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As delícias do ócio criativo

As delícias do ócio criativo

Inusitado

Foureaux, 11.05.22

A maré de preguiça e falta de graça, somada à de vontade, tem feito buracos enormes em minhas publicações. Não me importo. Leio tanta bobagem. Escuto tanta asneira. Vejo tanta coisa horrorosa e sem graça que nem sei. Agorinha, repassando algumas coisas no facebook – coisa de ente à toa – deparei-me com uma publicação de um amigo querido, o Joel, lá do Pará (ainda volto a Belém!). Há uma imagem na postagem dele que não vai aqui reproduzida. O inusitado da informação despertou um lampejo de ânimo para fazer esta publicação...

Por que na Ásia o nome de vários países termina em “-istão”? Porque nas línguas mais faladas nessa região do mundo, como o hindi, o persa e o quirguiz, “-istão” quer dizer “lugar de morada” de um determinado povo ou etnia. De acordo com esse princípio, Cazaquistão, por exemplo, significa “território dos cazaques”; Quirguistão, “território dos quirguizes”; Afeganistão, “território dos afegãos” e assim por diante. É algo equivalente a adicionar os sufixos “-lândia” (que vem de land, “terra”, nas línguas germânicas) ou “-polis” (“cidade”, em grego) ao final de nomes. Petrópolis é a cidade de Pedro, Teresópolis, a de Teresa. Suazilândia é a terra dos suázis – mas, recentemente, o país mudou de nome para Essuatíni que significa justamente “terra dos suázis” na língua local. “A forma “-stão” deriva de uma antiga raiz linguística indo-europeia. Esse sufixo carregava a ideia de ‘parar’ ou ‘permanecer’ e deu origem, por exemplo, aos verbos stare, em latim, e stand, em inglês”, diz o linguista Mário Ferreira, da Universidade de São Paulo (USP). Do stare latino, inclusive, vem o verbo “estar” em português. Ou seja: pensando na raiz etimológica da coisa, você pode traduzir os nomes desses países, ao pé da letra, como “onde estão os afegãos”, “onde estão os cazaques” e assim por diante. A única exceção a essa regra é o caso do Paquistão batizado cerca de 20 anos antes de o território do país ser constituído, em 1947. “Rahmat Ali, o idealizador da independência paquistanesa, juntou ao termo “-istão” o vocábulo “paki”, surgido a partir de uma combinação das iniciais das áreas reivindicadas pela futura nação. O “p” representava a província do Punjab, enquanto o “k” equivalia à região da Caxemira, no noroeste da Índia, afirma Mário.

Note que os nomes de países islâmicos localizados no Oriente Médio e no norte da África não carregam o sufixo “istão”. Ali, a língua predominante é o árabe, que não possui raízes indo-europeias – ele pertence a outro tronco, o semítico, compartilhado com o hebraico e o aramaico.

Fonte: @revistasuper

Quer uma dica de livro? Entra aqui ó:

https://youtu.be/cAYg-sFTFU0

 

Russos

Foureaux, 05.05.22

Cheguei ao fim da terceira leitura de Guerra e paz, de Tolstói. Que livro chato. E quem me lê não vai sequer vislumbrar a mais pálida ideia do prazer que sinto quando digo isso: que livro chato. Como não tenho que pedir benção a ninguém (aposentei-me como titular de Literatura Portuguesa e Comparada, portanto, no topo da carreira), não tenho nenhum pudor em dizer e repetir: que livro chato! O mesmo eu já tinha dito, alhures, sobre outro romance: À la recherche du temps perdu. Outra chatice. Imensa. Abissal, ainda assim, chatice. Com isso, não quero dizer que Tolstói e Proust sejam maus escritores ou que seus livros não prestam. Por óbvio que não! Aí sim, eu seria estúpido e desinformado. No entanto, reconhecer o lugar ocupado de um escritor numa série literária, não me obriga a gostar dele. Além disso, não me obriga também a subscrever o que dele se diz por aí, há anos... Longe disso. Quando dava aulas, sobretudo quando falei de Os lusíadas e Grande sertão: veredas, costumava dizer a mesma coisa. Costumava observar que o poema de Camões chegava a ser enfadonho por conta de sua constância. Tal sensação, no entanto, era dissipada pelo prazer de perceber a beleza das imagens, a elegância do desenrolar dos episódios e o maravilhamento da construção ficcional; desenvolvida pelo poeta. Obra de gênio. No entanto chata de ler, repito, por conta da estrutura. Há que ressaltar que variabilidade de estrutura nunca foi critério de valoração para obra de ficção – seja em prosa, seja em verso. Tolstói é um escritor mais que importante, mais que necessário. Gosto de Anna Karênina que li, também pela terceira vez. Termino a terceira leitura de Guerra e Paz para tentar, pela última vez – devo confessar – não me deixar vencer pela chatice do livro. Sucumbi à chorumela do francês. Mas o russo não. Em que pese a minha chatice de se ver na leitura do citado romance a acabar, devo reconhecer que certas passagens me fascinam: todos os embates entre Anna e o marido, a cena da corrida de cavalos, a cena inicial da morte na estação de trem – que, em certa medida, é revivida pela protagonista em seu suicídio. Os diálogos e a descrições são absolutamente impecáveis. Não há como negá-lo. No entanto, o resto, sobretudo as intermináveis, enfadonhas detalhadíssimas e, para mim, completamente insossas descrições de pormenores da guerra envolvendo Rússia e França chegam a perder completamente o sentido para mim, na leitura que faço do romance. No entanto, é admirável o conjunto dos ótimos capítulos do epílogo do romance. Para quem gosta se interessa pelas relações entre Literatura e História, para aqueles que se comprazem com os estudos acerca do romance histórico, estes capítulos finais são praticamente um tratado. Não sei dizer qual teria sido a intenção de Tolstói ao fazer o que fez. Penso, de qualquer maneira, que isso, de fato, não interessa! Basta reconhecer o que reconheci, ler o romance e pronto. Agora, não venham me obrigar a gostar dele. Não gosto!

