro, logo à frente, o Cine Glória, e junto, em pequena vitrine, o sempre alegre vendedor de jaqueta e cabecinha branca, que fala alto e propositalmente arrastado: ‘Rrrequeijão e doooccce de leiiite!’. Ali pertinho estava a Livraria Oscar Nicolai, o Campeão da Avenida (que exibia, na vitrine, uma estátua viva de olhos fixos e movimentos programados, tipo ponteiro de relógio, apontando para o alvo: um bilhete de loteria); a Casa Guri e aquele aroma forte vindo do Café Nice – onde os políticos apareciam, nas campanhas eleitorais, para tomar café às vésperas de eleição. Na porta, a turma do Café Nice se encontrava para discutir futebol, fazer apostas e jogar purrinha; ao lado, a loja de eletro, móveis e utilidades Bemoreira (no 3º andar do prédio havia um grande salão de sinuca e a sede do Diretório Central dos Estudantes – DCE/UFMG), o Banco Moreira Salles, que virou Instituto, A Hamilton, de roupas masculinas, e a imponente Casa Guanabara, o maior magazin de BH, que ocupava um prédio próprio, de 9 pavimentos – uma loja em cada andar. Suas espaçosas vitrines chamavam a atenção e se estendiam pela Avenida Afonso Pena até dobrar a esquina de Rua Espírito Santo, onde estava o tradicional Empório, Restaurante e Bar Tip Top, da tcheca dona Paula Huven, desde 1929. Vinhos e bebidas finas, produtos importados, cardápio alemão, chope de primeiríssima e o refrescante Hidrolitol. A pedida inevitável: salada de batatas com salsichão, servida por garçons, em mesas forradas. Na sobreloja, o discreto e bom restaurante Califórnia. Bem perto do majestoso, mais alto (25 andares, que gerou o tratamento do prédio como ‘arranha-céu’) e moderno edifício Acaiaca, inaugurado em 1947, no cinquentenário de Belo Horizonte. Ali se instalaram várias empresas de serviços, consultórios médicos, escritórios de advogados e de contabilidade, com seis elevadores automáticos de última geração, uma espaçosa área de circulação e o clássico cine Acaiaca ao fundo. Do lado de fora, a Real Aerovias, A Sibéria, fina casa de moda feminina, que provocava, anualmente, filas imensas com sua tradicional liquidação. E na área do entretenimento, estavam ali a boate Acaiaca, na sobreloja do edifício, a sóbria bombonière Kopenhagen, na esquina com a Rua Tamoios, onde se destacava a placa da Foto ZATS, e, no alto do Acaiaca os estúdios da pioneira TV Itacolomi, que ocupavam o 23º e o 24º andares e ostentavam suas curiosas antenas, bem em frente da igreja matriz de São José. A TV Alterosa também foi instalada no Acaiaca. Caminhando um pouco mais pela Afonso Pena, ali estava, no velho prédio na esquina com a Rua Espírito Santo, o chamado Castelinho, a Chapéus Prada, depois Delano e a Ramenzoni; lojas de rua do edifício Guimarães as sapatarias Scatamachia e Calçados Clark, Joalheria Kiva, Ao Preço Fixo, Óptica Rochester, Relojoaria Tompa; a elegante e atrativa casa de artigos femininos Sloper, em cujos passeios jovens estudantes e galanteadores faziam o footing desde a tardinha. Sem pedir licença, fotógrafos registravam os flagrantes das pessoas caminhando e entregavam o cartão de compra. Café Galo, A Porcelana, Ótica Odair e loja A Infantil. Na esquina com a Rua da Bahia, ficava o acanhado edifício Arthur Haas, e logo adiante a Loja Gomes, negociando rádios, radiolas, discos 78 e LPs, Restaurante Giovani, Copiadora Brasileira, Loja do Dia, os prédios da Cia. Força e Luz (antecessora da Cemig), Cia.Telefônica de MG (que virou Museu do Telefone), a Prefeitura Municipal, Correios e Telégrafos e da Secretaria Federal de Fazenda. Mas era na esquina com a Av. Álvares Cabral que víamos o tradicional e requintado Automóvel Clube, que reunia a chamada classe alta, o society mineiro, vizinho da bela sede do Tribunal de Justiça; o prédio do Lavourão (Banco da Lavoura), e o do Conservatório Mineiro (Escola de Música), marcante edificação de 1926 tombada pelo Patrimônio Histórico de MG e pela Secretaria Municipal de Cultura, reformado e reinaugurado, em 2000, como Conservatório UFMG, mantendo as suas características originais. Exatamente em frente, espaço de uma futura instituição respeitável: o Palácio das Artes, da Fundação Clovis Salgado, centro de múltiplos e selecionados espetáculos, cujo projeto original era para o Teatro Municipal, com assinatura do mestre Oscar Niemeyer, mas foi muito alterado e seu nome excluído a pedido do próprio autor. No quarteirão de cima, esquina de Afonso Pena com Rua Timbiras, ponto do antigo largo da histórica igreja matriz da Boa Viagem, a primeira concessionária de automóveis Chevrolet, a Casa Arthur Haas, nome de um notável empreendedor estrangeiro, que começou ali mesmo com a loja ‘A Constructora’, em 1894, acreditem, três anos antes da inauguração oficial da nova capital, Belo Horizonte, comercializando o que importava naquela época: ferragens e material de construção. Escondido por galhos de frondosas árvores do