 

Contos de terror

Foureaux, 26.04.22

É costume dizer que a vida imita a arte. Ou, por outra, que a ficção é germinada na realidade. Uma e outra assertiva comporta discussão. Minha preguiça me nega a energia para fazê-la aqui e agora. O que me traz aqui hoje é a vontade partilhar o incômodo que senti ao ler as linhas que seguem. O texto não é meu. É artigo assinado por um jornalista de quem gosto: Guilherme Fiuza. Se não quiserem ler, não posso fazer nada. Se quiserem tachar-me de reacionário, negacionista, bolsonarista e todos os outros “istas” cabíveis, só posso dizer uma coisa: caguei! Resta o fato de que o texto me causou incômodo e isso é o que me interessa partilhar. O mais é firula... ou, como dizia meu pai, especula de rodinha... Podem acessar o texto na seguinte ligação: https://revistaoeste.com/revista/edicao-109/a-genetica-do-silencio/

Bárbara Caroline Machado, catarinense de 16 anos, era ativa e alegre. Jogadora de vôlei amador, trabalhava numa farmácia. Era uma pessoa saudável e sem comorbidades. Tomou a segunda dose da vacina de covid no dia 8 de fevereiro de 2022. Um mês e cinco dias depois seus problemas de saúde começaram.

Primeiro dor de estômago aguda e o olho esquerdo inchado. Até que começou a vomitar e o inchaço foi se espalhando por outras partes do corpo — como tornozelo, mãos e pescoço. Nada que comia parava no estômago. Depois de uma semana do primeiro sintoma, foi levada ao hospital de Blumenau. O médico lhe deu um antialérgico e ela foi liberada.

Três dias depois acordou chorando de dor abdominal. Foi levada novamente ao hospital, onde foi constatada uma disfunção renal. Dali em diante suas condições começaram a piorar, com muito inchaço e coagulação. Bárbara entrou no Hospital Santo Antônio pesando 47 quilos e em cinco dias estava pesando 58, devido aos líquidos que geravam o inchaço.

Após um derrame pleural e o surgimento de uma neuropatia, foi diagnosticada com Síndrome Nefrótica Membranosa. Ficou internada dez dias. Para ter alta, foi preciso fazer uma drenagem em seus pulmões para melhorar a respiração. Após a volta para casa, Bárbara passou a ter fadiga crônica — limitada por cansaço extremo após qualquer movimentação simples.

A atleta amadora se tornou uma pessoa prostrada, muito magra, com o olhar parado e quase sem reação aos estímulos que recebe. O que aconteceu com Bárbara? As autoridades de saúde não dizem nada à família.

Nem à do também adolescente Danylo Zinneck Nobre. No dia 19 de outubro de 2021, esse paulista de 15 anos, totalmente saudável, tomou a segunda dose da vacina de covid. Dezoito dias depois começaram a fadiga, a fraqueza nas pernas, visão turva e cabeça pesada. No dia 6 de janeiro teve uma convulsão e foi entubado, com dificuldade de deglutição e fala enrolada.

No Hospital Municipal Florence, em São José dos Campos, foram feitos diversos exames, a princípio indicando uma situação clínica normal. Mas veio a paralisia no diafragma e nos membros superiores e inferiores, e Danylo foi traqueostomizado. Foi diagnosticado com encefalite do tronco cerebral de Bickerstaff autoimune, uma doença neurológica rara, que afeta o sistema nervoso central e periférico.

Após dois meses na UTI — onde recebeu tratamento para tentativa de reversão dos danos ao sistema nervoso —, o menino teve um AVC hemorrágico. Danylo morreu em 3 de março.

As autoridades de saúde não têm nada a dizer sobre um adolescente que nunca teve problemas de saúde e entrou num processo mortal pouco mais de duas semanas após a segunda dose da vacina de covid? Os estudos que ainda estão faltando sobre a segurança dessas vacinas em desenvolvimento terão de avaliar mortes como a de Danylo? Quem dará essa resposta?

Leandra Ludmila Leme, paulista de Sorocaba, tinha 20 anos. Em 16 de agosto de 2021 tomou a primeira dose da vacina de covid. Três dias depois começou a ter febre, dor de cabeça, no fundo dos olhos e na garganta. Em mais quatro dias, diarreia, vômitos, inchaços, extremidades geladas e dor no pescoço.

Em 24 de agosto, perdeu o movimento das pernas. No dia seguinte teve uma parada respiratória. A jovem Leandra morreu nove dias depois da vacina de covid.

Já Letícia Balzan Martinez Biral tinha 23 anos. Totalmente saudável, estava no 4° ano de Medicina em Presidente Prudente. Se vacinou contra covid em 18 de junho de 2021. Oito dias depois começaram as dores de cabeça. No dia 29 de junho, após várias tentativas frustradas de combate às dores com medicação comum, foi levada para a Santa Casa de Campo Grande (MS).

Após uma tomografia, o neurocirurgião responsável informou à mãe de Maria Eduarda que ela tinha tido duas tromboses

Letícia morreu em 3 de julho de trombose intracraniana e hemorragia intracerebral, 15 dias depois da vacina.

Você está achando que esses eventos são normais? Naturais? Ou acha que eles estão ligados por uma mesma circunstância específica? Considerando que os casos acima expostos são apenas alguns de inúmeros exemplos trágicos sob a constante pós-vacinal, não é estranho que a devida investigação deles não esteja em discussão pela sociedade?

Pense sobre isso. Examine se há algo que você deva fazer a esse respeito. Enquanto isso, imagine a situação da mãe de Maria Eduarda Fernandes Souza, de Porto Alegre. Ela tinha 22 anos. Se vacinou em 21 de julho de 2021. No dia seguinte ficou de cama com dor de cabeça, dores no corpo, no braço e enjoos.

A família achou que era uma reação normal à vacina. Mas os dias foram passando e a dor de cabeça não ia embora. Em 1º de agosto, 11 dias depois, ela foi medicada para cefaleia moderada com ibuprofeno. No dia seguinte acordou com fraqueza, perdeu o tato da mão direita e passou a enrolar a fala. Foi levada ao Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

Após uma tomografia, o neurocirurgião responsável informou à mãe de Maria Eduarda que ela tinha tido duas tromboses, uma na perna e outra no pulmão, e um AVC hemorrágico. No dia 4 de agosto, 14 dias depois da vacina, foi constatada a morte cerebral. Maria Eduarda deixou uma filha de 3 anos e meio. Sua mãe quer justiça.

E você?

 

A propósito de cravos

Foureaux, 26.04.22

Li o poema que segue por indicação de um amigo muito querido. Conhecia a autora de nome. Fiquei impressionado. No tsunami de preguiça e falta de vontade em que me encontro, pensei em compartilhar os versos, magníficos desta portuguesa de uns tantos costados. Fica, também, como homenagem à data de hoje, importantíssima para o povo português. Salve 25 e abril!

 

Meditação do Duque de Gândia sobre a morte de Isabel de Portugal

 

Nunca mais 

A tua face será pura, limpa e viva 

Nem o teu andar como onda fugitiva 

Se poderá nos passos do tempo tecer. 

E nunca mais darei ao tempo a minha vida. 

 

Nunca mais servirei Senhor que possa morrer. 

A luz da tarde mostra-me os destroços 

Do teu ser. Em breve a podridão 

Beberá os teus olhos e os teus ossos 

Tomando a tua mão na sua mão. 

 

Nunca mais amarei quem não possa viver 

Sempre. 

Porque eu amei como se fossem eternos 

A glória, a luz e o brilho do teu ser, 

Amei-te em verdade e transparência 

E nem sequer me resta a tua ausência, 

És um rosto de nojo e negação 

E eu fecho os olhos para não te ver. 

Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.

 