Parque Municipal Américo Renné Giannetti, estava lá, e continua até hoje, o Teatro Francisco Nunes, batizado, originalmente, Teatro de Emergência, enquanto BH aguardava, com paciência, a abertura do Palácio das Artes. Nos jardins do parque, a placa ‘vencida’: ‘Proibido Pisar na Grama – Multa CR$ 0,50’. Ah, faltou ressaltar que passamos pela esquina da Rua da Bahia, onde está o belo parque, sem registrar uma ‘invasão’ de sua área pelo abrigo de bondes Santa Tereza, com floricultura, loja de frutas, boteco de café, balas e biscoitos e um japonês que fritava cheirosos pastéis de carne e de queijo, verdadeira tentação. Na banca de frutas, um aviso mais que inusitado: ‘Não me aperte enquanto eu não for sua’. Para compensar, na parte de baixo, havia um local para ‘desapertar’: um banheiro público, unissex. Desativado, o abrigo foi transformado em centro de apoio turístico da Belotour, empresa de turismo municipal. Foi ali, no passeio do parque, que começou a funcionar uma feirinha semanal, a Feira Hippie, depois transferida para a Praça da Liberdade. Consagrada, foi levada de volta para a Avenida Afonso Pena com o apelido de Feira de Artesanato, aberta aos domingos e que se tornou uma grande atração turística, atraindo milhares de pessoas para as compras. Novidades. Por algum tempo, fiquei matutando em frente às torres gêmeas Sulamérica e Sulacap – comercial e residencial – erguidas naquele espaço nobre da avenida. Ali existiu um belo prédio ocupado pelos Correios e Telégrafos, construído no início do século passado, com quase tudo importado, e que foi destruído em nome da modernidade. Um crime sem tamanho. Na nova edificação, um discreto jardim à entrada, a passagem de ventilação, com escadaria e vista para o viaduto Santa Tereza, pequenas lojas de serviço, a Alfaiataria Diniz & Verona e, na esquina com a Rua dos Tamoios, a Casa Levy; na outra ponta, esquina com a Rua da Bahia, o Bazar Americano, que oferecia novidades, como seis liquidificadores nos balcões, todos em movimento, produzindo sucos e vitaminas de frutas. O sanduíche americano, com pão de forma, na chapa quente, era disputado junto com o copão espumante de milk-shake, uma glória! Mais à frente, o fervilhante cruzamento com a Rua da Bahia, a esquina famosa do falado Bar do Ponto, depois Hotel Othon Palace, e muitas opções para fregueses de fino trato. No Edifício Arthur Haas, a Sapataria Avenida; Balas Suissa, o jornal Folha de Minas, Casa Giácomo, com vitrines repletas de possíveis ‘sortes grandes’, bilhetes da Federal e da Mineira – e as cadeiras altas dos engraxates, alguns já bem idosos. A Charutaria Flor de Minas, Batidas do Pisca, Papelaria Oliveira & Costa, Casa da Lente, Livraria Itatiaia e os bem recomendados bares Estrela, Elite e Trianon – este, reduto masculino da refinada torcida do América, decacampeão, e de escritores, jornalistas, políticos, artistas, poetas e intelectuais. Uma área de consumo e conversas de bom nível. Em certa época, um fato bastante comentado aconteceu naquele valorizado ponto. Foi aberta ali a Drogaria Cartea Prado, com algumas “modernidades”: o atendimento, no balcão, era feito por um time de vendedoras bonitas e uniformizadas. Elas tinham que subir em escadas para apanhar os produtos, armazenados no alto das prateleiras. Garotos espertos ‘descobriram’ um motivo para se distrair ‘observando a paisagem’. Rômulo Paes: As meninas se ‘protegeram’, trocaram as saias por calças compridas. Aí o assunto virou manchete de jornal, com um protesto da ‘família mineira’, que estranhou: ‘As belas garotas da nova drogaria usam uniforme masculino’. Deu o que falar... E nessa nostálgica e surpreendente caminhada, olha quem eu ‘encontro’ por ali, assim de supetão: os compositores Celso Garcia, Gervásio Horta e Rômulo Paes, os três juntos, uma alegria só, comemorando. Garcia emplacou o samba ‘Foi pra Santa Tereza/ que aquela beleza/o bonde pegou’... Gervásio, falante, sem portar bonezinho (ainda tinha cabelos), e o compadre Rômulo, como sempre, ‘enternado – terno, camisa branca e gravata escura, amendoins no bolso, gestos finos e um sorriso preso entre os dentes’ – todos bastante felizes.   O compadre Rômulo fala que ‘ficou uma beleza’ a gravação da marchinha feita com Gervásio, que promete estourar no próximo carnaval. E cantam: ‘Êêê Maria/Tá na hora de ir pra rua da Bahia/ As águas já rolaram/ na rua da Bahia/ Mais do que em Três Marias/ Ô,ô,ô’... Fraseamos bastante, falamos de mulheres, do carnaval, futebol, rimos com causos e piadinhas, enquanto algumas geladas eram sorvidas: três porções de filé a palito, azeitonas, duas de queijo parmesão cortadinho, com orégano e azeite, e todos de pé, paletó e gravata, no balcão de madeira com tampo de mármore do Trianon. No final, vem a conta: muitas doses, traçados, meia dúzia de Antarctica casco-escuro, e a saideira, pra fechar a comanda. Um papo muito descontraído.’