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Acaso

Foureaux, 20.04.22

Acabei de ver um filme interessantíssimo. Seu nome? Berlim, eu te amo (2021, dirigido por Dianna Agron, Massy Tadjedin e Stephanie Martin). No Amazon Prime. A classificação é romance/drama. Não sei se cabe. Também não sei até que ponto essas classificações são, realmente, eficazes. Tenho sérias dúvidas. Tudo muito subjetivo. O que mais me assustou no filme foi ver Mickey Rourke. Levei uns quinze minutos para reconhecê-lo. Quase um monstro. Quem se lembra dele em Nove semanas e meia de amor ou em Coração satânico, não vai acreditar. Vai até se assustar. No entanto, isso é apenas um detalhe, absolutamente dispensável. Ele protagoniza um dos episódios do filme que trata do reencontro (às escuras?) de pai e filha, separados há anos por conta do afastamento dele. Sem saber que é sua filha, o homem leva a moca, sedutora e sexy, para o quarto de hotel em que se hospeda. A moça se oferece a ele, mas imediatamente se arrepende. Vai embora e deixa mensagem no espelho do banheiro: “I forgive you, dad”. Isso. O corriqueiro, o banal, o inesperado, o comum, o repetitivo, o entediante, o revelador, o triste, o trágico, o suspeito, o rancoroso. Todos são sentimentos, experiências, sensações percepções de real que alimentam a narrativa plurifacetada deste filme, muitíssimo interessante. Interessantíssimo. No fundo, como anuncia o título a protagonista é a cidade de Berlim que, ao fim e ao cabo, não “aparece” tanto assim. Alguns relances. Uns tantos recantos em nada e por nada turísticos. O que importa é o que acontece na cidade. de novo, nada de extraordinário. A narrativa do filme é composta por episódios que se cruzam circunstancialmente e apenas assim. As personagens de cada um dos episódios não se relacionam a não ser com seus pares contextualizados no mesmo episódio. A fórmula pode ser batida, mas o resultado é leve, sedutor, comovente. Helen Mirren comparece logo no primeiro episódio. Faz a mão de uma menina que vem de Londres para construir sua “própria” vida e trabalha com menores refugiados. Vejam o filme para ver o que acontece. Há a mocinha que encontra seu grande amor por acaso. A outra que vai tocar violão na praça em que está um anjo (estátua viva). A prostituta que protege um assassino árabe. O suicida que se apaixona pela pessoa mais improvável. O tocante episódio do adolescente, no dia de seu aniversário. Ele pede um beijo enquanto espera o pai que não aparece. O beijo é dado por travesti saído de uma noitada de fim de semana inteiro, depois de brigar com seu namorado. Tudo muito casual, blasé, mas intenso, vertical, incisivo. quase cirúrgico. Não conheço boa parte do elenco. No fundo, o que “acontece” não interessa. “Como” acontece é, me parece, a chave mestra para abrir esta caixa de Pandora do bem. Do bem porque se refere, sempre, à existência humana e suas nuances. A humanidade em suas multifaces coloridas ou nem tanto. As circunstâncias independentes de uma cidade que evoca tanta coisa e não consegue abarcar tudo o que nela se passa. Não é um conto de fadas. Também não é uma cínica declaração de amor a um grande centro metropolitano tão rico, tão controverso, tão complexo. No entanto, a sinceridade com que o roteiro aponta para o fluir dos acontecimentos conta com a competência dos diretores e do desempenho muito consistente dos atores. Todos eles.  Jamais ouvi falar dos diretores. Bem... não sou cinéfilo. Só sei que vi o título na ementa do Amazon prime. Pensei num filme similar de Woody Allen e de outro que vi há muitos anos com Gena Rowlands, já não me lembro o título do filme. Segui o impulso. Vi o filme. Gostei. Vale a pena!

Ironia

Foureaux, 14.04.22

O texto que segue não é meu. Publico-o aqui por ser um exemplo de fina ironia, desvelada numa linguagem acuradíssima. É texto que dá prazer de ler. E muito. As omissões representadas por (...) se devem ao fato de que desejo preservar a identidade das “personagens” envolvidas, mas, acima de tudo e antes de mais nada, a minha própria tranquilidade. Não quero ser incomodado por A ou B em função de ter publicado este texto. Não desejo ser acusado “disso ou daquilo” por fazê-lo, como se isso, e somente isso, fosse suficiente para me acusar de estar “de um lado ou de outro”. Espero que gostem (e se divirtam!) com um texto tão bem escrito! Espero mesmo, como eu me diverti, e muito!

“A coluna de (...) em O Globo de 14 de janeiro noticia, com chamada na primeira página, que um segurança do Hotel Intercontinental barrou a entrada de uma jovem senhora negra por achar que se tratava de garota de programa, quando ela chegava acompanhada do marido, (...), diretor do (...). No entender do colunista e do editor da capa, o fato tipifica o crime de racismo. A acusação é repetida no dia 15, em matéria assinada por (...), e provavelmente será endossada pelo consenso das classes letradas, dos políticos, dos líderes religiosos, dos artistas e, enfim, de todas as pessoas maravilhosas.