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Março 08, 2024

Foureaux

Há uma ocorrência na poesia, como processo cultural, ao qual se pode dar o nome de metalinguagem. Ela pode se dar em vários níveis. Um deles é o discursivo, ou seja, aquele plano do texto que não está em sua materialidade, mas que se percebe a partir da leitura dela mesma. Um exemplo ilustrativo é o poema “À procura da poesia”, de Carlos Drumond de Andrade. Neste poema, o poeta mineiro fala sobre tudo o que não se deve fazer quando se quer fazer poesia. No entanto, tudo o que, no poema, é negado, constitui exatamente a matéria do próprio poeta. Em outras palavras, o poeta usa a poesia para fazer poesia, neste caso, contradizendo uma e outra coisa. Nesta semana, deparei-me com dois poemas em publicações do Instagram. Um deles é de Manuel Bandeira, outro, de Natália Correia, poeta portuguesa (Uso poeta tanto para ele quanto para ela pois se trata de substantivo comum de dois gêneros! Além disso, na minha cabeça, o sufico “-isa” soa como pejorativo, mas isso é idiossincrasia...). Eles são exemplos da tal metalinguagem como menciono acima. Num e noutro caso, os poetas falam de si e de sua poesia para fazer poesia. É lindo! Leiam os poemas e degustam-nos, se assim for o caso!

 

Defesa do poeta

(Natália Correia)

 

Senhores juízes sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto.

 

Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim.

 

Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes.

 

Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei.

 

Senhores professores que pusestes

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição.

 

Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

dou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis.

 

Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além.

 

Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs em ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?

 

Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa.

 

Sou um instantâneo das coisas

apanhadas em delito de paixão

a raiz quadrada da flor

que espalmais em apertos de mão.

 

Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever.