Modismos à parte, no entanto, o segurança não pode ser acusado senão de um erro de raciocínio indutivo, a que qualquer um de nós estaria sujeito em iguais circunstâncias. Todo habitante do Rio de Janeiro sabe que, quando vê na praia de Copacabana um europeu bem vestido e de meia-idade de braço dado com uma negra, em geral não está diante de um quadro paradisíaco de harmonia conjugal por cima das diferenças de raça, mas sim de um caso vulgar de turismo sexual. É fato notório que a eventual atração do europeu por mulheres negras quase nunca dá em casamento, mas, reprimida pelo racismo, vem buscar expressão clandestina em hotéis cariocas, bem longe do olhar fiscalizador dos vizinhos e parentes. Não há nada de anormal nem de criminoso em que um porteiro ou segurança, vendo o par afro-germânico, interprete a cena no sentido mais óbvio e costumeiro, seguindo uma presunção de senso comum e não lhe ocorrendo a hipótese, rebuscada e invulgar, de estar diante de um casal regularmente casado. Se esta hipótese, no caso, coincidiu com a verdade, foi com uma probabilidade de um em mil, para dizer o mínimo. O segurança, longe de ser ele próprio um racista, deve antes ser acusado de prejulgar como racista em incursão sexual furtiva o inocente amigo da raça negra, que santamente se dirigia ao leito com sua legítima esposa. E é certo que sua suposição não se fundou só na observação corriqueira do que se passa nas praias cariocas, mas também num preconceito forjado pelos meios de comunicação, que, disseminando uma suscetibilidade racial exagerada, acabam por induzir as pessoas a encarar como coisa rara e inverossímil o casamento de branco e negra, ou branca e negro, na verdade uma norma e padrão neste país de mestiços.

Qualquer pessoa no pleno uso de suas faculdades mentais, a quem não cegue um parti pris rancoroso e demagógico, vê que o episódio não foi causado por um preconceito racista, mas, bem ao contrário, por uma atmosfera generalizada de prevenção exagerada e neurótica, que procura suspeitos de racismo embaixo da cama e quando não os encontra os inventa.

Desejariam os nossos jornalistas que o segurança, incumbido de suspeitar, em princípio, de todas as mulheres jovens, abrisse exceção sistemática para as negras, fundado na ideia de que muitas delas são casadas com banqueiros suíços? Façam uma estatística, pelo amor de Deus: quantos, dentre os suíços e alemães que entraram em hotéis do Rio de Janeiro no mês passado com mulheres negras, eram maridos delas? Quantos eram turistas que, na sua terra de origem, não desejariam ser vistos com mulher negra?

Fui casado por mais de uma década com mulher negra e ela só foi barrada uma vez, no cinema, porque parecia menor de idade aos 22 anos. Uma jovem de hoje não acharia o episódio lisonjeiro e divertido, como ela, mas faria trejeitos grotescos de dignidade ofendida e chamaria a imprensa para encenar um show antirracista.

É assustador constatar até que ponto a exploração maliciosa do rancor irracional se tornou norma corrente nas nossas classes letradas, chegando a infundir nos cidadãos o temor de fazer uso do bom senso. Quando a razão se torna suspeita, o fanatismo fala mais alto — e um fanatismo não se torna menos letal por se adornar de um falso prestígio intelectual, por se encobrir de pretextos “éticos” ou por ser cultivado como sinal de elegância nos meios chiques. Será que ninguém na imprensa percebe que o temor exagerado de passar por racista coloca o indivíduo numa posição psicologicamente insustentável e neurotizante e acaba por fazê-lo cometer alguma gaffe que a malícia de uns quantos e a tolice de muitos interpretará retroativamente como prova de racismo? Será que ninguém percebe que a neurotização das relações entre pretos e brancos cria artificialmente conflitos raciais a pretexto de evitá-los?

Mas na denúncia contra o segurança há um aspecto ainda mais pérfido. Pois quem espalhou pelo mundo a imagem do nosso país como fornecedor de negras e mulatas para o turista sexual europeu, senão os meios de comunicação que agora caem de paus e pedras sobre o incauto funcionário do Intercontinental? A exibição de peitos e traseiros nos jornais e programas de TV na época de Carnaval não é decerto um incentivo a que os europeus respeitem nossas mulheres negras e se casem decentemente com elas, mas um convite direto e franco a que venham usar e abusar delas em hotéis de cinco estrelas na praia de Copacabana. A confissão descarada de que a mulher brasileira – ou, o que dá na mesma, a mulher mestiça – é artigo para consumo estrangeiro torna-se, por assim dizer, oficializada no momento em que uma revista pornô tem a petulância de se denominar Brazil Export. E não se venha dizer que os pobres jornalistas fazem isso obrigados por patrões malvados: pois o capitalismo da sacanagem não aproveita só aos capitalistas, mas também a seus supostos adversários de esquerda, imbuídos da crença de que o deboche e a pornografia são armas de uso legítimo contra a “moral conservadora”, tanto quanto, complementarmente, é recurso legítimo do combate ideológico atiçar ressentimentos e levar o povo a crer que a inveja rancorosa o mais elevado padrão ético de conduta. Ninguém, entre os responsáveis por tais discursos, pergunta se a confluência de tantas estimulações contraditórias sobre a cabeça do cidadão pode ter outro resultado senão o de destruir nele o raciocínio, o senso crítico e o senso de autonomia pessoal e torná-lo um pateta vulnerável a qualquer propaganda demagógica.

Fatos e ideias, valores e discursos, costumes e pretextos, tudo, mas tudo mesmo, no ambiente mental brasileiro, induz e pressiona o homem comum das nossas ruas a enxergar as coisas como as enxergou o segurança do hotel: suíço com negra é turista com garota de programa. Só que, após ter-lhe ensinado que as coisas são assim e que assim deve ser, ela o pune por acreditar na lição. O episódio não denuncia o racismo de um indivíduo, mas a irresponsabilidade e a confusão mental de toda uma cultura. É compreensível que uma neurose – pessoal ou coletiva – busque exorcizar-se a si mesma por meio de poses de indignação e discursos postiços contra bodes expiatórios. Incompreensível, vergonhoso, inadmissível, é que aqueles incumbidos de a curar – os intelectuais, os jornalistas, os homens de cultura – prefiram criar racionalizações para legitimar o fingimento histérico, fortalecendo a carapaça de defesas contra toda invasão da verdade e da evidência.

Para cúmulo de ironia, o segurança envolvido no episódio é ele próprio mestiço, como aliás o era seu célebre antecessor no papel de bode expiatório, o palhaço Tiririca. Na mentalidade da militância histérica, a repórter (...) deverá, portanto, ser implacavelmente acusada de racista por chamá-lo de “mulato” em vez de “negro”, como exige o vocabulário politicamente correto.”

Trechos de um diário

Foureaux, 09.04.22

"Conheci o João Tordo numa tarde de palestra, para unos estrangeiros. Rapaz magrinho, tímido. Gaguejava um pouco, creio que de nervoso. Risonho falava com fluidez, apesar da citada gagueira, que, de fato não o era. Uma tarde agradável com algumas alunas fascinadas por ele. Foi divertido. Já o José Luis Peixoto conheci num auditório, depois de uma conferência. Mais gente. Alunos estrangeiros também, mas havia mais gente. Ele leu trechos de um livro contundente: Morreste-me. Anos depois viria eu a comprar o volume e recordar a emoção funda e sentida naquela tarde estrangeira, como os alunos. O Gonçalo Tavares passou dois dias ali. Os alunos estrangeiros também afluíram com interesse, tanto ä palestra no primeiro dia, quanto à oficina que ministrou no dia seguinte. Rapaz mais retraído, mas sociável. Com olhar atento, de lince, captava nuances no ar, detalhes não lhe escapavam. Um jeitinho de judeu de comédia shakespeariana. Agora, tomando Jack Daniel Honey, lembro-me destas três visitas. Três escritores. Três obra de que sou leitor, na medida do possível, assíduo. E três pessoas que conheci sem ter partilhado momentos, digamos, mais intimamente sociais ou socialmente íntimos: um jantar, uma bebida num botequim, um café, um almoço. Nada. Só as três palestras e uma oficina. Três períodos de dias que ficaram perdidos na memória do tempo.

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Li, em algum lugar dessa imensa rede chamada internete – escrevo com “e” no final porque escrevo em Português. Reuso-me a utilizar o termo ianque. Preguiça. Ojeriza mesmo. – que uma certa professora universitária está oferecendo um curso sobre “Zooliteratura”. No local em que li a informação, há uma foto com alguns dos títulos utilizados pela professora em seu curso oferecido numa plataforma chamada “Corredeira”. Nome sugestivo. Tentei localizar a tal plataforma. Em vão. Dei uma olhada nos títulos que estão na foto publicada por outrem. Inexplicavelmente, não encontrei A revolução dos bichos. Não sei explicar também. Como não se trata do conjunto total da bibliografia – diz o comentário sobre a foto – pode ser que esteja, o livro do Orwell, listado na bibliografia. Talvez obrigatória, do tal curso. Talvez não. Como conheço um pouco a professora, quase arrisco um palpite. O “decoro acadêmico” não me permite externar, aqui, o que realmente penso e o que me veio à cabeça quando li a informação. Membro de uma academia de letras de certo renome – ainda que bastante regional – a professora deve se encontrar num patamar de tal altura intelectual que não vai se importar com estas minhas palavras, de reles professor titular – como ela (ai, um cacófato!) – aposentado – isso não posso dizer a seu respeito. De qualquer modo, veio-me à memória, como no caso dos escritores portugueses, uma cena, passada durante um “concurso público de provas e títulos” em que um dos candidatos não conseguindo terminar de tomar notas bibliográficas durante o prazo estabelecido pela banca, continuou a fazê-lo, com o apanágio da presidente da tal banca. Coincidência das coincidências, a tal presidente da banca tinha sido orientadora desse candidato – atenção não sou adepto desta excrescência estúpida e falaz que atende pelo nome de linguagem neutra, por inexistente, de fato! No mesmo prélio, em outro momento, mais patético, o mesmo candidato dava sua aula no concurso – a famigerada prova didática (parece que aboliram isso e inventaram uma tal de arguição de projeto de pesquisa... vai vendo!) – quando, de repente, começou a saltar na frente da banca, como se fosse um contador de histórias numa feira literária infantil. A mise en scene era para ilustrar a imagem da janela no romance A história do cerco de Lisboa, objeto do ponto da tal prova didática. Bom. Deixa isso pra lá. Isso não interessa a ninguém além de mim mesmo. Mas, convenhamos, o que é que vem essa porra dessa tal de “zooliteratura”? Cheira a cachorrada. Ai! Tenho que me desculpar com quem me ler. Se é que há alguém que me lê."