Ó subalimentados do sonho!

 

A poesia é para comer.

***************************************

Testamento

(Manuel Bandeira)

 

O que não tenho e desejo

É que melhor me enriquece.

Tive uns dinheiros – perdi-os...

Tive amores – esqueci-os.

Mas no maior desespero

Rezai: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.

Por outras terras andei.

Mas o que ficou marcado

No meu olhar fatigado,

Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:

Não tive um filho de meu.

Um filho!... Não foi de jeito...

Mas trago dentro do peito

Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino.

Para arquiteto meu pai.

Foi-se-me um dia a saúde...

Fiz-me arquiteto? Não pude!

Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.

Não faço porque não sei.

Mas num torpedo-suicida

Darei de bom grado a vida

Na luta em que não lutei!

Fevereiro 28, 2024

Foureaux

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Tem gente com fome 

Solano Trindade 

Trem sujo da Leopoldina 
correndo correndo 
parece dizer 
tem gente com fome 
tem gente com fome 
tem gente com fome 

Piiiiii 

Estação de Caxias 
de novo a dizer 
de novo a correr 
tem gente com fome 
tem gente com fome 
tem gente com fome 

Vigário Geral 
Lucas 
Cordovil 
Brás de Pina 
Penha Circular 
Estação da Penha 
Olaria 
Ramos 
Bom Sucesso 
Carlos Chagas 
Triagem, Mauá 
trem sujo da Leopoldina 
correndo correndo 
parece dizer 
tem gente com fome 
tem gente com fome 
tem gente com fome 

Tantas caras tristes 
querendo chegar 
em algum destino 
em algum lugar 

Trem sujo da Leopoldina 
correndo correndo 
parece dizer 
tem gente com fome 
tem gente com fome 
tem gente com fome 

Só nas estações 
quando vai parando 
lentamente começa a dizer 
se tem gente com fome 
dá de comer 
se tem gente com fome 
dá de comer 
se tem gente com fome 
dá de comer 

Mas o freio de ar 
todo autoritário 
manda o trem calar 
Pisiuuuuuuuuu

 

“Tem gente com fome e outros poemas, Antologia Poética. Rio de Janeiro. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1988.” 

(fonte: https://www.escrevendoofuturo.org.br/caderno_virtual/texto/tem-gente-com-fome/index.html)

Fevereiro 21, 2024

Foureaux

Uma das coisas que podem ser chamadas de “dificuldade” na prática da leitura crítica de obras literárias é a tal de “opinião”. Inescapável realidade que muitos tentam camuflar, desconsiderar e, até, tentar inutilizar. Em vão. Não se escapa dela. Por isso mesmo, não pode haver critério(s) “chamados” de objetivos para avaliações deste universo. Assim é que, ao ler um livro – sobretudo de autor próximo, conhecido, até amigo – a dificuldade aumenta e os tais critérios tidos como objetivos escapam inexoravelmente. A crítica fica, então, adstrita a um circuito de maledicência e/ou bajulação. Não há escapatória. Há algum tempo, deixei de me submeter a tais idiossincrasias, pelo simples fato de estar aposentado, em caráter definitivo. Neste estatuto, livrei-me, de uma vez por todas, da obrigação de agradar a quem quer que seja, submetendo minha “produção” ao parecer alheio, sempre sujeito a outro cariz idiossincrático. Isso tudo se agudiza quando se trata de um livro novo, o primeiro, na carreira de alguém. Nas vamos lá!