Primeira versão II

Foureaux, 30.03.22

Há poucos momentos olhei para o céu, de um dos lados da varanda de minha casa e vi nuvens, grandes, densas, volumosas. Levantei-me. Liguei o computador e deixei que as palavras viessem ao meu pensamento, escorrerem pelos dedos sobre o teclado, efeito da visão que me tocou. Não sei dizer como, nem porquê. Apenas, tocou. Daí escrevi isso:

 

De repente,

do lado esquerdo,

formas densas e brancas destacam-se

diante do fundo azul pálido em confronto

com o laranja avermelhado do lado direito,

como todos os dias,

o fim.

Formas oblíquas e volumosas

a desvelar saudades de mim

em perdidas quimeras aglomeradas

e soltas, 

envoltas em inconsútil véu

ao léu

mesmo com a pobreza das rimas.

Saudades.

 

O que fazer com esse tipo de palavra

que inutilmente se utilizam ara nada

um vazio sonoro que retumba, 

oco?

O que fazer com a ideia

volátil fumaça a esgarçar-se leve

como floco de neve

gris?

O que fazer?

 

Se, ao menos, pudesse, ou, antes, soubesse

dizer o que aqui dentro vai corroendo

silenciosa e temerariamente

o que não é possível dizer

porque dividendo

das experiências que já não há?

O invisível é, agora, a marca:

não mais corpos musculosos,

não mais curvas harmoniosas

não mais gíria atenta,

não mais chavões instigantes,

não mais estilo tribal,

não mais lugar destacado,

não mais... nada.

Invisível é o que o tempo produz.

 

Na multidão,

de olhar esgazeado por não entender

a própria invisibilidade, 

o poeta pensa, com saudade de si mesmo,

pensa

e depois escreve, não o que pensa,

mas o que restou da experiência não falada

não escrita, dividendo inesperado,

ainda que anunciado.

 

Se o desejo não arrefece,

seu espaço míngua, involuntariamente.

Míngua, como a lua sazonal,

repetitiva como a constatação do mesmo,

sensual,

que instiga a febre fria

em tremores paralisados pelo tônus desgastado

da pele que um dia, num frêmito,

atraiu não apenas olhares cheiro se esvai, ou melhor,

é trocado.

O gosto se apura, ainda que difícil.

O gesto paralisa o pensamento

e o olhar do poeta circunvaga alhures

por horizontes alheios à procura,

de quê,

nem mesmo ele sabe, mas procura.

Depois escreve.

Outro capítulo

Foureaux, 26.03.22

Pensei no que já tinha escrito antes. Talvez a ideia de um novo romance esteja mesmo começando a se transformar num embrião. Escrevi o que segue abaixo. Do que escrevi primeiro, recebi dois comentários com, digamos, provocações. Tive a ilusão de que receberia mais. Não importa. Segue agora um segundo passo. Quem sabe...