O livro se chama Autos da razão. Seu autor: Israel Quirino. Posso dizer que, mesmo em caráter mínimo e superficial, conheço o autor. Acabei de ler seu livro e não me furto ao impulso de escrever algumas linhas sobre a obra. A edição é austera. Capa simples, mostrando um par de mãos em fundo rosa pálido, champagne, diriam alguns. Ao observar a capa, lembrei-me de uma das disciplinas cursadas no Mestrado – “Fundamentos de Literatura Comparada” – para a qual escolhi, como tema da monografia de conclusão da disciplina, a Titulologia. Capítulo dos pródromos da Literatura Comparada no Ocidente, a Titulologia, como está no vocábulo estuda os títulos na perspectiva que caracteriza a própria disciplina: o comparativismo. As relações entre biografia autorial e título, entre tema e título, entre capa e título, entre assunto e título, entre contexto e título, etc. No fundo, como a própria disciplina de que faz parte, a Titulologia caracteriza-se por ter caráter especulativo e essencialmente teórico. Naquela altura, analisei um romance de Júlio Ribeiro, A carne, cuja capa apresentava um suculento filé, descansando sobre uma almofada de adamascado oriental carmim, enfeitado por grelos dourados. Foi um trabalho irônico e, por que não dizer, iconoclasta. Não vou repetir a dose aqui. A lembrança se justifica pois não encontrei relação plausível entre a ilustração da capa e o conteúdo do livro. Atenção: isto não é um defeito, nem uma qualidade. É, apenas e somente, a conclusão de um leitor que se quer atento e curioso. Punto i basta.

O relato ficcional – ainda que me senti tentado a relacionar certas passagens à traços de autobiografia – se desenvolve a partir das elucubrações de um protagonista que é responsável por sua própria narração. Et voilá: é um juiz. O autor é advogado. Uma coisa pode levar a outra, mas não “advogo” este direito para a leitura que fiz. No entanto, não quis deixar escapar a oportunidade da menção. Interessantemente, o livro é composto de seis capítulos. O detalhe poderia passar batido, não fosse o fato de o autor fazer parte ativa de um movimento cultural em Mariana-MG, cidade onde vive e atua, que tem um ícone identitário, a aldravia. Poema formado por seis versos univocabulares. A ideia mater desta forma poética é suscitar o leitor a construir o sentido do poema, dando vazão a um impulso metonímico provocado e sustentado pela linguagem poética. esta é a marca identitária deste poema e, por extensão, do movimento em cujo seio foi forjado. O número seis, portanto, não pode ser tomado apenas como marco instrumental de organização textual. Como leitor, aproveito o indício para estabelecer correlação entre o conteúdo ficcional do texto narrativo e o contexto a que se subscreve. Isso pode render leituras mais instigantes, suponho, do que a minha própria.

O título remete a uma forma literária em prosa ou verso que remonta aos séculos XV e XVI, notadamente a Gil Vicente, prócer da Literatura Portuguesa e, por extensão, da Literatura Brasileira. No entanto, para além do fato de não ser escrito em versos, os Autos da razão não deixam de contemplar um dos aspectos presentes na produção de Gil Vicente: o caráter moral de seus escritos, sempre voltados a questões de ordem ética (religiosa, mais acertadamente). No caso do escritor mineiro, o dilema pelo qual passa o juiz que protagoniza a narrativa rende eluvubrações de variado cariz, proporcionando ao leitor momentos de reflexão muito instigantes. É de se notar que, em certos passos do relato, a exaração de temas, questões e problemas jurídicos, enchem páginas e páginas, o que pode levar algum leitor a experimentar o tédio. Isso não é regra, mas é notável. Leio isto como exercício apaixonado de um profissional que transcende o tratado, na pena da ficção, não para demonstrar erudição – o que seria um pecado mortal –, mas para ilustrar de forma veemente – conseguindo, assim, mais verossimilhança no e para o relato que apresenta – as circunstâncias po quais passa o protagonista em sua sendo profissional, ética e, até espiritual. Os dramas vividos pelo juiz, no desenvolvimento do processo em que está envolvido, alimenta-se das dúvidas e apreensões que surgem na relação com a ré. Neste sentido, no embate com sua esposa, a dúvida e a angústia marcam o pensamento do narrador que se apresenta frágil diante da realidade acachapante que vai se criando ao longo do desenvolvimento do relato.

Texto de redação quase suntuosa, o relato traz para a cena ficcional, um universo já explorado em outro diapasão, o do suspense. Este não é o caso aqui, por inútil. Quer me parecer – é bom lembrar que sou apenas um leitor e, assim, não cabe a mim determinar o que se passou (ou não) na cabeça do autor para escrever isto ou aquilo em sua obra – a narrativa busca desenhar um percurso subjetivo em seu constante movimento de busca de esclarecimento, ou de uma verdade que escapa nas fímbrias de qualquer discurso, como é o caso do Direito e, por que não, da Literatura também.