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Em seu depoimento, o funcionário respondeu calmamente a todas as perguntas. Ele não entendia muito bem por que estava ali, porque tinha de responder. O delegado dizia poucas palavras, além das perguntas. A certa altura, uma moça entrou e entregou um envelope amarelo ao delegado. Olhou para o funcionário e franziu o cenho. O funcionário não notou. Continuou cabisbaixo, pensando no tempo que estava perdendo em seu dia de folga. Era para estar no Jardim Zoológico, com seu vizinho, o jardineiro do hotel. Era o que estava combinado desde a semana anterior. Já passava das onze e o interrogatório não acabava. O funcionário estava com fome. Depois de abrir o envelope, o delegado virou-se para o funcionário com ar de espanto. “Você conhece Marizabel Veiga?”. Sim, foi a resposta. “Desde quando?”. O funcionário disse que não se lembrava quando a tinha conhecido. Lembrava-se dela por conta de um passeio ao Horto Florestal, com o jardineiro do hotel, seu vizinho, que a apresentou. Disse que teve a impressão de que o amigo estava namorando a moça. Depois disso, encontraram-se, por acaso, na praça ao lado hotel. “Você manteve contato com ela”? Não. “Nunca mais a viu, depois do encontro da praça?” Não. “Você sabia que ela é irmã de um escritor português, o Tiago Veiga?”. Não. “Na verdade, meia irmã. O pai dela teve um filho do primeiro casamento, o tal Tiago. Parece que nunca conviveram. Marizabel Veiga, logo depois de nascida, veio para o Brasil com a mãe, que se separou do marido. Trabalho numa casa de modas, no centro do Rio de Janeiro. Depois, num restaurante, como garçonete.” No dossiê, que estava no envelope amarelo, havia uma foto desta mulher com a filha, Marizabel. Não havia mais nenhuma informação. “Você sabe onde vive Marizabel Veiga?”. Não. Uma e meia da tarde. O estômago do funcionário roncava. Ele estava envergonhado pois o ronco era alto. Estava irritado por ter perdido o passeio com o amigo, o jardineiro do hotel. O delegado saiu da sala. Não demorou muito. Ao voltar pediu ao funcionário que lesse o seu depoimento e, se estivesse de acordo, o assinasse. Já cansado, um tanto mais irritado, o funcionário chegou em casa. Ligou para seu amigo, o jardineiro. Conversaram por alguns minutos. Combinaram o passeio para a próxima folga, dali a quinze dias. Trocaram impressões sobre o dia. O funcionário fez um lanche e dormiu um pouco, no sofá de sua sala. Acordou com o telefone tocando. Atendeu. Mudo. Desligou e foi ao banheiro. O telefone tocou de novo. Atendeu e, mais uma vez, mudo. Voltou ao banheiro, lavou a cara, penteou os cabelos. Trocou de camisa e saiu. Ao chegar ao portão de sua casa, ainda escutou o telefone tocando mais uma vez. Foi ao cinema. Na saída, passou numa loja de eletrodomésticos e comprou uma secretária eletrônica. Se o telefone tocasse e ficasse mudo, ia identificar o número que chamava pela bina. Isso poderia esclarecer os telefonemas. Fez muito calor durante o dia. Anoiteceu e havia nuvens pesadas no céu. Voltando para casa, o funcionário foi apanhado pela chuva. Não se importou. Continuou caminhando calmamente. Não estava longe de casa. Ao atravessar a última rua antes de chegar em casa, ele viu um carro conhecido cruzando a rua do outro lado. Era o marido da camareira. Estava sozinho. Dirigia devagar. O funcionário acenou. Não foi visto. Estranhou o acontecido, mas se lembrou dos irritantes telefonemas mudos. Ficou satisfeito por ter comprado a secretária eletrônica. Tinha a certeza de identificar quem chamava e não falava nada. A chuva parou, de repente. O céu ficou estrelado, de repente. O funcionário chegou em casa. 

Lição

Foureaux, 25.03.22

A eletricidade tomava conta de cada segundo dos dias naquela semana. As provas finais das eliminatórias que definiriam o time olímpico iam acontecer. A piscina estava pronta. Os cronômetros e toda a aparelhagem, em perfeito estado. Os juízes, observadores, jornalistas e pessoal de apoio, devidamente treinados e a postos. Seria praticamente uma celebração. Os melhores atletas eram esperados, inclusive, os que causaram polêmica. Tudo do pronto. A cidade já vivia o clima das finais com movimento extra nos hotéis. Carros de emissoras televisivas por quase todas as ruas. cada vez que um atleta aparecia, era um alvoroço. Muitas entrevistas. Restaurantes, padarias, mercearias e bares estavam faturando muito. Afinal numa cidade pequena como aquela, um evento de tal magnitude pode ser avassalador, para o bem e para o mal. Nada podia dar errado. Nas escolas, não se fala outra coisa. Entre os finalistas, havia alguém da cidade. Uma glória para a localidade. Nas praças, o frisson era tão intenso quanto... Até o padre, no sermão do domingo anterior às finais fez um sermão celebrando o acontecimento. Todo o país estava de olho. Olheiros de todo lado pululavam pela cidade, observando os atletas que era uma “promessa”. Todos. Enfim, a sexta-feira chegou. A cerimônia de abertura das finais foi até simples. O estádio estava cheio. Sim, a piscina coberta ficava dentro de um verdadeiro estádio, construído especialmente para a ocasião! Depois, segundo o administrador local, ia ser reutilizado pelos estudantes da cidade em atividades esportivas. Na verdade, só para natação. De qualquer jeito, pompa e circunstância. Todas as provas foram concorridas, técnica e socialmente. Os locais ocuparam todos os espaços possíveis. O juiz avisou que iam entrar as atletas da última prova feminina. Somente uma pessoa apareceu à borda da piscina. O silêncio era ensurdecedor. Das dez finalistas, nove não compareceram. O juiz tornou a anunciar a entrada das nadadoras. O mesmo silêncio e nada. Ninguém mais apareceu. Por alguns instantes, os juízes da competição murmuraram entre si. A plateia, quase silenciosa a esta altura, começou a retirar-se do ginásio. Ouvia-se apenas o barulho dos passos e o murmúrio das pessoas saindo. Todo mundo foi embora, inclusive os profissionais da imprensa: rádio, jornal e televisão. Ninguém ficou no ginásio, a não ser a tal de Lia, que algum tempo se chamava William e disputava as provas masculinas.