Parece que consegui vencer certas dificuldades referidas no começo. Li o livro. Falei sobre ele. Implicitamente, fiz um convite. E não precisei nem bajular, nem condenar quem quer que seja, Alea jacta est!

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Fevereiro 06, 2024

Foureaux

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O texto não é meu!

ENTREVISTA MUSICAL
1 - QUANDO VOCÊ NASCEU?
Eu nasci há dez mil anos atrás. E não tem nada nesse Mundo que eu não saiba demais. 
2 - ONDE VOCÊ MORA?
Moro num país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza... Que beleza!
3 - QUE CONSELHO VOCÊ DARIA PARA AS PESSOAS DESANIMADAS?
Canta, canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá; Canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar. Que a vida vai melhorar, que a vida vai melhorar.
4 - QUAIS SÃO SEUS SONHOS?
Os sonhos mais lindos sonhei, de quimeras mil um castelo ergui, e no seu olhar, tonto de emoção, com sofreguidão mil venturas vivi.
5 - COMO CONSEGUE MANTER VIVA A ESPERANÇA DE UM MUNDO MELHOR?
É o amor, que mexe com minha cabeça e me deixa assim.
6 - UMA META NA VIDA?
Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar.
7 - DURANTE A QUARENTENA A QUEM VOCÊ RECORREU?
Jesus Cristo! Jesus Cristo! Jesus Cristo eu estou aqui. 
8 - QUAL SEU CONSELHO A QUEM TEM MEDO?
Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus, pois ela, ela te sustentará.
9 - QUANDO VOCÊ ERA JOVEM QUAL ERA O SEU OBJETIVO?
Nessa longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar. Na esperança de ser campeão, alcançando o primeiro lugar.
10 - E HOJE, COM MAIS EXPERIÊNCIA, COMO VOCÊ ENCARA A VIDA?
Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe, só levo a certeza de que muito pouco eu sei. Eu nada sei.
11 - O QUE VOCÊ ESPERA DO FUTURO?
Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.

Fevereiro 01, 2024

Foureaux

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Mexe daqui, mexe dali, acabei encontrado os quatro trechos que seguem. Se não me deixo enganar pela falta de memória, devema ser coisas que escrevi pensando em algum livro que penso estar escrevendo. Na verdade, estou com dois em andamento: um de poesia e um de prosa. Ambos têm títulos provisórios já estabelecidos: Aprocrifói e Os mortos são mais felizes, respectivamente. Não sei se estes trechos vão entrar no livro de prosa. Pode ser. Pode não ser... Vai saber...

“Existe, creio que atavicamente, um traço distintivo no ser humano: a sede de ser o primeiro. Tenho dúvidas sobre ser ‘sede’ o termo correto. Talvez desejo soasse melhor ou faria mais sentido ou daria mais consistência à ideia exposta. Tanto faz. Aqui, qualquer uma das formas vai dizer a que veio. Esta sede permeia quase todas as atitudes do ser humano. Há um grupo, num certo lugar que, num determinado – pelo próprio grupo – momento, resolveu inventar uma coisa. Não há necessidade de se dizer que coisa é essa. Fato é que a coisa foi inventada pelos elementos que compunham o grupo, num sentido mais estrito. Na verdade, o grupo era mais numeroso. A invenção, no entanto, era peculiaridade do pequeno conjunto. A coisa foi inventada e divulgada, tomou forma e corpo. Alçou voo e alcançou outros rincões mundo a fora. Sua genuinidade pode ser questionada, por óbvio. Faz tempo que o conceito de originalidade vem perdendo força, eficácia, eficiência, relevância... A invenção persiste. Assim, pensar no primeiro, no original, no início é exercício filosófico de monta. Ser da primeira turma que cursou um programa de disciplinas diferente por conta de uma reforma de ensino. Ser da primeira turma da graduação em Língua Portuguesa que, antes, só oferecia Licenciaturas duplas. Ir pela primeira vez a um determinado local e, no primeiro quilômetro deste local, sofrer um acidente. Ser o primeiro classificado em primeiro lugar num concurso público. Ser o primeiro... este exercício pode encher de orgulho e empáfia um sujeito que não esteja atento ao que se passa à sua volta. Dizer ‘sou o primeiro’ é motivo de reprovação ou vergonha? Depende. O contrário também depende. Tudo é relativo, sobretudo no discurso. O contexto pode modificar a simplicidade de uma assertiva, tornando-a profundamente ofensiva, e até criminal, quando é o caso. E há muitos casos... O que importa, no entanto, é saber que a sensação de ser o primeiro não é ruim. Nada ruim. Há que se procurar certa sabedoria intrínseca, implícita e intuitiva, para não se deixar engambelar pelo ‘canto de sereia’ da vaidade que leva o sujeito à ruína. nem sempre, mas leva. Nem sempre é simples. Em algumas sessões de Psicanálise...” 

Ando um tanto sorumbático. Macambúzio, por vezes. O calundu me arresta solerte, de vez em quando. O tempo passa e muito pouca coisa muda, o que não deixa de ser triste, ainda que irrecorrível. Entre um e outro momento leio, ou escuto música, ou fico olhando para o nada... deixando tempo passar. Numa dessas, escutei alguém lendo um texto. Era uma carta. Foi escrita por Dom Pedro II (até que se prove o contrário – sempre é bom lembrar). Ele foi um homem muito importante para o Brasil. Cometeu erros, por óbvio, mas sua importância suplanta seus deslizes. Ele anda a fazer falta como modelo, guia, exemplo a ser seguido. Gostei da ideia. Procurei o texto integral e trago-o aqui. Deixo a critério de cada um pensar o que quiser, tentar encontrar um sentido, uma explicação. Não tenho mais saco para tanto...

“Estou bem velho, mas ainda consigo as areias das praias do Rio de Janeiro. Ainda consigo sentir a brisa das manhãs, e o cheiro delicioso de café que só minha antiga terra era capaz de gerar. Ao longo da minha vida, tive a oportunidade de viajar pelo mundo, conhecendo novas culturas e costumes. Precisei viajar pelos continentes para perceber que nenhum dos lugares que visitei era tão grandioso quanto meu Brasil. Percebi que nenhum povo era tão guerreiro quanto o meu povo brasileiro. Percebi que nenhum outro reino, império, ou nação tinha as riquezas que nós tínhamos. Sei que não consegui agradar a todos, mas lutei por quase 60 anos com as armas que eu tinha. Tentei ser o imperador mais justo possível, e tentei enfrentar os altos e baixos com muita sabedoria. Hoje, a única certeza que tenho, é que se dependesse somente da minha pessoa muita coisa teria mudado no Brasil, bem mais rápido do que se esperava. Por que não resisti ao golpe de estado? Você deve estar se perguntando. Bem, porque eu não queria ver mais sangue brasileiro sendo derramado por ambições políticas. Era preferível ter em minhas mãos a carta do meu exílio, do que o sangue do meu povo. Confesso que perdi as contas de quantas vezes sonhei que estava retornando para minha pátria. Hoje, sinto que minha jornada aqui neste plano está bem próxima do fim. Quando a minha hora chegar, irei me curvar perante Deus, o rei de todos os reis, e agradecê-lo do fundo do meu coração, pela honra de ter nascido brasileiro. 

PS: copiei o texto da carta daqui: https://www.recantodasletras.com.br/cartas/7388873

Um doutorando em busca de fontes para as pesquisas de tese. Um supervisor que incomoda seu paciente, um psicanalista atormentado, com suas referências e insinuações. Um escritor desconhecido, com obra igualmente desconhecida, a fazer anotações às voltas com as anotações de suas sessões com seus pacientes. Ou seria apenas seu diário, num redemoinho incontornável movido pela memória. O psicanalista? Tudo girando em torno do fascínio que o ato da escrita pode causar e enredar. Longe de uma trama comum e rasteira de um thriller, esta ficção deixa a ver navios o enredo desgastado do romance policial. Romance de tese? Roman à clef? Romance de formação? Não interessa. Muito porque, como pensa a personagem do escritor, isso não interessa. O prazer não está aí e este caminho leva ninguém e nada a lugar algum. Uma aventura. A narrativa flui ao sabor das percepções das personagens. Seu movimento é metonímico. O modus operandi é o das associações livres. Seu intento, fazer um convite ao leitor.

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